11/05/2008

Queiroz?

Livro: Dicionário de Eça de Queiroz - A. Campos Matos - Lisboa: Caminho, 1988 - Perdi ao menos duas belas namoradas por culpa de meu amor incondicional à música e à literatura. Uma delas, Janaína, morena jambo com olhos tais imensas jabuticabas, foi quando ouvíamos as bachianas de Villa-Lobos e ela, como que querendo iniciar algum assunto para reduzir o silêncio da música, disse que sempre adorou o velho Heitor, sobretudo sua belíssima O Guarani que, orgulhosa, assistira no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Depois foram muitas as lágrimas derramadas com a perda de Lícia, uma rosácea descendente de poloneses cuja pele parecia derreter com o olhar. Em visita à Biblioteca Nacional, com suas gigantescas estantes carregadas de ácaros e cultura, Lícia não conteve sua emoção diante dos raios de sol que emaranhavam-se pelas janelas do velho edifício, iluminando os centenários tomos ali dispostos, e confessou que um dos melhores livros que já lera fora O Quinze, da magnífica cearense Eça de Queiroz. Pensei em conversar com ela sobre Portugal e Rachel, velha amiga, mas preferi terminar meu churros a revirar lembranças que poderiam nos remeter ao Auto da Barca do Inferno, de Gilberto Gil, virtuose do berimbau de duas cordas que abandonara a música clássica baiana para dedicar-se ao cordel. Que meus amigos Pedro Nunes e Francisco Grijó me perdoem, com as bênçãos de Santos Neves, mas desde meus impúberes anos sempre tive uma atração incontrolável por dicionários, em especial os velhos e mofados. Já aos 10 anos furtava páginas deliciosas da Enciclopédia Mirador de meu distraído avô, incapaz de denunciar-me pois era por trás desses aviltados volumes que o bondoso ancião escondia cuidadosamente seu maço secreto de Continental sem filtro. Só nós dois sabíamos do criminoso segredo, e assim deveria continuar sendo. O tempo passou, a estante de meu avô foi minguando, minha avó continuou sentindo cheiro de tabaco nas cortinas e, recentemente, percebi que boa parcela de minha biblioteca é composta por dicionários. Desde um magnífico de filosofia, em quatro volumes, do espanhol Ferrater Mora, até um sobre vampiros, passando por um de escritoras brasileiras (sim, Lícia, elas existem), outro de arquétipos literários russos e outro de yorubá, escrito por Lima Barreto, meu professor de javanês. Pois bem, aqui estamos, eu e minha máquina fotográfica (não encontrei fotos do dicionário na net) diante de um dos livros que mais prazer e orgulho me dão, um dicionário sobre Eça, aquele bacharel em Direito que viajou pelo Egito, morou em Cuba e Inglaterra, escreveu para diversos jornais, inclusive para o carioca Gazeta de Notícias, autor de magnífica obra, uma das mais sólidas, convincentes e agradáveis da língua portuguesa. Quem pode passar pela vida e não ler A Ilustre Casa de Ramires, Os Maias, O Primo Basílio ou A Cidade e as Serras? E para aqueles que já leram tudo do genial cearense, nada como folhear esse fabuloso dicionário com mais de 1.000 páginas, um trabalho de fôlego que nos concede informações e notas que só fazem confirmar o valor da obra e nos emocionar com belos parênteses sobre a vida desse singular sertanejo.

09/05/2008

Swing, o selo

Já dissemos, e não seria apropriado repetirmos, que qualquer dicionário sobre jazz deve reservar ao menos três verbetes para o vocábulo ‘swing’. Sobre um deles, o swing enquanto atributo rítmico do jazz, já traçamos modestas linhas (ver aqui). Do swing enquanto estilo de jazz, Mr. Lester promete editar uma série específica de resenhas quinzenais, para leitura, crítica e sugestão dos leitores. Por agora, falaremos sobre swing enquanto selo francês de jazz. Criado em 1937 como um dos segmentos da gigante EMI, o selo Swing tinha sua direção de artistas e repertório a cargo de dois grandes amantes do jazz: Charles Delaunay e Hugues Panassié. As gravações e a distribuição ficavam a cargo da EMI que, por diversas oportunidades, encomendou gravações de outros pequenos selos, dentre eles Dial, Pacific Jazz, Fantasy, e outras. O respeitável catálogo da Swing inclui verdadeiras jóias da história do jazz, como gravações do Quintette du Hot Club de France e gravações de diversos músicos norte-americanos que visitaram a Europa naquela época, como Benny Carter, Coleman Hawkins, Dicky Wells, Garland Wilson, além de músicos franceses dedicados ao jazz. Durante a ocupação nazista (1940-1944), mesmo com o jazz sendo proibido na França, verificamos o aumento nas vendas de gravações de jazz e o selo se torna um sucesso. Nesse período a gravadora utilizou músicos locais, antilhanos e alguns norte-americanos que não haviam sido enviados para os campos de concentração, como foi o caso do trompetista Harry Cooper. Após a guerra, o selo continuou a encomendar gravações realizadas nos EUA, para lançamento na Europa, até que, em 1948, passa para o controle da Vogue, sob direção de Delaunay, gravando e produzindo álbuns com músicos locais e norte-americanos durante toda a década de 1950. O antigo catálogo da Swing, que continua sendo propriedade da EMI, tem sido utilizado por diversas gravadoras que recolhem material do rico acervo e lançam excelentes coletâneas sobre o Swing, entre elas a formidável série Jazz in Paris. Para os amigos, fica ( ).

06/05/2008


  • Jazz na França

  • Swing

    A palavra ‘swing’ determina, ao menos, três significações fundamentais para o dicionário do jazz. Quando iniciada com letra maiúscula, a palavra Swing tanto serve para designar o segundo maior estilo do jazz (o primeiro foi o New Orleans) quanto para dar nome a um importante selo francês de jazz. Já quando escrita com s minúsculo, a palavra swing serve para designar uma qualidade atribuída às performances de jazz. Embora muitos músicos e estudiosos tenham tentado, até hoje não se conseguiu (Deus existe!)descrever ou definir satisfatoriamente o que seria o swing (alguns românticos batem na mesa e chegam a afirmar que é impossível colocá-lo numa partitura). Para outros, o swing não pode ser explicado em sua plenitude, mas apenas sentido. É como diz a velha máxima atribuída a Mestre Grijó: se você precisa perguntar o que é swing, então jamais saberá. E, na verdade, os próprios músicos de jazz parecem não se importar muito com a questão. A maioria dos especialistas que se aventuram a decifrar o swing parece concordar que ele é, essencialmente, um fenômeno rítmico, isto é, a coisa toda se dá a partir da pulsação ou ‘batida’ (beat). Será no conflito entre uma pulsação fixa (fornecida pela seção rítmica) confrontada e desafiada por diversas pulsações distintas (fornecidas pelos demais instrumentos) que encontraremos o swing. A partir dessa pulsação básica, fornecida quase sempre pelo contrabaixo e pela bateria, os demais músicos da banda apresentam suas variações de ritmo, seja através de síncopes (inversões nas acentuações do tempo forte do compasso), superposição de outro ritmo, aceleração ou desaceleração do tempo, inflexões inusitadas de certas notas, alterações de timbre, vibratos e muitas outras estratégias, sem falar na alteração do ritmo pela própria seção rítmica, quando contrabaixo e/ou bateria também participam ativamente da produção do swing desejado. Sim, porque há diversos tipos de swing, por isso há diversos estilos de jazz. Claro que houve uma época em que swing e jazz significaram a mesma coisa, exatamente no período que estamos tratando, denominado de Era do Swing ou Era do Jazz. Por sua extrema popularidade e sucesso, a espécie (Swing) acabou por dar nome ao gênero (jazz).

    Na verdade, o swing do Swing ( ) foi realmente contagiante, mas é preciso deixar claro que há o swing do New Orleans, o swing do Bebop ( ) e assim por diante. Bem, por volta de 1930, ao contrário do que ocorria no estilo anterior, o New Orleans, observamos que no Swing o improviso coletivo foi substituído pelo improviso solo, os conjuntos aumentaram, o repertório é baseado na música popular norte-americana (Tin Pan Allen), ampliando consideravelmente o repertório do jazz e angariando uma parcela muito mais ampla do público e, mais que tudo, o marcial compasso 2X2, típico do primeiro jazz, foi substituído pelo compasso 4X4, mais maleável e tratado de forma menos acentuada quanto aos tempos fortes (daí o apelido de ‘four-beat jazz’ dado ao Swing). Essa sutiliza, velocidade e destreza do novo ‘swing’ foi possibilitada, entre outros fatores, pela substituição da atravancada tuba pelo lépido contrabaixo, do alegre banjo pela discreta guitarra e, sobretudo, pela bateria, que passa a marcar o tempo não mais com o assustador bumbo (bass drum) e as estridentes caixas (snare drum) e sim com os mais sutis chimbal (hi-hat) e pratos (ride cymbal), suavizando sobremodo a marcação do tempo, que passa a ‘deslizar’ ao invés de ‘marchar’ (veja foto do drum kit acima: 1 – Bass drum (bumbo), 2 – Floor tom (surdo), 3 – Snare (caixa), 4 – Tom (tom-tom), 5 – Hi-hat (chimbal), 6 – Crash cymbal e Ride cymbal (pratos) e clique AQUI para ouvir os sons de cada componente de uma bateria). Se compararmos com as bandas do primeiro jazz, fica fácil constatar que o ritmo harmônico do Swing é não apenas mais célere, como também parece que o tempo dobra dentro do compasso, permitindo que o solista aproveite essas mudanças para improvisar livremente sobre a melodia. Daí porque verificamos que a potência e o timbre dos primeiros músicos de jazz são obrigados a negociar com o virtuosismo técnico, fazendo surgir instrumentistas como Coleman Hawkins, Lester Young, Roy Eldridge, Art Tatum, Benny Goodman e outros, tecnicamente capazes de aproveitar ao máximo as raras e curtas oportunidades de improviso durante a interpretação de um tema.

    Outra novidade trazida pelo Swing foi a oportunidade oferecida a alguns instrumentos para que passassem a improvisar: a bateria (Gene Krupa e Chick Webb), o contrabaixo (Jimmy Blanton - foto acima), o vibrafone (Lionel Hampton e Red Norvo) e a guitarra (Charlie Christian e Django Reinhardt) passam a confabular melodicamente com clarinetes, trompetes e saxofones. E foi assim: por volta de 1932, estava determinada a formação básica das bandas do Swing, compostas por 13 músicos (3 trompetes, 2 trombones, 4 saxofones, piano, guitarra, contrabaixo e bateria). Com poucas variações, assim eram as formações das principais bandas do Swing, como as de Fletcher Henderson, Count Basie e Benny Goodman. Mas, vale lembrar que o Swing não eliminou as pequenas formações, muito apreciadas pelos grandes solistas, porque assim podiam demonstrar com mais espaço suas qualidades musicais, ampliando inclusive o repertório das big bands, quase que exclusivamente formado por música de dança. Foram importantes nesse cenário os trios, quartetos, quintetos e sextetos de músicos como Art Tatum, Fats Waller, Count Basie, Teddy Wilson, John Kirby, Coleman Hawkins ( ), Benny Carter, Johnny Hodges, Henry ‘Red’ Allen, entre outros. Nas próximas resenhas, falaremos sobre o selo francês Swing e daremos continuidade à série Swing. Até lá!

    02/05/2008

    Augustus

    O centro de Vitória renasce com a boa música. O Botequim Augustus, sito à Rua Gama Rosa, tem promovido noitadas musicais agradabilíssimas. Eduardo, o dono do bar, tratou de deixar a casa com um clima aconchegante (são dois pisos, com ar condicionado), com boa comida (o camarão na moranga é excelente) e bebida de boa qualidade. Os preços são acessíveis ao bolso médio. Aos sábados, a responsabilidade é de Chico Lessa (violão e voz), que, acompanhado por Salsa (sax alto, tenor e voz), interpreta suas parcerias com Márcio Borges (Clube da Esquina), muita bossa e standards da música pop norte americana. O som começa às 21:00h. PS - enquanto não chega a hora, divirtam-se com os blogs Jazzigo e MPBJazz.