09/11/2009

O muro e a ponte

Talvez tenham sido os potentes golpes de baqueta desferidos por Art Blakey os verdadeiros responsáveis pela queda do muro. Um mês antes, em outubro, ele estava em Leverkusen, no lado mais atraente do muro, comemorando tranquilamente seus 70 anos de idade, em pleno vigor físico, mantido à base de muito cigarro e doses homeopáticas de heroína, companheira que ele nunca abandonaria. Com ele estava mais uma de suas inúmeras formações do Jazz Messengers: Brian Lynch (t), Javon Jackson (ts), Frank Lacy (tb), Geoff Keezer (p) e Buster Williams (b). Entre os amigos que foram cantar o parabéns pra você, estavam alguns de seus mais brilhantes ex-alunos: Freddie Hubbard e Terence Blanchard (t), Jackie McLean e Donald Harrison (as), Wayne Shorter e Benny Golson (ts), Walter Davis Jr. (p) e Curtis Fuller (tb). A noite não poderia ter sido melhor nem mais animada, é claro. Sobretudo quando lembramos que aquele ano de 1989 tinha começado triste em 26 de fevereiro, com a morte de Roy Eldridge, trompetista que construiu a ponte entre o Swing e o Bebop. Tivemos também a perda trágica, em 9 de maio, do trompetista Woody Shaw que, não bastasse sofrer de Aids, a doença da moda, ainda teve o braço amputado por um trem logo após sua apresentação espetacular no Village Vanguard. Sempre achei que Papai do Céu não deveria permitir que grandes trompetistas tivessem os braços arrancados assim, tão violentamente. Nem que os muros durassem tantos anos e gerassem tantos sofrimentos e lamentações. Mas, antes da queda, em novembro, boas coisas também aconteceram naquele 1989, primeiro ano do governo Bush, pai. Em março, Ralph Sutton e Jay McShann lançam o álbum Last of the Whorehouse Piano Players, homenageando os pioneiros do piano jazz. Em junho, Dizzy Gillespie apresenta-se no London’s Royal Festival Hall, show que é televisionado pela BBC. Nesse ano, Dizzy faria mais de 300 shows, em cerca de 30 países e 100 cidades norte-americanas. Em agosto, Wynton Marsalis e Dr. Michael White realizam um tributo a Jelly Roll Morton no Alice Tully Hall, em New York. Em novembro, enquanto o muro era detonado por jovens sorridentes, o saxofonista Richie Cole, protegido de Phil Woods, apresentava-se na Rússia. Sim, muitos podem alegar em nosso desfavor que foi também em 1989 que Salvador Dali morreu, ou que Salman Rushdie foi condenado à morte no Irã por blasfêmias proferidas em seu livro Versos Satânicos, ou que assistimos ao massacre da Praça Tiananmem, na China, ou que houve um terrível terremoto em San Francisco. Mas, então, é preciso lembrar que, no ano em que o muro caiu, Roy Hargrove, aos dezenove anos, grava Diamond in the Rough; John Zorn, reproduzindo sons de patos e marrecos com seu saxofone, grava Naked City, para a Nonesuch; Keith Jarrett grava o excepcional álbum Standards, ao vivo em Oslo, para a ECM; Gunther Schuller, completa Epitaph, composição em larga escala de Charles Mingus, realizando sua primeira execução; não bastasse, Schuller ainda publica The Swing Era, segundo volume de sua fantástica história do jazz e Quincy Jones reúne alguns dos melhores jovens instrumentistas do jazz para gravar seu álbum Back on the Block, onde mistura bebop com rap. Na média, portanto, um bom ano, onde milhares de gemidos e as baquetas de Blakey derrubaram um dos maiores símbolos da censura. Ouça aqui a faixa Moanin’, com a turma toda que esteve no aniversário de Blakey, retirada do álbum Art of Jazz, gravado em 9 de outubro de 1989.

