Já falamos diversas vezes sobre ele aqui no Jazzseen, mas nunca de forma específica e exclusiva. Quando vi a capa, sorri ao perceber em destaque (featuring) o nome da pianista Renee Rosnes. Contudo, no minuto seguinte, observando melhor a capa, considerei bastante indelicada a não citação do nome do baterista que os acompanha. Será que, no jazz, o preconceito em relação às mulheres está hoje menos latente que o preconceito contra os bateristas? Cheguei a lembrar das severas palavras de Reinaldo Santos Neves, presidente vitalício do Clube das Terças: "baterista bom é baterista maneta". Enquanto falava, um orgulhoso Reinaldo retirava do bolso rara e antiga estampa eucalol onde todos podíamos ver o tal baterista maneta de seus sonhos. Mas não acredito ser esse o caso de Jonas Johansen. Ele tem duas mãos bem firmes e coordenadas, que não se deixam intimidar pela inteligência contagiante de Rosnes e Pedersen. Merece que seu nome conste da capa desse álbum - homenagem ao pianista Kenny Drew - que é mais um dos muitos e excelentes álbuns gravados por Pedersen. Nascido na Dinamarca em 27 de maio de 1947 com o complicado nome Niels-Henning Orsted Pedersen, ou NHOP para os mais preguiçosos, começou ainda criança a estudar piano, passando logo em seguida para o contrabaixo, instrumento com o qual inicia sua carreira aos 14 anos de idade com a formação de seu primeiro conjunto, o Jazzkvintet 60. Músico virtuoso e preciso, seus dedos podiam manter a batida em qualquer contexto de tempo, desde o swing até o free jazz, pasando pelo bebop e pelo hard bop. Sim, sua criatividade e domínio técnico permitiram que se adaptasse perfeitamente aos biomas de espécimes tão díspares como Count Basie, Coleman Hawkins, Teddy Wilson, Ben Webster, Roy Eldridge, Benny Carter, Oscar Peterson, Joe Pass ou Bud Powell, Dizzy Gillespie, Chet Baker, Sonny Rollins, Miles Davis, Bill Evans, Dexter Gordon, Jackie McLean, Sahib Shihab, Roland Kirk ou Archie Shepp, Anthony Braxton e Albert Ayler. Na verdade, não houve músico de jazz que tenha passado pelas frias terras da Escandinávia e não tenha perguntado por Pedersen. Daí ter recebido, aos dezessete anos, convite de Count Basie para integrar sua banda, convite recusado pela menoridade que lhe vedava a residência e o trabalho nos EUA. Mais tarde, recusaria também o convite de Oscar Peterson para integrar permanentemente seu trio, substituindo Ray Brown. Nisso, continua integrando a banda Jazzhus Montmartre, de Copengagen, até que, na década de 1960, inicia sua imensa contribuição como sideman em uma série interminável de shows e gravações. Além de cobiçado acompanhante, NHOP grava alguns álbuns como líder, sobretudo para a gravadora SteepleChase. Na década de 1970 Pedersen inicia uma série de colaborações importantes com Stephanny Grappelli, Oscar Peterson e, com mais assiduidade, Kenny Drew, pianista com o qual elabora uma sólida amizade e com quem grava mais de 50 álbuns. São também desta década as gravações memoráveis que realizou para o selo Pablo com uma série de ícones do swing. Como líder, o trabalho de Pedersen pode ser situado no post-bop, quase sempre integrando suas raízes populares ao jazz, como no excelente álbum Dancing on the Table, gravado e lançado pela SteepleChase em 1979, com Dave Liebman (ts), John Scofield (g) e Billy Hart (d), onde ouvimos quatro composições próprias e uma do folclore local, Jeg Gik Mig Ud en Sommerdag. Para os amigos deixo a faixa-tributo Kenny gravada por esse músico que nos deixou precocemente em 2005, aos 58 anos.10/04/2009
