27/02/2009

Fiel acompanhante

As cadeiras foram colocadas em sentido inverso sobre as mesas. O barman enxuga meticulosamente os copos lavados, reposicionando-os no seu lugar de origem. Os músicos repousam seus instrumentos nos estojos e aguardam o pagamento - retirado do faturamento da noite pelo gerente da casa. Os últimos clientes de um jazzclub em Manhattan prolongam, na medida exata do necessário, o instante de ir embora pra casa consumindo a mistura da água do gelo derretido com o que resta da bebida no copo. Para quem foi "autenticado" como o pianista de todas as horas essa era, para Ellis Larkins, a sua. Ambiente tranqüilo, platéia reduzida, atenta e um pequeno "set" de canções - de no máximo 25 minutos, onde dedilhava seu piano de forma sensível, de intensidade moderada e com profunda elegância. Ellis Larkins "conduzia climas" nas casas onde trabalhou: Michael´s Pub, Gregory´s e o Carnegie Tavern - ao lado do Carnegie Hall. Transformava as demonstrações de solenitude e respeito de seu público numa reduzida amostra do que acontecia no célebre palco vizinho. Filho de uma pianista amadora e de um violinista que sustentava sua família trabalhando como zelador, Ellis Lane Larkis nasceu em 15 de maio de 1923 em Baltimore. Quando tinha seis anos, seus pais o iniciaram nos estudo da música, identificando rapidamente sua prodigiosa capacidade de aprendizado. Com 13 anos fazia recitais tocando Mozart, Chopin e Rachmaninoff. Entra, aos 15 anos, no Peabody Conservatory recebendo, dois anos mais tarde, uma bolsa pra Juilliard School of Music (grandioso feito para um negro pobre) onde estuda por três anos. No trabalho prático de conclusão de curso examina as semelhanças entre as linhas melódicas de Bach e as do boogie-woogie. Após graduar-se, indeciso entre a carreira de concertista clássico e a de músico popular, arranja trabalho no trio do guitarrista Billy Moore. "Era um bom dinheiro para um rapaz de 19 anos e a carreira erudita talvez não me encaixasse"(numa alusão ao racismo). 

Observado por John Hammond, descobridor de Count Basie e Billie Holliday, teve providenciada sua sindicalização, gravando com Coleman Hawkins, Edmond Hall (clarineta) e as cantoras Mildred Bailey e Hellen Humes. Nos anos 40, absorve as influências de Earl Hines, Teddy Wilson, Count Basie e Fatts Waller. No início dos 50 desperta atenção pela suavidade na digitação, geralmente em tempo médio e no domínio completo da extensão do piano com absoluta fidelidade à melodia e à dinâmica harmônica. Além disso, conhecia, como poucos, o luxuoso repertório do American Songbook (consagrado almanaque de belas canções). Traquejado nesse domínio, acompanha em duo (voz e piano) Ella Fitzgerald em 1950 nos discos "Ella Sings Gershwin" - que precedeu a entrada da cantora nos célebres trabalhos dedicados aos compositores e, em 54, no "Sings in a Mellow Mood". Larkins registra com isso a reputação, pra maioria dos críticos, de maior acompanhante da história do jazz. Esses dois álbuns, reunidos no cd "Pure Ella" (Decca), estabeleceram padrão até hoje considerado referencial. E a concorrência entre seus pares à época era de: Teddy Wilson, Hank Jones, Eddie Heywood, Oscar Peterson e John Lewis entre outros mestres. De discografia pequena, Larkins recebeu destaque também por suas gravações com o trompetista Ruby Braff, com a mesma estrutura de duo, nos anos de 55, 72 e 94. Dos anos 60 em diante, Larkins concentrou-se ao ensino e à atividade de músico de estúdio e de locais sofisticados. Esteve no Brasil em 1978, tocando no São Paulo Montreux Jazz Festival. Nos final dos anos 80, mudou-se pra Los Angeles, para aproximar-se da comunidade fonográfica. Em 1992, grava pra série de piano solo da Maybeck Recital Hall (Concord) seu último registro importante. Aposenta-se no final da década de 90, vindo a falecer em 03 de outubro de 2002. 