08/11/2009

Jazzseen recomenda: Blog do Casé


Pois é, quando estamos prestes a desistir, encontramos forças em blogs insuspeitos, como o desenvolvido pelo jornalista Fernando L. Barros. Um monumental trabalho de pesquisa sobre um de nossos melhores saxofonistas: Casé. Leia o prefácio da coisa: "A pesquisa sobre o saxofonista Casé resulta de um trabalho independente, iniciado em 2004. Depois de quatro anos, cerca de setenta entrevistas, oito viagens e muitas visitas à famíla Godinho, a salões de baile, a discotecas e arquivos, recompôs-se a movimentada vida do músico. Mesmo antes de morrer Casé era citado como lenda. Façanhas atribuídas a ele ganhavam versões cada vez mais extravagantes. Para romper a folclorização crescente, a pesquisa apoiou-se em documentos e ouviu, além de familiares, músicos e admiradores que, de fato, conheceram o saxofonista. Inédito, o material traz informações sobre o apogeu e a decadência da música feita ao vivo, num tempo de pouca ou nenhuma tecnologia. Invariavelmente deixados em plano secundário, como simples acompanhantes escondidos atrás de estantes de partituras, os músicos aqui ocupam o lugar de protagonistas. Como eram na fase dos grandes bailes.

Foi num desses eventos que vi pela primeira vez Casé em ação. Movido por grande curiosidade pela música consegui, com 13 anos, entrar num baile destinado aos maiores de 14. Anunciado num clube de Catanduva (SP) pelo maestro da orquestra J. Rodrigues, o saxofonista solou o Harlem Nocturne. Por instantes - cena inédita para mim - o baile parou para ouvir aquele som redondo, perfeito. Evidenciava-se no palco o olhar reverencial dos colegas de Casé. Ao final da música, foram os primeiros a aplaudi-lo.

Sete anos depois, na mesma cidade, em Samba de Verão, um improviso arrebatador, de uma ousadia à época incomum, encheu os ouvidos dos casais que dançavam embalados por um inexpressivo conjunto da região. Lá estava ele, Casé, só de passagem, como era do seu estilo, mantido até dia em que sua morte foi destacada por todos os jornais de São Paulo, em dezembro de 1978." Não deixe de visitar.

07/11/2009

A belíssima música dos pigmeus

Lendo sobre Kenny Drew no blog de nosso amigo Érico Cordeiro, verificamos como a Europa sempre recebeu bem os músicos de Jazz. E isso desde a década de 1920, com Valaida Snow e, nas décadas seguintes, Sidney Bechet, Bud Powell e muitos outros. Dentre os países que maior afeto demonstraram pelo jazz, a França, sem dúvida, está entre os primeiros. Talvez em virtude da ocupação norte-americana após a Segunda Guerra, os vínculos entre Paris e os músicos de jazz, que já eram estreitos desde a década de 1920, foram reforçados não apenas com a importação de excelentes instrumentistas norte-americanos, como também pela fabricação local de grandes músicos de jazz. Entre tantos, hoje resolvemos falar sobre o saxofonista Barney Wilen, filho de mãe francesa e pai norte-americano. Nascido em Nice, no dia 4 de março de 1937, Barney viveu seus primeiros dez anos no Arizona, retornando para a França após o término da Segunda Guerra, fixando-se com a família na Côte d'Azur. Sob a influência do poeta Blaise Cendrars, amigo de sua mãe, decide tocar jazz e dedica-se com esmero ao estudo do saxofone, ao mesmo tempo em que toca em clubes de Nice. Inicialmente, Barney seguiu os passos de Lester Young até adquirir, em meados da década de 1950, estilo próprio, tornando-se um dos melhores saxofonistas da Europa. Entre 1955 e 1960, Barney toca com Art Blakey, Benny Golson, Miles Davis, J. J. Johnson, Bud Powell e John Lewis, que o considera um dos quatro melhores saxofonistas do jazz, ao lado de Lester Young, Stan Getz e Lucky Thompson. Em 1957, Barney grava com Miles Davis a trilha sonora do filme Ascenseur Pour L'Echafaud (Lift to the Scaffold), de Louis Malle. Em 1958, grava para a Fontana seu primeiro álbum importante, Jazz sur Seine, com Milt Jackson ao piano, sim, apenas ao piano, Percy Heath (b) e Kenny Clarke (d) - para os amigos, deixo a faixa Swingin' Parisian Rhythm - e, em 1959, grava a trilha sonora do filme Un Témoin Dans La Ville, com Kenny Dorham (t), Duke Jordan (p), Paul Rovere (b) e Kenny Clarke (d). Na década de 1960, Barney abandona o Hard Bop e volta-se para a Fusion, desenvolvendo estudos com o jazz-rock. Em seguida, parte para a África, onde vive de 1968 a 1973, estudando a interessantíssima música dos pigmeus. Felizmente, Barney retorna para a França e, após um triste período tocando punk-rock, volta ao mainstream jazz que o consagrou, realizando uma série de álbuns importantes, muitos deles lançados pelo selo Venus. Seu último álbum, New York Romance, foi gravado em 1995 para a Sunnyside, em excelente companhia: Kenny Barron (p), Ira Coleman (b) e Lewis Nash (d).

