07/06/2009

George Auld & Ice Wine

O indecoroso bolodório havido na última reunião do Clube das Terças – o mais antigo e longevo clube de jazz capixaba – deveu-se a uma atitude aparentemente isenta de dolo: nosso amigo Chico Brahma retirou de uma belíssima sacola da Casa Bonita – simpática loja capixaba de objetos de arte e decoração – um debilitado álbum de George Auld, denominado That’s Auld. Em seguida, anotou que se tratava de um excelente disco de jazz, gravado em 1949 e que injustamente não constava no All Music Guide. Desencadeou-se, daí, alvoroço e tumulto de tão imensa amplitude que o primeiro a fugir do local foi Reinaldo, emérito presidente do Clube, e Garibaldi, seu fiel escudeiro e editor. O sócio André, sempre querendo aparecer mais do que sua estatura permite, iniciou longa dissertação sobre a excelência atual dos vinhos canadenses, sobremodo a partir de 1974, com a instalação da vinícola Inniskillin, produtora de soberbo ice wine, feito com base no Eiswein alemão a partir das uvas Vidal e Riesling, que congelam nas vinhas. João Luiz, socando a mesa e derrubando diversos cd’s piratas que por ali repousavam, perguntou que diabos tem a ver George Auld com ice wine, no que John Lester respondeu prontamente: os dois provêm do Canadá, meu nobre amigo. Do alto de sua elegância e malacia, Lester iniciou caudalosa biografia do moço, ressaltando que, nascido em Toronto, em 1919, parte para os EUA na década de 1920, fixando-se em New York, onde consegue trabalho como saxofonista alto. Em 1936, influenciado pela sonoridade de Coleman Hawkins, passa a tocar o saxofone tenor e, antes de formar seu próprio grupo, ingressa na banda de Bunny Berigan. Lembrando que no Canadá o frio necessário para a produção do ice wine ocorre com mais regularidade que na Alemanha – as uvas são colhidas tardiamente, nos anos em que a temperatura cai abaixo dos 8 graus Celsius negativos, sendo então prensadas e a água congelada é retirada do mosto que, após fermentação, produz um vinho de sobremesa extremamente concentrado e sensual – Lester fez lembrar que, por recomendação de Billie Holiday, Auld é convidado a integrar a banda de Artie Shaw, em 1939. Antes, trabalharia ainda para Jan Savitt e Benny Goodman, até que, em 1943, forma seu próprio grupo, com a presença de músicos como Serge Chaloff, Erroll Garner, Dizzy Gillespie e Stan Levey. Nisso retorna à mesa Reinaldo que, com sua presidencial figura, arremata: embora tivesse capacidade técnica para manter-se firme no mais exigente contexto bop, Auld perambula por big bands do swing, como as de Billy Eckstine e Count Basie. Inquieto, tenta, sem sucesso, a carreira de ator, ao mesmo tempo em que toca em filmes e na televisão, principalmente em Los Angeles. Nem mesmo o câncer lhe retira o fôlego, partindo Auld em inúmeras turnês, inclusive no Japão, onde alcança fragoroso sucesso. Apesar dos estalidos e ressaltos, deixo para os amigos a faixa Mr. Pepper , retirada do lp da Brunswick que Chico Brahma gentilmente nos ofertou. 

Caso ainda reste alguma dúvida sobre ser ou não Auld um tenorista do jazz, recomendo sem traumas o álbum Homage, gravado em 1959 para a Xanadu. Nele Auld presta homenagem aos seus tempos com Benny Goodman, Charlie Christian e Cootie Williams, tocando clássicos do swing na companhia de Don Fagerquist (t), Lou Levy (p), Larry Bunker (vib), Howard Roberts (g), Leroy Vinnegar (b) e Mel Lewis (d). Para os que preferem a pegada west coast, o álbum In The Land of Hi-Fi é a melhor opção. Gravado em 1955 para a EmArcy, conta com a presença brilhante de músicos como Maynard Fegurson (t), Frank Rosolino (tb) e Arnold Ross (p). Saúde!

