04/10/2009

Poesia

Livro: Hoje não há livro, há apenas um poema de nosso amigo Érico Cordeiro, responsável por um dos melhores blogs brasileiros de jazz. Um poema de letras pequenas, mas de alma grande:
Oh! tecelão inepto de afazeres obscuros,

Vejo-te a aguar o jardim desertificado de tantas dores,
Observo-te a mourejar por sobre a hiléia amarfanhada,
Admiro a tua pertinácia improdutiva
As plantas moribundas desafiam a tua convicção
Zombam do teu empenho
Insistem em negar-te o viço que tanto anseias...
Passeando por entre as touceiras inertes,
Desafias a inclemência do sol,
A insensibilidade das chuvas,
A pachorra do vento...
Mas teu jardim é infecundo,
Nele brota apenas aquela concórdia intuitiva e resignada,
Desabrocham ali somente guirlandas de espinho,
Anti-flores soturnas e vãs
Me compadeço do teu labor insensato,
Mas não esmoreces e nem refreias o ímpeto,
Continuas a arrochar as cravelhas do alaúde,
Mesmo estando ele sem as cordas,
Continuas a polir os velhos coturnos,
Embora saibas que não há efemérides
Nem diplomas ou medalhas,
Nem apertos de mão,
Comove-me a tua hermenêutica singela,
Apraz-me a tua dignidade burlesca,
Seduz-me o teu discurso calado e sem verbo
Porque no fundo,
Sou como tu e vivo da mesmíssima maneira
Rego um jardim sem flores,
Afino um instrumento que não produz som algum,
Lubrifico as armas para o combate que jamais travarei,
Executo o mesmo ofício de desesperança
Percorro a mesma jornada fragmentária
E o teu caminhar por entre as vastidões inanimadas
Repercute nos passos que são meus
Oh! agricultor da fome,
Oh! menestrel do silêncio,
És a quietude impávida da tarde lustrosa
És o meu reflexo convulsivo,
Pátina esmaecida cujo tônus escorre ainda


Por entre os desvãos imaginários do espelho que me fita.

Fonte: Jazz + Bossa.

Clube do Jazz

Em nome da memória de Casé, saxofonista e gênio - Nessa entrevista concedida a Gustavo Kalil para o site Clube de Jazz, o jornalista e músico Fernando Lichti Barros nos conta sobre o seu trabalho em torno da preservação da memória de José Ferreira Godinho, o Casé. Gustavo Kalil - Conte um pouco sobre sua formação musical. Fernando Barros - Sou de uma família musical. O pessoal se reunia em casa e mandava bala: meu pai no piano, meus tios na sanfona, no pandeiro, na gaita. Dos seis aos dez anos estudei sanfona. Enquanto isso ia ouvindo o que caia na minha mão, numa época em que informação não andava, como agora, dando sopa por aí. Sou de 1953. Fazer um interurbano era dificílimo, as estradas eram péssimas, a televisão ainda não chegava lá. Para ouvir música, só se fosse no rádio, nos discos ou nos bailes. GK – E o jazz, quando é que ele apareceu na sua vida?FB - O jazz veio pelo rádio, pelo disco, pelo cinema, pela influência americana se esparramando no pós-guerra, pelo piano do meu pai, que tocava uns standards. Ele gostava muito de fox-trot. Nas festas familiares, regadas a hectolitros de vinho, meus tios paulistanos dançavam charleston. Duke Ellington, Cole Porter, Armstrong, essa turma toda tava no ar. E jazz, quando eu era criança, ainda era sinônimo de orquestra. Isso você vê nos livros em que o Érico Veríssimo retrata a década de 30. Não tive a sorte do filho dele, o Luis Fernando, com quem eu toco, de ver o Charlie Parker de perto. Leia a entrevista na íntegra aqui.

