25/08/2008

Tigran

Mr. Lester, nós gostamos da Armênia? Claro que sim Mr. Scardua, nós gostamos muito da Armênia. Afinal, foi naquela região próxima ao Mar Negro e às montanhas do Cáucaso, a que os romanos chamavam “o fim de toda a Terra”, que encontramos os primeiros sinais da videira. Sim: caroços de vitis vinifera sativa com sete mil anos de idade foram encontrados por ali, ou seja, foi por lá que nasceu o vinho, Mr. Scardua. Veja só... E o que mais nós gostamos na Armênia, Mr. Lester? Ah, Mr. Scardua, nós gostamos dos músicos daquela terra perdida. Por exemplo: Tigran Hamasyan nasceu em Gyumri, em 1987. Aos dois anos já demonstrava um interesse incomum pela música, preferindo brincar com o piano a carrinhos e bonecos. Aos 3 anos Tigran já cantava coisas do Led Zeppelin, Deep Purple, Beatles e Queens, tentando se acompanhar ao piano. E existem mesmo vídeos dessa época que podem provar o que estou dizendo, levando os pais do garoto a concluírem que a vida de seu filho estava inseparavelmente ligada à música.
Aos sete anos Tigran descobre o jazz e passa a ouvir os clássicos, repetindo-os incansavelmente ao piano dia após dia. Aos dez anos o menino já conhece a fundo o trabalho de Duke Elington, Thelonious Monk, Charlie Parker, Art Tatum, Miles Davis, Bud Powell e outros, bagagem esta que o levaria a uma compreensão ampla e profunda do jazz e de suas técnicas de ritmo e improviso. É também dessa época sua primeira composição. Mas foi em 1998, com sua participação fulminante no First International Jazz Festival of Yerevan, que Tigran foi descoberto e aclamado, passando a receber inúmeros convites para concertos e participações com outros músicos. No segundo Yerevan Jazz Festival Tigran não apenas consolidou a ótima impressão causada no festival anterior, como também teve oportunidade de travar contato com músicos como Chick Korea, Avishai Cohen, Jeff Ballard e Ari Roland.
Através do pianista Stephane Kochoyan, Tigran é apresentado à cena jazzística francesa e européia, participando de uma série de festivais e mantendo contato com músicos como Wayne Shorter, Herbie Hancock, John McLaughlin, Joe Zawinul, Danillo Perez, John Patitucci. Em 2001 toca com os veteranos franceses Pierre Michelot e Daniel Humair. Voltando-se cada vez mais para os estudos de jazz e música folclórica armênia, em 2002 Tigran conquista o terceiro lugar no Martial Solal International Jazz Piano Competition, realizado em Paris. Em 2002 ganha o primeiro lugar no Jazz a Juan Revelations, na categoria jazz instrumental. Nos anos seguintes Tigran grava uma série de álbuns e continua participando de diversos concurso: em 2003 vence o Montreux Jazz Solo Piano Competition. Em 2005 conquista o terceiro lugar no Moscow International Jazz Piano Competition e o primeiro lugar no Monaco Jazz Soloist Competition. Em 2006, Tigran lança pelo selo francês Nocturne seu álbum World Passion, gravado em Los Angeles com Ben Wendel (ts), Francois Moutin (b), Ari Hoenig (d) e Rouben Hairapetyan (duduk, zurna). Em faixas belíssimas, como These Houses, Tigran demonstra um lirismo profundo e cerebral, nos remetendo em alguns momentos a Keith Jarrett, incluindo os desagradáveis gemidos. Em outras faixas mais enérgicas, como em sua versão do classic What Is This Thing Called Love, Tigran parece incorporar sonoridades e estilos que se mesclam, recompondo idéias que vão desde Bud Powell e Wynton Kelly até McCoy Tyner e Cecil Taylor. Outro destaque do album é o contrabaixista, excelente.
Ainda em 2006, mais precisamente no dia 17 de setembro, Tigran conquista o primeiro lugar no Thelonious Monk Jazz Competition, evento que, em minha modesta opinião, tem revelado os maiores talentos do jazz contemporâneo, responsáveis por nossas esperanças em dias melhores para o jazz. E Tigran continua estudando, agora na University of Southern California, em Los Angeles, além de gravar e participar de shows por todo o mundo inteligente da música. Para os amigos, fica a faixa-tributo ( ) Well, You Needn’t, retirada de seu álbum New Era, gravado para a Nocturne em 2007 com os irmãos François (b) e Louis Moutin (d). É fácil notar que, muito além de fazer apenas mais um dos muitos tributos já feitos a Monk, Tigran faz um tributo convincente e, ao mesmo tempo, original. Coisa reservada aos gênios somente. É Mr. Lester... Nós gostamos da Armênia!

