30/04/2008

Joe Bushkin

Aproveito que o Jazzseen está falando a respeito do swing para escrever sobre um pianista que poucos ouvintes de jazz conhecem: Joe Bushkin. Um excelente pianista do swing, infelizmente Joe resolveu trocar o jazz pela música pop e terminou seduzido pela Brodway. Nascido em New York, em 1916, Bushkin era filho de um violoncelista que logo providenciou sua formação musical. Na adolescência, depois de um acidente de bicicleta que lhe danificou alguns dedos, trocou o piano pelo trompete. Rapidamente, no entanto, retorna ao seu instrumento principal, passando a tocar jazz com alguns amigos do colégio. Sua amizade com Irving Goodman, irmão de Benny, lhe valeu excelentes contatos na Costa Leste, o que lhe permitiu estrear profissionalmente em 1932 com Frank LaMarr no famoso clube Roseland Ballroom, de New York. Aos 19 anos Joe assinava contrato com Bunny Berigan, apresentando-se no Famous Door (1935) e gravando com Billie Holiday (1936). Ao mesmo tempo, trabalhava com Eddie Condon, Louis Prima, Muggsy Spanier e Joe Marsala. Entre 1940 e 1942 Joe foi o pianista da orquestra de Tommy Dorsey, com a qual gravou seu sucesso “Oh! Look at me now”. Após o serviço militar, passa a integrar a banda de Benny Goodman, substituindo o pianista Mel Powell. Em 1949 atua e toca na peça “The rat race” de Garson Kanin, na Brodway. No início da década de 1950 passa a ser o pianista do clube Embers, em New York. Em 1953, viaja e grava com Louis Armstrong. Joe chegou a ter seus próprios conjuntos nas décadas de 50’ e 60’. Após um repouso de cinco anos, volta a tocar, acompanhando o cantor Bing Crosby numa turnê na década de 70’. Depois disso, ainda tocou algum tempo, retirando-se da cena musical na década de 80’. Após algumas apresentações esporádicas, Joe morre em 2004, em Santa Barbara. Para os amigos, recomendo um cd da Collectables contendo dois álbuns do pianista Joe Bushkin: Piano Moods (), de 1950 e After Hours (), de 1951.

