Mostrando postagens com marcador Livros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Livros. Mostrar todas as postagens

25/07/2009

Uma visita a José G. Merquior (1941-1991)

José Guilherme Merquior era um brilhante pensador liberal (para muitos, um reacionário pedante) - mais ou menos aquilo que o colunista da Veja Diogo Mainardi gostaria de ser. Era também um polemista de excelência, daqueles que fazem do debate de idéias seu leitmotiv: criticava Freud e Marx com propriedade, segundo os freudianos e marxistas, suas vítimas imediatas, que suavam para rebater sua argumentação vigorosa e carregada de erudição. Suavam e não me lembro de terem vencido o embate.
Houve outras vítimas, como a professora da USP Marilena Chauí, a quem acusou de plágio - e comprovou. Sobrou tempo também para chamar Caetano Veloso de subintelectual de miolo-mole, termo com o qual o compositor, mais tarde, concordou. Merquior escrevia como um evangelista, crendo em tudo o que produzia quase como um ato de fé, mas uma crença balizada na solidez racional de leituras apuradíssimas de autores europeus, dos renascentistas aos pós-modernos, fincando o pé na vasta seara iluminista. Leu muito, e em muitas línguas.
Lembro-me bem do primeiro contato. No primeiro - talvez no segundo - ano dos 80, folheando a revista Manchete, encontrei um trecho de um de seus artigos monumentais em que dizia, num trocadilho óbvio, que Freud era uma fraude. Havia, salvo engano, certo humor no texto, mas um humor contido porque, certamente, seu autor não desejava descambar para a superficialidade do riso. Levava-se a sério e parecia dizer a mim, leitor bissexto daquele tipo de artigo, que eu deveria encará-lo - perdoem-me o pleonasmo! - com austera seriedade. Algum tempo depois, chegou-me as mãos, comprado em um sebo em Niterói, De Anchieta a Euclides, seu clássico livro sobre a literatura feita no Brasil, e, mais tarde, uma compilação de seus artigos críticos sobre literatura e arte intitulado Crítica (1964-1989). Aí o mar se abriu. Estavam lá textos selecionados de seus livros Razão do Poema (1965), A Astúcia da Mímese (1972), Formalismo e Tradição Moderna (1974), O Estruturalismo dos Pobres e Outras Questões (1975), O Fantasma Romântico (1980), As Idéias e as Formas (1981), O Elixir do Apocalipse (1983), De Praga a Paris (1986) e outros ensaios, incluindo uma pérola intitulada Gênero e Estilo das Memórias Póstumas de Brás Cubas, no qual destrincha os diálogos que Machado travava com Luciano, Apuleio, Rabelais, Fontenelle e Leopardi.
E tudo isso numa linguagem translúcida, mas que exige do leitor a tal seriedade que mencionei. Exige também que, paradoxalmente à racionalidade, haja amor por aquilo que a literatura transmite e transforma, seja ela resumida num poema de Rainer Maria Rilke ou na narrativa de Robert Musil - duas de suas preferências declaradas e que acabaram por me influenciar: li O Homem sem Qualidades, do Musil, a partir de leituras de Merquior, o mesmo acontecendo com A Terra Desolada, de Eliot, cuja consciência histórica era, para ele, seu patrimônio maior, juntamente, claro, com a linguagem. Confesso que seus textos sobre política nunca me atraíram, já que, por preconceito - ou temor -, um estudante universitário como eu, marxista por conveniência, tinha outras prioridades, mesmo que parcialmente equivocadas.
Mas seus artigos em que a literatura era o tema foram devorados como quindins, em particular o citado A Astúcia da Mímese, em que Drummond, João Cabral e Rilke são analisados com precisão.

José Guilherme Merquior foi diplomata e esteve longe de ser uma unanimidade. Foi criticado e criticou. Foi atacado e atacou - sempre no âmbito racional, pisando o terreno arenoso da filosofia, da historiografia, da política, da arte. Morreu precocemente, em 1991, às vésperas do próprio cinqüentenário, deixando uma herança que o brasileiro insiste em não usufruir, talvez por desconhecimento.
Eu disse talvez, porque sempre mantenho a desconfiança de que não haja muito interesse em reconhecer nas palavras de Merquior nossa quase nulidade intelectual. Típico do brasileiro, que opta pela cegueira diante do espelho que lhe expõe as deformações.
Leia aqui Machado em Perspectiva, conferência pronunciada por JGM.
Leia aqui entrevista à revista Veja, intitulada Um Mestre da Polêmica

23/07/2009

Sounds by Socolow

Não faz muito telefonei para Lester sem qualquer esperança de que me atendesse: afinal ele agora tem bina e filtra os chatos de galocha que ainda insistem em lhe telefonar. Nisso, do outro lado da linha, uma voz soturna e de poucos amigos diz ‘oi’. Felicíssimo, comentei com Lester meu efusivo entusiasmo, pois acabara de comprar num sebo imundo de Amsterdã o álbum Sounds by Socolow, gravado em 1956 para a Bethlehem Records. Enquanto eu narrava os detalhes do álbum, Lester comentou em tom de repulsa o quão injusta é a vida, perguntando por que motivo José Guilherme Merquior morrera tão cedo, em 1991, aos 49 anos! Eu, que nem sei quem foi Merquior, preferi manter-me calado, enquanto Lester desabafava: “Sim, aquilo sim era um intelectual de fibra, com imensa cultura e empedernida integridade intelectual! Quem teria coragem de desmantelar os castelos de areia do marxismo, da psicanálise e da arte de vanguarda, sem medo de ser considerado reacionário em política, ciências humanas e estética? Quem?” Preocupado com o custo da ligação, tentei argumentar com Lester que Stalin, Freud e Ornette Coleman realmente me pareciam criaturas bem intencionadas, mas fui novamente interrompido pelo clarinetista mais ortodoxo de Vila Velha: “E, olha aqui Roberto, esse tal de Frank Socolow só fez uma coisa boa na vida: contratou Bud Powell para seu quinteto e gravou com ele em New York, no dia 2 de maio de 1945. Essa foi a segunda série de gravações de Bud que, até então, só tinha gravado com o sexteto e a orquestra de Cootie Williams. O resto do trabalho de Socolow, Roberto, você pode jogar no lixo, junto com O Capital, o divã e os álbuns de Albert Ayler”.

Ainda tentei argumentar sobre a envergadura psicológica da inveja do pênis, mas já era tarde, Lester havia largado o telefone na pia e entrado no box, onde tomava seu banho com bucha e cantarolava Hallucinations em scat. Triste, desliguei o telefone e fiquei olhando para a contracapa do velho lp. Lá constavam os integrantes do sexteto de Socolow: Eddie Bert (tb), Eddie Costa (p), Sal Salvador (g), Bill Takus (b) e Jimmy Campbell (d). Ok, o álbum não era lá essas coisas, mas também não era de se jogar fora. Era um documento comprobatório daquilo que dizem sobre o estilo de Frank: um meio termo entre o swing e o bebop – ouça, logo abaixo, a faixa Farfel. Nascido em New York, em 1923, Frank iniciou a carreira na década de 1940, tocando sax alto e tenor em big bands, como as de Georgie Auld, Boyd Raeburn, Chubby Jackson e Artie Shaw. Nesse mesmo período, gravou com diversos músicos, entre eles Sid Catlett, Buddy DeFranco e Charlie Ventura, além de liderar seus próprios grupos, como o excepcional quinteto a que se referiu Lester, com Freddie Webster (t), Bud Powell (p), Leonard Gaskin (b) e Irv Kluger (d), que gravou quatro faixas para o selo Xanadu em 1945. Nas décadas seguintes, Frank atua como freelance em New York, além de participar de uma série de gravações com músicos importantes como Charlie Parker, Manny Albam e Gene Krupa. E, apesar de toda sua competência e atividade, Frank realizou apenas mais uma sessão de gravação como líder, que é o lp que tenho em mãos, permanecendo uma figura completamente esquecida do jazz após sua morte. Um mês depois recebi pelo correio um exemplar de As idéias e as formas. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982, do tal José Guilherme Merquior, com uma carinhosa dedicatória desse estranho amigo chamado John Lester.

