Somente Edù, nosso amigo e correspondente em São Paulo, poderia nos apresentar ao O Melhor Bolo de Chocolate do Mundo. Como ficáramos hospedados na Av. Paulista, nas imediações do MASP – que completa 61 anos em outubro com a mostra Olhar e Ser Visto – Edù recomendou O Melhor Bolo de Chocolate do Mundo da Vila Madalena, Rua Girassol, 185. Enquanto partíamos a fatia lentamente, não pude deixar de observar como o olhar e o ser visto tem sido fundamental em nossa cultura, eminentemente, toda ela, visual. Veio à lembrança a matéria de nosso amigo Graciliano Rocha, da Folha de São Paulo, que informa: “Mesmo sem ter como ver a partitura enquanto dedilha as teclas, o pianista André Vicente da Silva executa peças sofisticadas, como a Sonata nº 2 de Beethoven ou a Invenção nº 3 de Bach. Para isso, conta só com os ouvidos e uma memória prodigiosa. Cego desde as primeiras horas após seu nascimento, vinte anos depois, André conseguiu passar na seleção do vestibular de música da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) - e se matriculou ontem (05/02/09). Diferentemente dos pianistas que enxergam, André tem muito trabalho antes mesmo de começar a tocar. Como partituras para cegos são uma raridade no Brasil, um amigo músico dita as composições, nota por nota, para que ele as reescreva em braille. Só então ele passa horas a percorrer as partituras com os dedos e a exercitá-las ao piano, além de ouvir a música incontáveis vezes. Sem poder interromper a execução para tatear a partitura, o pianista memoriza as peças. "É o meu método: a música entra na cabeça e, com exercícios, não sai mais", disse ontem à Folha.
A paixão pela música começou ainda na infância; o caminho para a erudição, aos 11, quando aprendeu a tocar teclado. Aos 17, aprendeu a ler partituras para se habilitar para o vestibular. "Não tem jeito, eu nasci para a música, estar aqui prova que não vale a pena viver sem sonhar." André não é o primeiro deficiente a chegar à faculdade de música da UFRGS. O pioneiro, Vilson Zattera, também cego, formou-se em instrumentos de cordas e sopros nos anos 80 e, hoje, toca jazz nos Estados Unidos. A chefe do departamento, Flávia Alves, afirma que a chegada desses jovens é um desafio à faculdade, que já começou a desenvolver material didático em braille.” E poderíamos falar aqui no Jazzseen sobre uma infinidade de músicos de jazz cegos, alguns desde o nascimento – como George Shearing ou Mike Markaverich – outros após o nascimento – como Ray Charles ou Roland Kirk – e os cegos de uma só vista, como Ry Cooder ou Art Tatum. Mas não há tempo agora. Ficaremos com um breve vídeo do pianista Alec Templeton (1909-1963), nascido cego em Cardiff, capital do País de Gales, único integrante do Reino Unido que manteve suas raízes célticas intactas e nunca permitiu a invasão dos anglo-saxões, devido não somente à bravura de seu povo como também pela sua montanhosa geografia. Daí seu nome Wales, que significa estrangeiro. Bem, não procure por Alec nos guias e dicionários de jazz, pois você ficará às cegas. Há um breve verbete sobre ele na página 726 do Dicionário Oxford de Música, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1994, obra dedicada à música clássica. Sim, após algumas lições quando criança, Alec completa seus estudos na London Academy of Music. Aos dezoito anos compõe um trio para flauta, oboé e piano, no que é congratulado por ninguém menos que Ralph Vaughan Williams. Em 1936 é convidado pelo bandleader inglês Jack Hilton a partir para os EUA, onde participaria de uma série de programas de rádio promovidos pela Standard Oil Company. Seu talento e espontaneidade são rapidamente reconhecidos, principalmente através de suas divertidas e inteligentes leituras dos clássicos, como nos álbuns Bach Goes To Town, Mozart Matriculates e Scarlatti Stoops To Conga, sempre revitalizados com a linguagem do jazz. Como ele mesmo disse certa vez: “Good music need not be ponderous to be good. It can be everything from Bach to jazz.” Embora seja mais lembrado como um versátil pianista popular, Alec registrou algumas composições sérias interessantes para piano, quarteto de cordas, orquestra e voz, quase sempre com fortes laços folclóricos. Célebre através dos diversos programas de rádio e televisão dos quais participou nas décadas de 1940 e 1950 – inclusive ao lado de gente como Bing Crosby – Alec chegou a ter seu próprio programa, o It’s Alec Templeton Time. A faixa a seguir, Moonglow, foi gravada em 1958, num dos Art Ford Jazz shows. Na volta da viagem, é claro, levei um bolo. Para quem não pode olhar nem ser visto, boa audição e bom apetite.