05/11/2009

Free Jazz: The Ornette Coleman Legacy

Já em passado recente, fui severamente censurado por alguns navegantes ao afirmar  o que todos sabem: que Ornette Coleman tocava mal o saxofone e pessimamente o violino. Cheguei a identificá-lo como uma das maiores aberrações do Jazz, ao lado de Albert Ayler, o mais famoso saxofonista de circo dos horrores. Mas, ao que parece, os amigos do Free Jazz não têm motivos para tanto desassossego. Segundo Houaiss, aberração significa, entre outras coisas, "desvio do que é considerado padrão". E não é esse, prezados amigos, o caso de Ornette Coleman? Houaiss prossegue, dizendo que "aberração da natureza" é o "fenômemo natural que se nos apresenta sob formas desconhecidas, não usuais ou incompreensíveis". Bem, não podem restar dúvidas de que Ornette Coleman e sua música são, em essência, aberrações musicais surgidas já com toda a exuberância em 1959, ano em que lança o álbum The Shape of Jazz to Come. No ano seguinte, também pela Atlantic, consolida sua estranha proposta com o álbum Free Jazz, que dará nome ao novo estilo. Certamente que o estudioso de Jazz ou o amante do Free Jazz possuem, ou deveriam possuir, tais obras, mais do que básicas para a compreensão de um processo que, acreditem, prossegue fluindo ainda hoje nos subterrâneos da música chamada jazz. Eu mesmo, defensor indômito do Neo Swing e do Neo Bebop, nos moldes propostos por gente como Wynton Marsalis, tenho lá meus quatrocentos ou quinhentos álbuns de Free Jazz e, confesso, alguns deles bastante interessantes. Embora a grande maioria dos músicos do Free Jazz assemelhem-se a jovens estudantes de música drogados e sem talento que resolvem fazer rock progressivo, havemos de convir que certos elementos adeptos do Free Jazz têm sim valor musical. 

E, então, brota o enigma: por qual motivo boa gama de músicos competentes têm prestado repetidos tributos a Ornette Coleman? Certamente que não são por seus dotes como instrumentista. Restam, assim, suas composições, idéias e teorias musicais que, volta e meia, engendram intermináveis discussões nas academias, esses centros multiplicadores de notas de rodapé que, invariavelmente, dividem-se entre as que o consideram um gênio e as que o rotulam de néscio. De nossa parte, como pessoas comuns, do tipo que ainda não distingue adequadamente um dó sustenido de um si bemol, preferimos ouvir a música de Ornette Coleman pela "boca" dos outros. Um deles é o grupo Affinity, um dos melhores grupos de free jazz da década de 1990, formado por Joe Rosenberg (ss), Rob Sudduth (ts), Richard Saunders (b) e Bobby Lurie (d). Todos impressionam pela perícia técnica e pela criatividade. Certamente um dos grupos do free mais agradáveis de se ouvir e que posso recomendar tranquilamente para os ouvintes de boa vontade que pretendem conhecer a evolução do estilo. Para os amigos selecionamos a faixa Afrique , retirada do álbum Plays Nine Modern Jazz Classics – 1993 – Music & Arts, uma excelente releitura de composições de Thelonious Monk, Lee Konitz, Eric Dolphy, Anthony Braxton e - para onde esse mundo vai? - Ornette Coleman. 

A outra "boca" que diz bem Ornette Coleman é a de Tiziano Tononi, baterista com formação tanto no ambiente da música clássica quanto no do jazz, chega a estudar com Andrew Cyrille. Nascido em 1956, em Milão, Tononi dedica-se desde cedo a novas formas de improvisação e composição, formando o trio Moon on the Water, efetuando também releituras do repertório contemporâneo. Com o saxofonista Daniele Cavallanti, forma o conjunto Nexus e o duo Udu Calls, realizando uma série de gravações com importantes músicos convidados, entre eles Dewey Redman. Mais recentemente, através do seu grupo Society of Freely Syncopated Organic Pulses, Tononi vem realizando uma série de tributos a músicos do Free Jazz, entre eles Don Cherry, John Coltrane e Roland Kirk. Não bastasse, Tononi foi um dos fundadores da respeitada Italian Instabile Orchestra, onde suas composições têm sido regularmente executadas. Para os amigos, a faixa And Now We Interrupt for a Commercial , com Tiziano Tononi & The Ornettians, retirada do álbum Peace Warriors: Ornette Coleman Revisited, Vol. 1, lançado pela Black Saint em 2005. Parece ser como um bom vinho o free jazz: pode beneficiar-se com o passar do tempo. Desde que bem acondicionado.

03/11/2009

Jazzseen Recomenda - Forests – Brazilian Trio – Zoho Music (2008)

Sem vestir mangas bufantes e balançar maracás, o Brazilian Trio revela no título a orgulhosa origem dos três músicos radicados há mais de vinte anos no circuito dos melhores clubes de jazz de Nova York e New Jersey. Todos os três, felizmente, tendo ingressado pela entrada da frente na barreira da imigração. Duduka Da Fonseca e Nilson Matta (o artigo 'da' foi retirado do sobrenome para facilitar a fluência na pronúncia do inglês) são amigos e parceiros de longa data no Trio da Paz - conjunto que conta com o agregamento do guitarrista Romero Lumambo - e gravações em discos com o vibrafonista Joe Locke e o pianista Kenny Barron. Apesar de Maúcha, mulher de Duduka, ter sido vocal de apoio da “Banda Nova” - de Tom Jobim - se desconhece o peso na decisão do baterista em acatar – no ano de 1975 - a sugestão do maestro e “fazer do portão de embarque do Galeão a melhor saída para o músico brasileiro”. Nilson, por sua vez, graduou-se na UFRJ com o decano dos professores de contrabaixo, Sandrino Santoro, e seguiu mesmo destino de “check in” em 1985. Hélio Alves, caçulinha do grupo com 43 anos, veio de São Paulo onde foi discípulo da lenda da vida noturna paulistana – o contrabaixista Xu Vianna. Desembarcou na Berklee em Boston onde concluiu seu bacharelado de piano no ano de 1990. Juntos, separados ou individualmente os três vértices musicais do trio brasileiro tem longa lista de participação como importantes colaboradores – tanto como instrumentistas ou arranjadores - em gravações com Joe Henderson, Yo Yo Ma, Joe Lovano, Paquito De Rivera, Gato Barbieri, Harry Allen, Herbie Mann, entre outros. Em 2008 o trio produziu seu primeiro disco pelo selo Zoho de título Forests – indicado ao Grammy Latino como melhor álbum instrumental - cuja faixa Paraty de autoria de Nilson fica para deleite dos visitantes.