06/07/2009

Os caminhos do jazz

Certamente não é um livro de escrita primorosa e sequenciada: truncado, com várias passagens repetidas e bastante superficial em alguns pontos, o pequeno livro O Ragtime e os caminhos do jazz, escrito pelo pianista mineiro Caio Vono, não constitui modelo de estilo, apresentando uma série de fragilidades quanto à estrutura crítica. Não. O principal valor da obra de Caio Vono, publicado em 1989 pela MusiMed, reside na paixão que o autor nutre pelo jazz, paixão despertada aos treze anos, quando recebe seu primeiro disco de ragtime de presente de aniversário, e manifestada ao longo do texto. Em sua melhor parte, o livro traz experiências vividas pelo próprio autor, seja como protagonista, seja como coadjuvante. São bastante interessantes suas atuações como pianista de ragtime, inclusive no Mistura Fina de Brasília, suas viagens pelos EUA e seus encontros com músicos e personalidades do jazz, como Johnny Maddox e Don Marquis. Vale destacar certas curiosodades trazidas por Caio, como suas primeiras aulas de piano - pagas com a renda proveniente da venda de garrafas e jornais velhos - ou quando testemunhou a entrevista concedida por Al Hirt à imprensa de New Orleans, em que, vejam só, o trompetista protestava contra a pornografia que se disseminava pelo French Quarter. Os caminhos do jazz propriamente ditos não são percorridos por Caio com passos firmes, salvo algumas poucas e confusas páginas dedicadas aos estilos New Orleans e Dixieland e breves parágrafos que tratam sobre os demais estilos do jazz - ao free jazz Caio dedica generosos três parágrafos - e de algumas breves anotações acerca de instrumentos e amigos músicos. A maior parte do texto é voltada mesmo para o ragtime, com ênfase para o trabalho de Johnny Maddox, mais conhecido como Crazy Otto, pianista responsável pelo ressurgimento do estilo na década de 1950 e que não deve ser confundido com o pianista alemão Fritz Schulz-Reichel, conhecido entre nós como Pau DÁgua ou Der Schräge Otto. Para os amigos fica a faixa The Crazy Otto Medley , gravada em 1955 por Johnny Maddox e The Rhythmasters. Uma obra que, apesar de tudo, pode ser indicada aos amantes incondicionais do rag, ressaltando seu caráter elementar e meramente subsidiário ao estudo do jazz.

30/03/2009

Jazzwomen

O mês de março de 2009 foi, em grande parte, dedicado a saber se as mulheres podem lançar o dardo mais longe do que os homens e, também, se sabem tocar jazz. Ouvimos opiniões diversas, em postagens e comentários de amigos, o que nos levou a refletir sobre a condição e o papel da mulher na elaboração desse estilo que se espalhou pelo mundo em tempo recorde: é preciso ter em mente que o jazz é uma música nova - a primeira gravação de jazz foi realizada em 1917, por um grupo de músicos formado exclusivamente de homens. E homens brancos. Assim, se os homens negros, desde o nascimento do jazz, sofreram preconceito e marginalização, as mulheres, e principalmente as mulheres negras, sofreram muito mais. Obviamente que os componentes sociológicos que ditavam as regras de convivência entre brancos e negros nos EUA no início do século XX delimitavam de forma rígida o papel limitado e secundário a ser desempenhado pelo negro naqueles tempos: ele poderia ser músico, mas não poderia ser dono de gravadora. Ele poderia ser porteiro de um edifíco de luxo, desde que não tivesse a petulância de morar ali um dia. Às mulheres negras o papel dado era ainda mais degradante, sendo comum que a busca por sua liberdade e autonomia muitas vezes estivesse associada à prostituição, profissão adotada por uma infinidade de artistas negras em algum período de suas vidas. Não causa espanto, portanto, que o número de mulheres no início do jazz seja diminuto e, muitas vezes, alavancado pelo estímulo e incentivo de seus maridos ou protetores: Lil e Louis Armstrong, Marian e Jimmy McPartland, Lorraine e Herb Geller, etc, etc, etc. Além do componente sociológico, outro ponto suscitado pelos amigos foi o que diz com as características fisiológicas das mulheres, responsáveis, segundo a opinião de alguns, por certas restrições na escolha e no desempenho em certos instrumentos, como o gigantesco contrabaixo acústico ou o severo trompete com seu bocal pouco amistoso. Concordo que uma moça frágil e delicada teria mais dificuldades em manusear as grossas cordas de um contrabaixo do que, digamos, Charles Mingus, com seus 100kg por 190cm. E até certo ponto parece verdade que poucas mulheres possuem o vigor físico necessário para acompanhar ao trompete os solos alucinates de Charlie Parker ou qualquer daqueles outros gênios velozes do bebop. Soaria como uma Maria Rita desafiando o título de peso-pesado de um Mike Tyson. E é nessas horas de dúvida se homens e mulheres podem ou não competir em pé de igualdade uma maratona ou mano a mano um campeonato de levantamento de peso que sempre me recordo das palavras de Marian McPartland quando questionada sobre a capacidade física da mulher para tocar jazz: "Well, when you think of what average women have to do in their lives, like give birth, do laundry, make beds and carry kids around, who should judge them as not strong enough to play a horn?". 

A entrevista integral com Marian faz parte (páginas 231 a 251) do excelente livro Jazzwomen: conversations with twenty-one musicians, Indiana University Press, 2004, de Wayne Enstice e Janis Stockhouse. Pequenas biografias servem de introdução às interessantes conversas com Jane Ira Bloom, JoAnne Brackeen, Clora Bryant, Terri Lyne Carrington, Regina Carter, Marilyn Crispell, Barabara Dennerlein, Dottie Dodgion, Shirley Horn, Ingrid Jansen, Sheila Jordan, Diana Krall, Abbey Lincoln, Marian McPartland, Helen Merrill, Maria Schneider, Shirley Scott, Carol Sloane, Teri Thornton e Cassandra Wilson. Como se não bastasse, um cd com dez faixas acompanha o livro. É também com Marian que ficamos sabendo de uma sessão de gravação que realizou em 1977 para o selo Halcyon. O nome do álbum é Now's The Time e conta somente com mulheres: Marian ao piano, Vi Redd (as), Mary Osborne (g), Lynn Milano (b) e Dottie Dodgion (d). Para os amigos fica a faixa Of Love .

08/03/2009

Ochún vive en el río

Não, eu não estou postando hoje para as mulheres só porque é o dia internacional da mulher. Por mim, se eu controlasse o tempo, todos os dias, tardes e noites de lua cheia seriam delas. É como já escreveu um amigo: “Entre as altas rochas vermelhas que mais parecem dragões, ondula a terra rasgada pela mão do homem: a região dos diamantes exala um pó de fogo que avermelha as paredes da cidade do Tijuco. Perto corre um arroio e longe se estendem as montanhas cor de mar ou de cinza. Do leito e dos rincões do arroio saem os diamantes que atravessam as montanhas, navegam do Rio de Janeiro a Lisboa e de Lisboa a Londres, onde são lapidados e multiplicam seu preço várias vezes para depois dar brilho ao mundo inteiro. Muito diamante escapa de contrabando. Jazem sem sepultura, carniça para urubu, os mineiros clandestinos que foram apanhados, mesmo que o corpo de delito tenha o tamanho do olho de uma pulga; e ao escravo suspeito de engolir o que não deve aplicam violento purgante de pimenta brava. Todo diamante pertence ao rei de Portugal e a João Fernandes de Oliveira, que aqui reina contratado pelo rei. Ao seu lado, Xica da Silva também se chama Xica que Manda. Ela é mulata, mas usa roupas européias proibidas para quem tem pele escura e faz alarde indo à missa de liteira, acompanhada por um cortejo de negras enfeitadas como princesas; e, no templo, ocupa o lugar principal. Não há nobre dessas bandas que não baixe o cangaço frente à sua mão cheia de anéis de ouro, e não há quem recuse seus convites para a mansão da serra. Lá, Xica da Silva oferece banquetes e funções de teatro, a estréia de Os encantos de Medéia ou qualquer outra peça da moda, e depois leva os convidados para navegar pelo lago que Oliveira mandou cavar para ela porque ela queria mar e mar não havia. Chega-se ao cais por escadarias douradas, e passeia-se num grande navio tripulado por dez marinheiros. Xica da Silva usa peruca de cachos brancos. Os cachos cobrem a testa e ocultam a marca feita a ferro, quando ela era escrava.”

Sim, Eduardo Galeano, autor do conhecidíssimo Veias Abertas da América Latina, também acha que todo dia é dia das mulheres. Por isso escreveu muito sobre elas, e escreveu com carinho, respeito, fidedignidade e paixão. Escreveu tanto que a editora L&PM reuniu num livro fino com letras grandes alguns de seus mais interessantes textos, selecionados por ele mesmo, sobre as mulheres. O título não poderia ser mais bonito: Mulheres. Na contracapa algum bobo diz que o livro traz textos sobre as mulheres da América Latina. Não é verdade. Galeano escreve sobre, por exemplo, Bessie Smith, a maior cantora de blues clássico de todos os tempos e que, salvo prova em contrário, era muito norte-americana. Mas talvez nada disso importe diante da beleza dos textos e da homenagem.

Para os amigos e amigas entregamos a faixa Devil’s Heart , com a pianista coreana Min Rager e seu quinteto. A faixa é de seu disco de estréia, Bright Road, lançado em 2005 pela Effendi, contando com Kevin Dean (t), Donny Kennedy (as), Alec Walkington (b) e Andre White (d), seu professor na McGill University, no Canada, país para onde se mudou em 1997, após tocar algum tempo em clubes de jazz coreanos. Mais informações sobre a menina aqui. E se alguma leitora curiosa quiser saber, afinal vocês vêem tudo, a pintura da capa é um detalhe do quadro Ochún vive en el río, do pintor cubano Manuel Mendive.