27/04/2008

Elas Também Tocam Jazz : Renee Rosnes

Definitivamente, o ambiente globalizado é um território muito mais acolhedor que uma aldeia para a pianista, arranjadora e compositora canadense Renee Rosnes. Nascida em 24 de março de 1962 na comunidade indígena Saskatchewan às margens do Lago Cowichan, província da Colúmbia Britânica, e filha biológica da nativa Mohinder Randhawa. Aos 4 meses, foi adotada pela família de um operário do norte de Vancouver. Martelando com insistência nas teclas do piano, aos três anos, obtém mais alegria que o convívio de suas bonecas. Aos 5, quis aprender violino. Ouvinte na adolescência de Oscar Peterson, Cedar Walton e Herbie Hancock deslumbra-se com o jazz. Ingressando, no entanto, ao final do período colegial, no curso de piano clássico da Univ. de Toronto. Nas horas livres gasta seu tempo tocando e ganhando “algum adicional” nos clubes de jazz e nas apresentações da rádio educativa. Diante de seu virtuosismo, recebe uma bolsa da “Canada Council of the Arts” pra aperfeiçoar-se em NY, em 86. Logo consegue trabalho, entrando nos grupos do trombonista J.J. Johnson, dos saxofonistas Wayne Shorter, Joe Henderson e do trompetista Freddie Hubbard. Era o início de uma ascensão meteórica. Em 90, assina com o selo Blue Note gravando seu primeiro disco com seu nome ao título e as participações de Branford Marsalis, Shorter (sax), Ron Carter (b ac) além do próprio Hancock, num dueto. No trabalho seguinte,“Without Words”, aventura-se no acompanhamento com cordas. Nos títulos de seus discos posteriores parece tentar revelar, de certo modo, suas confissões íntimas e emotivas: “For the Moment” (90), “Ancestors”(95)”, “As We Are Now”(97), “Art & Soul”(99). Determinada a reconhecer sua origem, Renee localiza sua mãe biológica em 94 quase ao mesmo tempo em que recebe a noticia que a adotiva, Audrey, tem diagnosticado um câncer terminal. Essa combinação perversa de sensações: a da tragédia e alegria, servem de material de inspiração “comovida” em Ancestors (tradução livre: ancestrais). Em cumplicidade com músicos do calibre de Chris Potter(sax), Christian Mc Bride(b), Billy Drummond (bat e ex-marido), Walt Weiskopf(sax), Lewis Nash(bat) entre outros, exercita a constante busca pela inovação com certa dose de ousadia. Utilizando a linguagem do jazz, no caso, a do hard bop, como guia nas improvisações associadas a técnica clássica com o “tempero” do swing e a riqueza no desenvolvimento melódico. Em Life on Earth(2002), aborda a world music, sem usar tacape, cocar e nem os atabaques do Olodum. Apenas, uma interessada pesquisa das manifestações musicais africanas e do Brasil, distante de qualquer viés oportunista. Quando recolheu esse material levou em consideração sua qualidade musical, não apenas a origem étnica em si. Da musica brasileira gravou temas de Egberto Gismonti e Edu Lobo. Na atualidade consegue, sabe-se lá como, tempo pra participar de forma quase simultânea como “sidewoman” dos grupos de Bobby Hutcherson(vib), James Moody(sax) e da Dizzy Gillespie All-Star Big Band. Ainda enfrentando, em certos períodos do ano, os 4.200 km que separam Nova York, sua morada , até São Francisco, sede da SF Jazz Collective, uma ONG de jazz fundada em 2003 dedicada a criação coletiva e estudo das obras dos grandes compositores originais. Os resultados são ministrados em “workshops” e conferidos para apreciação pública nas apresentações do grupo - um oiteto (tema de uma resenha detalhada futura). No final de agosto de 2007, Rosnes casou-se - pela segunda vez - com o pianista Bill Charlap e certamente já determinou quem faz uso no lar, prioritariamente, de um dos dois pianos Steinway Grand, presenteados pelo fabricante. Ouça Renee ( ) aqui.

