29/09/2008

Vinho: Santa Ema Gran Reserva Merlot

Vinho: Santa Ema Gran Reserva Merlot - JL: 6 - Descrição: Ok, você já deve estar saturado dos fortes tintos chilenos, com aquela sua brutal juventude saqueando todos os sabores, sem falar do seu frescor amadeirado capaz de romper as narinas mais tenazes. Eu sei, também tenho sofrido bastante com isso. Mas, apesar de tudo indicar o contrário, não há como deixar de falar do Santa Ema Gran Reserva Merlot, um sensacional tinto a preços surpreendentemente justos. Do gargalo seu aroma já adverte para os prazeres que proporcionará escuro na taça e suave na boca, sem falar de um inusitado terroir, bastante incomum quando falamos dos quentes solos do Novo Mundo. Para os amigos que têm se voltado para as inacessíveis plagas de Borgonha ou Bordeaux, recomendo uma econômica investida nesse tinto amigável, franco e delicado com o palato. Ok, sabemos que Gran Reserva não quer dizer nada a mais que um Reserva, mas tudo bem: o vinho vale ainda que apenas pela persintência adorável. Produtor: Santa Ema - País: Chile - Região: Valle do Maipo - Safra: 2004 - Castas: 100% Merlot - Teor Alcoólico: 13,5% - Faixa de preço: R$60,00 - Vermelho rubi intenso. Aroma de muita fruta como amora e suave cassis, combinandos com caramelo,chocolate e baunilha. Complexo, com notas de baunilha, suaves taninos maduros que lhe dão uma boa estrutura, balanceado e redondo.

25/09/2008

Os 90 anos de Hank

A condução na cadeira de rodas em direção ao piano não provocou sensação de piedade ou temor ao público do Birdland em Nova Iorque nas noites de 2 e 3 de agosto passado. Refletia apenas a deterioração física de pessoa idosa carente de auxilio pra se aproximar do seu instrumento de trabalho. Para os donos do Birdland a dificuldade maior seria: como colocar as noventa velas (representativas dos 90 anos - idade do aniversariante no dia 31 de julho) num bolo. O interesse da platéia, por sua vez, antecipava o instante em que o agora nonagenário Hank Jones repousaria seus longos e finos dedos sobre os teclados iniciando a articulação de notas definidas - no seu estilo pessoal - como vigorosas, quando necessárias e delicadas na sugestão da sensação da mão na superfície da água. Hank Jones persiste sustentando a tradição do piano no jazz sem assumir postura intransigente, purista ou provocadora. Coloca apenas sua capacidade lírica distante da afetação do sentimentalismo f ácil.Sua habilidade de improvisação carrega a necessária quantidade de notas que dão abrigo também à pausas e silêncio - necessários a respiração.A virtude que Hank Jones mais admirava em seu amigo Count Basie era a despretensão.Basie desenvolveu estilo próprio de tocar piano: munido na maioria das vezes numa quantidade boa o suficiente de notas desenvolvidas em acordes usando apenas alguns dos dez dedos de suas mãos. Nessa lição recebida, Jones se coloca da mesma forma "despretensiosa" na situação privilegiada de testemunha da evolução do jazz.Trajetória, aliás, que se inicia em 1943.Mesmo mais cedo, em seu berço familiar.Primogênito de sete irmãos. Dois deles, Thad Jones (trompetista da banda de Count Basie e criativo compositor-arranjador de seu tempo) e Elvin Jones (um dos maiores bateristas do jazz e extremidade do quarteto "mágico" de John Coltrane) infelizmente já mortos. Natural de Vicksburg, Jones mudou-se na infância pra Pontiac região adjacente a Detroit.Em 1942 é convidado pelo saxofonista Lucky Thompson pra juntar-se a banda de Hot Lips Page em Nova Iorque no Onyx Club da lendária rua 52. Influenciado pelos estilos de Art Tatum, Nat King Cole, Teddy Wilson e Fats Waller cultivou distante respeito, sem, contudo, levar "pretensão" a imitá-los. Com Tatum, seria praticamente impossível já que quando o ouviu pela primeira vez - numa transmissão de rádio - imaginava tratar-se de dois pianistas que "duelavam", tamanha a facilidade e agilidade com que explorava todos os "territórios" do piano. Hank foi o pianista da Jazz at The Philarmonic (JATP) de Norman Granz. Nesse período gastava seu tempo fora dos palcos na leitura e estudo das sonatas de Bach (hábito mantido em aulas particulares por 30 anos).A maioria de seus colegas, por sua vez ,dedicavam-se nas mesmas horas livres ao consumo de álcool e jogos de azar.Tocou no grupo de Charlie Parker em 1948 e depois com Coleman Hawkins em 54.Em períodos consecutivos acompanhou Ella Fitzgerald (por cinco anos) e fez parte das bandas de Benny Goodman e Artie Shaw.Por 17 anos,de 59 a 76, foi o pianista da orquestra da Rede CBS. Acompanhou cantores, balés, sapateadores, cachorros e elefantes adestrados. Após o final do expediente ainda defendia "uns cobres" tocando solo no Zigfield Restaurant. Nos anos 70 foi diretor musical e pianista da peça da Broadway ''Ain't Misbehavin"(baseada na obra de Fats Waller).Com todas essas reminiscências,passagens e lembranças poderia considerar-se saudosista ou nostálgico.Muito pelo contrário, nos últimos vinte anos, com mais de 70 anos e sessenta "brevetado" na música - num exame da longa carreira,podemos identificar dois dos melhores discos em forma de trio(p/b ac/bt) das décadas (90 e 2000) com sua assinatura (The Oracle e Upon Relection: The music of Thad Jones). Em 2007, seu disco "Hank and Frank" foi um dos três títulos do ano selecionado pelos críticos da revista Down Beat com a cotação máxima de excelência (cinco estrelas). Exerceu sua arte de acompanhante num bonito álbum (You are There, de piano e voz) com a nova diva do jazz, Roberta Gambarini. Colocando de lado, nessa retrospectiva, a companhia constante exigida por Joe Lovano a sua presença nos trabalhos do saxofonista. Pra certas pessoas, a vida está mesmo mal começando. E, para os amigos, fica a faixa Don't Blame Me, ( ) retirada do álbum Hank Jones Quartet & Quintet, gravado para a Savoy em 1955. Com Hank estão Donald Byrd (t), Eddie Jones (b) e Kenny Clarke (d).

