05/03/2009


  • Músicos do Brasil: Uma Enciclopédia Instrumental

  • 04/03/2009

    Just friends, just friends!

    Após acirradas investigações, que lhe consumiram cerca de trinta anos de dedicação, análises, grampos ilegais, entrevistas, compra de testemunhas e viagens pagas pelo governo, John Lester finalmente descobriu o verdadeiro motivo pelo qual o trombonista Frank Rosolino se suicidou, após atirar em seus dois únicos filhos, matando um e cegando o outro, em 1978. Alguns biógrafos atribuem o trágico incidente ao fato de que, seis anos antes, sua mulher também cometera suicídio, na frente de Frank, o que lhe teria marcado tão profundamente que o levou a praticar o ato insano contra si e sua prole. Parece razoável esta versão, mas Lester demonstra de forma cabal que o verdadeiro motivo foi uma aberrante gravação realizada por Frank com um grupo de músicos acadêmicos, um deles, o pianista, formado na Royal Academy of Music de Bruxelas. Seria bom que o amigo leitor ouvisse a faixa Stella by Starlight (apresentada como prova nos tribunais) enquanto lê o breve relato sobre o ocorrido. Era 1975. Frank já quase esquecera o terrível suicídio da esposa. Estavam os dois excelentes músicos, Frank Rosolino e Conte Candoli, passeando alegremente pelas ruas de Munique quando avistam o clube de jazz Domicile. Passando pela porta, são reconhecidos por três jovens bacharéis em música, que os convidam para uma jam session. O público, excitado com a presença daqueles dois mestres do jazz West Coast, clamava aflito para que subissem ao palco, e assim foi. 

    Por um desses reveses que a vida guarda, a jam foi registrada pela MPS e, em virtude da insistência com que Frank e Conte repetiam a frase “somos apenas amigos, somos apenas amigos” para tentar justificar o fiasco do show, o álbum foi batizado de Just Friends. O fato é que, três anos mais tarde, na véspera do dia D de Frank, ele resolveu ouvir o tal álbum, apenas para confirmar se era, afinal, tão escandalosamente ruim assim o tal álbum gravado ao vivo. Após ouvir novamente os acadêmicos Rob Pronk (p), Isla Eckinger (b) e Todd Canedy (d), deu no que deu: dois mortos e um gravemente ferido. Lester agora reúne as últimas provas onde restará pacífico que Toddy Canedy começou seus estudos de bateria na UFES e os terminou na UNIRIO, com 100% de frequência. Notem, amigos, como Frank e Conte tentam, árdua e inutilmente, abafar o som que exala da terrível cozinha acadêmica. O resto tramita em segredo de justiça.

    02/03/2009

    Autodidata

    Nosso amigo Tandeta, membro do excelente blog Charuto Jazz, parece não ter gostado de nossa defesa ao autodidatismo, expresso na resenha anterior sobre Urbie Green. Na referida resenha, Tandeta fez o seguinte comentário: "Mr. Lester, desculpe a sinceridade mas o texto é pura conversa mole pra boi dormir. Desde a decada de trinta os musicos de jazz tem sempre uma formação musical bastante solida,muitos sairam de universidades ou das escolas de musica das Forças Armadas,da Marinha principalmente.Esse musico autodidata e que toca totalmente de ouvido ficou la pra tras ,bem nos primordios. Caso haja duvida recomendo consultar "Early Jazz" de Gunther Schuller,paginas 292 e 293. Urbie Green é um músico excepcional e devemos ouvi-lo sempre, é um dos mestres do trombone. Otima essa faixa colocada aqui. Abraço." Em seguida, embora exausto e faminto, Mr. Lester respondeu ao ilustre visitante:
    "Prezado e veemente Tandeta, obrigado pela participação, sempre contundente. Após bater uma laje, não poderei acordar o boi, mas faço uma breve anotação. Não faz muito, por um desses dissabores do destino, fui expulso por faltas da Universidade Federal do Espírito Santo, onde havia sido aprovado em terceiro lugar para o vestibular de música. Aulas pela manhã, você sabe, aparecia 11:30 para pegar a presença e não obtinha sucesso. Mas não há como negar o aprendizado obtido: confirmei que a universidade não faz a menor falta para o artista genial. Claro, ela pode ajudar o aluno dotado e inteligente a tornar-se um músico competente – instrumentista ou compositor. Mas o gênio sobrevive sem ela. Os musicalmente medíocres, como eu, saem de lá executando de forma singela alguma peça mais simples ou compondo coisas como atirei o pau no gato. Mas o gênio, esse prescinde do academicismo e talvez até se favoreça sem ele.