25/04/2008

Começa hoje: Piri Jazz Festival

Tombada como patrimônio histórico e artístico nacional, a cidade goiana de Pirenópolis cedia festival de jazz e presta tributo ao trompetista Márcio Montarroyos. A cidade abriga, nos dias 25, 26 e 27 de abril, o primeiro Piri Jazz Festival. O evento contará com a presença de alguns dos mais importantes nomes da música brasileira, entre eles Rosa Passos, João Donato, Sambajazz Trio e Duofel. Rosa Passos – considerada uma legítima herdeira de João Gilberto - fará o show de abertura do festival, no dia 25, às 21 horas, no tradicional e inteiramente restaurado Teatro Pireneus, uma das jóias da bela cidade de Pirenópolis. O Festival é gratuito (muitos shows acontecerão ao ar livre) mas para as apresentações no Teatro os organizadores pedem que o público leve dois quilos de alimentos não perecíveis.Um momento especial do Piri Jazz Festival será a histórica homenagem que o evento vai prestar à memória de Márcio Montarroyos, provavelmente o maior trompetista que o Brasil já conheceu. O tributo ficará a cargo de outro virtuose do instrumento, Joatan Nascimento. Ao lado de seu quarteto e de Serginho do Trombone, Joatan abordará o legado do músico nascido no bairro do Grajaú do Rio de Janeiro e falecido em dezembro do ano passado. Extremamente ativo nos anos 70, Márcio Montarroyos se tornaria um músico obrigatório nas sessões de gravações de astros da MPB - como Sérgio Mendes, Tom Jobim, Milton Nascimento, Ney Matogrosso, entre dezenas de outros - e de estrelas internacionais do jazz e do pop, como, por exemplo, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Steve Wonder, Carlos Santana e Nancy Wilson. Nessas gravações e em seus discos solos, no início da era de manipulação dos sons em estúdio, Montarroyos imprimiria sua marca registrada (imediatamente reconhecida e imitada por instrumentistas de todo o mundo), um tipo de efeito cunhado como “cascata de ecos”. Em 1995, ele gravou Congada, disco inspirado no congado, manifestação religiosa trazida da África para o Brasil, especialmente Minas Gerais, e disseminada durante o ciclo da mineração, chegando a atingir o estado de Goiás, onde costuma ser ouvida na Festa do Divino Espírito Santo. Essa homenagem a Márcio Montarroyos na cidade de Pirenópolis, um dos centros da Folia de Reis de Goiás é, portanto, uma manifestação simbólica do sincretismo entre a música brasileira de raiz e seus desdobramentos urbanos e sofisticados. O Festival: Numa realização ousada da Prefeitura de Pirenópolis, o Piri Jazz Festival é uma importante iniciativa no sentido de consolidar a cidade como um dos mais importantes pólos culturais do Centro-Oeste. Detentora de um valioso patrimônio arquitetônico, conhecida nacionalmente por abrigar a espetacular “Cavalhada” e realizar uma das mais belas Festas do Divino do Brasil, a cidade se orgulha, também, de possuir a mais antiga igreja do estado. Construída entre 1728 e 1731, inspirada no barroco português, a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário - inteiramente restaurada depois de ser sido praticamente destruída por um incêndio - compõe com os casarios da Rua Direita, um dos mais homogêneos conjuntos arquitetônicos do ciclo do ouro do Brasil colonial. O evento terá oito shows:
( 2 shows no Teatro Pirineus) Entrada : dois quilos de alimento
(6 shows no palco na Rua do Rosário) Entrada: gratuito
ATRAÇÕES DIA 25/04 – SEXTA-FEIRA 21h - Teatro Pireneus - Rosa Passos e trio (Bsb e SP)DIA 26/04 – SÁBADO 17h - Rua do Rosário (centro histórico) - Renato Vasconsellos Quarteto (Bsb) - Joatan Nascimento Quinteto (Salvador) - Yamandu Costa Trio (Rj E Sp)21h – Teatro dos Pireneus - João Donato e Trio ( RJ) DIA 27-04 – DOMINGO 16h - Rua do Rosário (centro histórico) - Marcelo Maia Trio (Goiânia) - Sambajazz Trio (RJ)Duofel (SP)

