Les Paul, lendário guitarrista e inventor, acaba de morre em função de complicações causadas por uma pneumonia. Instrumentista de fraseado fácil, fluido, soube reunir com sabedoria as melhores influências do jazz, blues, country e da música pop norte-americana, sem jamais deixar de lado o swing contagiante. Já na década de 1930 fazia suas experiências com a guitarra elétrica e, na década seguinte, foi pioneiro nas gravações em multi-track, orientando a forma que o rock assumiria nas décadas seguintes. Paul viveu 94 anos, 90 deles dedicados à música. Outra grande perda para o jazz foi a morte do baterista Rashied Ali, ocorrida ontem. Ali trabalhou com John Coltrane em sua última fase, onde comparece no álbum Interstellar Space. Com seu ritmo irregular, contribuiu para o desenvolvimento do free jazz na década de 1960, atuando com seu quarteto e em duo com Sonny Fortune. Ali estava com 74 anos. O Jazzseen presta aqui homenagem a esses dois grandes músicos.
13/08/2009
12/08/2009
Interpretations of Monk
Em seu livro Jazz: a history, 2nd edition, New York: Norton, 1993, página 462, Frank Tirro avalia que Thelonious Monk exerce um importante papel sobre o pensamento musical de Anthony Davis: "em complemento à filosofia free jazz da AACM, as influências mais óbvias que podemos detectar em sua música são o método composicional de Monk, as idéias orquestrais e composicionais de Ellington e os trabalhos de Bud Powell e Cecil Taylor". Um dos maiores compositores do jazz contemporâneo, Davis estudou piano clássico desde criança, graduando-se pela renomada Universidade de Yale em 1975, onde atualmente leciona. Davis tem sabido equilibrar adequadamente suas atividades como pianista e compositor. Ainda como estudante, forma um grupo de free jazz, Advent, contando com o trombonista George Lewis entre seus integrantes. Mais tarde, participa da banda New Dalta Ahkri, liderada pelo trompetista Leo Smith e do trio do violinista Leroy Jenkis. Vale notar que Lewis, Smith e Jenkis são todos músicos ligados à AACM e, embora Davis nunca tenha mantido uma conexão formal com a importante associação de Chicago, sua filosofia musical foi extremamente influenciada por ela. Em 1978, Davis trabalha com o flautista James Newton e, três anos mais tarde, forma seu octeto, Episteme, meio pelo qual expõe suas composições e exercita a livre improvisação, sempre monitorada através de instruções e restrições impostas por Davis. Fortemente influenciado pela música asiática e africana, muitas de suas composições têm sido classificadas como música clássica de vanguarda, embora a associação com o jazz seja nítida em diversas passagens. Nesses contexto, vale conferir suas associações como sideman com músicos como Oliver Lake, Anthony Braxton, Barry Altschul e David Murray, entre outros. Em 1984, Davis compõe a ópera X, baseada na vida de Malcolm X, líder negro brutalmente assassinado. Embora o próprio Davis não a classifique como jazz, restam claras as influências do estilo, desde o tailgate trombone de New Orleans, até as sheets of sound de Coltrane, constituindo uma das composições em grande escala mais importantes do acervo jazzístico. Atualmente, Davis continua desenvolvendo sua carreira como compositor, pianista e professor, atuando também ao lado de importantes músicos, como Ray Anderson, Bobby Previte e Mark Helias. Para os amigos fica a faixa Well, You Needn't , retirada do álbum Interpretations of Monk, gravado ao vivo em 1981, na Columbia University e lançado pela DIW Records. Trata-se de um álbum com quatro cd's, cada um deles trazendo as interpretações dos pianistas Muhal Richard Abrams, Barry Harris, Anthony Davis e Mal Waldron sobre temas de Monk. Com eles estão Don Cherry (t), Steve Lacy (ss), Charlie Rouse (ts), Roswell Rudd (tb), Richard Davis (b) e Ben Riley (d). Jazzseen recomenda. 08/08/2009
Pode entrar!
