Fazendo essa pergunta, no décimo segundo canto da Eneida, Turno decide enfrentar corajosamente o combate, mesmo que sua morte pareça estar selada. Desde a Antiguidade, com Macróbio em sua Saturnalia, esse provérbio já dava sinais de que é valioso enfrentar a morte com dignidade. E não é por outro motivo que Sêneca condenava aqueles que, como Miles Davis, enfrentavam fiascos terríveis só para terem vida mais longa. Então é isso: até que ponto é triste morrer? É triste quando um homem utiliza sua virtuosidade musical com absoluto profissionalismo, produz, como líder ou como sideman, alguns dos melhores discos de jazz da História e pode olhar para traz sabendo que venceu por sua única e exclusiva técnica e sensibilidade? Creio que não é triste. É apenas uma maneira honesta de exercer a música. O triste é a perda insubstituível para os amantes do jazz. Abaixo uma faixa in memorian a Freddie Hubbard, All Blues, só para implicar com os fãs de Miles Davis. Com ele estão Don Braden (ts), Ronnie Mathews (p), Jeff Chambers (b) e Ralph Penland (d). Mais adiante seguem duas antigas resenhas que já postamos aqui sobre Freddie. Para os mais exigentes, recomendo a despedida de Mr. Grijó, amigo nosso que escreve no Ipsis Literis e que nos trouxe a notícia mal esfriara o corpo do músico. Feliz 2009 Hubbard! 30/12/2008
Usque adeone mori miserum est?
Fazendo essa pergunta, no décimo segundo canto da Eneida, Turno decide enfrentar corajosamente o combate, mesmo que sua morte pareça estar selada. Desde a Antiguidade, com Macróbio em sua Saturnalia, esse provérbio já dava sinais de que é valioso enfrentar a morte com dignidade. E não é por outro motivo que Sêneca condenava aqueles que, como Miles Davis, enfrentavam fiascos terríveis só para terem vida mais longa. Então é isso: até que ponto é triste morrer? É triste quando um homem utiliza sua virtuosidade musical com absoluto profissionalismo, produz, como líder ou como sideman, alguns dos melhores discos de jazz da História e pode olhar para traz sabendo que venceu por sua única e exclusiva técnica e sensibilidade? Creio que não é triste. É apenas uma maneira honesta de exercer a música. O triste é a perda insubstituível para os amantes do jazz. Abaixo uma faixa in memorian a Freddie Hubbard, All Blues, só para implicar com os fãs de Miles Davis. Com ele estão Don Braden (ts), Ronnie Mathews (p), Jeff Chambers (b) e Ralph Penland (d). Mais adiante seguem duas antigas resenhas que já postamos aqui sobre Freddie. Para os mais exigentes, recomendo a despedida de Mr. Grijó, amigo nosso que escreve no Ipsis Literis e que nos trouxe a notícia mal esfriara o corpo do músico. Feliz 2009 Hubbard! Hubbard - Repost II
Nas mãos sonolentas sustento o livro Almanaque Do Samba, do jovem historiador André Diniz, lançado ainda há pouco pela Jorge Zahar. Ele comenta, naquele tom gostoso dos almanaques, entre várias outras coisas, a vergonhosa aposentadoria forçada de Vinícius de Moraes pelo AI 5, em 13 de junho de 1965. No copo, dois bons dedos de Corralillo, um merlot com pitadas de malbec, de 2003. O amigo argonauta, chegado a tintos chilenos, pode comprar sem medo tantas garrafas quanto seu bolso permitir. Ao fundo coloquei uma excelente jam de Freddie Hubbard com Jimmy Heath, registrada clandestinamente por Vernon Welsh e seu gravador portátil. Lançada em cd pela Label M, a qualidade do som surpreende e a música é de primeira, com Gus Simms (p), Wilbur Little (b) e Bertell Knox (d). Se quiser continuar acordado, ouça What Is This Thing Called Love e Autumn Leaves. São 32 minutos de improviso gravados no Famous Ballroom, em 13 de junho de 1965. É logo ali – acima, à direita – no Jazzseen Jam Sessions. Bons sonhos!Hubbard - Repost I
Pois é: lendo o comentário do amigo Roberto Scardua, que conheci durante um show no clube Iridium, em New York, resolvi dar um pulo no site e verificar o que está rolando por lá. Nada mais, nada menos, que Freddie Hubbard! Com ele só gente fraquinha: James Spalding (as), Christian McBride (b), Ronnie Matthews (p), Louis Hayes (d), Javon Jackson (ts), Slide Hampton (tb), Curtis Fuller (tb), George Cables (p), Dwayne Brune (b), Joe Chambers (d), Craig Handy (ts) e Steve Davis (tb). É... Para os amigos navegantes, deixo a faixa The Intrepid Fox, gravada ao vivo em 1981 no Keystone Korner, em San Francisco. Abaixo, resenha do Iridium sobre a coisa toda. A senha para acesso à faixa é a de sempre: jazzseen.