Era 25 de julho de 2005 e Roberto Scardua não conseguia esconder a excitação diante de sua primeira vez no Smoke Jazz Club, em New York. E não tirava os olhos da tatuagem da garçonete loura do Smoke - quem já foi ao club sabe de quem estamos falando - consumindo muito mais do que os apetites ordenavam, apenas para ver mais de perto as curvas e nuances do desenho sobre a pela branquíssima e com fortes indícios de tenra maciez. Eu por meu lado engolia lentamente minha Absolut sem gelo e lembrava de Ajax, obra de Sófocles onde podemos encontrar a lapidar máxima: "o silêncio embeleza todas as mulheres". Seria de fato verdade que a mulher virtuosa é aquela que não emite som? Por quais motivos Plauto teria dito que é sempre melhor a mulher silenciosa? Estaria aí o segredo do sucesso feminino? Bem, o show inicia e a pequena e delicada japonesa Saori Yano começa a nos contar estórias com seu pequeno e lépido saxofone. Instantaneamente Roberto desloca o pescoço em direção ao palco, percebendo que há outras formas de beleza no interior do Smoke.O fraseado da menina oriental remete imediatamente a Bird, o rei do bebop e fica evidente que a voz feminina pode dominar, em segundos, todo o ambiente do club. É claro, semre haverá quem o diga, que em certos trechos a sinuosa saxofonista ainda pontua com certa exitação seu discurso musical e quase vacila no vernáculo de Parker e Gillespie. Mas quase vacila de tal forma que não sabemos se é proposital, como um Guimarães Rosa inventando suas próprias palavras ou como um Machado de Assis realizando suas próprias concordâncias psicológicas.Afinal, quantos podem afirmar que gravaram seu primeiro álbum de jazz aos 16 anos? Saori descobriu o jazz através de um velho cd de Jaco Pastorius que pertencia a seu pai. É nesse álbum que a menina ouve Donna Lee, primeira vez que ouve Charlie Parker, abrindo os olhinhos e passando a ver as coisas de forma diferente. Aos 14 anos lê a biografia de Billie Holiday, que passa a ser sua segunda paixão no mundo do jazz, descobrindo que Lady Day, com apenas 14 anos, já cantava em clubs de jazz para sobreviver. Animada, Saori pega todos os telefones de clubs de jazz do Japão que consegue obter e se oferece como saxofonista.É claro que todos os clubs recusam a oferta da jovem desconhecida, exceto um, que a convida para uma audição. Daí por diante, seriam mais de 200 apresentações anuais em vários clubs que formariam a base musical de Saori, que nunca recebeu uma educação musical formal. É uma artista, como se diz, que aprendeu jazz "on the job". No meio do caminho, encontra músicos como Frank Wess, George Coleman, Toshiko Akiyoshi, Jimmy Cobb e sobretudo James Moody, saxofonista que influenciou a jovem menina não apenas musicalmente, mas também quanto ao caráter e à vida, além de sofrer horrores tentando lhe ensinar alguma teoria musical.