A sobrevivência do mais apto
Já falamos diversas vezes sobre ele aqui no Jazzseen, mas nunca de forma específica e exclusiva. Quando vi a capa, sorri ao perceber em destaque (featuring) o nome da pianista Renee Rosnes. Contudo, no minuto seguinte, observando melhor a capa, considerei bastante indelicada a não citação do nome do baterista que os acompanha. Será que, no jazz, o preconceito em relação às mulheres está hoje menos latente que o preconceito contra os bateristas? Cheguei a lembrar das severas palavras de Reinaldo Santos Neves, presidente vitalício do Clube das Terças: "baterista bom é baterista maneta". Enquanto falava, um orgulhoso Reinaldo retirava do bolso rara e antiga estampa eucalol onde todos podíamos ver o tal baterista maneta de seus sonhos. Mas não acredito ser esse o caso de Jonas Johansen. Ele tem duas mãos bem firmes e coordenadas, que não se deixam intimidar pela inteligência contagiante de Rosnes e Pedersen. Merece que seu nome conste da capa desse álbum - homenagem ao pianista Kenny Drew - que é mais um dos muitos e excelentes álbuns gravados por Pedersen. Nascido na Dinamarca em 27 de maio de 1947 com o complicado nome Niels-Henning Orsted Pedersen, ou NHOP para os mais preguiçosos, começou ainda criança a estudar piano, passando logo em seguida para o contrabaixo, instrumento com o qual inicia sua carreira aos 14 anos de idade com a formação de seu primeiro conjunto, o Jazzkvintet 60. Músico virtuoso e preciso, seus dedos podiam manter a batida em qualquer contexto de tempo, desde o swing até o free jazz, pasando pelo bebop e pelo hard bop. Sim, sua criatividade e domínio técnico permitiram que se adaptasse perfeitamente aos biomas de espécimes tão díspares como Count Basie, Coleman Hawkins, Teddy Wilson, Ben Webster, Roy Eldridge, Benny Carter, Oscar Peterson, Joe Pass ou Bud Powell, Dizzy Gillespie, Chet Baker, Sonny Rollins, Miles Davis, Bill Evans, Dexter Gordon, Jackie McLean, Sahib Shihab, Roland Kirk ou Archie Shepp, Anthony Braxton e Albert Ayler. Na verdade, não houve músico de jazz que tenha passado pelas frias terras da Escandinávia e não tenha perguntado por Pedersen. Daí ter recebido, aos dezessete anos, convite de Count Basie para integrar sua banda, convite recusado pela menoridade que lhe vedava a residência e o trabalho nos EUA. Mais tarde, recusaria também o convite de Oscar Peterson para integrar permanentemente seu trio, substituindo Ray Brown. Nisso, continua integrando a banda Jazzhus Montmartre, de Copengagen, até que, na década de 1960, inicia sua imensa contribuição como sideman em uma série interminável de shows e gravações. Além de cobiçado acompanhante, NHOP grava alguns álbuns como líder, sobretudo para a gravadora SteepleChase. Na década de 1970 Pedersen inicia uma série de colaborações importantes com Stephanny Grappelli, Oscar Peterson e, com mais assiduidade, Kenny Drew, pianista com o qual elabora uma sólida amizade e com quem grava mais de 50 álbuns. São também desta década as gravações memoráveis que realizou para o selo Pablo com uma série de ícones do swing. Como líder, o trabalho de Pedersen pode ser situado no post-bop, quase sempre integrando suas raízes populares ao jazz, como no excelente álbum Dancing on the Table, gravado e lançado pela SteepleChase em 1979, com Dave Liebman (ts), John Scofield (g) e Billy Hart (d), onde ouvimos quatro composições próprias e uma do folclore local, Jeg Gik Mig Ud en Sommerdag. Para os amigos deixo a faixa-tributo Kenny gravada por esse músico que nos deixou precocemente em 2005, aos 58 anos.08/04/2009