02/03/2009

Autodidata

Nosso amigo Tandeta, membro do excelente blog Charuto Jazz, parece não ter gostado de nossa defesa ao autodidatismo, expresso na resenha anterior sobre Urbie Green. Na referida resenha, Tandeta fez o seguinte comentário: "Mr. Lester, desculpe a sinceridade mas o texto é pura conversa mole pra boi dormir. Desde a decada de trinta os musicos de jazz tem sempre uma formação musical bastante solida,muitos sairam de universidades ou das escolas de musica das Forças Armadas,da Marinha principalmente.Esse musico autodidata e que toca totalmente de ouvido ficou la pra tras ,bem nos primordios. Caso haja duvida recomendo consultar "Early Jazz" de Gunther Schuller,paginas 292 e 293. Urbie Green é um músico excepcional e devemos ouvi-lo sempre, é um dos mestres do trombone. Otima essa faixa colocada aqui. Abraço." Em seguida, embora exausto e faminto, Mr. Lester respondeu ao ilustre visitante:
"Prezado e veemente Tandeta, obrigado pela participação, sempre contundente. Após bater uma laje, não poderei acordar o boi, mas faço uma breve anotação. Não faz muito, por um desses dissabores do destino, fui expulso por faltas da Universidade Federal do Espírito Santo, onde havia sido aprovado em terceiro lugar para o vestibular de música. Aulas pela manhã, você sabe, aparecia 11:30 para pegar a presença e não obtinha sucesso. Mas não há como negar o aprendizado obtido: confirmei que a universidade não faz a menor falta para o artista genial. Claro, ela pode ajudar o aluno dotado e inteligente a tornar-se um músico competente – instrumentista ou compositor. Mas o gênio sobrevive sem ela. Os musicalmente medíocres, como eu, saem de lá executando de forma singela alguma peça mais simples ou compondo coisas como atirei o pau no gato. Mas o gênio, esse prescinde do academicismo e talvez até se favoreça sem ele.

Quanto às fontes, é bom lembrar que a Bíblia tem mais de 20 interpretações, cada uma delas de acordo com a visão cristã que determinada seita assume. Por isso, não baseio minhas opiniões apenas no que leio, citando a fonte, mas comparando-a com as demais disponíveis e igualmente confiáveis para, ao cabo, formar opinião própria, coisa rara nas esquinas e raríssima na net. É claro, e concordo com você, que Gunther Schuller é uma figura importante do jazz, nem tanto como tocador de tuba, nem tanto como compositor, nem tanto como regente, nem tanto como professor, mas sobremodo como crítico, estudioso e historiador do jazz.

Também por uma dessas vontades do destino, possuo a obra completa já publicada de Schuller, em inglês (pela Oxford) e em francês (pela Parenthèses). E, já que você citou o moço, ele mesmo não se cansa de pedir desculpas pelos erros mais crassos que comete em seus livros. Por exemplo: em seu livro The Swing Era: The development of jazz, 1930-1945, Ed. Oxford, 1989, p. 327, ele mesmo escreve: “I fear that I misjudged the pré-Calloway Missourians somewhat in Early Jazz. While admiring their elemental, fiery drive, I also suggested that they worked primarily in clichés. Cliché is probably too strong word.” Como se não bastasse, ele afirma, na mesma página, que "The twelve sides recorded by pre-Calloway Missourians are virtually unique in jazz-recording history and contain, in their particular idiom, at least a couple of masterpieces”. Ou seja, sua fonte, prezado Tandeta, é, no mínimo, sincera ao assumir e corrigir as próprias bobagens que fala enquanto os bois dormem.

E, nesse item Schuller, vale lembrar as palavras do crítico Blair Johnston: “Like American music itself, however, Schuller has not always steered clear of controversy — the very masses that admire him have sometimes been baffled by his uncompromising attitudes and blunt statements.”
Por isso, sempre consulto mais de um livro antes de emitir opinião própria. Só não poderei me prolongar nesse tema em virtude da terrível fome de Joana, minha bassê, que puxa ferozmente minha camisa para que eu lhe dê a ração noturna. Mas, prometo, voltarei ao assunto self-taught, citando críticos honestos e respeitáveis que admiram e exaltam o autodidatismo.

Reafirmo apenas que considero o autodidatismo saudável sim. Precisamos de pessoas capazes de transcender o arsenal acadêmico disponível, trazendo à tona descobertas, invenções, arte e tecnologia que a grande maioria dos universitários jamais foi e jamais será capaz de produzir. Vide Van Gogh e vide Charlie Parker.

Precisamos dos Bix Beiderbecke, Ornette Coleman, Lester Young, Ruby Braff, Trevor Watts, Errol Garner, Mary Lou Williams (como compositora), Krzysztof Komeda, John Zorn, Max Roach e tantos outros que nos fizeram e nos fazem coçar a cabeça quando tocaram ou quando tocam.

E, prezado amigo, não deixe escapar a oportunidade de ler na íntegra a esclarecedora entrevista concedida pelo crítico Gene Lees, onde há o seguinte trecho:

JJM You have stressed the educational background and technical knowledge that's necessary to be a good jazz musician.
GL Part of the myth of jazz, because it's an improvised music and requires improvisation, is that these guys were ignorant of music. There have been a very few jazz musicians who played pretty much by ear - which doesn't mean you have no talent, it means you don't even need the written note, you can hear it. A few guys like Errol Garner and Wes Montgomery could not read music, but by and large, most jazz musicians have had very good schooling, which is to say that jazz musicians have almost all had classical training, whereas classical musicians have not had jazz training. That is why the jazz musicians, such as Andre Previn, are able to go on to be symphony composers and conductors. Mel Powell, the stride pianst James P. Johnson and Earl Hines all had very good knowledge of the classical repertoire. Something else to be kept in mind, "self-taught" does not mean "un-taught." There are two or three composers, like Gil Evans and Robert Farnon, both of whom happen to be from Toronto, who trained themselves. They got scores and read them and studied them, and believe me, they know those scores as thoroughly as anybody from any conservatory. Farnon told me once, when he was first writing at age 15, he would write one part at a time, lining it up on the floor with papers spread all around him. He met Don Redman, who asked him if he had ever heard about writing on a single sheet of paper as a score. So when you say he was self-taught, sure, up to a point he was, but somebody showed him something along the way.

JJM There is a similar story about Benny Carter learning arranging by laying out parts on the floor…
GL Yes. You know, a lot of guys did that! It's a not uncommon phenomenon. (íntegra: http://www.jerryjazzmusician.com/mainHTML.cfm?page=lees.html ).

Ou seja, ser autodidata em música não significa não saber música. Aurélio e Houaiss deixam isto claro.
Quanto ao autodidatismo no jazz atual, a coisa continua fluindo normalmente, com diversos músicos sem qualquer formação acadêmica ou que largaram as universidades após alguns meses ou anos de estudo, sem concluírem seus cursos. Quanta saudade do Vitor Assis Brasil hein?"

E você, amigo leitor, o que acha do autodidatismo no jazz?

24/01/2009

Cizânia


Todos sabemos que o Jazzssen está vivendo um momento de acirrada excitação e cólera. Será tudo apenas mais uma farsa ardilosa para obter a fórmula da poção mágica de nosso druida Panoramix? Seriam as chuvas torrenciais? A posse de Obama? O calor carioca, abafado e sedutor, que cisma em escorrer por cima das serras sobre nós? Talvez nunca saibamos, talvez nunca haja paz, mas quem sabe a caótica harmonia seja encontrada entre os condescendentes, os cábulas, os clementes, os implacáveis, os cândidos, os peremptórios, os nutantes, os resolutos, os enleados, os austeros, os meneáveis, os desfaçados e os desempambados que freqüentam o Jazzseen. Certo disso é que voltei a ler Cuentos Completos Y Uno Más, de Luisa Valenzuela, lançado pela Alfaguara em 1998. Como diz bem Gustavo Sainz no prólogo: “Aqui todo está em guerra. No sólo hay muchas historias que se desarrollan em los años de la llamada Guerra Sucia en el Cono Sur, sino también guerra entre parejas, guerra de viejos contra la vejez, de jóvenes contra la inmadurez, del erotismo contra la muerte, de mujeres contra su fisiología, de transexuales contra andróginos, del compromiso contra el desinterés, del lenguaje contra si mismo. Y de estas batallas surgen importantes preguntas. Todo esto bañado por uma malicia, mucha astucia, una capacidad de travesura y un rigor sin paralelo entre narradores contemporáneos.” Mas haverá sempre, eu sei disso, aqueles que nunca lerão Valenzuela.