Sua primeira apresentação fora do Japão foi no Smoke Jazz Club, a convite de Jimmy Cobb, onde conta com o suporte sólido de Moody, resultando no álbum Parker's Mood, onde se pode ouvir o aplauso caloroso de Roberto Scardua à tatuagem da garçonete loura que, no fim, venceu a atenção do jovem colega.E, mais uma vez lembrando Sófocles, fiquei chocado quando soube que Saori não atingiu a notoriedade falando jazz, mas com a boca fechada e os lábios repletos de batom. Foi gravando uma série de comerciais de cosméticos em Los Angeles - Asian Beauty Series - que, absolutamente calada, Saori Yano atingiu a fama. Para os amigos fica a faixa I Got Rhythm, gravada naquela noite inesquecível, em que Roberto viu as pernas mais longas de sua vida. .
Já aconteceu de falarmos rapidamente sobre Zoot Simsaqui no Jazzseen, mas acredito que ele merece uma daquelas resenhas específicas, com data de nascimento e tudo: 29 de outubro de 1925, em Inglewood, California. Ainda bem novo, aprende clarinete e bateria, logo passando para o saxofone tenor, cuja técnica já domina aos quinze anos de idade. Inicialmente influenciado por Lester Young, o gênio idealizador do saxofone cool, Zoot vai construir cedo e rapidamente seu estilo e sonoridade próprios. Solidamente estruturado no swing, mas não imune às contribuições que vinham surgindo daqui e dali, como o bebop de Charlie Parker na década de 1940 e, mais tarde, a bossa nova, Zoot passa a boa impressão de nunca “errar”. Quando ouvimos suas gravações, que felizmente não foram poucas, temos a alegria de verificar que não há, em seu sopro, uma única nota a menos, nem a mais: como diz o crítico Scott Yanow “Sims nunca tocou uma frase inapropriada”. Embora seu estilo não se altere em demasia desde os anos 1950, Zoot seduz pela inventividade insaciável e pela musicalidade contagiante. Entre 1942 e 1944, Zoot trabalha com Bobby Sherwood, Sonny Durham e Benny Goodman, de quem seria o saxofonista tenor predileto por mais de trinta anos. Em 1944 realiza com Joe Bushkin sua primeira gravação como sideman. Após o serviço militar, volta a trabalhar com Goodman, ao mesmo tempo que toca com seu irmão Ray Sims, competente trombonista. Em 1947 Zoot passa a integrar a orquestra de Woody Herman, onde alcança notoriedade como um dos Four Brothers – os outros eram Stan Getz, Herbie Steward e Serge Chaloff). Entre 1949 e 1950 trabalha com Artie Shaw para, em seguida, partir em turnê pela Europa com Benny Goodman, continente que teria o privilégio de recebê-lo diversas vezes como, por exemplo, 1950, 1958, 1961, 1972, 1976, 1982 e 1984 na Escandinávia, quando teve diagnosticado seu câncer terminal. Além de ter sido o primeiro saxofonista a gravar um blues de longa duração, Zoot foi também o primeiro músico norte-americano a se apresentar no Ronnie Scott, famoso clube londrino, após o embargo imposto a músicos estrangeiros. Entre a imensidão de companheiros com os quais tocou durante seus breves sessenta anos de vida, devemos lembrar de Stan Kenton, Gerry Mulligan e, especialmente, de Al Cohn, espécie de alma gemia musical, com sonoridade e estilo bastante similar ao de Zoot. Embora breve a carreira, tivemos a sorte de Zoot ser um incansável freqüentador de estúdios, do que resultou num fantástico acervo de gravações que, sem medo de errarmos, oferecem uma das parcelas de swing mais contagiantes, inteligentes e alegres que poderíamos ouvir. Não é à toa que na faixa I Cried For You o baterista Danny Richmond sorri diversas vezes ao ouvir os solos de Zoot. A faixa foi retirada do excelente álbum Down Home, gravado em 1960 para o selo Bethlehem. Com Zoot estão também Dave McKenna (p) e George Tucker (b). Como Zoot disse em 1961 a Ira Gitler, numa entrevista para a Down Beat: “I want to go out playing jazz. I don’t want to do anything else”.