Foi o amigo JoFlavio, conspícuo membro do dilucidante blog Charuto Jazz, quem veio com a estória de que Thelonious Monk não sabia tocar piano. São dele as seguintes linhas: “Acompanho a carreira do Monk desde o início da década de 60. Não só como pianista, mas principalmente como compositor. Monk chegou a ser considerado um "pianista menor", talvez pela técnica pobre, que até o impossibilitava de tocar em "up tempo" - se comparado, por exemplo, a um Oscar Peterson, Herbie Hancock, Chick Corea, etc. Era nítido o esforço dele em tocar. Sim, como consolo, foi criativo harmonicamente. O grande legado de Monk está nos temas que compôs, de certo modo revolucionários para a época. Como pianista, em minha opinião, não fez escola.” Ora, ora. Não demorou um minuto, estava desencadeada uma das maiores polêmicas já suscitadas aqui no Jazzseen, alvoroço geral, acusações gratuitas, ataques de hackers, celeuma, cizânia e crise. Convocamos, às pressas, eu e Reinaldo Santos Neves, Reunião Extraordinária do Clube das Terças, onde o sócio André, especialista em Monk, fora convocado a falar. Um silêncio incômodo sentou-se à mesa do Clube, enquanto todos aguardavam aflitos a definitiva sentença. André disse: “A ênfase no bebop é a improvisação, sendo rara a presença marcante de compositores, caso de Thelonious Monk. Suas melodias nada ortodoxas, repletas de progressões complexas de acorde, costumavam intimidar até mesmo os mais ágeis instrumentistas e não resta dúvida de que seu estilo influenciou uma série de pianistas importantes do bebop e do post bop, entre eles Bud Powell, Mal Waldron, Andrew Hill, Dollar Brand, Randy Weston, Herbie Nichols, Cecil Taylor, Misja Mengelberg, Anthony Davis, Karl Berger, Chick Corea, Geri Allen, todos eles réus confessos, no sentido de que, além de reconhecerem a influência de Monk, refletem ou refletiram em alguma fase de suas carreiras nítida inspiração na abordagem pianística monkiana - o iniciante deverá começar suas pesquisas por Mal Waldron. Sem falar de tantos outros músicos que lhe dedicaram tributos entusiasmados (veja lista abaixo) e diversos grupos que nasceram sob a condição primária de lhe revisitar a obra. As composições de Monk apresentam lógica própria, não-aristotélica, elaboradas com grande precisão estrutural e concisão, fato incomum nas demais composições do bebop. Mestre em acentuações inesperadas e desordenadas – veja, por exemplo, Rhythm-n-ing – causava sérias dificuldades a quem pretendesse executar suas obras, mesmo aos mais hábeis virtuoses do piano. Tal característica transparece sobremodo no final das frases, onde quase sempre a nota tocada era absolutamente inesperada pelo ouvinte que, paradoxalmente, ao continuar ouvindo a composição, terminava por suplicar que a frase terminasse com a tal “nota errada” – ouça, por exemplo, Off Minor. E tudo isso partindo de uma melodia singela, um tema simples, muitas vezes construído sobre um acorde do bom e velho blues de doze compassos, mas com um profundo efeito final. E, para quem conhece a trajetória de Monk como pianista, sabe de suas intervenções especulativas. Ele passeou pelo stride de um Fats Waller, pelo trumpet-piano de um Earl Hines, pelo piano soturno e percussivo de um Duke Ellington, pelo comping style de um Count Basie, onde discretos acordes davam suporte ao solista. Ao contrário de Bud Powell, que na evolução do comping style praticamente abandonou a mão esquerda, que na prática apenas acompanhava sua velocíssima mão direita, Monk seguiu um caminho distinto, que poderíamos chamar de “evocativo”, porque os acordes de sua mão esquerda assumiam papel fundamentalmente percussivo e nunca eram longos em permanência: em várias passagens podemos observar que Monk simplesmente parava de tocar, deixando que baixo e bateria acudissem o saxofonista ou o trompetista em seus solos. Tanta originalidade fez com que, antes de ser reconhecido como o improvisador genial que foi, Monk fosse considerado um “pianista menor” e impossível de ser classificado: ele não tocava swing, ele não tocava bebop. Que diabos ele tocava?Monk, com suas composições “desafinadas”, era capaz de fazer um piano desafinado soar afinado. Cheias de contornos imprevisíveis aos ouvidos da classe média, suas composições apresentam escalas inteiras totalmente incompatíveis umas com as outras, com tonalidades inimigas. Combinadas com um estilo rítmico absolutamente inovador, estas características harmônicas causavam um imenso rebuliço nos ouvidos mais educados. E, por último, mas igualmente genial: a utilização do silêncio em Monk é tão importante quanto a utilização do som. Quando o observamos tocar, temos a clara certeza de que ele nunca sabe qual nota vai tocar. Vacilante, ele parece sofrer terrivelmente, a cada segundo, para se decidir em qual tecla levará seu dedo. E, não raro, quando se decide, bate, bate, bate, como se estivesse batendo em nossa porta. E entra.