Jasmine
Enquanto alguns integrantes do Jazzseen nesse instante preparam suas malas em direção à Europa, nós ficamos por aqui mesmo, persistindo nessa luta insana em promover o jazz. Não bastassem as ausências momentâneas, facilmente contornáveis com uma gostosa saudade, ainda somos obrigados a organizar na alma as despedidas definitivas, somente solucionadas com o transcurso de longos anos e muitas lágrimas. Bud Shank partiu no dia 2 de abril de 2009. Ele não volta, é o que dizem. Aos vinte anos graduava-se pela University of North Carolina, onde desenvolve à perfeição não apenas o sax alto, como também a flauta, o clarinete e o sax tenor. Nascido em Ohio, parte para a California, onde se tornaria um dos expoentes do cool jazz, com tonalidade franca, clara e suavemente rascante. Associada à técnica exemplar – foi um dos mais competentes discípulos de Charlie Parker – sua fascinação pelas descobertas permite-lhe transbordar os limites do jazz, aventurando-se pela bossa nova e pelo rock (sim, ouça a flauta em California Dreamin' do The Mamas and The Papas). Na Costa Ensolarada estuda com Shorty Rogers e passa a integrar uma série de combos com Charlie Barnet, Stan Kenton, Howard Rumsey, Bob Cooper, June Christy, Gerry Mulligam, Art Pepper, Nat King Cole, Miles Davis, Barney Kessel, Shorty Rogers, Shelly Manne, Anita O’Day, Jimmy Giuffre, Ella Fitzgerald, Bill Perkins, Mel Tormé, Lou Levy, Ernestine Anderson, Johnny Mandel, Billy Eckstine, Oscar Peterson, Charlie Byrd e Laurindo Almeida, guitarrista brasileiro com o qual produziria alguns dos melhores trabalhos de jazz-bossa. Embora tenha sido um dos pioneiros e melhores flautistas do jazz, abandona-a para entregar-se mais detidamente ao sax alto, instrumento com o qual alcança a maestria e voz própria. Dedicando-se aos estúdios e às trilhas sonoras na década de 1960, ainda encontrava tempo para gravar com Chet Baker, Sérgio Mendes, Herb Ellis, Benny Goodman, Pete Rugolo, Joe Pass, Maynard Ferguson, Peggy Lee, Benny Carter, Tom Jobim, Phil Woods, Jack Sheldon, George Shearing, Lorez Alexandria, Wanda Sá, Julie London, Astrud Gilberto, Gerald Wilson, Steve Allen, Lalo Schifrin, João Gilberto, Henry Mancini, Jean-Luc Ponty, Clare Fisher e muitos outros, entre eles João Donato, iniciando com o álbum A Bad Nonato uma parceria descontínua de quarenta anos. Na década seguinte formaria o LA Four, com Laurindo Almeida, Ray Brown e Chuck Flores, além de contribuir com mais algumas dezenas de gravações memoráveis com diversos amigos, entre eles Sarah Vaughan, Michel Legrand, Maria Maldaur, Rosemary Clooney, Albert Mangelsdorff, Oliver Nelson, Ray Charles, Teresa Brewer, Quincy Jones, Clark Terry, Freddie Hubbard, Marco Silva e Bobby McFerrin. No dia anterior à sua morte, aos 82 anos, Bud estava num estúdio em San Diego, participando da gravação de mais um álbum. No dia seguinte, em sua casa em Tucson, Arizona, morreu. Para os amigos saudosos fica a faixa Jasmine , retirada do álbum Bud Shank & Short Rogers, gravado em março de 1954 e lançado pela Pacific Jazz em 1955. Com Bud estão Shorty Rogers (flh), Jimmy Rowles (p), Harry Babasin (b) e Roy Harte (d).É.