23/08/2008

Deu no Jazzigo

Agora está tudo certo. O Circuito Vitória de Jazz chega ao seu ápice com os três dias (1, 2 e3 de setembro) dedicados à boa música. A programação está definida:
Segunda-feira (01/09) - FAMES Jazz Band, Turi Collura e Cama de Gato
Terça-feira (02/09) - Quintal do Jazz (representante do blog), Jazz Letal e Marcel Powell
Quarta-feira (03/09) - Nota Jazz, Quinteto Colibri e RiOrleans . A programação traz nomes locais (as duas primeira bandas de cada dia) que terão a oportunidade de dividir a sala com os visitantes. Os convidados são dignos representantes da música instrumental nacional (daqueles que extrapolam as fronteiras). É sempre bom ouvir músicos como Senise, Paschoal Meirelles, o italiano Dario Galante (que acompanhará o saxofonista Ray Moore - líder do grupo RiOrleans), Jota Moraes, André Neiva, Toni Botelho e todos outros que circularão no palco do Armazém do Jazz, no centro de Vitória. De acordo com Kiko, o organizador do evento (Extrata), a preocupação com a acústica do local será minimizada com os cuidados da Equipe Sombra, encarregada da engenharia de som e dos cuidados com o palco. Maiores detalhes podem ser obtidos no
site do evento. Em breve, Salsa se encarregará de falar um pouco sobre os participantes.

14/08/2008

Boswel Sisters

Jazz na Argentina

No Clube de Jazz nosso amigo Wilson Garzon relembra, recupera e vasculha o jazz produzido na vizinha Argentina que, ao contrário do futebol, tem boas coisas a nos apresentar na música. A seguir o texto do especialista: " Antecedentes - Meu primeiro contato ficou por conta do pianista Lalo Schfrin que fazia parte do quinteto de Dizzy Gillespie, no álbum “An Electrifying Evening with the Dizzy Gillespie Quintet” onde fazia solos em “Kush” e “The Mooche”, que se pareciam como solos de um músico brasileiro. Mas quem me marcou de vez foi o saxofonista Gato Barbieri, que antes de fazer grande sucesso com a trilha de “Último Tango em Paris”, gravou em 1971 “Fenix”, álbum em que interpretava com técnica e talento “Falsa Bahiana” de Geraldo Pereira e “Bahia” de Ary Barroso”, tendo a seu lado Ron Carter, Lonnie Smith e Lennie White. Outra presença, esta muito maior, ficou por conta do mago Astor Piazzolla em obras marcantes como “Maria de Buenos Aires” e principalmente nas suas gravações com Gerry Muligan. Depois de um breve tempo fui também apresentado ao trompetista Fats Fernandez, mas esse foi um caso isolado.

Clube de Jazz

A partir de 2004, com a entrada do site no ar, meu contato com o jazz argentino, aos poucos deixou de ser uma curiosidade e se tornou um tema relevante no meu trabalho de divulgar e promover o jazz. Primeiro, foram os shows que assisti da “Antiqua Jazz Band” e a “Porteña Jazz Band”, nos festivais dedicados ao hot jazz & swing. Segundo, e mais importante, foi o contato que fiz com o produtor fonográfico e empresário Ruben Bondoni. Além de publicar uma entrevista e divulgar cds da sua gravadora MDR, pude conhecer grupos contemporâneos de jazz porteño, como o Escalandrum, Pablo Ziegler & Quique Sinesi, Manuel Ochoa, Gustavo Bergalli e Jorge Navarro, entre outros. Mas não me deixou satisfeito, pois tinha conhecido apenas a ponte do iceberg d o jazz argentino. Para resolver essa demanda reprimida precisava de viajar até Buenos Aires.

Viagem

A minha viagem para Buenos Aires, além dos naturais interesses históricos e turísticos, existia um propósito maior: o de conhecer as melhores casas de jazz da cidade, conversar com os músicos, entrar em contato com as gravadoras, livrarias, programas de rádio e jornalistas dedicados ao jazz. Tudo, com certeza, não conseguiria, mas tinha que começar de algum ponto. Nesse momento, agradeço aos músicos Marcelo Coelho e Marvio Ciribelli que me abriram seus contatos para que eu pudesse conhecer Buenos Aires da melhor maneira: regada a muita música de qualidade.