Não pretendeu nada mais em vida. Apenas atendia uma obrigação pessoal. Jamais abrir mão da elegância. Para os amigos fica a faixa Rose Room , retirada do álbum A Smoth One, gravado em 1977 para a Black & Blue, com George Duvivier (b) e J. C. Heard (d).
 

25/02/2009

The Duke no quarter

Um dos maiores compositores da música norte-americana - e o maior do jazz -, Duke Ellington tornou-se efígie numismática. Ou seja, sua figura será estampada numa moeda. Duke era negro, bem visto pela sociedade branca, que o respeitava e consumia sua música elegante e alegre, ao mesmo tempo em que havia, em muitos de seus temas, a inspiração na história dos negros norte-americanos. É só ouvir Black Brown and Beige, New world a-comin e Deep South Suite. Não, não é música para aficcionados. Vale para todos. Duke Ellington é o primeiro negro a dar as caras numa moeda. Nem Martim Luther, com toda a sua aura de mártir e sua importância política, teve o privilégio. Nem esportistas como Muhammad Ali ou Jesse Owens. Duke tornou-se quarter, ou seja: vale 1/4 de dólar, ou 25 centavos. Lembro-me de que Elvis Presley, Ella Fitzgerald, Frank Sinatra e Bing Crosby - só para citar cantores - foram agraciados pela filatelia. Mas, até onde sei, nenhum músico valeu dinheiro. Nem um negro. Duke quebrou a rotina, vencendo uma votação popular no distrito de Columbia e passando para trás outros dois afro-americanos, o abolicionista Frederick Douglass e o astrônomo Benjamim Banneker. Bem, os anos Obama parece que começaram. E logo com mudanças - ou alguém dirá conquistas? - no mais importante símbolo norte-americano: o dinheiro. Bem, vale ressaltar que Duke Ellington nasceu em Washington D.C., e isso conta na hora do voto. Louis Armstrong, por exemplo, é mais representativo para o jazz do que Ellington, mas o trompetista é filho de New Orleans. Bem, a questão é política. A eleição de um presidente negro (ou afro-americano, como queiram) simboliza uma nova era, e desencadeia um processo de valorização da raça, afirmam alguns. Pode ser, embora eu tenha minhas desconfianças. Mais do que a figura de um negro, acredito que a valorização de um artista seja algo mais importante. Principalmente um jazista. Nisso - ao menos nesse quesito - o Brasil está à frente. Lembram-se de Heitor Villa-Lobos na nota de quinhentos cruzados? (Fonte: Ipsis Litteris).