    Quanto às fontes, é bom lembrar que a Bíblia tem mais de 20 interpretações, cada uma delas de acordo com a visão cristã que determinada seita assume. Por isso, não baseio minhas opiniões apenas no que leio, citando a fonte, mas comparando-a com as demais disponíveis e igualmente confiáveis para, ao cabo, formar opinião própria, coisa rara nas esquinas e raríssima na net. É claro, e concordo com você, que Gunther Schuller é uma figura importante do jazz, nem tanto como tocador de tuba, nem tanto como compositor, nem tanto como regente, nem tanto como professor, mas sobremodo como crítico, estudioso e historiador do jazz.

    Também por uma dessas vontades do destino, possuo a obra completa já publicada de Schuller, em inglês (pela Oxford) e em francês (pela Parenthèses). E, já que você citou o moço, ele mesmo não se cansa de pedir desculpas pelos erros mais crassos que comete em seus livros. Por exemplo: em seu livro The Swing Era: The development of jazz, 1930-1945, Ed. Oxford, 1989, p. 327, ele mesmo escreve: “I fear that I misjudged the pré-Calloway Missourians somewhat in Early Jazz. While admiring their elemental, fiery drive, I also suggested that they worked primarily in clichés. Cliché is probably too strong word.” Como se não bastasse, ele afirma, na mesma página, que "The twelve sides recorded by pre-Calloway Missourians are virtually unique in jazz-recording history and contain, in their particular idiom, at least a couple of masterpieces”. Ou seja, sua fonte, prezado Tandeta, é, no mínimo, sincera ao assumir e corrigir as próprias bobagens que fala enquanto os bois dormem.

    E, nesse item Schuller, vale lembrar as palavras do crítico Blair Johnston: “Like American music itself, however, Schuller has not always steered clear of controversy — the very masses that admire him have sometimes been baffled by his uncompromising attitudes and blunt statements.”
    Por isso, sempre consulto mais de um livro antes de emitir opinião própria. Só não poderei me prolongar nesse tema em virtude da terrível fome de Joana, minha bassê, que puxa ferozmente minha camisa para que eu lhe dê a ração noturna. Mas, prometo, voltarei ao assunto self-taught, citando críticos honestos e respeitáveis que admiram e exaltam o autodidatismo.

    Reafirmo apenas que considero o autodidatismo saudável sim. Precisamos de pessoas capazes de transcender o arsenal acadêmico disponível, trazendo à tona descobertas, invenções, arte e tecnologia que a grande maioria dos universitários jamais foi e jamais será capaz de produzir. Vide Van Gogh e vide Charlie Parker.

    Precisamos dos Bix Beiderbecke, Ornette Coleman, Lester Young, Ruby Braff, Trevor Watts, Errol Garner, Mary Lou Williams (como compositora), Krzysztof Komeda, John Zorn, Max Roach e tantos outros que nos fizeram e nos fazem coçar a cabeça quando tocaram ou quando tocam.

    E, prezado amigo, não deixe escapar a oportunidade de ler na íntegra a esclarecedora entrevista concedida pelo crítico Gene Lees, onde há o seguinte trecho:

    JJM You have stressed the educational background and technical knowledge that's necessary to be a good jazz musician.
    GL Part of the myth of jazz, because it's an improvised music and requires improvisation, is that these guys were ignorant of music. There have been a very few jazz musicians who played pretty much by ear - which doesn't mean you have no talent, it means you don't even need the written note, you can hear it. A few guys like Errol Garner and Wes Montgomery could not read music, but by and large, most jazz musicians have had very good schooling, which is to say that jazz musicians have almost all had classical training, whereas classical musicians have not had jazz training. That is why the jazz musicians, such as Andre Previn, are able to go on to be symphony composers and conductors. Mel Powell, the stride pianst James P. Johnson and Earl Hines all had very good knowledge of the classical repertoire. Something else to be kept in mind, "self-taught" does not mean "un-taught." There are two or three composers, like Gil Evans and Robert Farnon, both of whom happen to be from Toronto, who trained themselves. They got scores and read them and studied them, and believe me, they know those scores as thoroughly as anybody from any conservatory. Farnon told me once, when he was first writing at age 15, he would write one part at a time, lining it up on the floor with papers spread all around him. He met Don Redman, who asked him if he had ever heard about writing on a single sheet of paper as a score. So when you say he was self-taught, sure, up to a point he was, but somebody showed him something along the way.

    JJM There is a similar story about Benny Carter learning arranging by laying out parts on the floor…
    GL Yes. You know, a lot of guys did that! It's a not uncommon phenomenon. (íntegra: http://www.jerryjazzmusician.com/mainHTML.cfm?page=lees.html ).

    Ou seja, ser autodidata em música não significa não saber música. Aurélio e Houaiss deixam isto claro.
    Quanto ao autodidatismo no jazz atual, a coisa continua fluindo normalmente, com diversos músicos sem qualquer formação acadêmica ou que largaram as universidades após alguns meses ou anos de estudo, sem concluírem seus cursos. Quanta saudade do Vitor Assis Brasil hein?"

