30/11/2009

Quem merece ser eleito o capixaba do ano?

Nosso amigo Reinaldo Santos Neves foi escolhido pelo jornal A Gazeta para concorrer a Artista do Ano: Até o dia 7 de dezembro você pode escolher os Capixabas do Ano - projeto que A GAZETA realiza pelo segundo ano consecutivo para eleger os destaques do Espírito Santo em 10 áreas: Educação, Saúde, Responsabilidade Social, Meio Ambiente, Ética, Administração, Empreendedorismo, Esporte e Cultura. Os três concorrentes de cada categoria foram selecionados por repórteres e editores de A GAZETA entre os nomes que mais se destacaram em 2009. Suas atuações são exemplo para muita gente. