Pianista do bebop e do hard bop nascido em New York, bastante afeito às inovações da vanguarda, chegou mesmo a flertar com o free jazz menos inconsequente e com o post bop. Após estudos formais de piano e composição, Waldron inicia a carreira profissional em bandas de R&B, tocando também jazz com seu saxofone alto e música clássica ao piano, o que lhe fornecerá a espontaneidade eclética característica de um estilo introvertido e bastante pessoal, identificável desde os primeiros acordes ou na repetição insistente e iconoclasta de determinadas notas. Podemos afirmar ser um instrumentista único, intrigante e original, embora decisivamente influenciado por Thelonious Monk na utilização do silêncio e do fraseado propositalmente indeciso em algumas passagens. É enquanto cursa o Queens College que Waldron opta definitivamente pelo jazz. Em sua fase inicial, grava com Ike Quebec e, a partir de 1954, associa-se regularmente a Charles Mingus, sem que com isso deixe de estabelecer seus próprios conjuntos, ainda em meados da década de 1950. Suas gravações e apresentações dessa época são, hoje, verdadeiros clássicos do período, cuja qualidade pode ser aferida pelas gravações e arranjos que realizou para a Prestige em nome próprio ou para artistas do selo, como John Coltrane ou Art Farmer. No final da década, torna-se o pianista de Billie Holiday, acompanhando-a por cerca de dois anos e meio, até que, com a morte da genial cantora em 1959, passa a acompanhar Abbey Lincoln, enquanto produz seus próprios álbuns como líder.
Na década seguinte, coopera com diversos músicos de alta estirpe, como Eric Dolphy, Booker Little ou Max Roach. É nesse período que adoece seriamente, afastando-se da música por algum tempo. Somente no final da década de 1960, já restabelecido, é que Waldron resolve seguir para a Europa, fixando-se em Munique. É no velho mundo que grava o primeiro álbum da ECM e o quarto da Enja, auxiliando o nascimento de dois selos que se tornariam referências nas décadas seguintes. E, devemos destacar, embora Waldron tenha sido essencialmente um pianista do bebop, suas habilidades técnicas e seu senso de aventura permitiram-lhe incursões bem sucedidas até mesmo no free jazz - veja suas gravações, por exemplo, com Steve Lacy - e no post bop. Outra capacidade notável, encoberta de certa forma por sua monumental estatura de instrumentista, encontra-se em sua obra como compositor: diversas trilhas sonoras, balés e composições menores espalham-se pelo repertório do jazz, o que justifica não apenas seu sucesso no Japão, país que o acolheu com carinho e admiração, bem como a gravação do álbum Soul Eyes, em 1998, com John Henderson, Steve Coleman e Abbey Lincoln, um merecido tributo à sua contribuição para o jazz. Diagnosticado o câncer em 2002, Waldron continuaria tocando o piano até sua morte, em dezembro do mesmo ano.
Segue uma breve indicação de álbuns que considero importante conhecer:
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Mal - 1 - 1956 - Prestige OJCCD-611-2 - Primeiro álbum de Waldron como líder, conta com a presença estimulante do trompetista Idrees Sulieman e do saxofonista alto Gigi Gryce. O trabalho serve, antes de tudo, para demonstrar a capacidade de Waldron como pianista de pequenas formações típicas do bebop, no caso um quinteto, nos moldes determinados por Bud Powell ou Al Haig, embora revelando a influência nítida de Thelonious Monk, mas com estilo extremamente pessoal. Com Julian Euell (b) e Arthur Edgehill (d).
Mal/4 - Trio - New Jazz OJCCD-1856-2 - 1958 - Excelente oportunidade de verificar o estilo de Waldron na década de 1950. A formação em trio contribui para a exposição mais direta de suas idéias musicais, com o apoio sólido de Addison Farmer (b) e Kenny Dennis (d).
The Quest - New Jazz OJCCD-082-2 - 1961 - Embora tenha sido lançado algumas vezes sob o nome de Eric Dolphy (as), este álbum é liderado por Waldron, que conta com a colaboração excepcional de Dolphy e Booker Ervin (ts). O contexto é moderno para a época, apresentando temas elaborados e interpretações complexas, mas sem a elininação dos conceitos fundamentais do bebop. Com Ron Carter (cel), Joe Benjamin (b) e Charlie Persip (d).
Blues for Lady Day - Black Lion 760193 - 1972 - O álbum solo é um tributo a Billie Holiday, contando com a interpretação de nove temas relacionados à cantora, quase todos lentas baladas. Nas edições em CD, foram adicionadas duas faixas em trio (A Little Bit of Miles e Here, There and Everywhere), com Henk Haverhoek (b) e Pierre Courbois (d).
Hard Talk - Enja 2050 - 1974 - Boa oportunidade para se comprovar a capacidade de Waldron em associar-se a músicos de vanguarda, sem perder completamente os vínculos com sua linguagem fundamental, o bebop. Gravado ao vivo, este álbum apresenta quatro composições de Waldron e conta com a colaboração de Manfred Schoof (c), Steve Lacy (ss), Isla Eckinger (b) e Allen Blairman (d). Ouça aqui
a faixa título.
One Entrance, Many Exits - Quicksilver 4019 - 1982 - Felizmente, Waldron gravou muito e em contextos diversos, desde o bebop até o post bop, passando muitas vezes pelo intermediário hard bop. Este é o caso aqui, com a comportada e excelente companhia de Joe Henderson (ts), David Friesen (b) e Billy Higgins (d). São cinco composições de Waldron, mais o standard How Deep Is The Ocean, com generosos solos de Waldron e Henderson. Uma boa idéia do trabalho mais convencional que o pianista realizou nas décadas de 1980 e 1990, a par de suas incursões incisivas nos movimentos de vanguarda produzidos nessas duas décadas.