06/06/2009


Blog - Jazzseen Recomenda - Quando minhas cansadas falanges já temiam sucumbir diante dessa caminhada insana que é promover o jazz num mundo que beneficia plutônio, eis que surge lá de cima, lá de aonde avoam sorrateiros marimbondos de fogo, o blog Jazz + Bossa + Baratos Outros, de nosso ilustre escriba Érico Cordeiro. Com estilo sedutor e fluido, somente concedido àqueles que dominam e amam o tema abordado, Mr. Cordeiro tem oferecido à internet os melhores textos sobre jazz escritos atualmente em nosso vernáculo. Suas reflexões iniciais, embora denunciem o entusiasmo próprio de quem parte em jornada apaixonante, remetem-nos à imagem do menino descalço que, entre extasiado e orgulhoso, empina sua colorida pipa sob o azul nordestino do céu. Coincidência ou não, suas opções musicais caem como chuva fresca sobre nossas cabeças espoliadas pelo calor sufocante desse equador gentil, a cada dia menos musical. Entendo ser minha obrigação, portanto, saudar publicamente a chegada do bardo, desejando-lhe sorte e perseverança na propagação deste que é, sem dúvida, um dos estilos mais formidáveis de música popular. E vale insistir que os textos de Mr. Cordeiro florescem fáceis, consistentes como cera de carnaúba, delimitando um jardim sonoro onde o sorriso vem fácil e o prazer é inevitável.


Em sua homenagem, deixamos a faixa Smoke Gets In Your Eyes , com Charlie Mariano (as) – saxofonista que parece um misto de Charlie Parker com Benny Carter -, John Williams (p), Max Bennett (b) e Mel Lewis (d). O álbum é Charlie Mariano, gravado em 1955 para a Bethlehem.

05/06/2009

Les Spann

Se você for até o All Music Guide, vai encontrar o seguinte sobre a biografia do moço: “Figura interessante que tocava guitarra e, como segundo instrumento, flauta. Sideman popular na década de 1950”. E mais nada. A resenha acolhedora de Alex Henderson sobre o álbum Gemini, gravado em 1960 para a Jazzland, já condiz melhor com a qualidade desse músico esquecido pelos amantes de jazz. Alex aponta o fato de que, apesar de acompanhar mestres como Quincy Jones, Dizzy Gillespie, Johnny Hodges ou Ben Webster, Les Spann nunca realizou grandes feitos como líder, atribuindo tal fato à inusitada personalidade desse excelente guitarrista e flautista. Afinal, quantos músicos podem largar o violão e sair tocando flauta impunemente? Sua competência no contexto do hard bop é plenamente confirmada pela qualidade de seus acompanhantes no álbum em apreço: Julius Watkins (frhn), Tommy Flanagan (p), Sam Jones (b), Al "Tootie" Heath e Louis Hayes (d). Spann nasceu em 1932 em Pine Bluff, Arkansas. Quando ingressou na Tennessee State University, Spann já era um acompanhante ágil na flauta e bluesy na guitarra. No final da década de 1950, concentra-se na guitarra, trabalhando com Phineas Newborn e Dizzy Gillespie. Nas décadas seguintes apresenta-se e trabalha em diversos contextos, tanto nos EUA quanto na Europa. Sempre na condição de sideman, atua ao lado de nomes como Duke Ellington, Benny Bailey, Randy Weston, Charlie Shavers, Charles Mingus e Sonny Stitt, entre outros. Para os amigos deixo a faixa There Is No Greater Love , do álbum Gemini, que recomendo aos completistas do hard bop.