Encontros

O primeiro contato foi com o saxofonista Rodrigo Dominguez, que fez parte da banda de Mariano Otero e que havia gravado recentemente “Amistad” em conjunto com outros três músicos. Nosso encontro se deu no jazzclub “Virasoro”, junto com o produtor Fernando Tarrés, que também dirige o selo Baú Records. Aos poucos me inteirava sobre o jazz da vanguarda argentina ao mesmo tempo em que escutava uma gig comandada pelo baterista Pepe Taveira e pelo tecladista / trompetista Enrique Norris. O próximo encontro se deu com o talentoso guitarrista Alejandro Demogli onde também pude conhecer as influências berkleeanas sobre o atual jazz porteño.
Mas, foi só com Ruben Bondoni, dono do jazzclub Notorious e do selo MDR é que pude entender o jazz argentino como um todo. Aos poucos fui apresentado ao veterano guitarrista Walter Malosetti, e também a Raul Barboza e Juan Falú; a nova geração representada pelo contrabaixista Mariano Otero e pelo pianista Ernesto Jodos, entre tantos outros. Ao final de uma semana, fiquei com o gosto de quero mais. Um bom palpite pode ser o festival de jazz que acontece pelas salas e parques na primavera de Buenos Aires. Mas, para orientar a quem se interesse pelo jazz argentino, listo abaixo uma pequena agenda, onde estão incluídos jazzclubs e alguns cds, distribuídos por gravadoras.


Pequena Agenda


Casas de Shows

1 – Thelonious Club
Salguero 1884 – 1º. Piso – Palermo
Tel: 4829-1562
www.theloniousclub.com.ar

2 – Notorious Bar
Av. Callao 966 - Centro - Buenos Aires
Tel: 4813-6888/4815-8473
www.notorious.com.ar

3 – Virasoro Bar
Guatemala 4328 - Palermo - Buenos Aires
4831-8918 - info@virasorobar.com.ar
www.virasorobar.com.ar

Cds / Gravadoras

1 – MDR Records
Av. Callao 964 - 6º "D" - C1023AAP - Buenos Aires
www.mdrrecords.com.ar
Ruben Bondoni – director

. Walter Malosetti – Palm
. Pablo Ziegler & Quique Sinesi – Buenos Aires Report
. Escalandrum – Visiones
. Manuel Ochoa – Manare
. Raul Barbosa – Dos orillas
. Banda Hermética – El calendário de los sonidos
. Manolo Juarez & Daniel Homer – Quarteto
. Ernesto Snajer – Despues de todo (em vivo)
. Altertango – Tormenta
. Beto Caletti - Tess

2 – Baú Records

. Rodrigo Dominguez – Tonal
. Mariano Otero - A Través
. Bárbara Togander - Lovemanual
. Fernando Tarrés - Perplexity
. Ramiro Flores – Flores

3 – Blue Art

Paraguay 727, 9 Piso, Oficina 8. S2000CVO Rosario, Argentina.
Tel.: Argentina: 0341 411 7929
Exterior: 00 54 341 4117929
Horacio Vargas / director:
www.blueart.com.ar

. Paula Schocron – Urbes
. Sued + Dominguez + Mandelman + Oberson – Amistad
. Ernesto Jodos – Solo
. Jorge Migoya – Casi solo(s)
. Mauri Sanchis – Good Vibes !!

4 – S Jazz

. Juan Cruz de Urquiza – De este lado
. Juan Cruz de Urquiza – Vigilia
. Pepi Taveira – BsAs Inferno
. Natalio Sued – Mirada Esquiva
. Mariano Otero – D Forma

Outros Cds

. Ale Demogli, Hill Greene & Oscar Giunta – 3:30
. Ernesto Jodos – Tristano/Konitz/Marsh/Bauer
. Jorge Cutello – Just in Time
. Norris, Verdinelli & Otero – Mes
. Oscar Edelstein & Raul Barboza – Dos Improptus
. Adrian Iaies – UnoDosTres
. Mariano Otero – Três
. Mariano Otero – Ca4tro".


Para os amigos, Gato Barbieri com Falsa Bahiana ( ).