De vez em quando, o baterista Roy Haynes reúne um seleto grupo de amigos bateristas em sua casa em Long Island. Lá permanecem confortavelmente acomodados em seu estúdio doméstico. Bebem champagne e celebram a memória do homem que aparece retratado no pôster colado numa das paredes - enquanto ouvem suas gravações. O homem é Jo Jo Jones (1911/1985), o mais "refinado" baterista da era do swing e membro da big band de Count Basie por mais de doze anos. Haynes jamais se cansa de repetir nas reuniões: "ele é o cara !". Para os apreciadores do jazz e da própria música em si,no entanto, essa afirmação - banalizada e vulgarizada à exaustão, serve da mesma forma ao autor da reverência.Medindo não mais que um metro e sessenta e aos 83 anos de idade, Roy Haynes "rejuvenesce" dia-a-dia produzindo música arrebatadora junto ao seu grupo formado por talentosos jovens que mal alcançam os trinta anos de idade. Parece "sugar" litros do "elixir" que dá nome ao grupo: Founth of Youth (tradução livre: Fonte da Juventude). Na experiência de espectador em suas apresentações - situação duas vezes vividas por esse escriba - fica-se verdadeiramente comovido pela energia e entusiasmo do quarteto (piano, baixo ac, bateria e, na maioria das vezes, saxofone). Os jovens integrantes formalizam cumplicidade com o veterano músico, testemunha ocular e partícipe, em certos períodos, da evolução e revolução do próprio jazz há mais de seis décadas. O repertório das apresentações é composto por standards (canções do repertorio popular tradicional americano dos anos 20 até inicio dos 60 e alguns temas de jazz ,na maior parte) com abordagens dinâmicas e intervenções revigorantes. Dotado de miraculosa coordenação motora e capacidade criativa de preenchimento polirrítmico, Haynes torna-se gigante munido de baquetas, entre os pratos percussivos, tambores e pedais. Se uma das melhores virtudes da experiência humana é a sua capacidade de utilizar o passado em benefício do presente, Roy tem imprescindíveis lições a ensinar. Trabalhou com as três grandes cantoras do jazz (Billie, Ella e Sarah). Billie Holiday em 1959, seu último ano de vida. Ella, por dois meses e Sarah por cinco anos (53-58). Sarah Vaughan, inclusive, tem responsabilidade por seu primeiro "porre" na vida, depois de uma "esticada" na Filadélfia em 53. Haynes - no período de 49-50 - estava no quinteto de Charlie Parker e na histórica gravação de "My Little Suede Shoes". Participou da primeira sessão de Sonny Rollins como líder em 1951,com Miles Davis abandonando temporariamente o trompete e aventurando-se no piano "naquele take".E da primeira gravação de Bud Powell, em 49, pro selo Blue Note. Roy grava seu primeiro disco solo em 58 com Phineas Newborn(p) e Paul Chambers (b ac).Nos anos sessenta associa-se musicalmente,em diversas fases, com Lennie Tristano, George Shearing, Stan Getz e Kenny Burrell(guit).Foi integrante da históric a temporada de John Coltrane e Thelonius Monk no Five Spot no Harlem em 1958. Depois da saída de Elvin Jones, entra no grupo de John Coltrane onde fica por 3 anos. Se uma das alegadas razões da saída de Elvin foi a vontade de Coltrane em colocar mais uma bateria ao célebre quarteto, o saxofonista "arquivou" essa idéia durante seu estágio com Haynes.
Nos anos 70 e 80 fez parte do trio de Chick Corea com o baixista Miroslav Vitous. Nos anos 90, ajuda a guitarra do cabeludo Pat Metheny soar um pouco mais próxima ao jazz. Os quinze anos recentes tem sido extremamente prósperos e produtivos pra Haynes. Sendo genuinamente músico de jazz, excursiona com regularidade e tem "escritura lavrada" de três residências pra seu conforto nos EUA. Uma delas em Las Vegas, maior parque temático adulto do mundo. Coleciona automóveis clássicos e veste-se com roupas dispendiosas de grifes internacionais. Garantindo, anteriormente, sua eleição como o músico mais elegante da América ao lado de Miles Davis pela revista Esquire, nos anos 60. Um final aparentemente feliz para um indivíduo que a mera passagem do tempo se revela apenas nas "amareladas" páginas rabiscadas do calendário. Para os amigos deixo a faixa Dear Old Stockholm , com Danilo Perez (p) e John Patitucci (b), em mais uma das tantas excelentes formações em trio do mestre das baquetas. O nome do álbum é, como tantos outros, The Roy Haynes Trio, gravado em 1999 e lançado em 2000 pela Verve. Um abraço a todos e até breve!