07/04/2009
Elas também tocam jazz
Sim, após quase seis meses de espera - prazo nunca antes transcorrido nas compras via Amazon - e duas remessas do mesmo produto: The Penguin Guide to Jazz Recordings, Ninth Edition, finalmente o fornecedor desistiu de enviar-me o produto, sugerindo que eu realizasse nova compra com endereço distinto, devolvendo-me o numerário correspondente. Seria a crise? Afinal sou cliente assíduo da Amazon desde 1999 e nunca havia passado por situação semelhante. Desconsolado, desisti do guia na semana passada. Quando foi ontem, recebi do correio uma notificação para recolher uma entrega - que eu supunha ser a coleção Complete Works of Wolfgang Amadeus Mozart, com singelos 170 cd's, lançada pela Brilliant Classics em homenagem aos 250 anos de nascimento do compositor - completados em 2007 - e, vejam só, em seu lugar lá estava meu Penguin Guide, são e salvo. Talvez as autoridades policiais e os órgãos de Inteligência tenham revirado a encomenda em busca de algum indício contra John Lester, o homem mais procurado da Barra do Jucu depois de Martinho da Vila. Ou sei lá, talvez seja apenas incompetência dessas novas franquias concedidas pelos Correios, com queda sensível na qualidade dos serviços prestados. Seja lá como for, iniciei a leitura do guia imediatamente, enquanto dirigia, bebia uma coca-cola, falava ao celular e fumava, sem que os pedestres e veículos adversários pudessem supor o risco a que estavam expostos. Nos semáforos vermelhos podia conferir detalhadamente alguns pormenores: primeiro que o número de páginas continua aumentando - de 1534 na oitava edição para 1646 na atual. As coroas - ingleses adoram essas coisas - permanecem alocadas aos álbuns que os autores - Richard Cook e Brian Morton - consideram marcos absolutos do jazz.
Outra boa surpresa é constatar que o primeiro verbete do guia fala de Froy Aagre, saxofonista holandesa da qual nunca ouvira falar nem tocar. Em seu site a oferenda de pequenos trechos de suas gravações não permitem uma análise adequada de sua performance. Mas no site Musik encontramos uma excelente coletânea promocional do jazz holandês absolutamente gratuita, o que nos permite avaliar a moça na execução da faixa Last Waltz , constante dos 3 generosos cd's lá ofertados. Trata-se de música séria, pouco indicada aos tradicionalistas de um lado ou aos baladeiros de outro. Numa linguagem atual, Froy demonstra não apenas o domínio do sax soprano, como também fica à vontade com os ensinamentos de John Coltrane e Steve Lacy. Pitadas de cor local dão à faixa o clima de tolerância tão característico desse país repleto de cidades modernas e campos de tulipa.Na contracapa, à guisa de publicidade, consta o excerto da International Record Review: "The leader in its field. If you own only one book on jazz, it really should be this one." Exagero, por certo. Ainda prefiro o All Music Guide to Jazz por uma série de motivos. Um deles é que, também na contracapa do Penguin, consta "Artist biographies", o que só pode ser considerado o mais puro humor britânico quando lemos, por exemplo, a pequeníssima biografia de Froy Aagre: "Talented Norwegian, whose main outlet is the group Offbeat." ou a minúscula biografia de Kris Bauman: "New Yorker with ambition." ou a de Carolyn Hume: "Limpid minimalist." As biografias do All Music são muito mais honestas e consistentes. Outro motivo seria a ausência do guitarrista Eddie Duran e muitos outros músicos e álbuns, todos constantes do All Music Guide to Jazz, tomo que se caracteriza por quase esgotar as gravações existentes de cada artista. Mas o Penguin tem lá seus méritos e, para mim, o principal deles é a alta qualidade dos inteligentes e por vezes divertidos comentários dos álbuns que apresenta. Recomendo como terceira compra, depois do The New Grove Dictionary of Jazz, disponível em um ou três volumes.
E deixem minhas encomendas chegarem em paz!