03/10/2009

Elas também tocam jazz - Valaida Snow

Gostaria de assumir total responsabilidade pela ausência da coluna Elas também tocam jazz no mês de setembro. Era atribuição minha sua feitura e, como que tentando compensar a falha, prometi a Mr. Lester elaborar duas resenhas para a coluna feminina no mês de outubro, sem quaisquer ônus adicionais para os sócios contribuintes do Jazzseen. A de hoje vai tratar de Valaida Snow, caso de apogeu e queda pouco suscitado entre os amantes do jazz. A moça nasceu em Chattanooga, Tennessee, no dia 02 de junho de 1903*, no seio de uma família de artistas. Sua mãe, professora de música e entertainer (misto de apresentadora, instrumentista, dançarina e humorista), ensina às filhas Valaida, Lavaida e Alvaida uma série de instrumentos, entre eles violoncelo, contrabaixo, clarinete e saxofone. As meninas também aprenderam a cantar e dançar, mas Valaida demonstraria talento especial na utilização do trompete, tornando-se a trompetista mais famosa no período que antecedeu o swing. Segundo a pianista Mary Lou Williams, que "sempre apreciou seu modo de tocar, sobretudo quando emitia aqueles dós agudíssimos no estilo de Louis Armstrong" - ver as notas do álbum Jazz Women: A Feminist Retrospective, lançado pela Stash em 1977 - Valaida "poderia ter se tornado uma grande trompetista caso ela tivesse abandonado o canto e se concentrado no instrumento". Aos quinze anos Valaida já atuava profissionalmente, cantando, dançando e tocando em shows na Philadelphia e em Atlantic City. Em 1922, apresenta-se em New York, no popular cabaré de Barron Wilkin, no Harlem. O sucesso foi imediato e as apresentações multiplicaram-se, inclusive nos teatros de revista: em 1924 Valaida apresenta-se nos musicais negros The Chocolate Dandies (de Noble Sisse e Eubie Blake) e Will Masten's Revue. As turnês pelos EUA são numerosas, em especial as realizadas em companhia do Will Mastin Trio. Entre 1926 e 1928, Valaida parte para o Extremo Oriente, apresentando-se com a banda de Jack Carter. De volta aos EUA, Valaida apresenta-se em diversos clubes, inclusive no Sunset Café, de Chicago, onde é admirada pelo público e até mesmo por músicos como Louis Armstrong. Em 1929, parte novamente em turnê, dessa vez pela Rússia, Oriente Médio e Europa. Em 1933, já de volta aos EUA, Valaida lidera sua própria banda no famoso Grand Terrace Ballroom, em Chicago, contando com a presença de ninguém menos que o genial pianista Earl Hines entre seus músicos. Nesse mesmo ano realiza sua primeira gravação e passa a integrar a orquestra de Earl Hines, com a qual parte em turnê durante um ano. Em Londres, apresenta o show Blackbirds 1934 e, ainda na década de 1930, realiza uma série de curta-metragens em Los Angeles, como em Take It from Me e Irresistible You, e na França em L'Alibi (1936) e Pièges (1939).
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Além de talentosa e cheia de energia, Valaida era considerada bonita para os padrões da época, atributos que não seriam suficientes para que uma mulher, ainda por cima negra, fosse reconhecida por seu verdadeiro valor artístico, nem mesmo entre seus amigos músicos. Sua extrema competência como cantora, trompetista, arranjadora, dançarina e líder de banda não passava de mera curiosidade para o grande público, que se divertia muito ao ver uma negra tocar trompete. Ainda assim, Bobby Short passa a chamá-la de "Fable Valaida Snow" e Valaida recebe títulos como "Queen of the Trumpet" e "Little Louis". Em 1936, após ocupar o cobiçado Apollo Theatre, Valaida decide instalar-se na Europa, fixando-se primeiro em Paris e depois na Escandinávia. Nesse período, grava bastante e apresenta-se em diversas cidades da Europa, obtendo um sucesso poucas vezes igualado por um músico de jazz. Mas tudo desmorona para Valaida quando, por volta de 1940, é presa pelos nazistas que ocuparam a Escandinávia, sendo levada para um campo de concentração, onde permanece por cerca de dois anos*. Após ter sido libertada, Valaida retorna para os EUA bastante debilitada, tanto física como psicologicamente, sendo atendida pelo produtor Earle Edwards, com quem se casaria mais tarde. Parcialmente recuperada do trauma, Valaida volta a se apresentar, inclusive no Apollo Theatre, mas já não apresenta o brilho contagiante dos velhos tempos, passando a interpretar um repertório mais comercial e solando cada vez menos ao trompete (veja suas gravações das décadas de 1940 e 1950). Em 1943, ao vê-la se apresentando, Earl Hines não foi capaz de reconhecê-la. Em 1956, um pouco depois de sua apresentação no Palace Theatre de New York, Valaida sofre uma hemorragia cerebral, falecendo aos 52 anos de idade. Para os amigos, fica a faixa It had to be you .* As informações sobre Valaida Snow são bastante desencontradas e, por vezes, incompatíveis entre si. Das fontes consultadas, entre elas Black Women in American Bands and Orchestras, de D. Antoinette Handy e Who's Who of Jazz, de John Chilton, ainda prefiro recomendar ao argonauta interessado a obra Stormy Weather: The Music and Lives of A Century of Jazzwomen, de Linda Dahl (Limelight Editions, New York, 1989, p. 81-82).