22/01/2009

Carioca

Um dos mais interessantes livros de História que já li é Vida e História, de José Honório Rodrigues. A Editora Perspectiva, como sempre, insiste em omitir a edição – logo, de acordo com as regras válidas, deve tratar-se da primeira. Sei apenas que constitui o volume 197 da Coleção Debates, da fornada de 1986. O livro é interessante por diversos motivos, e o principal deles é que, naquela década árida de 1960, José propõe corajosamente que os historiadores brasileiros, completamente viciados nas publicações francesas e, quando muito, nas portuguesas, voltem seus olhos para as demais publicações estrangeiras, entre elas as espanholas, as alemãs e as norte-americanas que, segundo o autor, possuem alto valor documental e metodológico – ele cita diversas fontes ao longo da obra, entre elas os estudos de Charles R. Boxe, da Universidade de Harvard e Johan Huizinga, um dos maiores historiadores do século XX. Para José, a História não é matéria morta. Muito ao contrário, a História é, sob certo aspecto, “uma disciplina de unidade e de ação, que revela discretamente, mas sem temor, a sobrevivência das forças políticas pré-nacionais e até mesmo antinacionais, e esclarece que quando se obstrui a ação das novas forças sociais, o grau de violência pode vir a ser proporcional ao tempo de retardamento”. Outro motivo que me apraz talvez tenha caráter essencialmente subjetivo, mas não há como negar o prazer em ler o que José escreve sobre os cariocas e nossa cidade natal. É no Capítulo 6 – Características históricas do povo carioca que José tece suas impressões sobre o papel do minhoto (os portugueses brancos, vivos, inquietos, maliciosos e alegres), os negros (principalmente angolanos, repletos também de alegria e, ao contrário de seus irmãos baianos, pouco afeitos às revoltas e à violência), os indígenas (principalmente os sábios tupis), os judeus sefardim (primeiro os perseguidos pela Inquisição, depois os atraídos pelas minas), além dos mulatos e cabras de índole vivaz e sedutora, inventores do samba e da capoeira. Sempre que folheio esse livro tomo a certeza de que Adoniran Barbosa nasceu no Rio e não em Valinhos como afirmam suas biografias. Seja lá como for, fica a faixa Trem das Onze , em homenagem à nossa amiga Sandra Leite, responsável pelo excelente blog Isso É Bossa-Nova. Com o pianista Stefano Bollani estão algumas feras, como Marco Pereira (g) e Zé Nogueira (ss). Carioca não é um grande álbum, daqueles perfeitos e retilíneos, não mesmo. Gravado ao vivo, Bollani parece tentar captar a espontaneidade da alma carioca através da interpretação sincera de vários clássicos da cidade maravilhosa, exceção aberta a Adoniran. Mas quem pode condenar Bollani por querer se sentir carioca?

11/01/2009

Jazz Covers

Lançado no final do ano pela prestigiosa editora alemã Taschen, o livro Jazz Covers é um fenômeno. Esgotou rapidamente a primeira edição e tem edição importada em espanhol à venda no Brasil. Organizado pelo produtor, editor radialista e colecionador de discos português Joaquim Paulo, o livro tem 496 páginas e reproduz 696 capas de álbuns de jazz dos anos 40 aos 90. O ponto de partida da pesquisa foi a própria coleção pessoal de Joaquim Paulo, fundador da editora Mad About Records, e que possui cerca de 25 mil discos. Além da seleção, o produtor - que vive pelo mundo garimpando preciosidades da música - ouviu testemunhos de personagens-chave da produção musical jazzística, como Rudy Van Gelder (engenheiro de som que gravou álbuns para a Blue Note e para a Prestige), o produtor e trompetista Creed Taylor e o designer Bob Ciano. Joaquim apresentou o projeto ao editor Benedict Taschen, que abraçou o projeto e viabilizou a edição. Há discos de todo o mundo no volume (Argentina, Brasil, Polônia, Romênia e Reino Unido), muitos jamais editados em CD. Na galeria de discos escolhidos estão álbuns de mitos como Miles Davis, Chet Baker, Thelonious Monk, John Coltrane, Ornette Coleman, Count Basie, e ainda Claus Ogerman, Vince Guaraldi, Moacir Santos e Maurice Vander. Para fechar, DJs escolhem os seus Top 10, gente como Gilles Peterson, Ed Motta, King Britt ou Rainer Trüby. Joaquim Paulo concedeu entrevista ao Estado. A sua intenção com esse livro é ressaltar o trabalho gráfico das capas ou há também orientação musical? Tive esta ideia do livro há muitos, muitos anos. Pela minha formação, incompleta, na área das artes, por desde sempre me interessar por design, eu olho para um disco de vinil também como objeto de arte. O jazz desde sempre foi uma área musical que produziu capas lindíssimas e esteve sempre ligado a grandes ilustradores como o Jim Flora, grandes designers como o Reid Miles ou fotógrafos como o Francis Wolff, Chuck Stewart ou o grande William Claxton. O jazz sempre teve essa imagem de grande glamour, estilo, a pose "cool". Portanto, desde sempre que pego num vinil de jazz tenho o prazer físico e mental de olhar para a capa, sentir o cheiro, ler as liner-notes, ver quem desenhou ou fotografou e procurar mais. O jazz em vinil, para mim, é um objeto de arte. Depois, há o meu amor ao jazz. É a minha música. A primeira coisa que faço quando chego em casa é pegar um disco e colocar no meu toca-discos. O meu iPod é o meu melhor amigo. A música está sempre na minha vida. Com este livro procurei prestar uma homenagem a quem construiu o jazz, musical e graficamente. Este é um projeto muito pessoal. São as minhas escolhas. Não pretendi fazer uma enciclopédia ou algo do gênero. Tive a grande felicidade de a Taschen me ter dado essa liberdade. A seu ver, o que revelam as capas dos discos de jazz nesses 70 anos que o sr. abarca? Uma espécie de "história social do jazz"? Sem dúvida. Grande parte das capas que incluí dos anos 70 são de editoras underground, na sua maior parte altamente politizadas ligadas a movimentos cívicos. Havia um grande relação com os tempos conturbados dos anos 70, principalmente nos Estados Unidos. Algumas editoras como a Strata East, a Black Jazz estavam intimamente ligadas à contracultura americana, e em alguns dos casos com ligações diretas a movimentos como os Black Panthers. Graficamente esses discos são também de uma grande força e impacto visual. Pessoalmente, qual é a sua capa preferida, e por quê? A minha capa e disco preferido é o A Love Supreme do John Coltrane. A música é de uma espiritualidade quase religiosa. É um disco que pacifica, que liberta. E acho que a capa é a captação certeira do estado de espírito do John Coltrane nessa fase da sua vida. Depois de ter passado alguns anos a combater demônios internos, problemas com drogas, ele finalmente estava em paz. Gosto do jeito como a forma capta o olhar melancólico e profundo do John Coltrane. É uma capa de disco comovente.Os comentários ao estilo verbete que o sr. faz nas páginas do livro muitas vezes traem uma visão crítica. Tem exercido o ofício de crítico de jazz? Nunca quis fazer crítica de jazz com este livro. Nunca fiz. A minha atividade profissional foi ligada ao rádio durante 22 anos. Agora estou noutro percurso profissional através da minha editora Mad About Records especializada em reedições de jazz, soul-funk e música brasileira. Enfim, minhas grandes paixões musicais. Como tem sido a recepção a esse livro nos Estados Unidos, berço do jazz? Excelente. Recebi algumas críticas muito carinhosas de gente que respeito muito, como o Michael Cuscuna ou Ashley Khan. E a própria vendagem do disco é um indicativo da boa acolhida. Como um admirador do gênero, o sr. poderia me dizer o que acha do jazz que se faz hoje? Acha que o gênero está estagnado?De forma alguma. Sou atento ao que se produz hoje em dia. Não é fácil ser músico de jazz nos dias de hoje, mas isso me parece não ser uma limitação nem impedimento de inovação. Aliás, acredito que a dificuldade é sempre motivadora para as grandes revoluções. Mesmo em Portugal , um país pequeno e com um mercado muito difícil, existem editoras, como por exemplo a Clean Feed, que faz um trabalho notável. Abriu-se ao mundo e hoje é uma das editoras de referência a nível mundial. Do novo jazz, basta ouvir músicos como Ken Vandermark para percebermos como está viva esta música.O sr. disse, ao jornal português Público, que boa parte dessas capas não teve a participação dos músicos no conceito e na confecção, e que muitas vezes eram boladas por estagiários de agência de publicidade. É verdade?O que eu contei ao jornal Público foi que perdi muito tempo a tentar descobrir quem desenhava as capas da editora Impulse!, uma das minhas preferidas, musical e graficamente. Todos os discos eram assinados com Robert Flynn/Viceroi. Nunca descobri quem era. Nem o próprio fundador da Impulse!, o senhor Creed Taylor, fazia ideia de quem era. Mais tarde, confirmaram-me que Viceroi era uma companhia de design e as capas da Impulse! eram entregues a quem estivesse mais disponível na empresa. O que é estranho, pois a Impulse! é uma editora com uma linha gráfica muito marcada, muito personalizada. (Fonte: Jotabê Medeiros, para O Estado de São Paulo). A Livraria Cultura está vendendo a coisa por módicos R$193,00. Na Amazon você paga bem menos, cerca de US$45.00 já com frete e lembrando que livro é imune.

01/01/2009


Livro: A Ceia Dominicana: Romance Neolatino - Reinaldo Santos Neves - Bertrand Brasil, 2008 - Ironia como matéria-prima da literatura. Acrescente pitadas de fábula e jorros de erudição. Você obterá uma amostra grátis de "A Ceia Dominicana: Romance Neolatino". Santos Neves é um homem de letras; de formação literária - estudou Letras na Federal do Espírito Santo -, mas sobretudo um leitor voraz. Busca inspiração em obras da Antiguidade Clássica e em temas polêmicos do cotidiano, como erotismo, machismo, vaidade, e tabus como virgindade. Tudo regado a sátira e sarcasmo. Transposições da "baixa Roma" dos césares (Império Romano) ao ano de 1979 no Brasil, época em que o país se encontrava mergulhado em um regime opressor, são realizadas no texto de Reinaldo Santos Neves. O clima neolatino, presente desde o título, é confirmado pela seleção lexical (palavras em latim e de uso e oralidade atuais), rapsódias com inspiração na Odisséia de Homero, e uma série de nuanças e referências literárias e mitológicas que o leitor vai se deparando página a página.

