Eu comentava com John Lester sobre as palavras de Nelson Motta em sua primeira coluna para o Jornal da Globo, que agora acontecerá toda sexta. Ele, Nelson, dizia da necessidade de se filtrar o que é culturalmente bom na internet, para que as pessoas possam comprar o que é bom. Fiquei pensando se aquilo era apenas uma grande brincadeira do Nelsinho ou se ele realmente tem a presunção de ser o censor cultural da net, indicando às pessoas o que é culturalmente bom e o que deve ser adquirido. E toda essa pretensa pilhéria foi dita logo após sua entrevista de estréia, quem diria, com o rei Roberto Carlos, uma das piores fraudes culturais já fabricadas pela Rede Globo. Fui ao chat conferir as palavras de Nelson, mas, é claro, ele não me respondeu quem é que vai filtrar o que é bom na net e quem é que vai me dizer o que devo consumir em arte. John Lester, que sempre se autodenominou antítese de Macunaíma, o vilão com muito caráter, lembrou imediatamente das 90 latas de fezes produzidas pelo aclamado artista italiano Piero Manzoni, em 1961 – uma alegoria intestina que tentava denunciar a relação entre merda, arte e dinheiro, todas vendidas a preço de ouro no mercado especializado. Nelsinho, prosseguiu Lester, provavelmente espera enlatar suas próprias fezes, agora com o auxílio da Rede Globo, responsável pelo enlatamento afrontoso de Roberto Carlos, Xuxa, Didi & Cia. Haja lata, bradava Lester. Quase que por descuido, comentei quantas injustiças já ocorreram na música em virtude de comportamentos como o do Nelsinho, atribuindo-se a si mesmo o papel de árbitro e enlatador cultural. Foi quando John Lester citou Fredegunda, a serviçal e concubina que se tornou rainha da França nos anos 500.
Assim como ocorre no Brasil de hoje, ensinava Lester, Fredegunda condenava seus inimigos sem sequer ouvi-los, driblava as leis, ajustando-as aos seus interesses, com as famosas precepções – mistura de veto com medida provisória. Foi assim que Fredegunda convenceu Chilperico I, filho de Clotário I, rei de todos os francos, a repudiar sua primeira esposa, Audovera e matar todos os filhos que teve com ela. Já como amante de Chilperico I, Fredegunda convence o rei a estrangular sua segunda esposa, Galswintha. Com o jeitinho feminino que nos encanta a todos, a meiga Fredegunda assassina Sigeberto, irmão de Chilperico I, ampliando assim o poder daquele que agora já é seu marido. Logo após dar um filho a Fredegunda, Chilperico I é apunhalado diversas vezes até a morte. A triste viúva parte então para Paris, onde consegue fazer com que seu filho Lothar (Clotário II) seja reconhecido como o legítimo herdeiro do reino de Nêustria, além de promover diversas batalhas sangrentas pelo poder na França. Fui obrigado a interromper Lester em sua hemorrágica narrativa para perguntar sobre o sax alto que brotava de seu toca-discos. Lester disse que se tratava de mais uma dessas injustiças cometidas pelos Nelson Mottas da vida: quem tocava era Frank Strozier, um então jovem e promissor saxofonista de Memphis, terra de grandes músicos de jazz. Ao contrário de Nelsinho, o enlatador de coco mais simpático que conheci, as profecias de Ralph Gleason, importante colunista e crítico de jazz, nem sempre se concretizavam: Gleason disse certa vez que ainda ouviríamos falar muito em Frank Strozier... Bem, ao menos podemos encontrá-lo nos guias de jazz, não é emsmo Mr. Lester? Nem sempre, Mr. Bravante. No Rough Guide não há referência, nem na Virgin Encyclopedia. São poucos os críticos, como é o caso de Richard Cook e sua Jazz Encyclopedia, que atualmente falam sobre Strozier. O camarada é tão esquecido que seu último álbum, lançado pela Steeplechase, chama-se Remember Me! Frank começou a carreira em sua cidade natal, ao lado do MJT + 3, liderado por Walter Perkins. Mais tarde, já em New York, trabalharia com Roy Haynes e Miles Davis, partindo então para a California, onde atuaria ao lado de Shelly Manne e Don Ellis. Desiludido e mal gravado, em 1983 abandona a música até a década de 1990, quando retorna ao jazz tocando piano. Quando pensei em elogiar o Frank, Mr. Lester começou a recitar um fragmento de Para Acabar Com O Julgamento de Deus, um famoso poema de Artaud, o poeta francês que recebeu aconchegantes sessões de eletro-choque de seu bondoso psiquiatra: “O homem podia muito bem não cagar/mas preferiu cagar/assim como preferiu viver”. Enquanto lembrava de Paul Valéry e seu poema em prosa Diário de Emma, onde conclui que o coco é nossa obra mais importante, resolvi que Nelson tinha sim o direito de enlatar suas fezes à vontade e vendê-las para o crédulo espectador da Globo. Enquanto isso, ficaria eu por aqui, ouvindo o álbum Fantastic Frank Strozier, com Booker Little (t), Wynton Kelly (p), Paul Chambers (b) e Jimmy Cobb (d). Para os amigos fica a faixa WK Blues . Boa audição!