  • Daniel Nakamura Guitar Web Site

  • 24/02/2009

    Praeludium et allegro

    Violinos e discursos podem ser extremamente maçantes quando utilizados indevidamente, acarretando, em casos mais extremos, uma sonolência invencível. Posso compreender que em certas ocasiões a solenidade requeira alguma gravidade, como seria o caso de um discurso de posse numa academia nacional de letras ou na interpretação das partitas para violino solo de Bach. Mas todo cuidado é pouco para não desafinarmos, não cairmos no ridículo da pompa estéril e da suntuosidade oca. Exemplos dos mais terríveis discursos já registrados em nossa História são os de posse na Academia Brasileira de Letras, alguns deles com mais de 140 páginas de comprimento e duração superior a 4 empoladas horas! Você pode imaginar alguma coisa assim? E nem estamos levando em conta os erros de ortografia, de gramática, de geografia e de história, tão abundantes nos discursos de nossos “imortais”. Estamos nos referindo apenas à amplitude e inadequação dos textos. Exemplo lapidar de discurso desafinado é o proferido por Levi Carneiro no dia 7 de agosto de 1937. A coisa começa assim, vejam:
    “Meus Senhores,
    Se, algum dia, os homens cedessem o domínio da Terra a outra espécie animal, é provável que os novos senhores do planeta se empenhassem na investigação de nossos defeitos e virtudes. Coordenariam depoimentos e informações. Em alguns pontos, vários destes coincidiriam. No conceito de La Fontaine – o homem, e não a serpente, simbolizava a ingratidão; no de Ortega y Gasset – a ingratidão era o mais grave defeito dos homens; num apólogo delicioso do nosso Machado de Assis, em tantos outros documentos, se apoiaria conclusão irrecusável: o homem fora, caracterizadamente, animal ingrato.
    Ficaria, assim, perpetuada a maior injustiça que os homens se fazem.
    É, em verdade, mais rara que se supõe, e se diz, a ingratidão humana. Por vezes, o que parece ingratidão é recato, discrição, timidez. Há uma gratidão ostentosa, gritante. Outra, humilde, penetrada do sentimento do obséquio recebido, e, em conseqüência, comedida, quase silenciosa. Não raro profunda, chega a parecer ingratidão. Não raro, por culpa do benfeitor. Pois benfeitores há, vorazes e sequiosos de gratidão, que cobram, com juros altos, o benefício prestado; querem-no sabido de toda a gente, pela confissão, explícita e reiterada, do beneficiado; reclamam a gratidão “imorredoura”, neste mundo precário. Chamam ingrato a quem os não satisfaz. Quanto a eles mesmos, não sei, em nossa língua, palavra que os designe. Oxalá a mencione vosso trabalhado dicionário.
    Mas, entre vós, não há alguém a que se pudesse ela aplicar. Todos haveis, portanto, de perceber em mim, em minha palavra, que mal a traduz, na fidelidade do meu culto continuado e antigo, na emoção do recém-vindo, a minha gratidão por vossa benevolência, ao conferir-me o prêmio mais alto de minha pobre vida. Eu mesmo o reconhecia imerecido, e, por isso, mal o soube pedir, ainda que, por incoerência imperdoável, também não soubesse persistir na relutância inicial.
    Algumas vezes o tereis concedido, por antecipação, como incentivo, atraindo ao recolhimento de vosso puro labor intelectual os que sentistes dominados pela vocação suprema.
    De mim bem sei que, não merecido o prêmio, era tardio e inútil o incitamento.”
    Eu sei que é terrível, eu sei. Quem quiser sofrer mais um pouco pode ler o resto do discurso aqui. E não se assuste se você desconfia que certas orações do discurso acima parecem não fazer nenhum sentido porque elas não fazem nenhum sentido mesmo. Levi Carneiro foi um advogado bem sucedido, fundador e primeiro presidente da OAB, membro de uma infinidade de academias e institutos estaduais, nacionais e internacionais, mas não escreveu um único livro digno de nota. Agrippino Grieco, crítico e intelectual respeitável, afirma em seu livro Zeros à esquerda que “a Academia só o recebeu para ter um advogado esperto que a representasse em qualquer processo de despejo” já que era um “profundo entendedor das tramas do Palácio da Justiça”. No mesmo ano em que Levi Carneiro tomava posse na ABL, colocando sua bunda alva e roliça na cadeira que havia pertencido a Joaquim Nabuco, Eddie South (1904-1962) utilizava bem seu violino, que começou a estudar ainda criança na Louisiana, com a ingênua intenção de tornar-se um instrumentista de concerto. É claro que nos EUA de 1920’ uma orquestra sinfônica não era lugar para negros e, assim, Eddie começou a trabalhar em orquestras de baile em Chicago, como as de Jimmy Wade, Charlie Elgar e Erskine Tate. No final da década de 1920 Eddie trabalha com Little Mike McKendrick e, depois, forma sua própria banda, Alabamanians, realizando suas primeiras gravações. Em 1928 vai pela primeira vez à Europa, onde se torna popular e adquire admiração pela música cigana, que conheceu em Budapeste, e que o influenciaria por toda a vida. Durante os anos 30, trabalhando com sua banda em Chicago, Eddie não alcança o sucesso que outros músicos talentosos haviam atingido. Em 1937, retorna à Europa, tocando na Mostra Internacional de Paris, oportunidade em que realiza algumas gravações com Django Reinhardt e Stéphane Grappelly. Retornando aos EUA, atua em pequenos grupos, acompanha excelentes músicos, como Earl Hines e apresenta-se no rádio e na TV, mas sem atingir notoriedade proporcional à sua habilidade técnica e ao seu poderoso swing. Após sua morte, Eddie foi esquecido pelas gravadoras, falha grave com um dos mais importantes estilistas do violino no jazz e, certamente, o mais melódico de todos. Assim, tomando cuidado com os discursos da ABL e com os violinos no jazz, deixo para os pacientes ouvintes a faixa Praeludium and Allegro , retirada do álbum The Chronological Eddie South 1937-1941 – Classics 737, com David Martin no piano.