Quem, afinal, tem 85 anos de idade, eu ou Mr. Lester? Não posso acreditar que, em pleno século XXI, alguém com inteligência mediana não participe do rico experimentalismo que o jazz está vivendo em todo o mundo, exceto, talvez, no Lincoln Center e no Jazzseen. E, o que é pior para Mr. Lester e seus seguidores acústicos, muito desse experimentalismo não brota de New Orleans nem de New York, nem sai da boca de Wynton Marsalis nem de James Carter, mas daAlemanha, da Dinamarca, do Japão, da Noruega, do Canadá, da Austrália e d’outros lugarejos onde o jazz vai bem, obrigado. Seguindo a herança lastreada por gente como Joe Zawinul, Wayne Shorter ou Miles Davis, jovens livres e sem pudores estão por aí, associando jazz à eletrônica, enfrentando a realidade como ela é, e não como alguns gostariam que ela fosse, num saudosismo reumático que dói mais que todos os ossos reunidos de meu velho esqueleto. Exemplo? Pegue o trabalho de umThomas Siffling, competente trompetista alemão que vem mesclando o jazz acústico com a chamada electronic groove music e produzindo um som repleto de energia, contemporâneo e acessível a um público vasto e jovem. Em seu trabalho, Thomas resgata os modelos eletrônicos da década de 1970, o wah wah trumpet, o delay, além de elementos do Cajun e da percussão africana, entre outros, produzindo um dos mais atuais electronic groovy jazz. Como se não bastasse, Thomas ainda aprecia muito a culinária, do que resultou em seu álbum Kitchen Music, um convite para ouvidos e paladares. Para os velhacos, deixo a faixa Southside, retirada do álbumHuman Impressions, lançado em 2005 pelo selo Phazz-a-delic.
Pois é, tenho recebido centenas de e-mails incisivos, muitos deles beirando a agressividade, em função de que tornei público, via Jazzseen, que não tolero fusion, tambores, eletricidade e Miles Davis nem Djavan. Ora, em minha defesa, só poderia suscitar a prostituta das provas, o testemunho do amigo e guru do Meyer,Millôr Fernandes. Na página 20 de seu Millôr Definitivo: A Bíblia do Caos, 3ª Ed., o alquebrado mestre confessa: “Pois é, nasci com talento melódico numa época em que o pessoal só se interessa por percussão.” A coisa é por aí mesmo, com a turma da Timbalada associando-se às duplas caipiras eletrificadas, arrasando qualquer perspectiva do belo. Tudo bem, que não do belo em sua inteireza, mas do diverso em sua pluralidade e do plural em sua diversidade. Afinal que gravadora gostaria de administrar um cirrótico Lester Young se pudesse dispor de um cordato Kenny G? Você, dono da Sony Records, prefere conduzir a carreira de uma obstinada Billie Holiday ou a de uma saltitante Cláudia Leite? Trazendo novamente o turbulento testemunho do amigo Millôr: “Sou do tempo em que relógio tinha ponteiro.” Isso equivale a dizer que sou do tempo em que jazz não tinha tomada. Nunca poderia imaginar o Olney ou o André Tandetatocando uma bateria eletrônica, daquelas pré-programadas, que dispensam os pratos, as baquetas, o bumbo e o baterista: basta um bom software japonês fabricado na China. Não, isso não. Quero o som amadeirado das madeiras. Quero perceber o sopro que sai do lábio penetrando o instrumento de metal, escapando aqui e ali pelas frestas das boquilhas e palhetas. Quero a escova escovando. Quero os ruídos dos dedos movendo as chaves e das chaves tocando o corpo do sax ou do clarinete. Quero os sussurros surdos e as batidas de pé do pianista. Quero um porão mal iluminado e mal freqüentado, em New York, Rio, Paris ou Porto Alegre. Quero casa vazia, quero público atento, quero um relógio com ponteiros. Para os amigos fica a faixa Love For Sale , com o pianista russo Valeri Grohovski, acompanhado por Vitaly Solomonov (b) e Eduard Zizak (d). O álbum é Plays Cole Porter, de 2005, lançado pelo selo Studio Chenailles. Pois é, quero os mesmos e lindos clássicos, reinterpretados indefinidamente até que um raio me atinja.