02/10/2009

BBC Jazz Awards 2008

A seguir os vencedores do BBC Jazz Awards 2008, sempre revelando novos talentos e reverenciando antigos mestres, além de figuras memoráveis do jazz, como Alan Bates (foto). Lifetime Achievement - Return To Forever - Ex Miles Davis keyboard player Chick Corea's band became one of the definitive 'fusion' acts of the 1970s. Now reformed with the classic line up of Stanley Clarke, Lenny White and Al Di Meola, the band are touring the world once more. Gold Award - Sir John Dankworth and Dame Cleo Laine - The first couple of British Jazz have been making music together for well over half a century as well as providing inspiration for a younger generation of players. International Award - Charlie Haden - Legendary bassist who came to prominence as a member of Ornette Coleman's band and has since gone on to work with Carla Bley, Pat Metheny, John Taylor, Keith Jarrett and his own Quartet West. Album Of The Year - The Blessing - All Is Yes is the ecstatically received debut from this Bristolian quartet whose members have appeared with such diverse acts as Portishead, Robert Plant and The Super Furry Animals. Best Vocalist - Christine Tobin - Irish born singer and songwriter Tobin has established herself as one of the most gifted and adventurous musicians working in the UK, leading The Guardian to describe her as 'The Bjork of Euro Jazz'. Best Instrumentalist - Tony Kofi - Throughout the 1990s Tony Kofi's saxophones were heard in several bands including both Jazz Jamaicaa and The Jazz Warriors. His emotional intensity and knowledge of the jazz tradition marked him out as a name to watch even then, and the work of his own bands have seen him deliver on that promise. Jazz Line-Up Band of The Year - Tom Cawley's Curios - The Acoustic Ladyland keyboardist struck out in a different direction with the formation of this acoustic trio in 2006 (described by Time Out as 'state of the art') with bassist Sam Burgess and drummer Joshua Blackmore. They narrowly missed picking up the best album award last year. Jazz on 3 Innovation Award - Fraud - Formed by James Allsopp and Tim Giles, this quintet's fierce collage of free improv, punk and electronica (drivn by two drummers) earnt them a nomination for Album of The Year in 2007 and much praise from critics. Heart of Jazz Award - Tommy Smith - Saxophonist Tommy Smith joined vibist Gary Burton's band aged just 18, going on to work with big names such as Chick Corea, John Scofield and Kenny Wheeler. He now leads the Scottish National Jazz Orchestra and his own Youth Jazz Orchestra as well as his own quartet. Radio 2 Artist Of The Year - Humphrey Lyttelton - Though primarily known in later life as a broadcaster, Humphrey Lyttelton was first and foremost a jazz musician, celebrating 60 years as a bandleader in January 2008 and boasting a discography that contained well over 200 compositions. He also recorded the first jazz record ever to grace the UK singles chart in 1956! Services to Jazz - Alan Bates - Alan Bates founded Black Lion Records in the late 60s, recording artists as diverse as Chris Barber, Thelonious Monk and Sun Ra. In the 1980s he took over the running of the Candid label, revamping it and signing Stacey Kent, Clare Teal and Jamie Cullum among others. Rising Star Award - Kit Downes - Though currently a student at The Royal College of Music, pianist Kit Downes is also carving out a reputation as a name to watch. He is a member of the hotly tipped Empirical and has appeared alongside Acoustic Ladyland, Fraud and Martin Speake.

01/10/2009

Extra, extra! John Lester flagrado na Casa Cor

Mesmo sendo procurado pela Interpol, pelo FBI, pelo Mossad e pelo Inspetor Clouseau, Mr. Lester conseguiu bebericar incólume um decente cabernet franc na festa de premiação dos ambientes da Casa Cor Espírito Santo 2009. E quem irá dizer que não existe razão nas coisas feitas pelo coração? Veja aqui o flagrante dos paparazzi, obtido pelo Agente 86.