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15/08/2006

Músico do mês: Count Basie

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Em agosto de 1904 nascia Count Basie, o músico que melhor definiria o significado da palavra swing. Tudo bem, você pode até ponderar que o aclamado rei do swing foi Benny Goodman, conforme consta na maioria dos manuais sobre jazz. Nesse caso, certamente temos ouvidos e preferências musicais bastante diferentes. Talvez Benny tenha ganho mais dinheiro e fama que Count mas, em minha opinião, nenhum outro músico de jazz da década de 1930 expressa melhor a idéia de swing feeling do que Count Basie. Basie começa a carreira como mais um pianista de stride, na linha inspirada por Fats Waller. Seu toque, contudo, já se distanciava dos padrões usuais desse estilo em função da leveza, economia e precisão: Basie sempre escolhia a nota ideal, no momento ideal, quase sem colesterol. Sua concepção de tempo lembrava a dos melhores bateristas, talvez em virtude de ter iniciado sua carreira nesse instrumento. Sabendo utilizar o silêncio com maestria, era capaz de estabelecer o tempo e a temperatura da banda com breves e sutis toques nas teclas de seu educado piano. Embora não tenha inventado o comping - interligações de acordes suaves, rápidos, sincopados e com forte carga de swing - Basie é o criador do modelo mais utilizado na época.

A partir dessas características, Basie formou a primeira banda de jazz capaz de swingar de forma suave, relaxada e perfeitamente integrada: piano, guitarra, baixo e bateria pareciam soar como um instrumento único e complexo. Com o auxílio do guitarrista Freddie Green, do contrabaixista Walter Page e do baterista Jo Jones, Basie estabeleceu o padrão mais consistente de swing feeling que já ouvi. Em faixas como One O'Clock Jump (1937), Jumpin' At The Woodside (1938) ou Lester Leaps In (1939), podemos verificar que tipo de música Basie produzia: embora mais simples que a música feita por seus amigos na costa leste, nenhuma outra banda da época swingava como a de Count. Apoiado sobre os chamados head arrangements - típicos no estilo riff band de Kansas City - baseados em frases curtas (riffs), que em nada lembravam as improvisações coletivas do estilo New Orleans, Basie permitia muitas vezes que seus músicos criassem espontaneamente ('de cabeça') seus riffs em plena execução. Nada mais justo que somente os melhores músicos do jazz tenham passado pelas bandas de Basie, entre eles os seguintes saxofonistas: Don Byas, Lester Young, Buddy Tate, Wardell Gray, Lucky Thompson, Illinois Jacquet, Serge Chaloff, Paul Gonsalves, Eddie Lockjaw Davis, Frank Foster, Frank Wess e Paul Quinichette.

De todos, Lester Young é sem dúvida aquele que se destaca com maior evidência, criando uma sonoridade e um fraseado absolutamente oposto ao de Coleman Hawkins. Ao som encorpado, complexo e assustador de Hawkins, Lester oferta uma sonoridade etérea, suave, sedutora e, por isso, é considerado o pai do estilo cool. Quase abolindo os pesados vibratos e arpegios a la Hawkins, Lester dá graça linear ao swing, provando que o jazz feito de forma delicada pode ser tão excitante quanto o feito de forma violenta. Quanto aos demais músicos de Basie - não poderemos falar sobre todos eles aqui - basta saber que fizeram muitas das melhores gravações de jazz existentes, quer em formato de big bands, quer no formato de combos, denominados de Kansas City Five, Six ou Seven, de acordo com o número de componentes. Como amostra generosa dessa grande figura do jazz, deixamos no Cinema Jazzseen - acima, à direita - uma faixa de Count Basie com Wardell Gray (ts), Buddy de Franco (cl), Clark Terry (t), Freddie Green (g), Jimmy Lewis (b) e Gus Johnson (d). Count Basie morreu em 1984..

22/07/2006

Saudades do Hermeto

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Na década de 1980, quando ainda tinha meus quinze anos, costumava ir satisfeito ao Circo Voador, quando ele ainda ficava próximo às rochas do Arpoador, no Rio de Janeiro. Depois o circo musical foi para os lados dos Arcos da Lapa, sob a batuta de Perfeito Fortuna. Foi ali que vi Cássia Eller coçar a genitália ao vivo pela primeira vez. Foi também nesse espaço musical democrático que vi e ouvi pela primeira vez Hermeto Pascoal tirar sons estranhíssimos de panelas, brinquedos velhos, apitos e mangueiras de jardim. Confesso um certo atordoamento diante da imensa criatividade do mestre albino, talvez pela modernidade da coisa. Hoje, aos quarenta, percebo que meu atordoamento para esse tipo de experiência musical permanece inalterado: buscando em meus alfarrábios obras modernas para aplacar a fome dos amigos navegantes, pesquei um dvd de John Zorn, gravado em 2004 com o cantor performático Yamatsuka Eye, um japonês muito pouco ortodoxo. Não espere dele movimentos sutis e vozes milenarmente construídas em pacíficos campos de arroz. Na verdade, o pequeno trecho que disponibilizo no Cinema Jazzseen, acima à direita, é apenas um dos muitos projetos radicais desenvolvidos por John Zorn. Dessas experiências surge o Naked City, espécie de conjunto musical aberto a qualquer tribo: jazz, música judaica, rock pesado, tango e afoxé. Panelada por panelada, prefiro a do Hermeto. Contudo, havendo vodka em quantidades ilimitadas, eu até poderia encarar a panelada do Zorn. E você?