30/12/2008

Hubbard - Repost II

Nas mãos sonolentas sustento o livro Almanaque Do Samba, do jovem historiador André Diniz, lançado ainda há pouco pela Jorge Zahar. Ele comenta, naquele tom gostoso dos almanaques, entre várias outras coisas, a vergonhosa aposentadoria forçada de Vinícius de Moraes pelo AI 5, em 13 de junho de 1965. No copo, dois bons dedos de Corralillo, um merlot com pitadas de malbec, de 2003. O amigo argonauta, chegado a tintos chilenos, pode comprar sem medo tantas garrafas quanto seu bolso permitir. Ao fundo coloquei uma excelente jam de Freddie Hubbard com Jimmy Heath, registrada clandestinamente por Vernon Welsh e seu gravador portátil. Lançada em cd pela Label M, a qualidade do som surpreende e a música é de primeira, com Gus Simms (p), Wilbur Little (b) e Bertell Knox (d). Se quiser continuar acordado, ouça What Is This Thing Called Love e Autumn Leaves. São 32 minutos de improviso gravados no Famous Ballroom, em 13 de junho de 1965. É logo ali – acima, à direita – no Jazzseen Jam Sessions. Bons sonhos!

24/12/2008

Planos do delírio

Sábato Magaldi não é nem o mais ilustre nem o mais inexpressivo membro da Academia Brasileira de Letras. Sua incólume existência como “imortal” não lhe retira, contudo, o intato valor como pesquisador e crítico teatral, além de professor universitário dedicado. Segundo Sábato, o teatro brasileiro moderno nasceu em 28 de dezembro de 1943, data em que foi encenada pela primeira vez a peça Vestido de Noiva, de Nélson Rodrigues. A coisa se deu no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, numa feliz reunião de coincidências: a primeira delas, e certamente a mais importante, diz com as inovações trazidas pelo texto de Nélson; a segunda coube ao polonês Ziembinski que, fugindo do nazismo, trouxe - com o grupo Os Comediantes - uma nova concepção de encenação – impondo a noção de equipe sobre o império já cansativo do astro sobre o restante do elenco - e, sobremodo, de iluminação - que faria ofuscar, com suas centenas de efeitos luminosos, o previsível triunvirato da luz da manhã, luz da tarde e luz da noite; e, terceiramente, o desenho do cenário feito por Tomás Santa Rosa – sutilmente elaborado, acompanhando a idéia de Nélson, segundo a qual a peça seria o resultado de ações simultâneas em tempos diferentes. Tomás (veja a foto) dividiu o cenário em três planos, conforme indicação no próprio texto de Vestido de Noiva. Nélson rompe, assim, com a boa e velha seqüência cronológica, misturando os tempos, fazendo com que os planos da realidade, da alucinação e da memória possam participar ativa e concomitantemente da festa do teatro. Sim, porque se ler um texto de teatro é uma das experiências mais traumatizantes da história da humanidade, assisti-la é algo incomparavelmente bom, emocionante e completo. De raro em raro durante a narrativa ouve-se a repetição do som inicial da derrapagem de um veículo, seguida do som de vidraças partidas e da sirena de uma ambulância. É como se um solista de jazz, após alguns compassos de improviso, voltasse ao tema principal. O fato inconteste mistura-se às lembranças e delírios, tecendo o desenrolar da trama como renda nunca vista por uma platéia atônita. Para Sábato, o estudioso, Nélson retirou do todo-poderoso protagonista a presença física perene e absolutamente consciente que até então sufocava nossa dramaturgia, fazendo com que as conquistas da psicanálise subissem ao palco.
No plano da realidade, os acontecimentos são mínimos, porque no universo de Nélson, eles não têm importância maior que situar a trama para o espectador, resumindo-se a pequenas falas de repórteres, gritos de jornaleiros ou comentários de médicos que atendem a acidentada. Na peça, o que conta são as memórias e os delírios da moribunda, memórias cada vez mais fracas e delírios cada vez mais fortes, conforme a morte se aproxima, memórias e delírios libertos da censura porque, agora, estão ambos sob o comando do subconsciente. E não posso acreditar que o acaso seria o responsável por Lester Young ter realizado sua primeira gravação como líder no dia 28 de dezembro de 1943. Lester, assim como Nélson, não dava a mínima para o plano da realidade – entenda-se, aqui, partitura. A sua história era contada mais e sempre no plano da memória (que lhe possibilitava armar divertidos mosaicos de citações e frases compatíveis) e no plano da alucinação (através de improvisos que, sem exagero, até hoje nos emocionam e quase nos desamparam por sua beleza inevitável). Depois, Lester volta à derrapagem, às vidraças quebradas e à sirena. Para os amigos, como presente de Natal, deixo a faixa Sometimes I’m Happy , com Johnny Guarnieri (p) no plano da memória, Slam Stewart (b) e Sidney Catlett (d) no plano da realidade e Lester Young (ts) no plano do delírio.

17/12/2008

Lançamento imperdível

Nunca é demais lembrar que amanhã, dia 18 de dezembro de 2008, passaremos a contar com mais um livro de Reinaldo Santos Neves, o presidente do Clube das Terças, nas livrarias. Para os amigos, segue fragmento da entrevista concedida a Erly Vieira Jr., cineasta, escritor e professor da UFES: O escritor Reinaldo Santos Neves fala do seu novo romance, A ceia dominicana, o segundo a ser publicado nacionalmente pela editora Bertrand Brasil. Na primeira parte dessa conversa, Reinaldo comenta a ligação desse texto com duas de suas obras anteriores, sob a forma de uma trilogia (o romance As mãos no fogo e o Poema Graciano, publicados há mais de duas décadas), bem como das aproximações d’A ceia, ambientada no balneário de Manguinhos em fins da década de 70, com a antiguidade clássica, em especial no paralelo com o Satyricon, de Petrônio.
Esta entrevista com Reinaldo Santos Neves se estenderá pelas próximas quarta (10), quinta (11) e sexta-feira (12). O escritor lança A ceia dominicana no próximo dia 18, a partir das 19h, na Biblioteca Pública Estadual, na Praia do Suá.
A ceia dominicana: romance neolatino é a conclusão da trilogia iniciada com dois textos publicados há mais de duas décadas: o Poema graciano (1982) e o romance As mãos no fogo (1983). Por que retomar esse universo, vinte e cinco anos depois?
Projetos literários estão sujeitos a todo tipo de vicissitude, inclusive deserção por parte do autor. No meu caso, se abandonei alguns pra nunca mais, abandonei outros pra retomá-los em outro formato. Dentre estes, posso citar o romance Filhos de Anna: originalmente ambientado em Vitória no século XX, foi a meio caminho transferido pra França do século XIV e convertido na Crônica de Malemort (1978); posso citar também o próprio Mãos no fogo, totalmente reescrito numa linguagem mais elaborada pra substituir a linguagem despojada e enxuta que era a marca da primeira versão. Essas mudanças de formato se fizeram sem longas interrupções: identificada a mudança necessária, tinha início a reformulação do texto. No caso da Ceia dominicana, porém, o intervalo foi bem mais longo entre as duas ou três primeiras tentativas e esta última, que redundou na conclusão do romance. Por outro lado, durante esses 25 anos, em momento algum deixei de acreditar na validade do projeto, de ter fé em sua originalidade e em seu potencial literário. É difícil largar de mão um projeto assim. Além disso, havia a questão de honra de fechar a trilogia anunciada na edição das Mãos no fogo. Assim, minha fidelidade de visionário acabou recompensada: pude encontrar a abordagem que, se não a única possível, me parece ter sido a melhor e mais adequada pra este autor aplicar a este projeto e concluí-lo.

Este livro já está anunciado no texto que Herbert Daniel fez para a orelha de As mãos no fogo. Daniel também já falava, a respeito do que seria essa terceira parte da trilogia, de uma inspiração declarada no Satyricon. Por que optar por esse diálogo com um texto da antiguidade clássica ao escrever uma estória ambientada no balneário de Manguinhos, em pleno final dos anos 70?

Não me lembro hoje, depois de tanto tempo, exatamente o que me deu a idéia de um romance inspirado no Satyricon. No romance Sueli e em correspondência com amigos há referências ao capítulo de cerca de 30 páginas suprimido das Mãos no fogo pra constituir um romance à parte. Em carta de dezembro de 1981 ao escritor João Felício dos Santos sintetizo o projeto como “uma tentativa de recriação moderna da ceia de Trimálquio, do Satyricon” e menciono um dos pratos da ceia, “gato com cerejas, que dizem ser fina iguaria.” Na correspondência posterior o que há são referências eventuais ao conflito entre autor e texto que me levou a uma primeira trégua, na qual me dediquei, por puro diletantismo, à tradução do romance Vendaval na Jamaica, de Richard Hughes, que foi concluída mas não editada. Quanto ao diálogo entre uma história ambientada em Manguinhos e a antiguidade clássica, esclareço que a idéia pro que seria digamos assim um Satyricon brasileiro precede a escolha de Manguinhos como cenário da história: Manguinhos não é cenário do capítulo suprimido, mas do romance que lhe tomou o lugar. E, se o cenário tinha de ser uma praia, porque é numa cidade (não identificada) da baía de Nápoles que se passa boa parte da ação do Satyricon que chegou até nós, era natural que minha escolha recaísse sobre Manguinhos. Manguinhos está no imaginário de toda a minha família. Meu avô materno, Ceciliano Abel de Almeida, já nos anos 20 tinha ali uma casinha de veraneio, e foi lá que se refugiou, como pessoa ligada ao partido da situação, assim que se consumou a vitória dos revolucionários de 1930. Eu mesmo sempre passei as férias lá, desde criança até a idade madura. Aquela velha Manguinhos está guardada dentro de mim com muito carinho. Quanto ao ano do romance, 1979, não podia ser outro: afinal, trata-se de uma seqüência imediata da história das Mãos no fogo, que se situa em fins dos anos 70. O próprio Poema graciano se data a si próprio no verso 351: “ano setenta e nove: eu vinte e sete”.

