E eu nem sabia que andava cercado de amigos poetas: Reinaldo Santos Neves, Pedro Nunes, Fernando Achiamé, Francisco Grijó, Miguel Marvila... Todos bem aqui.
06/06/2008
03/06/2008
Elas Também Tocam Jazz - Sophie Alour
E nós gostamos da saxofonista Sophie Alour, Mr. Lester? Sim Mr. Scardua, nós gostamos dela. É o tipo de assunto que me alegra e me faz lembrar de nosso poeta mais feliz: Vinicius, o de Moraes. A certa altura, em seu livro O Sentimento Do Sublime, ele diz:
Meus amigos, meus irmãos, cegai os olhos da mulher morena
Que os olhos da mulher morena estão me envolvendo
E estão me despertando de noite.
Meus amigos, meus irmãos, cortai os lábios da mulher morena
Eles são maduros e úmidos e inquietos
E sabem tirar a volúpia de todos os frios.
E por aí vai, até que, a certa altura, o poeta suplica que o salvem dos braços da mulher morena, porque:
Eles são lassos, ficam estendidos imóveis ao longo de mim
São como raízes recendendo resina fresca
São como dois silêncios que me paralisam.
Dois silêncios Mr. Lester? Sim, Mr. Scardua, existem coisas assim. Os lábios e os braços de Sophie têm um pouco da mulher morena de Vinicius. A saxofonista Sophie Alour tem a boca, os braços e, seguramente, as mãos da mulher morena. Claro, sua linguagem não é a linguagem dos naufrágios sussurrados nas madrugadas. Seu alfabeto são as notas musicais e sua gramática é o improviso. E para aqueles que procuram algo novo no jazz, e algo feito por uma mulher morena, Sophie pode ser um excelente objeto de investigação. Ela nasceu francesa faz cerca de 30 anos e, desde logo, partiu pela estrada esburacada do autodidatismo, com todos os solavancos e curvas que costumam importunar os aventureiros viajantes. Aos treze anos já tocava o clarinete, aos dezenove descobre o saxofone e, ao lado da Vintage Orchestra, estabelece sua posição como instrumentista. Nos anos seguintes teve seus sextetos, participou de outras big bands até que, em 2004, encontra outra mulher morena, a organista Rhoda Scott, com quem aprendeu os temperos e sabores da África. Em 2005 lança seu primeiro álbum, Insulaire, estabelecendo-se como uma dos principais saxofones franceses de sua geração. Maleável como toda mulher morena, Sophie percorre todas as possibilidades do jazz moderno, desde os trabalhos mais tradicionais e acústicos até experiências elétricas pouco ortodoxas, como o trabalho com Benjamin Roy e seu álbum DJ Killer. E todos estes temperos e kilowatts estão presentes em seu último álbum, Uncaged. Mas, lá no fundo, podemos perceber o silêncio da mulher morena. E nós gostamos, Mr. Scardua. Para os amigos ( ). Boa audição.
Meus amigos, meus irmãos, cegai os olhos da mulher morena
Que os olhos da mulher morena estão me envolvendo
E estão me despertando de noite.
Meus amigos, meus irmãos, cortai os lábios da mulher morena
Eles são maduros e úmidos e inquietos
E sabem tirar a volúpia de todos os frios.
E por aí vai, até que, a certa altura, o poeta suplica que o salvem dos braços da mulher morena, porque:
Eles são lassos, ficam estendidos imóveis ao longo de mim
São como raízes recendendo resina fresca
São como dois silêncios que me paralisam.