1957 – Vários - Round Midnight – Milestone M9144
1958 - Steve Lacy – Reflections: Steve Lacy plays Thelonious Monk – New Jazz OJCCD-063-2
1960 - John Lewis Presents Jazz Abstractions – Atlantic 1365
1961 - Bud Powell - A Portrait of Thelonious - Columbia CK 65187
1961 – Johnny Griffin - Lookin' at Monk - Jazzland JLP 939S
1963 - Bill Evans: Conversations with Myself - Verve 521-409-2
1963 - Steve Lacy - School Days - Emanem 3316
1967 - Enrique Villegas Trio - Tributo a Monk - Trova TL12
1969 - Steve Lacy plays Monk - Affinity AFF 43
1978 - Heiner Stadler - A Tribute to Monk and Bird - Tomato TOM-2-9002
1981 - Chick Corea - Trio Music - ECM-2-1232
1981 - Interpretations of Monk - Volume 1 – KOCH Jazz - KOC CD-7838 - Disc 1 - Muhal Richard Abrams set - Disc 2 - Barry Harris set.
1981 - Interpretations of Monk - Volume 2 – KOCH Jazz - KOC CD-7839 - Disc 1 - Anthony Davis set - Disc 2 - Mal Waldron set.
1981 - Bennie Wallace Plays Monk - Enja ENJ-30912
1982 - Milt Jackson - Memories of Thelonious Sphere Monk - Pablo OJCCD 851-2
1982 - Sphere - Four in One - Elektra Musician 7599-60166-1 – Excelente tributo, gravado no dia em que Monk morreu, 17 de fevereiro de 1982
1982 – Tommy Flanagan - Thelonica - Enja CD 4052-14
1984 - Kronos Quartet - Monk Suite: Kronos Quartet plays music of Thelonious Monk - Landmark CD LLP-1505
1984 – Vários - That's The Way I Feel Now: A Tribute to Thelonious Monk - A & M SP-6600
1985 - Steve Lacy - Only Monk - Soul Note SN 1160
1986 - Woody Shaw - Bemsha Swing - Blue Note 7243-8-29029-2-8
1987 - Anthony Braxton - Six Monk's Compositions - Black Saint 120 116-2
1987 - Walter Davis, Jr. - In Walked Thelonious - Jazz Heritage MHS 512631H
1988 - Carmen McRae - Carmen sings Monk – RCA Novus - 3086-2
1988 - Charlie Rouse - Epistrophy - 32 Jazz CD-32029
1988 - Stan Tracey Quartet - Tribute to Duke, Monk, and Bird - Emanem 3604
1989 - Randy Weston - Portraits of Thelonious Monk - Verve 841313-2
1989 - Steve Lacy - More Monk - Soul Note 121210
1990 - Marcus Roberts - Alone with Three Giants - BMG 3109-4-N
1990 – Mel Martin - Bebop & Beyond plays Thelonious Monk - Blue Moon CD R2 79154
1990 - Tete Montoliu - The Music I Like to Play Vol. 3 - Let's Call This - Soul Note 121230
1992 - Steve Lacy - We See - Hat Art CD 6127
1992 - Steve Lacy and Mal Waldron - I Remember Thelonious - Nel Jazz NLJ0959-2
1993 - Riverside Reunion Band - Mostly Monk - Milestone MCD-9216-2
1994 - Sonny Fortune - Four in One – Blue Note CDP 7243-8-28243-2-9
1994 - Steve Duke - Monk by 2 - Columbia CK 66975
1994 - Wynton Marsalis - Standard Time Vol.4: Marsalis Plays Monk - Columbia CK67503
1995 - Knut Kristiansen - Monk Moods - ODIN NJ 4051-2
1996 – Danilo Perez - Panamonk - Impulse CD IMPD-190
1996 – Vários - Round Midnight: Hommage à Thelonious Monk - Columbia COL 481331
1997 - Esbjörn Svensson Trio - EST Plays Monk - ACT 9010-2
1997 - The Bill Holman Band - Brilliant Corners: The Music of Thelonious Monk - JVC Classics CD 2066
1997 - Jessica Williams - In The Key Of Monk - Jazz Focus CD JFCD029
1997 - Fred Hersch plays Thelonious Monk - Nonesuch CD 79456-2
1997 - Miya Masaoka - Monk's Japanese Folk Song - Dizim Records 4104
1997 - Steve Slagle Plays Monk - Steeplechase SCCD 31446
1997 - T.S.Monk - Monk on Monk - N2KE-10017