Em As mãos no fogo, a Vitória do final dos anos 70 está toda lá, retratada de forma um tanto quanto realista. Já a praia de Manguinhos é narrada nA ceia dominicana sob um forte viés do fantástico, do extravagante, o que até nos aproximaria, de certa forma, ao universo da Roma antiga, certo?

Na verdade, o elemento fantástico só se manifestou quando já ia avançado o trabalho de escritura desta versão do romance. Até então, não tinha me passado pela cabeça essa possibilidade: o romance seria tão realista como As mãos no fogo, só que bem mais extravagante, pra usar o seu termo. Aliás, se comparamos, nesse aspecto, A ceia com o Satyricon, vemos que A ceia chega a apelar pro fantástico mais que seu modelo, porque em Satyricon não há nada de explicitamente surreal a não ser uma ou outra história vicária, narrada pelos personagens; há magia, por exemplo, mas não há milagres nem portentos. Mas, à medida que fui desenvolvendo o texto, a dimensão fantástica começou a se impor, o que me pareceu natural e até necessário, porque pavimentava o caminho até o universo de Roma antiga. No entanto, os elementos surreais da Ceia podem até, em grande parte, ser explicados de forma realista, sobretudo se admitirmos que o narrador, como poeta que é, tende a lançar mão de licença poética pra contar a sua história. Convém lembrar que, pra todos os efeitos, A ceia não é um romance de autor, mas de personagem. Seu autor é Graciano Daemon e não Reinaldo Santos Neves. E, sendo Graciano um poeta, é natural que apele não só pro poético, mas também pro fantástico, o que, em termos práticos, dá no mesmo. Me agrada estabelecer um paralelo entre o Graciano narrador da Ceia e o Gulley Jimson narrador de The Horse’s Mouth, do romancista inglês Joyce Cary (falecido em 1957). Jimson é um pintor obsessivo, e assim a história é narrada do começo ao fim pela ótica de um pintor, que tudo vê e tudo expressa plasticamente, atento sempre às cores e às formas do mundo que o cerca.

Nota-se um tom picaresco por todo o romance (algo que inclusive faz ecoar a influência do Satyricon, precursor do gênero), reforçado por uma atitude de se entregar à própria sorte, assumida por Graciano durante os episódios narrados. Podemos pensar numa releitura do gênero nA ceia dominicana?

Segundo P. G. Walsh (The Roman Novel, p. 2 e 4), o romance picaresco não é invenção dos espanhóis, mas dos romanos, com as duas obras-primas que são o Satyricon de Petrônio e o Asno de ouro de Apuleio. No caso específico do Satyricon, temos um romance essencialmente picaresco quinze séculos antes de Lazarillo de Tormes, texto que inaugura o ciclo picaresco espanhol. Assim, com o Satyricon como modelo, A ceia não poderia deixar de seguir o padrão picaresco em sua estrutura narrativa. Ora, muitas características do romance picaresco se encontram na Ceia: narrador na primeira pessoa, narrativa episódica, situações grotescas e ridículas, personagens recorrentes, isto é, que reaparecem ao longo do relato, amoralidade e cinismo, sátira social, digressões sobre a condição humana, histórias vicárias, ou seja, contadas pelos próprios personagens, etc. Sem dúvida nenhuma, A ceia dominicana pode e deve ser classificada como romance picaresco, mas dentro da tradição romana, inclusive porque tem narrador ingênuo (como Encólpio no Satyricon e Lúcio no Asno de ouro), cuja ingenuidade torna-o vítima das circunstâncias. Para ler a entrevista na íntegra, clique nos links a seguir:

http://www.seculodiario.com.br/novo/exibir_noticia_atracao.asp?id=728

http://www.seculodiario.com.br/novo/exibir_noticia_atracao.asp?id=741

http://www.seculodiario.com.br/novo/exibir_noticia_atracao.asp?id=750.




09/12/2008

Edú é blue

Nosso amigo André Tandeta, músico e colaborador do CJUB, comparece pouco aqui no Jazzssen, mas, quando aparece, sempre traz luz e calor aos debates dos quais participa. Num de seus comentários mais recentes, André sustenta com todas as suas baquetas a valorosa colaboração de Edú, nosso correspondente Jazzseen em São Paulo. Segundo Tandeta, Edú é “um valoroso e excelente escriba” além de ser “um conhecedor de jazz” e possuir um “ótimo texto na língua pátria, simples, direto e, pelo visto, livre de certos cacoetes modernos”. Tandeta não apenas está certo, como também faz recordar imediatamente o centenário ensinamento XXVI do jesuíta espanhol Baltasar Gracián (1601-1658), que em sua obra A Arte da Prudência leciona: “Satisfazer-se mais com intenções que com extensões. A perfeição não consiste na quantidade, mas na qualidade. Tudo o que é muito bom sempre foi pouco e raro: o muito é descrédito. Mesmo entre os homens, os gigantes costumam ser os verdadeiros anões. Alguns avaliam os livros pela corpulência, como se escritos para exercitar mais os braços do que os engenhos. A extensão sozinha nunca pôde exceder a mediocridade, e essa é a praga dos homens universais: por quererem estar em tudo, estão em nada. A intensidade dá eminência, e é heróica se em matéria sublime”. Se Tandeta me lembrou Gracián, Gracián me lembra o primeiro encontro que tive com Angela Davis, professora de História da Consciência Negra na University of California, em Santa Cruz. Eu passeava com Bessie, a shar-pei negra de meu primo Juca, quando um chow-chow branco se insinuou saliente. Angela pediu desculpa levemente constrangida com a atitude viril de Daddy.
Enquanto eu sorria, Angela, confusa, deixou cair no gramado um volume de seu Blues Legacies and Black Feminism: Gertrude “Ma” Rainey, Bessie Smith and Billie Holiday. Gentilmente o recolhi e, ato contínuo, perguntei-lhe se era um bom livro, assomando que apreciava muito o blues. Entre tímida e aturdida, Angela confessou-me que era ela a autora e, assim sendo, preferia não manifestar sua opinião. Sorrimos os dois, seguindo pelo gramado do condomínio enquanto trocávamos algumas idéias acerca do blues. Angela reportou que sua releitura do blues clássico trouxe novas perspectivas para esse gênero que sempre foi considerado estéril como música de protesto. Nas páginas 95 (first Vintage Books edition, 1999) e seguintes, Angela faz uma interessante análise paralela de dois blues: Poor Man’s Blues e Washwoman’s Blues, concluindo que Bessie Smith não sofria de nenhuma apatia política como fora tantas vezes acusada, mas apresentava, sim, suas manifestações de protesto quanto às condições de vida do afro-americano e, especialmente, da mulher negra norte-americana que, após a libertação dos escravos, estava condenada a lavar roupa, cozinhar e encerar chão para patrões brancos, além de servir sexualmente a seus violentos maridos. Angela, em seu livro, não se limitou à uma análise estritamente semântica ou sintática das letras cruas, nem tampouco às melodias e aos músicos que a acompanhavam, mas demonstrou de forma inteligente e clara que o blues clássico, com toda a sua simplicidade e objetividade aparente, possuía aquele grau de ironia, conteúdo e qualidade de que nos fala Tandeta e Gracián. Enquanto o amigo Edú não compõe um blues, ficamos com I’m Wild About That Man , com Bessie Smith - a voz mais negra da noite mais profunda, Clarence Williams (p) e Eddie Lang (g), gravada em 1929. A perspicaz escritora, além de traçar com clareza a linha de continuidade entre o blues clássico, o jazz, o rhythm and blues, o funk e o hap, retirando das ingênuas entrelinhas do blues rural do sul e do blues urbano do norte os temperos de protesto, ainda traz todas as letras das canções de Gertrude e Bessie, dificilmente encontradas em outras fontes. Thank you Angela Yvonne Davis. Ou seria a voz mais profunda da noite mais negra? Só mesmo mestre Edú para nos esclarecer.