Dois silêncios Mr. Lester? Sim, Mr. Scardua, existem coisas assim. Os lábios e os braços de Sophie têm um pouco da mulher morena de Vinicius. A saxofonista Sophie Alour tem a boca, os braços e, seguramente, as mãos da mulher morena. Claro, sua linguagem não é a linguagem dos naufrágios sussurrados nas madrugadas. Seu alfabeto são as notas musicais e sua gramática é o improviso. E para aqueles que procuram algo novo no jazz, e algo feito por uma mulher morena, Sophie pode ser um excelente objeto de investigação. Ela nasceu francesa faz cerca de 30 anos e, desde logo, partiu pela estrada esburacada do autodidatismo, com todos os solavancos e curvas que costumam importunar os aventureiros viajantes. Aos treze anos já tocava o clarinete, aos dezenove descobre o saxofone e, ao lado da Vintage Orchestra, estabelece sua posição como instrumentista. Nos anos seguintes teve seus sextetos, participou de outras big bands até que, em 2004, encontra outra mulher morena, a organista Rhoda Scott, com quem aprendeu os temperos e sabores da África. Em 2005 lança seu primeiro álbum, Insulaire, estabelecendo-se como uma dos principais saxofones franceses de sua geração. Maleável como toda mulher morena, Sophie percorre todas as possibilidades do jazz moderno, desde os trabalhos mais tradicionais e acústicos até experiências elétricas pouco ortodoxas, como o trabalho com Benjamin Roy e seu álbum DJ Killer. E todos estes temperos e kilowatts estão presentes em seu último álbum, Uncaged. Mas, lá no fundo, podemos perceber o silêncio da mulher morena. E nós gostamos, Mr. Scardua. Para os amigos ( ). Boa audição. 01/06/2008
Sassy
Na constelação das divas do jazz, Sarah Vaughan, na maioria da vezes, é a previsível suplente entre os amantes de Billie Holiday e os adoradores de Ella Fitzgerald. Se Billie fazia de sua vida pessoal uma extensão mais dramática e cinzenta dos seus sofridos blues, Ella, sempre foi a pessoa a ser protegida - pela doce impressão juvenil que causava sua voz. Sarah, porém, aprendeu menina que caso quisesse “escapar” de sua realidade social: pai, carpinteiro (guitarrista nas horas vagas) e mãe, lavadeira (vocalista do coral da igreja), deveria aperfeiçoar o uso da dádiva recebida - a mais rica e bela voz surgida no jazz. Sarah Lois Vaughan nasceu em Newark (NJ) no dia 24 de março de 1924.Aos 7 anos e por interferência materna começou estudar piano sendo ,aos 12, organista da Igreja Batista, além,de solista no coro. Em outubro de 1942, vencia inesperadamente o concurso de calouros do Apollo Theatre em NY, cantando “Body and Soul”. O cantor Billy Eckstine presente , extasiado, a recomenda ao pianista - que tentava ser “band-leader” - Earl Hines pra contratá-la como “crooner” e pianista substituta. Aceitando o convite, Vaughan participa de forma “ocasional” da primeira experiência, em 1943, de um grupo com objetivos comerciais de bop com Dizzy Gillespie e Charlie Parker nos sopros intitulado “Earl Hines Bebop Orchestra”. De vida breve, esse “combo” foi reiniciado um ano depois com o acréscimo de Art Blakey e Miles Davis. Nesta vez, tendo Eckstine em sua liderança. Por iniciativa de Leonard Feather, grava em 31 de dezembro de 1944 uma série de quatro “takes” - com Gillespie no grupo. O destaque é a sua interpretação de “A Night in Tunisia”, tema mais popular de Dizzy. Apelidada de Sassy (tradução livre e conservadora: brejeira), por “maliciar” em alguns momentos trechos de canções ,toma como segundo lar o ambiente musical do bebop.Quando a questionavam por que em razão de seu fabuloso alcance de contralto de três oitavas e do vibrato poderoso não se tornava uma cantora lírica, respondia ,contrariada, como alguém poderia considerar o jazz uma forma inferior de música.Diante da magnitude e versatilidade de sua voz e das obrigações comerciais inicia um ciclo de gravações de “baladas” com grandes grupos entre 46-49 ,uma delas o primeiro registro de “Tenderly” . Assina , em 49, com a Columbia por cinco anos que lhe dirige a carreira a tornar-se uma cantora mais “pop”, para os padrões da época.Com o contrato expirado,em 54,entra na Mercury,onde se reaproxima do jazz gravando com Cannonbal Adderley e Clifford Brown. Em razão de seu virtuosismo, consegue facilidade em vocalizar qualquer espécie de repertório e formação instrumental, seja na forma de trio a uma grande orquestra. Vaughan começa, no entanto, a distanciar-se do ambiente do jazz a partir de 56, tomando o rumo definido como “parajazzístico”. Nunca tornou-se um “estouro” comercial, mas uma artista reverenciada por seu timbre, disciplina e exuberância técnica.Manifestada em seu segundo apelido concedido pela atriz e dançarina Sarah Bernhardt: “Divina”. Durante as décadas de 60, 70 e 80,gravou pelos selos Roulette,Pablo e Columbia “colecionando carimbos no passaporte” nas extensas turnês mundiais.No Brasil, gerou folclore pelo hábito de tomar conhaque misturado a coca-cola como se fosse “gatorade” durante os ensaios.No meio dos anos 70, sentindo as portas fecharem-se pra si e para os tradicionais artistas de jazz nas grandes corporações fonográficas, entra para o minúsculo selo “Pablo” de Norman Granz, empresário de Ella. Nele, cercada por músicos que praticamente albergavam-se contra o anonimato artístico,realiza alguns belos álbuns já com voz madura, utilizada de forma mais equilibrada e espontânea na companhia de Oscar Peterson, Joe Pass, Ray Brown, Jimmy Rowles(p), Count Basie e Louie Bellson (bat) entre outros “professores”. Retornava, assim, ao seu “habitat”, o inicial da carreira, onde surpreendia atravessando prazerosamente às noites sentada ao piano - que tocava de forma convincente, em companhia de um pequeno grupo de músicos “escolados”, deslizando sua mãos na busca das harmonias e idéias melódicas que decifrassem a intrincada linguagem do bebop. Sarah morreu de forma precoce aos 66 anos em 3 de março de 1990, vítima de um câncer no pulmão. Tinha acertado com Quincy Jones um disco dos recentes compositores brasileiros. Diante de seu derradeiro trabalho,“Brazilian Romance”, foi poupada, pela ação “divina”, de outra experiência constrangedora. Sarah Vaughan tem um universo de gravações imenso e extremamente desigual. Até mesmo gravou poemas musicados do Papa João Paulo II. Em virtude de já ter escolhido autores melhores (gravou os songbooks de Duke Ellington e George Gershwin) tomo a liberdade de sugerir cinco títulos aos visitantes: Sarah Vaughan with Clifford Brown – Emarcy ( lançado em edição nacional), No Count Sarah – Emarcy, After Hours – Roullete, How Long Has This Been Going On? – Pablo e The Duke Ellington Song Book Two - Pablo. Para os amigos ( ). Boa audição. 28/05/2008
The Hunt: Dexter Gordon x Wardell Gray
Nunca na história deste país se discutiu tanto sobre downloads gratuitos de álbuns pela internet. De um lado, terminantemente contra os downloads, estavam John Lester e Grijó, defensores inarredáveis da compra de álbuns, com emissão de nota fiscal e tudo. Do outro, mais afeitos à liberação dos downloads, estávamos eu e Frederico Bravante, este último defensor confesso da total liberdade de downloads no meio virtual, esteja o artista vivo ou morto, esteja o álbum disponível ou não para venda no mercado formal. Após terríveis e acirradas discussões no Clube das Terças, entendi razoável que a disponibilização de um álbum fora de catálogo, ou seja, de um álbum que não está disponível para compra no mercado, não poderia ser censurada de forma tão incisiva, ainda mais se o álbum fosse de um músico já morto e que o álbum tivesse sido gravado há mais de 60 anos. No caso específico, o álbum objeto de tanta celeuma é o clássico The Hunt, que apresenta as famosas 'battles' travadas entre os saxofonistas Dexter Gordon e Wardell Gray. Trata-se de um álbum duplo, gravado em 6 de julho de 1947, ao vivo no Brown Bomber, Los Angeles e lançado pela Savoy. Os quatro discos apresentam apenas uma faixa de cada lado, com duração média de 20 minutos para cada uma delas, coisa rara para aqueles tempos. Nessas memoráveis jam sessions os dois saxofonistas tenores são acompanhados por um time de primeira: Sonny Criss (as), Howard McGhee (t), Trummy Young (tb), Hampton Hawes (p), Barney Kessel (g), Harry Babasin ou Red Callender (b) e Connie Kay ou Ken Kennedy (d). Coletados os votos dos demais sócios do Clube das Terças, aprurou-se que, por 32 votos contra e 47 a favor, deveria o Jazzseen divulgar o link para download de tão importante clássico do jazz. O álbum é disponibilizado no site Be Bop Wino em duas versões: uma no formato M4A, de alta qualidade, e a outra em formato mp3, de menor qualidade. Aqueles que seguiram a dica da amiga Paula Nadler e baixaram a versão gratuita do Media Monkey player, poderão ouvir a versão em M4A, bem como poderão convertê-la, caso queiram, para outro formato de sua preferência. Na verdade, não é preciso maiores preocupações quanto ao formato, tendo em conta que a qualidade do som original do álbum não é das melhores. Mas a música, essa sim, é de primeira qualidade.26/05/2008
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