One of the great jazz trumpeters of all time, Freddie Hubbard formed his sound out of the Clifford Brown/Lee Morgan tradition, and by the early '70s was immediately distinctive and the pacesetter in jazz. Born and raised in Indianapolis, Hubbard played early on with Wes and Monk Montgomery. He moved to New York in 1958, roomed with Eric Dolphy (with whom he recorded in 1960), and was in the groups of Philly Joe Jones (1958-1959), Sonny Rollins, Slide Hampton, and J.J. Johnson, before touring Europe with Quincy Jones (1960-1961). He recorded with John Coltrane, participated in Ornette Coleman's Free Jazz (1960), was on Oliver Nelson's classic Blues and the Abstract Truth album (highlighted by "Stolen Moments"), and started recording as a leader for Blue Note that same year. Hubbard gained fame playing with Art Blakey's Jazz Messengers (1961-1964) next to Wayne Shorter and Curtis Fuller. He recorded Ascension with Coltrane (1965), Out to Lunch (1964) with Eric Dolphy, and Maiden Voyage with Herbie Hancock, and, after a period with Max Roach (1965-1966), he led his own quintet, which at the time usually featured altoist James Spaulding. A blazing trumpeter with a beautiful tone on flügelhorn, Hubbard fared well in freer settings but was always essentially a hard bop stylist. In 1970, Freddie Hubbard recorded two of his finest albums (Red Clay and Straight Life) for CTI. The follow-up, First Light (1971), was actually his most popular date, featuring Don Sebesky arrangements. In 1977, he toured with Herbie Hancock's acoustic V.S.O.P. Quintet and, in the 1980s, on recordings for Pablo, Blue Note, and Atlantic, he showed why he is clearly one of jazz’s living legends.This week he is joined by a steller cast of musicians who will make this week very special!
24/12/2008
Planos do delírio
Sábato Magaldi não é nem o mais ilustre nem o mais inexpressivo membro da Academia Brasileira de Letras. Sua incólume existência como “imortal” não lhe retira, contudo, o intato valor como pesquisador e crítico teatral, além de professor universitário dedicado. Segundo Sábato, o teatro brasileiro moderno nasceu em 28 de dezembro de 1943, data em que foi encenada pela primeira vez a peça Vestido de Noiva, de Nélson Rodrigues. A coisa se deu no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, numa feliz reunião de coincidências: a primeira delas, e certamente a mais importante, diz com as inovações trazidas pelo texto de Nélson; a segunda coube ao polonês Ziembinski que, fugindo do nazismo, trouxe - com o grupo Os Comediantes - uma nova concepção de encenação – impondo a noção de equipe sobre o império já cansativo do astro sobre o restante do elenco - e, sobremodo, de iluminação - que faria ofuscar, com suas centenas de efeitos luminosos, o previsível triunvirato da luz da manhã, luz da tarde e luz da noite; e, terceiramente, o desenho do cenário feito por Tomás Santa Rosa – sutilmente elaborado, acompanhando a idéia de Nélson, segundo a qual a peça seria o resultado de ações simultâneas em tempos diferentes. Tomás (veja a foto) dividiu o cenário em três planos, conforme indicação no próprio texto de Vestido de Noiva. Nélson rompe, assim, com a boa e velha seqüência cronológica, misturando os tempos, fazendo com que os planos da realidade, da alucinação e da memória possam participar ativa e concomitantemente da festa do teatro. Sim, porque se ler um texto de teatro é uma das experiências mais traumatizantes da história da humanidade, assisti-la é algo incomparavelmente bom, emocionante e completo. De raro em raro durante a narrativa ouve-se a repetição do som inicial da derrapagem de um veículo, seguida do som de vidraças partidas e da sirena de uma ambulância. É como se um solista de jazz, após alguns compassos de improviso, voltasse ao tema principal. O fato inconteste mistura-se às lembranças e delírios, tecendo o desenrolar da trama como renda nunca vista por uma platéia atônita. Para Sábato, o estudioso, Nélson retirou do todo-poderoso protagonista a presença física perene e absolutamente consciente que até então sufocava nossa dramaturgia, fazendo com que as conquistas da psicanálise subissem ao palco.
No plano da realidade, os acontecimentos são mínimos, porque no universo de Nélson, eles não têm importância maior que situar a trama para o espectador, resumindo-se a pequenas falas de repórteres, gritos de jornaleiros ou comentários de médicos que atendem a acidentada. Na peça, o que conta são as memórias e os delírios da moribunda, memórias cada vez mais fracas e delírios cada vez mais fortes, conforme a morte se aproxima, memórias e delírios libertos da censura porque, agora, estão ambos sob o comando do subconsciente. E não posso acreditar que o acaso seria o responsável por Lester Young ter realizado sua primeira gravação como líder no dia 28 de dezembro de 1943. Lester, assim como Nélson, não dava a mínima para o plano da realidade – entenda-se, aqui, partitura. A sua história era contada mais e sempre no plano da memória (que lhe possibilitava armar divertidos mosaicos de citações e frases compatíveis) e no plano da alucinação (através de improvisos que, sem exagero, até hoje nos emocionam e quase nos desamparam por sua beleza inevitável). Depois, Lester volta à derrapagem, às vidraças quebradas e à sirena. Para os amigos, como presente de Natal, deixo a faixa Sometimes I’m Happy , com Johnny Guarnieri (p) no plano da memória, Slam Stewart (b) e Sidney Catlett (d) no plano da realidade e Lester Young (ts) no plano do delírio. 
23/12/2008
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