22/04/2008

Swing - Parte I

A música popular norte-americana produzida na década de 1920 foi rica em ‘bandas’ populares de diversos tipos e formações: marching bands, quadrille orchestras, plantation brass bands, light music e salon orchestras, quase todas elas com menos de dez integrantes. Por outro lado, os chamados ‘combos’ de jazz dos anos 1920, nascidos a partir das brass bands de New Orleans, quase sempre possuíam seis integrantes básicos: corneta, clarinete, trombone, banjo, tuba e bateria. O violino também era encontrado com bastante freqüência e, quando não estavam tocando nas ruas, em picnics ou cemitérios, esses combos também utilizavam o piano e, mais tarde, o contrabaixo no lugar da tuba e a guitarra no lugar do banjo. Embora alguns poucos críticos discordem, o fato é que não temos notícia da utilização de saxofones nesses primeiros combos, salvo raríssimas exceções. Assim, denominar a Era do Swing como a Era das Big Bands equivale a não dizer quase nada. De fato, as bandas de swing nascem a partir da estrutura dos combos, mas com uma característica essencial em sua formação: o surgimento das seções de saxofones (reed sections). Ordenados como nos coros, as big bands iniciais do swing possuíam um saxofone alto, um ou dois saxofones tenores e, mais raramente, um saxofone barítono. Na maioria dos casos o instrumento líder era um saxofone alto, quase sempre capaz de tocar também o clarinete. Claro que, aqui e ali, surgiam variações, como nas bandas de Glenn Miller ou Benny Goodman, onde o clarinete ainda se mantinha como instrumento líder. Em outras bandas havia acréscimos de determinadas ‘vozes’, como na de Woody Herman, onde três saxofones tenores davam um ar mais soturno e grave à sua orquestra ou, ainda, na de Claude Thornhill, onde trompas (french horns) e clarinetes eram adicionados, fornecendo-lhe aquela aura etérea de música de câmera. Mas fica claro, então, que as big bands do swing, embora não fossem ‘big’, eram somente um pouco maiores que os combos que lhes deram origem, tendo em média 14 integrantes dispostos em três seções (sections): rítmica (rhythm), de metais (brass) e de saxofones (reed). A seção rítmica era formada normalmente por piano, guitarra, contrabaixo e bateria. A seção de metais era dividida em trompetes (trumpet section) e trombones (trombone section), variando entre dois e cinco trompetistas e entre um e cinco trombonistas. A seção de saxofones ficava separada dos instrumentos de metal, embora, tecnicamente, o saxofone também seja um instrumento feito de metal. É que o saxofone, assim como a flauta, tem sua origem a partir dos instrumentos de sopro de madeira (woodwind), como o clarinete e o oboé, tendo com eles em comum o fato de possuir palheta em sua boquilha (trompete e trombone não possuem palheta). Normalmente a seção de saxofones possuía de três a cinco instrumentos e, a partir do final da década de 1930, o padrão era dois saxofones altos, dois tenores e um barítono. O saxofone soprano (assim como o saxofone baixo) nunca foi muito comum nas bandas de swing, embora sua presença tenha sido significativa em alguns casos, como no de Sidney Bechet que, durante a era do swing, trocou o clarinete pelo saxofone soprano. Em regra, os líderes das seções de metais e de saxofones ocupavam o lugar central na orquestra, ficando os demais instrumentistas dispostos em linha, ao lado do líder. Era comum, ainda, que os saxofonistas tocassem outros instrumentos, em especial o clarinete. Além do domínio do saxofone sobre seus rivais trompete e clarinete no papel de instrumento solista, o Swing trouxe uma série de inovações em relação aos estilos anteriores do jazz – New Orleans e Chicago. No Swing observamos a utilização sistemática de arranjos escritos, ao lado de uma redução drástica da improvisação coletiva, destacando-se cada vez mais o papel do solista. Há também uma alteração importante do ritmo que passa do simples two beats para o mais sutil e suave swing eighth-note patterns, sobre o qual discorreremos mais adiante. Outras mudanças importantes são o abandono da lenta e sonolenta tuba pelo contrabaixo, instrumento que, nas mãos de músicos como Jimmy Blanton, revelaria sua insuspeita vocação melódica, além de permitir uma crescente complexidade rítmica, cujos resultados seriam absorvidos mais tarde pelo bebop. A bateria (assim como o contrabaixo), inicialmente limitava-se a marcar o tempo para que o público pudesse dançar confortavelmente – não podemos esquecer que o principal objetivo das bandas de swing era produzir música para dança. Embora mais lentamente que o contrabaixo, a bateria também avançaria além dos simples recursos de efeito e embelezamento, participando cada vez mais da ampliação do papel desse instrumento no jazz. Ao contrário do primeiro jazz, onde músicos amadores permitiam-se tocar de ouvido como bem entendessem, no Swing os músicos demonstram crescente habilidade técnica, agilidade, afinação e passam a ser obrigados a ler partituras, sob pena de não serem contratados pelas grandes orquestras. Em nossa próxima resenha sobre o Swing vamos conversar sobre outras características desse estilo incrível e importante para a história do jazz. Para tanto será preciso ter em mente que o Swing foi o estilo mais popular e de maior sucesso do jazz, sucesso jamais igualado pelos demais estilos que o precederam ou sucederam. Enquanto isso, podemos ouvir Fletcher Henderson ( ) aqui.