15/09/2008

Flauta doce de abóbora

Vovô Acácio sempre dizia que o ipê só não deu nome ao Brasil porque ele é mais exuberante no inverno e Cabral foi dar por aqui no verão. Enquanto podava cuidadosamente sua querida pata-de-vaca, vovô ouvia um tal de James Clay e resmungava: minha filha, uma das cenas mais terríveis que presenciei durante meu período de exílio no Alentejo – quando fugia da Scotland Yard – foi ver e ouvir um tal de Francisco Terrão, vinhateiro centenário da região, tocando sua flauta de tamborileiro. A pura e inocente satisfação de Francisco nem consistia propriamente no som inusitado que retirava de seu instrumento, mas antes na incrível liberdade que este modelo de flauta fornece ao intérprete: ela é tocada com apenas uma das mãos, permitindo que, com a outra, Francisco pudesse bater com um pandeiro na coxa. Entre um solo e outro, Chico largava o pandeiro e beliscava um bolinho de bacalhau e sorvia um bom gole do drástico tinto local, produzindo, assim, sonoridades que vaticinavam o free jazz. Lá da cozinha, enquanto fervia em lentas bolhas seu lendário doce de abóbora com côco ralado e cravo da Índia, Vovó Tícia reivindicava em tom queixoso que flautista de verdade era Patápio Silva. Vovô dava de ombros, defendendo Frank Wess, primeiro músico a fazer a flauta swingar. E prosseguia: flauta todo mundo sabe o que é: aquela coisa cilíndrica, um tubo com alguns furinhos dispostos estrategicamente ao longo do corpo, sobre os quais colocamos e retiramos os dedos, ao mesmo tempo em que sopramos numa das extremidades do tubo. Ou seja, a flauta é um instrumento estranhíssimo, do tipo que tinha tudo para dar errado – observe atentamente alguém tocando uma flauta transversa (aquela em que o tubo cilíndrico forma um ângulo de aproximadamente 30 graus com o nariz do intérprete). Nessas horas, sempre tenho a nítida impressão de que existe alguma coisa errada: ou a flauta vai cair no chão, ou o som não vai sair a contento, ou o dedo vai errar o buraco, sei lá, flauta sempre me deu aflição e angústia, dizia vovô. Não é como um bom e simples trompete, em que você assopra e pronto, o som sai firme, definido, amplo e sem rodeios. O tocar flauta, mal comparando, é como a aterrissagem do albatroz, difícil e atabalhoada. Há poucas coisas no mundo mais estranhas e incômodas do que, por exemplo, testemunhar um cidadão tentando retirar som de uma flauta baixa em dó.
Pois bem, de origem milenar e presente em quase todas as culturas conhecidas e, em especial, nas desconhecidas ou exóticas, inexplicavelmente a flauta atingiu uma situação de tranqüila perenidade ao ser incluída como instrumento oficial da música clássica européia, passando, assim, a freqüentar as melhores orquestras e os mais refinados conjuntos de câmara. Por volta de 1850, Theobald Boehm desenha o modelo padrão desse instrumento que, até então, possuía variadas formas, era elaborado com diversos tipos de material, apresentava variadas quantidades de orifícios, dispostos em posições também variáveis ao longo do tubo que poderia apresentar, ainda, diversos tipos de embocadura (bocal). Hoje a flauta padrão segue o modelo estabelecido por Boehm, sendo fabricada geralmente em metal, mas também em madeira. Todas são compostas de três partes que se unem e, de acordo com o comprimento do tubo, fornecem os quatro tipos principais de flauta, da mais aguda a mais grave: a piccolo em dó, a de concerto em dó, a alto em sol e a baixo em dó, sendo que esta última apresenta um tubo em forma de U na parte onde fica o bocal. Retirando as luvas de jardinagem, vovô Acácio vasculha com os dedos alguns álbuns da velha estante da garagem, procurando o álbum A Double Dose Of Soul, gravado em 1960 para a Riverside. Enquanto isso, comentava: embora já existissem alguns arranjos para flauta desde o ragtime, o fato é que até 1920 esse instrumento era muito pouco usado no jazz. O primeiro caso diagnosticado de flauta no jazz se deve ao clarinetista cubano Alberto Socarras que, em 