02/12/2008

Satyagraha

Já era madrugada de sábado quando o professor, amigo e escritor Pedro Nunes me telefonava apenas para comunicar que a morte é a única coisa capaz de abalar a vaidade humana de forma definitiva. Ainda que insistamos, prosseguiu o catedrático, no epitáfio de prata, na lápide de mármore rosa ou no mausoléu de carrara, foi-se no túmulo o derradeiro murmúrio da vaidade. Era essa sua conclusão depois de afilada leitura das Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens, de Mathias Aires, aquele que, segundo afirmava o insone mestre, seria nosso primeiro saliente filósofo. São deles ótimas frases, transcrevia Pedro Nunes: “vivemos com vaidade, e com vaidade morremos; trazem os homens entre si uma contínua guerra de vaidade; e conhecendo todos a vaidade alheia, nenhum conhece a sua: a vaidade é um instrumento que tira dos nossos olhos os defeitos próprios, e faz com que apenas os vejamos em uma distância imensa, ao mesmo tempo que expõe à nossa vista os defeitos dos outros ainda mais perto, e maiores do que são. A nossa vaidade é a que nos faz ser insuportável à vaidade dos mais; por isso quem não tivesse vaidade, não lhe importaria nunca que os outros a tivessem”. Açodado, porquanto recolhesse do madureiro um já alaranjado mamão, cuidei de interromper o empolgado interlocutor para lembrar-lhe que Mathias, nesse mesmo texto, adverte que “nasceu o homem para viver em uma contínua aprovação de si mesmo”. E, embora Mathias não o tenha afirmado, eu poderia apostar que tal aprovação é buscada quase que exclusivamente junto a terceiros, e raríssimo junto a nós mesmos. Enquanto sibilava uma pitada de rapé, concordei com o amigo sobre a beleza e a importância das Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens, quanto mais quando Mathias nos adverte que “o juízo é um entendimento sólido; por isso pode haver entendimento sem juízo, mas não juízo sem entendimento: ter muito entendimento às vezes prejudica, o ter muito juízo sempre é útil; nas ações de um homem conhecemos seu juízo, e no discurso lhe vemos o entendimento: o juízo duvida antes que resolva, o entendimento resolve primeiro que duvide; por isso este se engana pela facilidade com que decide, e aquele acerta pelo vagar com que pondera”. E não foi outro o caso de Martin Luther King Jr., o maior líder negro do século XX.
Nascido em 1929 na Georgia, estado que forneceu tímida fornada de músicos de jazz – lembro agora de dois ou três deles, como Fletcher Henderson, Hank Mobley e Mary Lou Williams – desde cedo convive com a corpulenta discriminação racial do sul norte-americano e, embora fosse filho da classe média, pode testemunhar a profunda segregação, violência e injustiça com que os sulistas negros eram tratados pelos brancos. Como muitos outros negros norte-americanos, King dedicou sua vida à justiça social, baseando sua ação na curiosa idéia da resistência não-violenta, teoria que conhece e simpatiza desde os tempos do colegial, quando lê Essay on Civil Desobedience, de Henry David Thoreau. Em seguida, já em 1951, King decide seguir os passos do pai, pastor da Igreja Batista, ingressando no seminário Crozer. Mais tarde, e já como pastor da Dexter Avenue Baptist Church, King revela-se um brilhante orador, dotado daquela liderança natural que caracteriza certas pessoas, destacando-se na condução do famoso boicote dos ônibus de Montgomery, em 1954. É nesse episódio que King põe à prova, pela primeira vez, sua teoria da não-violência, baseada em parte no que já havia aprendido com Thoreaus, mas também nas lições do teólogo Reinhold Niebuhr sobre o caráter ativo, e não passivo, da resistência pela não-violência, e, sobretudo, na satyagraha, filosofia desenvolvida por Mahatma Gandhi.
Os aspectos fundamentais da teoria elaborada por King são o amor, a compreensão e a benevolência. Para King, resistir de forma não-violenta não significa aceitar passivamente o mal e o ódio, mas confrontá-los com o amor. King não pretende atingir a justiça humilhando ou enganando o adversário, mas convencendo-o de que há um senso moral comum a todos os homens que se propõem a conviver em sociedade, independentemente de sua cor ou sua crença. E para lograr êxito, o adepto da não-violência deve abster-se não somente da violência física, como também e principalmente da violência psicológica. É preciso localizar naquele que nos humilha ou nos odeia a parcela de humanidade que todo ser humano possui, por mais distintos que sejam dos nossos seus valores ou ideais. Como dizia o mestre em seu Pilgrimage to Nonviolence, p. 390 (ver Nonviolence in America: A Documentary History. Ed. Staughton Lynd, Indianapolis: Bobbs Merrill, 1966): “a resistência deve ser dirigida ao mal, não às pessoas que o praticam”. E, embora nesse ponto particularmente eu não concorde com King - a História não depõem nesse diapasão, ele sempre disse que o universo está do lado da justiça. Daí porque, para ele, a não-violência não deve ser utilizada apenas como tática pontual de resistência, mas antes como filosofia linear de vida. Por suas idéias e força, King recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1964 e, quatro anos depois, foi assassinado. Em homenagem a King, deixamos a faixa Struttin’ About retirada do álbum Seven Minds, gravado em 1984 por seu conterrâneo Rufus Reid (na foto acima com o trompetista Woody Shaw). Com ele estão Jim McNelly (p) e Terri Lyne Carrington (d). Que os Dantas e os Queiroz estudem mais a Satyagraha e ponham em prática os ensinamentos de King.

15/06/2008

Livro: Dicionário de Eça de Queiroz

Livro: Dicionário de Eça de Queiroz - A. Campos Matos - Lisboa: Caminho, 1988 - Perdi ao menos duas belas namoradas por culpa de meu amor incondicional à música e à literatura. Uma delas, Janaína, morena jambo com olhos enormes cor de jabuticaba, foi quando ouvíamos as bachianas de Villa-Lobos e ela, como que querendo iniciar algum assunto para reduzir o silêncio da música, disse que sempre adorou o velho Heitor, sobretudo sua belíssima O Guarani que, orgulhosa, assistira no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Depois foram muitas as lágrimas derramadas com a perda de Lícia, uma rosácea descendente de poloneses cuja pele parecia derreter apenas com um olhar. Em visita à Biblioteca Nacional, com suas gigantescas estantes carregadas de ácaros e cultura, Lícia não conteve sua emoção diante dos raios de sol que emaranhavam-se pelas janelas do velho edifício, iluminando os centenários tomos ali dispostos, e confessou que um dos melhores livros que já lera fora O Quinze, da magnífica cearense Eça de Queiroz. Pensei em conversar com ela sobre Portugal e Rachel, velha amiga, mas preferi terminar meu churros a revirar lembranças que poderiam nos remeter ao Auto da Barca do Inferno, de Gilberto Gil, virtuose do berimbau de duas cordas que abandonara a música clássica baiana para dedicar-se ao cordel. Que meus amigos Pedro Nunes e Francisco Grijó me perdoem, com as bênçãos de Santos Neves, mas desde meus impúberes anos sempre tive uma atração incontrolável por dicionários. Já aos 10 anos furtava páginas deliciosas da Enciclopédia Mirador de meu distraído avô, incapaz de denunciar-me pois era por trás de seus volumes que o bondoso ancião escondia seu maço de Continental sem filtro. Só nós dois sabíamos do delituoso segredo.

O tempo passou, minha avó continuou sentindo cheiro de tabaco nas cortinas e, recentemente, percebi que boa parcela de minha biblioteca é composta por dicionários. Desde um magnífico de filosofia, em quatro volumes, do espanhol Ferrater Mora, até um sobre vampiros, passando por um de escritoras brasileiras (sim, Lícia, elas existem), outro de arquétipos literários russos e outro de yorubá-javanês, de Lima Barreto. Pois bem, aqui estamos, eu e minha máquina fotográfica (não encontrei fotos na net) diante de um dos livros que mais prazer e orgulho me dão, um dicionário sobre Eça, aquele bacharel em Direito que viajou pelo Egito, morou em Cuba e Inglaterra, escreveu para diversos jornais, inclusive para o carioca Gazeta de Notícias, autor de magnífica obra, uma das mais convincentes da língua portuguesa. Quem pode passar pela vida e não ler A Ilustre Casa de Ramires, Os Maias, O Primo Basílio ou A Cidade e as Serras?

E para aqueles que já leram tudo do genial cearense, nada como esse fabuloso dicionário, um trabalho de fôlego que nos concede informações e notas que só fazem confirmar o valor da obra e emocionar com a vida desse homem singular.

03/06/2008

Elas Também Tocam Jazz - Sophie Alour

E nós gostamos da saxofonista Sophie Alour, Mr. Lester? Sim Mr. Scardua, nós gostamos dela. É o tipo de assunto que me alegra e me faz lembrar de nosso poeta mais feliz: Vinicius, o de Moraes. A certa altura, em seu livro O Sentimento Do Sublime, ele diz:

Meus amigos, meus irmãos, cegai os olhos da mulher morena
Que os olhos da mulher morena estão me envolvendo
E estão me despertando de noite.
Meus amigos, meus irmãos, cortai os lábios da mulher morena
Eles são maduros e úmidos e inquietos
E sabem tirar a volúpia de todos os frios.