    E você, amigo leitor, o que acha do autodidatismo no jazz?

    Urban Trombonist

    Sempre encontramos pelas ruas aqueles que consideram jazz música menor, feita por amadores e autodidatas. Curiosamente, também sempre esbarramos naqueles que consideram o jazz uma música demasiadamente sofisticada, feita por gênios e apreciada por um seleto grupo de especialistas. Nós, amantes do jazz, sabemos que nem uma coisa nem outra procedem absolutamente. Ou seja, ambos têm razão em parte. Ocorre apenas que algumas orelhas são domesticadas a tal ponto que perdem a capacidade de ouvir. Outras são tão envenenadas pelo ruído fácil que perdem a capacidade de discernir as diferenças entre música, gritinhos e batucada. Sim, o jazz tem sido feito, em grande parte, por autodidatas dotados de ouvido absoluto, o que lhe fornece a seiva da espontaneidade e da liberdade. Mas o jazz também tem sido realizado por músicos com sólida formação acadêmica. Isso sempre ocorreu na história do jazz: veja, por exemplo, Buddy Bolden e Scott Joplin. É certo que hoje o academicismo tem sobrepujado gradativamente o autodidatismo, mas sempre haverá no jazz aquele espaço para a invenção destemida que, por sorte, vez por outra nos brinda com um genial improviso, fruto da mais irresponsável vontade de fazer essa música instantânea que é o jazz. Sim, eu sei que muitos músicos carregam seus improvisos escritos na manga. Mas eu poderia citar uma boa dúzia de instrumentistas em atividade que não necessitam desse cauteloso recurso para improvisar. Mas não viemos aqui oferecer denúncias contra ninguém. Viemos apenas confundir o amigo que nos visita e lê, afirmando que o jazz é sim uma música menor - no sentido de que não é e nem pretende ser "música séria" - no sentido de que não é e não pretende ser música clássica européia. O jazz foi e ainda é feito por autodidatas, mas também por músicos graduados em universidades. Sim, o jazz é uma música complexa, feita por homens e mulheres que por um motivo ou por outro não puderam ou não quiseram seguir a carreira de concertistas. O jazz é uma das poucas músicas populares que ultrapassa a categoria do artesanato, podendo ser classificada como arte. Muito disso se deve ao fato de que alguns instrumentistas sabem fundir a perícia técnica com os sentimentos que determinam o jazz, seja lá o blues, seja lá o swing, seja lá o spiritual, seja lá o que for, com a respectiva pitada de improviso. Um desses instrumentistas é o trombonista Urbie Green, nascido em Mobile, Alabama, em 8 de agosto de 1926.


    São 82 anos de excepcional técnica a serviço do melhor jazz. Nem precisaríamos escrever nada sobre Urbie se considerássemos que ele já tocou com Gene Krupa, Woody Herman, Benny Goodman, Louis Armstrong, Count Basie, Leonard Bernstein, Frank Sinatra, Billie Holiday, Tony Bennett, Peggy Lee, Pearl Bailey, Ella Fitzgerald, Mile Davis, Charlie Parker, Coleman Hawkins, Dizzy Gillespie, Barbara Streisand, Perry Como, Aretha Franklin, Quincy Jones, J.J.Johnson, Tom Jobim, Burt Bacharach, Buck Clayton e Herbie Mann, apenas para citarmos alguns. Mas nós somos chatos e queremos falar mais sobre Urbie, que começou a tocar aos 12 anos. Após passar a adolescência nas bandas de Tommy Reynolds, Bob Strong e Frankie Carle, Urbie trabalha com Gene Krupa (1947-1950), Woody Herman (1951-1952), participa das famosas jam sessions de Buck Clayton (1953-1954), até que toca na banda de Benny Goodman (1955-1957). A partir da década de 1960' dedica-se às gravações em estúdio, tornando-se um dos mais respeitados trombonistas norte-americanos e recebe inúmeros prêmios, entre eles várias premiações dos críticos da Down Beat. Nesse meio tempo, grava mais de 30 álbuns como líder e cria a 'ghost band' de Tommy Dorsey. Praticamente insuperável nos registros altos, Urbie tem posto toda sua perícia técnica à disposição de nosso prazer, como no último álbum que pude adquirir, Sea Jam Blues, gravado a bordo de um cruzeiro em 1995 e lançado pela Chiaroscuro em 1998. Para os amigos fica a faixa La Salle , retirada do álbum Urbie Green - Septet & Octet, lançado pela Fresh Sound e contendo, entre outras gravações, as primeiras realizadas por Urbie, em 1953, para a Blue Note. Com ele estão Jimmy Lyon (p), Danny (Dante) Martucci (b), Doug Mettome (t), John Murtaugh (ts), Sam Staff (bs), e Jimmy Campbel (d). Boa audição e, se puder e quiser, mande um abraço para o Urbie AQUI. Eu já enviei o meu.