1930, grava You Can’t Be Mine, em que seu solo causa espécie muito mais pela técnica clássica do que pelo improviso jazzístico. Na verdade aquele que é considerado o primeiro flautista do jazz é o saxofonista Wayman Carver que em 1933 grava Devil’s Holiday em companhia de Benny Carter. Carver fez da flauta seu segundo instrumento, realizando uma série de importantes gravações pioneiras, inclusive I Got Rhythm, em 1937, com a banda de Chick Webb. Outro pioneiro da flauta menos conhecido foi Harry Klee que, entre outras, gravou a faixa Caravan com a banda de Ray Linn em 1944. Ao seu lado, ainda na década de 1940, estava o talentoso Jerome Richardson que, como integrante da banda de Lionel Hampton, gravou interessantes solos de flauta – como em Kingfish, de 1949 e There Will Never Be Another You, de 1950.
Apesar dessas iniciativas isoladas, até a década de 1950 a flauta não passava ainda de mera curiosidade no mundo do jazz, absolutamente dominado pelos saxofones e trompetes. Especula-se que os motivos seriam seu baixo volume de som, especialmente quando comparado ao trompete e ao saxofone – além de sua magra sonoridade e de seu timbre extremamente distinto dos demais instrumentos utilizados no jazz – tudo isso mantinha a idéia entre instrumentistas e arranjadores de que a flauta deveria continuar como sempre foi: um instrumento da música clássica. Passada a fúria descontrolada do estilo New Orleans e a histeria organizada do estilo Swing, começa o jazz a abordar novas trilhas que certamente aproveitariam toda a beleza sutil oferecida pela flauta. Alguns músicos passaram a observar que a flauta tinha muito a ver com o estilo desenvolvido por Lester Young, com sua improvisação etérea, fluida, delicada e aparentemente natural. Além disso, com o advento da amplificação, a flauta passa a contar com uma tecnologia que colocava seu volume de som à altura dos demais instrumentos. Foi, sobretudo, no estilo West Coast que gente como Marty Paich, Shorty Rogers e Pete Rugolo, atraídos pela sonoridade e pela orquestração da música clássica, começaram a escrever arranjos para flauta e outros instrumentos até então estranhos ao jazz. Foi também por essa época que a música latina – onde a flauta possuía uma sólida tradição – começou a exercer uma forte influência sobre a música popular norte-americana. Assim é que, em 1953, Frank Wess começa a se dedicar com carinho à flauta, como integrante da banda de Count Basie. Com seus solos repletos de swing, Wess demonstra que o papel da flauta no jazz não ficaria adstrito aos estreitos limites propostos pelo jazz West Coast. Sua primeira gravação pilotando a flauta foi Perdido, gravada em 1954. Outro bom exemplo encontramos na faixa The Midgets, que faz parte do álbum April In Paris, gravado por Basie em 1955. Em contrapartida, na costa oeste, Bud Shank realiza como sideman interessantes trabalhos com flauta ao lado de Howard Rumsey e seu Lighthouse All Stars (álbum Sundey Jazz, gravado em 1954). Nesse interessante álbum cabe destacar a presença de Bob Cooper tocando oboé e english horn. E Bud não estava sozinho nessa empreitada em favor da flauta: também experimentavam o instrumento Jerome Richardson, Buddy Collette, Paul Horn e, um pouco mais tarde, Eric Dolphy. Collette foi o primeiro a se aventurar nos quatro tipos orquestrais – Piccolo, flauta de concerto, flauta alto e flauta baixo. O álbum é Buddy Collette’s Swingings Shepherds, gravado em 1958 para a EmArcy. A coisa ia tão bem para a flauta nessa época que, até mesmo no Canadá, Moe Koffman fez grande sucesso com a faixa The Swingings Shepherd Blues, contida no álbum Cool And Hot Sax, gravado em 1957. É claro que Gil Evans não poderia ficar indiferente a tudo isso, incluindo na faixa Summertime, do álbum Porgy And Bess, gravado em 1958 por Miles Davis, uma seção dedicada às flautas em seus arranjos.