04/04/2009
Puma
Na resenha anterior, quando Mr. Bravante mencionou o felino puma, lembrei imediatamente do guitarrista Joe Puma (1927-2000), figura bastante admirada pelos amantes do jazz West Coast, muito embora seja originário da costa leste. Injustamente, ele não é citado na The Virgin Encyclopedia of Jazz, edição de 2004, nem tampouco consta do The Rough Guide to Jazz, 3rd Edition, do mesmo ano. Mas os guias de maior gabarito falam desse guitarrista nascido numa família de músicos de New York e que aprende ainda criança seu ofício. Aos 22 anos inicia para valer a carreira ao lado do vibrafonista Joe Roland. Na década de 1950’ Puma é visto em todos os lugares, gravando inúmeras sessões com gente do naipe de Louie Bellson, Artie Shaw, Eddie Bert, Herbie Mann, Chris Connor, Paul Quinichette e, na década seguinte, Bobby Hackett, Gary Burton e Carmen McRae. Nos anos 1970’ forma um duo com o guitarrista Chuck Wayne, além de dedicar-se ao ensino, sacerdócio que não o impediu de manter-se ativo como músico até quase sua morte. Joe foi um guitarrista sensível, acentuadamente discreto e, embora inteligente e criativo, nunca obteve o destaque de público que poderia alcançar caso assim desejasse. Contudo, era respeitado pelos músicos e pela crítica, chegando a obter o prêmio de melhor guitarrista em 1957 pela revista Metronome. Em minhas orelhas fica a impressão de um Jimmy Raney em baixa rotação e tocando com oito dedos, mas nem por isso menos swingante e imaginativo. Para os amigos deixo uma faixa que diz muito sobre ele: Time Was , onde podemos comprovar que a máxima “menos é mais” tem sua razão de ser. Ela foi retirada da excelente coletânea The Jazz Guitar of Joe Puma, lançada pela Fresh Sound, onde foram reunidos os álbuns East Coast Jazz Series, Vol. 3 e Joe Puma Quintet (primeiras gravações como líder, realizadas em 1954, com Barry Galbraight (g), Don Elliot (vib), Vinnie Burke (b) e Ted Sommer (d) e lançadas pela Bethlehem), além de outras faixas gravadas em 1955, 1956 e 1957, em New York, com os músicos Dick Garcia (g), Eddie Costa (p, vib), Bill Evans (p), Dante Martucci, Oscar Pettiford (b), Al Levitt, Jimmy Campbell e Paul Motian (d). Enfim, o que Frederico Bravante tem de bagagem, Joe Puma tem de síntese. 01/04/2009
One day in Kiev
Depois de tanto tempo perdido tentando defender que as mulheres também sabem tocar jazz, enfim voltamos a falar sério. Após trocarem infinitas cartas carameladas de amor durante quase um ano, John Lester finalmente resolve conhecer Sabina, uma daquelas beldades tipicamente russas: pele branquíssima, sensível ao sol, estômago firme, indiferente à vodka, olhos e cabelos cinza-amarelados, como os de um puma. Sabina R. – sim, Lester pediu-me que ocultasse o sobrenome da moça – era, para mim, apenas mais uma extraordinária paixão idealizada pelo amigo carioca, cheio de teses e teorias sobre as mulheres e o amor. Ele sempre repetia em nossas reuniões no Clube das Terças: um dia ainda namoro uma socióloga russa! E o tempo passou, até que um dia, investido com aquele ar grave de quem está prestes a espremer um furúnculo, Lester declara: “Fred, prepare as malas. Estamos partindo para o Azerbaijão! Sorri, perguntando ao garçom que diabo de bebida teria sorvido Lester e pedindo-lhe uma dose daquilo. E Lester prosseguiu: “Faremos escala em Moscou, onde Sabina nos espera com uma amiga que adora a Espanha e ficou bastante excitada com a perspectiva de conhecê-lo. Você topa?”. Entre surpreso e animado, concordei apreensivo e, de fato, duas semanas depois desembarcávamos em Moscou. Lester carregava apenas uma pequena mochila, contendo dezenas de cuecas, meias e camisetas Hering brancas. Sobre seu corpo, um espesso sobretudo de couro forrado com lã de carneiro, legado que seu avô, ex-combatente da FEB, havia usado na campanha da Segunda Guerra na Itália. "Abateu cinco aviões nazistas", vangloriava-se Lester. Minhas três malas fartas lembravam assustadores ursos polares mas não foram suficientes para aplacar o frio e quase nos fizeram chegar atrasados ao encontro com as jovens azerbaijonas. Quando me viu, Nikki pensou que meu nariz congelado fosse quebrar a qualquer momento, motivo pelo qual, abandonando as malas na calçada, corremos todos para o bar mais próximo, onde compressas mornas conseguiram mantê-lo em meu rosto. E, embora ainda sem olfato, pude finalmente conhecer Sabina, em carne, osso e beleza.