E por aí vai, até que, a certa altura, o poeta suplica que o salvem dos braços da mulher morena, porque:

Eles são lassos, ficam estendidos imóveis ao longo de mim
São como raízes recendendo resina fresca
São como dois silêncios que me paralisam.
Dois silêncios Mr. Lester? Sim, Mr. Scardua, existem coisas assim. Os lábios e os braços de Sophie têm um pouco da mulher morena de Vinicius. A saxofonista Sophie Alour tem a boca, os braços e, seguramente, as mãos da mulher morena. Claro, sua linguagem não é a linguagem dos naufrágios sussurrados nas madrugadas. Seu alfabeto são as notas musicais e sua gramática é o improviso. E para aqueles que procuram algo novo no jazz, e algo feito por uma mulher morena, Sophie pode ser um excelente objeto de investigação. Ela nasceu francesa faz cerca de 30 anos e, desde logo, partiu pela estrada esburacada do autodidatismo, com todos os solavancos e curvas que costumam importunar os aventureiros viajantes. Aos treze anos já tocava o clarinete, aos dezenove descobre o saxofone e, ao lado da Vintage Orchestra, estabelece sua posição como instrumentista. Nos anos seguintes teve seus sextetos, participou de outras big bands até que, em 2004, encontra outra mulher morena, a organista Rhoda Scott, com quem aprendeu os temperos e sabores da África. Em 2005 lança seu primeiro álbum, Insulaire, estabelecendo-se como uma dos principais saxofones franceses de sua geração. Maleável como toda mulher morena, Sophie percorre todas as possibilidades do jazz moderno, desde os trabalhos mais tradicionais e acústicos até experiências elétricas pouco ortodoxas, como o trabalho com Benjamin Roy e seu álbum DJ Killer. E todos estes temperos e kilowatts estão presentes em seu último álbum, Uncaged. Mas, lá no fundo, podemos perceber o silêncio da mulher morena. E nós gostamos, Mr. Scardua. Para os amigos ( ). Boa audição.

11/05/2008

Queiroz?

Livro: Dicionário de Eça de Queiroz - A. Campos Matos - Lisboa: Caminho, 1988 - Perdi ao menos duas belas namoradas por culpa de meu amor incondicional à música e à literatura. Uma delas, Janaína, morena jambo com olhos tais imensas jabuticabas, foi quando ouvíamos as bachianas de Villa-Lobos e ela, como que querendo iniciar algum assunto para reduzir o silêncio da música, disse que sempre adorou o velho Heitor, sobretudo sua belíssima O Guarani que, orgulhosa, assistira no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Depois foram muitas as lágrimas derramadas com a perda de Lícia, uma rosácea descendente de poloneses cuja pele parecia derreter com o olhar. Em visita à Biblioteca Nacional, com suas gigantescas estantes carregadas de ácaros e cultura, Lícia não conteve sua emoção diante dos raios de sol que emaranhavam-se pelas janelas do velho edifício, iluminando os centenários tomos ali dispostos, e confessou que um dos melhores livros que já lera fora O Quinze, da magnífica cearense Eça de Queiroz. Pensei em conversar com ela sobre Portugal e Rachel, velha amiga, mas preferi terminar meu churros a revirar lembranças que poderiam nos remeter ao Auto da Barca do Inferno, de Gilberto Gil, virtuose do berimbau de duas cordas que abandonara a música clássica baiana para dedicar-se ao cordel. Que meus amigos Pedro Nunes e Francisco Grijó me perdoem, com as bênçãos de Santos Neves, mas desde meus impúberes anos sempre tive uma atração incontrolável por dicionários, em especial os velhos e mofados. Já aos 10 anos furtava páginas deliciosas da Enciclopédia Mirador de meu distraído avô, incapaz de denunciar-me pois era por trás desses aviltados volumes que o bondoso ancião escondia cuidadosamente seu maço secreto de Continental sem filtro. Só nós dois sabíamos do criminoso segredo, e assim deveria continuar sendo. O tempo passou, a estante de meu avô foi minguando, minha avó continuou sentindo cheiro de tabaco nas cortinas e, recentemente, percebi que boa parcela de minha biblioteca é composta por dicionários. Desde um magnífico de filosofia, em quatro volumes, do espanhol Ferrater Mora, até um sobre vampiros, passando por um de escritoras brasileiras (sim, Lícia, elas existem), outro de arquétipos literários russos e outro de yorubá, escrito por Lima Barreto, meu professor de javanês. Pois bem, aqui estamos, eu e minha máquina fotográfica (não encontrei fotos do dicionário na net) diante de um dos livros que mais prazer e orgulho me dão, um dicionário sobre Eça, aquele bacharel em Direito que viajou pelo Egito, morou em Cuba e Inglaterra, escreveu para diversos jornais, inclusive para o carioca Gazeta de Notícias, autor de magnífica obra, uma das mais sólidas, convincentes e agradáveis da língua portuguesa. Quem pode passar pela vida e não ler A Ilustre Casa de Ramires, Os Maias, O Primo Basílio ou A Cidade e as Serras? E para aqueles que já leram tudo do genial cearense, nada como folhear esse fabuloso dicionário com mais de 1.000 páginas, um trabalho de fôlego que nos concede informações e notas que só fazem confirmar o valor da obra e nos emocionar com belos parênteses sobre a vida desse singular sertanejo.

20/04/2008

Livro: The Fire Of Tongues

The Fire Of Tongues: Antônio Vieira And The Missionary Church In Brazil And Portugal - Thomas M. Cohen - California: Stanford University Press, 1998. - O padre Antônio Vieira é muito mais conhecido como um grande escritor da língua portuguesa, ainda que sua participação no projeto de dominação católica sobre os povos do Novo Mundo seja sua obra de maior e mais importante relevo. Em seus quase 70 anos de catequese, Vieira vislumbrou e defendeu o papel de destaque e preeminência, de caráter até mesmo profético, do império português no processo de catequização dos povos colonizados. Nesse livro magistral de Cohen, que além de curador da biblioteca Oliveira Lima é professor de História na Catholica University of America, fica evidente o atrito constante entre alguns ideais cristãos e o projeto imperialista português, assinalado aqui, sobretudo, na terra do pau brasil. Habilidoso, perspicaz, extremamente inteligente e antenado, Vieira percebeu e denunciou por escrito diversas inconsistências existentes entre o projeto imperialista adotado pela coroa portuguesa e as palavras de Jesus, sendo, por isso, vigiado e devidamente punido pela Inquisição. O livro açambarca três importantes períodos de Vieira: sua primeira visita ao Brasil, fixado na Amazônia (1653-1661), os cincos anos que passou sob custódia da Inquisição (1663-16667) e seu retorno ao Brasil (1681-1697). Sempre apoiado em seus famosos 'Sermões', Cohen desenvolve sua análise das idéias do jesuíta com fina percepção, destacando pontos que, de fato, revelam a coragem, a originalidade e o espírito revolucionário desse levado jesuíta. Apenas como exemplo, separo o seguinte trecho, que julgo formidável: "Analyzing the gift of prophecy, Vieira argued that every member of society was a potential prophet. This affirmation had a temporal corollary in Vieira's interpretation of the gift of apostleship. Every group that participated in the imperial project - the crown and the settlers, the missionaries and the Indians, the Inquisitors themselves - had a role to play in the schema of progressive revelation that Vieira drew from Scripture and them read into Potuguese history and the history of the missionary church. Vieira assigned no special status to the eclesiastical hierarchy in the interpretation of Scripture; and he claimed that lived experience is a more valuable guide than scholarship for understanding the accidents and contingencies that mark the pilgrimage of the missionary church". Tirando a participação dos inquisidores (que, acredito, só foram incluídos por Vieira para que não o queimassem), tenho como certo que Vieira, se acaso nascido em New Orleans, por volta de 1900, seria um genial músico de jazz e aprontaria muito com Jelly Roll Morton no Storyville. Por fim, não há como ler essa passagem e não lembrar de Mr. Salsa tocando seu sax: puro sentimento, moldado nos bares da vida e nas toruosas vielas e becos, mandando às favas partituras, fórmulas e teorias prontas. Grande livro, grande padre, grande saxofonista. Recomendo os três. E cuidado com os inquisidores de hoje: eles estão à espreita, na defesa do Estado Policial de Mr. Lula e seus amigos corporativos.

11/02/2008

Livro: Huellas de Las Literaturas Hispanoamericanas

Livro: Huellas de Las Literaturas Hispanoamericanas - Garganigo, Heller & Sklodowska et all - New Jersey: Prentice Hall, 1997 - E quem disse que os espanhóis trouxeram somente tirania, tortura e morte à Amércia? A belíssima literatura espanhola já acompanhava Colombo em seu diário de bordo. O dia 12 de outubro de 1492 inicia também o massacre das literaturas azteca e maia, cujo Canto de angustia de la conquista: la visión de los vencidos, ilustra belamente o criminoso descobrimento. Com excelentes textos muito bem comentados, o grupo de professores universitários responsável por esse magnífico livro ilustra momentos-chave da literatura hispano-americana, passando por Sor Juana Inés de la Cruz, Esteban Echeverría, Horacio Quiroga, Gabriela Mistral, Pablo Neruda, José Carlos Mariátegui, Jorge Luis Borges, Asturias, Carpentier, Cortázar, García Márquez, Octavio Paz (quem, aliás, escreveu um excelente estudo sobre Juana Inés de la Cruz, lançado em português no Brasil), Parra, Dragún, Cabrera Infante, Valenzuela, Ferré, Menchú e muitos, muitos outros nomes importantes dessa, por que não dizer, também nossa literatura. Guia rico, bem elaborado, repleto de fontes e informações fundamentais para quem pretende conhecer um pouco o tema, além de facilitar uma primeira abordagem à literatura de um povo 'siervo por naturaleza' como afirmou Ginés de Sepúlveda. Recomendo com ênfase.