Em 1956 a famosa revista Down Beat estabelece o prêmio anual de melhor flautista, ao mesmo tempo em que as orquestras passam a exigir que os saxofonistas e clarinetistas toquem também a flauta. Os três maiores destaques nesse período foram os flautistas Bobby Jaspar (belga), Sam Most e Herbie Mann. O público de jazz sempre se manteve dividido sobre quem seria o melhor flautista, se Most ou Mann. Se de um lado afirmavam que “Most is the man!”, do outro retrucavam que “Mann is the most!”. Essa rivalidade entre Sam Most e Herbie Mann rendeu bons frutos, como é o caso da gravação que realizaram juntos em 1955 e dos concertos em que se apresentaram lada a lado. Mann foi o primeiro músico de jazz a escolher a flauta como instrumento principal de sua carreira. Um dos melhores trabalhos de Herbie é o álbum Standing Ovation At Newport, gravado em 1965 e repleto de influência latinas, africanas e do oriente médio. Sam Most e Sahib Shihab estão entre os primeiros flautistas a utilizar a técnica de cantar ou murmurar enquanto tocam, produzindo incríveis efeitos de entonação e timbre. Outra prática similar foi utilizada por Yusef Lateef, que emitia sílabas no interior da flauta enquanto a tocava, obtendo inusitadas articulações, conforme podemos constatar em seu álbum The Sounds Of Yusef Lateef, gravado em 1957. Já Roland Kirk optou por falar dentro da flauta, obtendo um timbre vocal rascante, como na faixa You Did It, You Did It, do álbum We Free Kings, de 1961. Inúmeros instrumentistas talentosos dedicaram-se seriamente à flauta na década de 1960, entre eles James Moody, Harold McNair, Leo Wright, Charles Lloyd e Eric Dolphy. Até mesmo o mestre John Coltrane andou flertando com a flauta durante suas últimas gravações. Dolphy era um obcecado pela perfeição técnica – ele aproveitava até mesmo os intervalos entre uma e outra sessão de gravação para praticar, além de um incansável pesquisador. Quando em turnê pela Europa, Dolphy procurou trocar impressões com o virtuoso italo-cearense da flauta clássica Severino Gazzelloni, para o qual compôs a faixa Gazzelloni, constante de seu importante álbum Out To Lunch, gravado em 1964. Influenciado confessadamente pelo trabalho de John Coltrane, o saxofonista tenor Charles Lloyd grava interessantes álbuns onde também toca flauta, com Of Course, Of Course, gravado em 1964 e Charles Lloyd In Europe, gravado em 1968 e contando com o iniciante Keith Jarrett ao piano. Paul Horn, como a maioria dos flautistas, começou utilizando também o saxofone, até optar exclusivamente pela flauta, abandonando as peripécias do bebop e dedicando-se a alcançar sonoridades acústicas originais e belas, o que o levou a realizar gravações no interior do Taj Mahal e das pirâmides do Egito (ver seu álbum Inside, gravado em 1968). Na década de 1970 a flauta continua sua tranqüila ocupação no mundo do jazz, agora totalmente adaptada às possibilidades da amplificação eletrônica oferecida pelo jazz-rock. Jeremy Steig talvez seja o mais iconoclasta dos flautistas do jazz-rock ou fusion, produzindo os mais inusitados ruídos com seu instrumento e absorvendo sem qualquer pudor influências do blues, do rock, do jazz modal, do bebop e da música latina. Outro excelentes flautistas nesse contexto são Joe Farrell, Sonny Fortune e Lew Tabackin, um dos principais solistas da banda de Toshiko Akiyoshi. De lá para cá, a flauta ocupou todos os espaços possíveis no mundo do jazz, sendo quase impossível enumerar os importantes representantes desse instrumento. Apenas a título de orientação básica, podemos citar Sam Rivers, George Adams, James Newton (free jazz e vanguarda), Hubert Laws (third stream), Nicola Stilo (que gravou com Chet Baker), Robert Dick e muitos, muitos outros. Para os amigos fica a faixa ( ) I Remember You com James Clay, flautista do hard bop que injustamente nunca é citado na história da flauta-jazz. O álbum é A Double Dose Of Soul, gravado em 1960 para a Riverside. Com ele estão Nat Adderley (c), Victor Feldman (vib), Gene Harris (p), Sam Jones (b) e Louis Hayes (d). E nisso chega vovó Tícia com seu café forte e uma boa colher de doce de abóbora.

