Falar dele é falar um pouco sobre a magnífica capacidade de sedução da mediocridade, especialmente fértil em nossa política e música atuais. Improvável que o Jazzseen não se manifestasse sobre o requebrante Michael Jackson, homem que teve o rosto desfigurado pelas navalhadas do sucesso enquanto brincava com bonecas e meninos. Um dos momentos menos desagradáveis de sua cansativa cantilena se deve a Quincy Jones, trompetista, bandleader, arranjador e compositor mais conhecido como produtor musical. E não vale aqui a máxima dize-me com quem andas que te direi quem és, porque Quincy não pode ser descrito apenas por sua colaboração com artistas medíocres como Michael Jackson. A questão da produção dos álbuns Off the Wall, em 1979, e Thriller, em 1982 – acredite, o álbum mais vendido em todos os tempos – foi, em minha limitada opinião, meramente financeira, embora o genial Quincy talvez ouvisse em Michael algo que eu nunca ouvi. Aparência, apenas. A essência de Quincy Jones deve ser conhecida a partir de sua modesta, porém digna, atividade como instrumentista, aliada à sua competência como líder, arranjador e compositor, inclusive de belas trilhas sonoras. Como produtor, Quincy realizou uma série de projetos bem sucedidos e muito rentáveis para a música pop descartável. Muito mais importantes, embora sem qualquer repercussão financeira notável, são suas inumeráveis produções de autênticos álbuns de jazz, dentre os quais gostaria de destacar Bold Conceptions, do pianista Bob James. Gravado para a Mercury em 1962, quando Bob tinha 22 anos de idade e 18 de estudo de piano, o álbum é fruto da vitória de seu trio no quarto Collegiate Jazz Festival, promovido pela Notre Dame University.
Não bastasse a vitória do grupo, seus integrantes vencem também como solistas em seus respectivos instrumentos – Bob no piano, Ron Brooks no contrabaixo e Bob Pozar na bateria. Bacharel e mestre em composição pela University of Michigan – onde foi aluno de Ross Lee Finey – Bob apresenta desde este seu primeiro álbum todos os requisitos de perícia, inteligência e sensibilidade necessários a um bom pianista do post bop. Assim como Michael, Bob também gosta de dinheiro, daí sua imersão profunda no mundo pastoso e ocasionalmente lucrativo do crossover jazz, também denominado de smooth jazz, trabalhando em elevadores com gente açucarada como Grover Washington, Jr., Earl Klugh ou David Sanborn. Assegurada a conta bancária, Bob submerge vez ou outra no mundo do jazz honesto, trabalhando com artistas sérios como Chet Baker, Sarah Vaughan, Hubert Laws, Stanley Turrentine, Paul Desmond ou Maynard Ferguson. Prova de sua competência como compositor e pianista de jazz, além de seu álbum de estréia, encontramos no álbum em trio Straight Up, gravado em 1995 para a Warner Bros., com Christian McBride (b) e Brian Blade (d). A nítida influência de Bill Evans não chega a pesar sobre a originalidade e estilo próprios desse artista que soube dosar com sabedoria o ingresso de numerários com a produção artística. Para os amigos fica a faixa Softly as in a Morning Sunrise , do álbum Bold Conceptions. Creio que Mestre Olney e Mr. Tandeta gostarão do baterista. E viva a morfina!
Que músico pode dizer que tocou com Johnny Hodges, Bud Powell, Yusef Lateef, Dizzy Gillespie, Kenny Dorham, Cannonball Adderley, Thelonious Monk, Kenny Burrell, Bil Evans, Lucky Thompson, Jimmy Smith, J. J. Johnson, Blue Mitchell, Chet Baker, Clark Terry, Tina Brooks, Donald Byrd, Duke Ellington, Arnett Cobb, Ike Quebec, Wes Montgomery, Walter Davis Jr., Eddie ‘Lockjaw’ Davis, Johnny Griffin, Red Garland, Nat Adderley, Sonny Red, Charlie Rouse, Frank Foster, Barry Harris, Joe Alexander, Dizzy Reece, Eric Dolphy, James Clay, Les Spann, Paul Gonsalves, Julian Priester, Victor Feldman, Bobby Timmons, Horace Parlan, Freddie Hubbard, King Curtis, Lou Donaldson, Don Wilkerson, Kenny Drew, Harold Land, Eddie ‘Cleanhead’ Vinson, Milt