Enquanto Nikki cuidava de meu membro ainda endurecido, percebi que Sabina e Lester cochichavam algo animadamente na mesa ao lado. Entre outras coisas, comentavam sobre a moça que tocava piano no fundo do bar, Aziza Mustafa Zadeh. Mais tarde, já em Baku, onde Sabina morava e trabalhava numa empresa petrolífera, ficamos conhecendo os discos do pai de Zadeh, o pianista Vagif Mustafa Zadeh, talvez o maior músico de jazz do Azerbaijão. Também nascido em Baku, em 16 de março de 1940, Vagif morreu muito cedo, aos 39 anos, vítima de um ataque cardíaco. Começou a estudar o piano aos 3 anos, graduando-se no Baku State Musical Technicum e ingressando logo em seguida no Azerbaijani State Conservatorium. Apesar da sólida formação clássica e do talento extraordinário, Vagif apaixonou-se pelo jazz, tornando-se um dos primeiros músicos importantes desse estilo num país ainda pouco afeito ao jazz naqueles tempos. Abandonando o Conservatório, lidera o conjunto Orero. Mais tarde, fundaria o trio Qafqaz, criando o quarteto Leyli (com mais três mulheres) e dirigindo o grupo Sevil. Sempre presente nos festivais de jazz da Rússia e do Azerbaijão, Vagif teve seu valor musical reconhecido ainda em vida. Dizzy Gillespie disse o seguinte sobre ele: “Vagif was a great genie but I think he was born before his time. Vagif’s music is from another planet. It’s Music from the Future”. Na verdade, embora Dizzy tenha tentado elogiá-lo, Vagif não era um músico posterior ao seu tempo, nem sua música era de outro planeta. Na faixa The Man I Love podemos perceber, além da sua virtuosidade explícita, um refinamento e uma sensibilidade bastante contemporâneos, diria mesmo românticos à maneira russa, e nada alienígena. Talvez o que Dizzy tenha considerado de outro mundo tenha sido o componente folclórico que Vagif fez questão de fundir com o jazz, baseado no Mugham, um dos estilos típicos do Azerbaijão, que guarda proximidade com a música persa. Baseado na escala modal, é um estilo complexo e que exige muita destreza do executante, mas não há nada de extraterrestre nele, exceto, talvez, na concepção de um trompetista do bebop que confunde o planeta Terra com New York. Se não houvesse essa terrível restrição de caracteres nas resenhas Jazzseen eu poderia contar mais sobre nossa aventura, como nossa visita ao Cáucaso, terra onde nasceu o vinho e onde perdi meu lóbulo esquerdo. Mas fica para a próxima. Na faixa, retirada do álbum One day in Kiev, gravado em 1978 e lançado em 2003 pelo selo Taras Bulba, Vagif é acompanhado por dois indivíduos cujos nomes eu não consigo ler e meu teclado não consegue escrever.
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