01/09/2008

Sal

Sal Salvador (1925-1999) – Quintet/Quartet - Kenton Presents Sal Salvador - Blue Note - 1953-1954 –Sim, a capa não parece da Blue Note, mas é. Trata-se da quase sempre excelente série Kenton Presents, sob a supervisão do competente Michael Cuscuna. Sal Salvador não é argentino nem pernambucano. Nasceu no impronunciável Massachusetts e passou a maior parte da infância em Connecticut, levando aquela vida branda de quem vivesse numa Nova Inglaterra. Sal também não teve nenhum motivo particular para se interessar pela música ou pela guitarra, tampouco teve aquela vida sofrida e agitada que cercam de lendas outros grandes instrumentistas do jazz. Ele simplesmente, veio, ouviu e tocou. Sem qualquer pitada do romantismo que poderia sugerir seu sobrenome latino, Sal começou a tocar a guitarra que seu pai largou pela casa após algumas infrutíferas aulas. Inspirado pelos álbuns de Charlie Christian, Sal passou a ouvir também Parker e Dizzy, três influências fundamentais em sua trajetória. Aos 20 começa a tocar profissionalmente e aos 24 parte para New York, onde trabalharia com outros músicos de primeira linha, como Mundell Lowe. Em 1952 sai de New York para trabalhar com Stan Kenton, com quem ficaria até o final de 1953. Lépido e fagueiro, Sal destaca-se não apenas pela agilidade e técnica excelentes, mas, sobretudo, pela sonoridade típica do West Coast, estilo que ajudou a moldar e consolidar. Além de gravações para diversos selos importantes, Sal também lançou alguns métodos para guitarra. Esse seu lado pedagógico acabou lhe valendo uma cátedra na Universidade de Bridgeport, onde lecionou até sua morte, aos 73 anos. Nessa excelente coletânea Sal é acompanhado por Manny Albam (arr, bs), Jimmy Campbell (d), Eddie Costa (p, vib), Jim Gannon (b), Bill Holman (arr, ts), Joe Morello (d), Kenny O'Brien (b), Frank Sokolow (ts), John Williams (p). Para os amigos fica ( ). Boa audição.