Jackson, Grant Green, Sonny Clark, Phineas Newborn, Sal Nistico, Eddie Jefferson, Roland Kirk, Wynton Kelly, Tom Jobim, Fred Jackson, Gene Ammons, Dodo Marmarosa, Johnny Lytle, Chuck Mangione, Oscar Peterson, Willis ‘Gator’ Jackson, Stanley Turrentine, Ben Webster, Joe Zawinul, Terry Gibbs, Les McCann, Dexter Gordon, James Moody, Sonny Stitt, Von Freeman, Red Rodney, Cecil Payne, Clifford Jordan, Roy Eldridge, Cedar Walton, Shirley Scott, Charles McPherson, Duke Jordan, Jimmy Raney, Al Cohn, Ronnie Cuber, Niels Pedersen, Sam Most, Idrees Sulieman, Buddy Collette, Art Farmer, George Coleman, Archie Shepp, Tete Montoliu, Ted Curson, Ray Bryant, Claude Williamson, Curtis Fuller, Benny Bailey, Hank Jones, Thad Jones, Ted Dunbar, Sal Salvador, Stan Getz, Miles Davis, Irio de Paula, Flavio Ambrosetti, Buddy DeFranco, Kenny Barron, Benny Carter, Harry ‘Sweets’ Edson, Hank Mobley, Pepper Adams, George Shearing, Jack McDuff, Illinois Jacquet, Harry Connick Jr. e Claus Ogerman? Sam Jones pode. Isso sem contar que a breve lista acima não se pretende exaustiva e nem compreende as inúmeras vocalistas com as quais trabalhou, como Ella Fitzgerald, Nancy Wilson e Betty Carter, apenas para citar algumas. Samuel Jones nasceu em Jacksonville, Florida, no dia 12 de novembro de 1924. Morreu novo, aos 57 anos, no dia 15 de dezembro de 1981, em New York.
Nesse curto espaço de tempo, estabeleceu-se como um dos maiores contrabaixistas do jazz, dono de técnica apurada e estilo maleável, o que lhe permitia trafegar de forma impecável tanto pelo swing quanto pelo bebop e pelo hard bop. Não bastasse, Sam foi um competente violoncelista e digno compositor. Começou a carreira tocando em bandas locais da Florida, até que, em 1953, passa a trabalhar com Tiny Bradshaw. Dois anos depois, segue para New York, onde integra os grupos de Kenny Dorham, Cannonball Adderley, Dizzy Gillespie e Thelonious Monk. Em 1958 Sam participa da gravação do álbum Somethin’ Else, de Cannonball Adderley, e é trabalhando no quinteto desse saxofonista (1959-1966) que consolida sua reputação, constituindo com o baterista Louis Hayes uma das melhores seções rítmicas desse período. Entre 1966 e 1970 Sam passa a integrar o trio de Oscar Peterson, substituindo Ray Brown, um dos maiores contrabaixistas do jazz. Significativa é sua união, a partir de 1970, com o pianista Cedar Walton e o baterista Billy Higgins, trio que produzirá uma série de gravações memoráveis para os selos East Wind, Muse e Xanadu. E assim chegamos ao fim de mais uma resenha, sem esquecer que Sam permaneceria ativo até sua morte, quer seja na condição de líder, quer na de sideman. Para os interessados em conhecer o trabalho de Sam, creio que os seguintes álbuns constituem uma adequada introdução: 1) The Soul Society – Gravado em 1960 para a Riverside, o primeiro álbum de Sam como líder é também, em minha opinião, o melhor. Repertório bem escolhido, arranjos perfeitos, solos vastos tanto ao contrabaixo quanto ao cello, tudo em excelente companhia: Nat Adderley (c), Blue Mitchell (t), Jimmy Heath (ts), Charles Davis (bs), Bobby Timmons (p) e Louis Hayes (d); 2) Something In Common – Gravado entre 1974 e 1977 para a Muse, foi lançado em cd pela 32Jazz, com a adição de três faixas bônus. Álbum perfeitamente integrado ao melhor post-bop produzido na década, com discurso moderno e tributário às verdadeiras raízes do bebop. Com Sam estão Slide Hampton (tb), Blue Mitchell (t), Bob Berg (ts), Cedar Walton (p) e Billy Higgins (d). Para os amigos deixo a faixa Visitation que dá nome ao álbum gravado em 1978 para a Steeplechase, com os excelentes Terumasa Hino (c), Bob Berg (ts), Ronnie Mathews (p) e Al Foster (d). Vale notar, nessa faixa, o fraseado de Berg, ao mesmo tempo virtuoso e desleixado, tecnicamente impecável e, contudo, levado. Lembra a sonoridade de um Phil Woods tocando tenor, sem a perfeição quase acadêmica com que Phil desenha cada nota. Ou não?