03/06/2009

Bob Enevoldsen

Bob Enevoldsen nasceu em 1920 em Billings, Montana, no ceio de uma família de músicos: seu pai, um imigrante dinamarquês, tocava violino e liderava uma orquestra de cinema mudo, a mãe tocava piano e, as irmãs, instrumentos de cordas. Aos cinco anos, pobre coitado, inicia estudos de violino, logo mudando para o trompete, sob a influência de um tio também músico. É durante seu período na University of Montana que Bob ressente-se de contusões nos lábios, fruto da severa embocadura de seu instrumento, voltando-se assim para o estudo do clarinete e do saxofone tenor, inspirando-se nos ensinamentos de Lester Young. Durante 1942 e 1946 serve na Força Aérea, tocando em sua banda até a dispensa, quando parte para Salt Lake City, em Utah, onde toca o tenor e tem seu primeiro contato com o trombone de válvula. No final da década de 1940, Bob trabalha também na Utah Symphony Orchestra, onde toca o clarinete. Por sugestão de Gene Roland, Bob parte em 1951 para Los Angeles com a família. Por essa ocasião, Bob já tocava também o contrabaixo, o que facilitou bastante seu ingresso em diversos combos da região, como os trios de Marty Paich e Al Haig.

Recomendado ao cantor e pianista Bobby Troup, atua para ele como baixista durante vários anos, até 1959. Ao mesmo tempo, Bob participa de diversas situações, tocando regularmente no Howard Rumsey’s Lighthouse, em Hermosa Beach, bem como atuando em uma série de sessões de gravação com músicos como Shelly Manne, Shorty Rogers, Art Pepper, Bill Perkins, Bill Holman e Buddy Rich. Além disso, participa com seu trombone de válvula da gravação do tentet de Gerry Mulligan, realizada em 1953 para a Capitol. Mas as atividades de Bob incluíam, ainda, participações em estúdios de cinema de Los Angeles e hotéis e casinos de Las Vegas. Não bastasse seu talento ao clarinete, sax tenor, baixo e trombone de válvulas, Bob também é reconhecido como arranjador competente, tendo prestado serviços para Stan Kenton e Lionel Hampton. Até sua morte em 2005, Bob esteve presente em inúmeros contextos, gravando como líder ou sideman, tocando em clubes, programas de televisão, concertos, além de viajar em turnê ao Japão com o cantor Mel Tormé, país em que também realizou gravações.

Para os amigos deixo a faixa Oh, Look At Me Now , retirada do álbum Smorgasboard, gravado em 1956 para a Liberty. Com Bob tocando contrabaixo e trombone de válvula estão Marty Paich, Larry Bunker e Red Mitchell (p), Howard Roberts (g) e Don Heath (d). Para aqueles que quiserem conhecer um pouco mais o trabalho desse grande instrumentista do West Coast, recomendo o CD Smorgasboard, lançado pela Fresh Sound e que inclui, além do álbum anteriormente citado, o lp Reflections in Jazz, lançado pela Tampa Records em 1957. Ou não?

01/06/2009

Lou Bennett

Lou Bennett nasceu na Philadelphia em 1926 e morreu em Paris em 1997. Antes de passar para o órgão, bólido que dominou como poucos, Lou tocou piano em Baltimore na década de 1940. Sob a poderosa influência de Jimmy Smith, volta a atenção para aquele que viria a ser seu instrumento principal. Na década de 1950 aventura-se com seu trio pela costa leste, trabalhando o bebop com franqueza, mas sem obter sucesso. Em seguida, opta pela Europa, fixando-se em Paris, onde toca no clube Blue Note dessa cidade ao lado dos experientes Jimmy Gourley e Kenny Clarke. Aí grava seus primeiros álbuns como líder, sempre muito bem acompanhado, como comprova a participação de René Thomas em várias ocasiões. Embora volta-se aos EUA apenas uma vez, para apresentar-se no Newport Jazz Festival de 1964, Lou consegue construir uma sólida carreira no velho continente, apresentando-se em diversos festivais e participando de alguns filmes, além de liderar seu quinteto. Para os amigos fica a faixa I Remember Sonny , do álbum Enfin!, gravado em 1963 para a RCA Victor. Com Lou estão René Thomas (g), Gilbert Rovère (b) e Charles Bellonzi (d). Aos que desejarem conhecer um pouco mais o trabalho desse competente organista, bem como da história do órgão no jazz, recomendo uma visita ao site The Hammond Jazz Inventory.