1997 – Vários - It's Monk's Tune - Jazzfest 3-2203-2
1997 - Vários - For the Love of Monk - 32JAZZ 32008
1998 - Mike Melillo Trio – Bopcentric - Red Records RR123279
1998 - Andy Summers - Green Chimneys - RCA Victor-63472
1999 - The Dave Liebman Trio - Monks Mood - Double Time Records 154
1999 - Per Henrik Wallin Trio - 9.9.99 - Stunt Records STUCD 00202
1999 - Larry Coryell - Monk, Trane, Miles & Me - High Note HCD 7028
1999 – Vários - Blue Monk: Blue Note plays Monk's Music - Blue Note 8-35471-2
2000 - Vários - For Monk: a tribute to the music of Thelonious Monk - BMG D116733
2003 - Jessica Williams - More For Monk - Red & Blue
2004 - Thelonious Moog - Yes We Didn't - GrownUp Records 62988
2004 - Alexander von Schlippenbach - Light Blue: Schlippenbach plays Monk - Enja CD 9104-2
Para os amigos fica a faixa Bemsha Swing, sob a responsabilidade do guitarrista René Mailhes. O álbum é Gitrane, lançado em 1998 pelo selo Iris. Com ele, Abdel Knader (g, primeiro solo na faixa), Patrice Galas (p), Dominique Lemierle (b), Philippe Combelle (d) e Idrissa Diop (perc) .
07/08/2009
04/08/2009
De coração aberto, Monge!
Pois que no Clube das Terças, há uma semana, conversávamos sobre pianistas de jazz - e, claro, a figura enevoada de Thelonious Monk, o monge louco do piano, pairou suave até estacionar numa das cadeiras do Centro da Praia. Por ali ficou. Falamos sobre predileções. Meu querido amigo Reinaldo Santos Neves boquiabriu-se quando afirmei que minha composição favorita de Monk é Something in Blue, uma faixa um tanto esquecida contida numa espatacular coletânea intitulada The Complete Black Lion and Vogue Recordings of Thelonious Monk. O disco - triplo - foi um presente de meu outro grande amigo, John Lester, comandante-em-chefe do Jazzseen. Grande conhecedor que também embasbacou-se: imaginou que eu estaria entre aqueles que veneram Blue Monk, Misterioso e ‘Round Midnight. Enganou-se. A coletânea traz dois Monks: um de 1954, sentado em banquinhos da gravadora francesa Vogue, em solo só, só dedos; outro, em 1971, ao lado de uma inspirada bateria de Art Blakey, e de um contrabaixo estimulante de Al McKibbon. Apesar dos sidemen de primeiríssima, fico com as gravações solitárias - e é justamente uma delas que se chama Something in Blue, a escolhida. (E por falar em escolhida, é no ano de 1954 que Monk, em Paris, mantém contato com - e é escolhido por ela - Pannonica de Koenigswarter, ou simplesmente Pannonica, baronesa e mecenas musical que, em breve, merecerá uma postagem só dela). Há os que amam a música de Monk porque vêem (e ouvem) nela a impetuosidade percussiva aliada a dissonâncias inovadoras que transformaram a harmonia do jazz que, para muitos, nunca mais foi o mesmo após o trio Parker-Gillespie-Monk. Não comungo dessa erudição. Ou, por outra: não vou por esse caminho espinhoso. Prefiro ouvir Thelonious Monk com o coração aberto - ou seja: ouvir aquele que massageia as vértebras de um Steinway & Sons e produz um dos sons mais líricos e límpidos do jazz. E ponto e fim. O disco em questão traz 35 faixas, entre gravações definitivas e alternate takes. Something in Blue está lá, 6 minutos e 37 segundos, quinta faixa do segundo cedê. E, apesar do título ambíguo, enche de alegria qualquer coração.
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