São iniciativas como as da EmArcy que nos fazem continuar fora da caverna platônica. Em 24 de março de 2008 ela lançou o magnífico DVD Ben Webster in Denmark (1965-1971), reunindo pela primeira vez três “shorts” realizados pela TV-Byen, mais o famoso documentário Big Ben. O primeiro curta, Ben Webster, foi produzido em 1965 por Steen Bramsen e conta com a participação de Kenny Drew (p), Niels Pedersen (b) e Alex Riel (d). Embora o som não seja lá essas coisas, o que torna os solos de contrabaixo praticamente inaudíveis, as três faixas interpretadas pelo quarteto – In A Mellotone, Danny Boy e Mack the Knife – constituem valiosa documentação do mainstream jazz, sem contar que podemos ver Kenny fumando seu cigarrinho e o jovem Pedersen aprendendo com os mestres. O segundo curta, Ben Webster & His Music, foi produzido em 1968, também por Steen Bramsen. Embora o som aqui esteja bem melhor, temos a intervenção, em algumas das sete faixas, de duvidosa orquestra de cordas, regida por Niels Jorgen Steen, único regente que eu saiba capaz de fumar e reger ao mesmo tempo. E mais: na faixa Cotton Tail, embora não haja nenhuma referência nos créditos, eu seria capaz de jurar que vi o Dexter Gordon tocando, sentado, à esquerda do vídeo, o que não seria muito improvável, uma vez que ele andava tocando por toda a Europa naquela época. O terceiro curta traz quatro faixas gravadas no Timme Rosenkrantz Memorial Concert de 1969, produzido por Per Moller Hansen. Os solos de Teddy Wilson, para mim o melhor pianista do swing, estão exuberantes como sempre. No contrabaixo temos novamente o competente Niels Pedersen e, na discreta bateria, o adequado mas pouco conhecido sul-africano Makaya Ntshoko. Por fim, chegamos ao documentário Big Ben, produzido em 1971 por Per Moller Hansen. A coisa começa com Ben fumando seu cigarrinho em seu diminuto apartamento. Ao fundo, ouvimos sua famosa interpretação de Cotton Tail na banda de Ellington, em 1940. Colocando o chapéu e recolhendo o sax, desce no apertado elevador do edifício onde mora, em Copenhagen. Com passos irregulares, consegue entrar numa antiga Kombi, que o levará aos estúdios da TV-Byen. O resto do filme é só alegria, com destaque para Charlie Shavers bebendo ou tocando um dirty blues ao lado de Ben. Recomendo com veemência aos amantes do swing. Para os amigos, fica a faixa My Ideal .
Por qual motivo um músico brilhante cometeria suicídio aos 50 anos de idade? Sonny Criss nasceu no dia 23 de outubro de 1927, em Memphis, Tennessee. Pouco se sabe sobre sua infância e formação musical, mas certamente foi um dos primeiros saxofonistas altos a absorver com louvor as lições de Charlie Parker: com seu estilo bebopper intenso e forte, atingia velocidades tão altas que era descrito por Ornette Coleman como “the fastest man alive”. Mas o que realmente chama atenção em Criss é que seu fraseado, por mais veloz que seja, nunca deixa de ser nítido e fluido, incutindo claramente cada nota em nossos ouvidos, coisa que não acontece com freqüência nos músicos do bebop. Há registro de que, aos 15 anos, muda-se de Memphis para Los Angeles. Aos 19, já tocava na banda de Howard McGhee, ao lado de Charlie Parker e Teddy Edwards. Trabalha também com Billy Eckstine, Gerald Wilson, Stan Kenton e com a turma do Jazz At The Philharmonic. Em 1956 passa a integrar o quinteto de Buddy Rich, além de liderar seus próprios grupos e tocar com várias figuras importantes do bebop, como Sonny Clark e Wynton Kelly. Em 1961 Criss parte para Paris, onde viveria alguns anos antes de retornar a Los Angeles. A partir daí, grava uma série de álbuns importantes para os selos Prestige, Muse e Xanadu. Antes de voltar à Europa em 1974, Criss dedica-se a trabalhos sociais, sobretudo auxiliando alcoólatras, bem como passa a lecionar música. Em 19 de novembro de 1977, um pouco antes de partir em turnê para o Japão, Criss é encontrado morto em sua casa. Para alguns, o tiro que o matou teria sido provocado por um acidente, mas a versão mais aceita é de que teria cometido suicídio em virtude do terrível sofrimento provocado pelo câncer de estômago que o afligia.
Para os amigos fica a singela faixa Somewhere My Love , cujos acordes são completamente despedaçados desde a introdução pelo excelente pianista Cedar Walton. Ela foi retirada do álbum The Beat Goes On!, gravado em 1968 para a Prestige, com Bob Cranshaw (b) e Alan Dawson (d). Quem quiser conhecer melhor o trabalho do saxofonista, recomendo o álbum This Is Criss!, gravado em 1966 para a Prestige, com Harold Land (ts), Walter Davis (p), Paul Chambers (b) e Alan Dawson (d).