14/06/2006

Goodbye Pork Pie Hat

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Lester Young é um dos meus saxofonistas prediletos. Ele representa o lado mais sutil, leve, contido e delicado do saxofone no jazz, em oposição direta ao sopro mais poderoso, aberto e violento de Coleman Hawkins. Se Hawkins foi o músico que abriu um espaço nobre para o saxofone no jazz – um instrumento até então menosprezado em favor do trompete e do clarinete –, Lester foi o músico que trouxe uma nova linguagem para o instrumento. Por sua tonalidade e cor, Pres (the president of the tenor saxophone players) é considerado o pai do cool jazz, estilo que foi desenvolvido mais tarde por Miles Davis na costa oeste e por vários músicos brancos na costa leste. O vídeo Jammin' The Blues é, sem dúvida, um dos registros mais importantes da história do jazz, embora eu preferisse Billie Holiday a Marie Bryant no vocal. Esse e outros clássicos de Lester Young podem ser vistos e ouvidos no dvd Jammin’ The Blues, lançado pela Efor em 2004, que contém 9 faixas adicionais. Existem outros lugares onde podemos encontrar a faixa Jammin’ The Blues, como no excelente documentário Song Of The Spirit: The Story Of Lester Young, de Bruce Fredericksen, lançado em 1988.

Para aqueles que quiserem se aprofundar na vida de Pres, recomendo a biografia Lester Leaps In: The Life Ans The Times Of Lester Pres Young, escrita por Douglas Henry Daniels e lançada pela Beacon Press. Para uma análise musicológica profunda de toda a obra de Pres podemos contar com a magnífica obra You Go To Original, Man ! The Music Of Lester Young, de Frank Büchmann-Moller, lançada pela Greenwood Press. No dvd da Efor você pode ouvir e ver os seguintes músicos ao lado de Pres: Count Basie, Marlowe Morris (p), Clark Terry, Harry "Sweets" Edison, Buck Clayton, Al Killian, Ed Lewis (t), Dicky Wells, Eli Robinson (tb), Buddy DeFranco (cl), Tab Smith (ss, as), Earle Warren (as), Illinois Jacquet, Wardell Gray, Buddy Tate, Don Byas (ts), Jack Washington (bs), Jimmy Lewis, Walter Page, Red Callender (b), Big Sid Catlett, Jo Jones, Gus Johnson (d), Freddie Green, Barney Kessel (g), Jimmy Rushing, Helen Humes, Marie Bryant (v), Archie Savage (dancer). Barney Kessell, o único músico branco do grupo, teve que passar corante na pele a fim de parecer mais escuro nas filmagens …

13/06/2006

Toma tenência menino !

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Prezado navegante, prepare a pipoca, ajeite a poltrona e clique no Cinema Jazzseen para assistir a alguns dos vídeos mais importantes do jazz..
Alguns dizem que o videoclip foi inventado na década de 1980. Pura bobagem: no Cinema Jazzseen você verifica que Louis Armstrong era o tipo de gênio que chutava o balde. E chutava com força já em 1932! Ao contrário dos seríssimos intelectuais racistas, preocupados somente em identificar como os músicos negros eram espoliados pelos músicos brancos, Louis simplesmente invadia o mundo com sua alegria arrebatadora. Seus solos contribuiram mais para a libertação dos afro-americanos que todas aquelas centenas de discursos envenenados pelo ódio e pelo radicalismo. Como disse certa vez o crítico Jean Wagner: Havia algo de Victor Hugo em Louis Armstrong, aquela fundamental alegria e otimismo em viver a vida.
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Para quem gosta de filmes, recomendo o livro Jazz On Film, de Scott Yanow - aquele crítico do All Music. Agora apague a luz que o filme já vai começar !
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10/06/2006

Cinematographo

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Com o nascimento do cinema o mundo começou a girar mais rápido. O conceito fotográfico de paciência foi alterado. Ninguém mais quer saber daquelas lentas coleções vendidas nas bancas em duzentos fascículos semanais. Ir do Rio a São Paulo num lombo de mula já não seria uma aventura tão dinâmica assim. A China está logo ali, a um clique daqui. A música de concerto européia está enterrada viva com suas estáticas composições. Os instrumentos acústicos, reduzidos a chips e fibras óticas. E o jazz acompanha toda essa correria. John Zorn, o judeu mais negro que conheço, está aí, com suas colagens e experimentos velozes. Não há tempo a perder. Corra e clique no Jazzseen Jam Session. Rápido !!!
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21/05/2006

Há Quem Não Goste

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Meninas dançando o tango
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Alguns visitantes do blog, em sua maioria anônimos por motivos óbvios, têm manifestado sua repulsa figadal à sanfona e às meninas que dançam o tango. Tadinha da sanfoninha: nenhum instrumento traz em si a musicalidade assim como nem toda moça nasce sabendo dançar o tango. Caberá ao músico dar vida e sabor às mesmas. No caso específico do instrumento seriam inumeráveis os exemplos de perícia, beleza, swing e improviso emprestados ao jazz por esse à primeira vista quão assustador instrumento. Exemplo imediato que vem à mente é a colaboração do levado sanfoneiro Richard Galliano ao Projeto Cigano do violeiro Biréli Lagrène, ex-criança prodígio e atualmente um mestre maior do violão cigano. As colaborações animadas e cheias de inteligência e alegria entre Lagrène e Galliano podem ser conferidas em alguns dvd's, o que dá ainda mais cor ao som desses dois incríveis músicos. De quebra, no dvd abaixo, você ainda conta com a participação do neto de Django. Vá, ditadura cruel do anonimato: permita às meninas dançarem o tango !!!.


Lagrène (olhando as sanfonas das meninas) & Galliano - Vale Conferir !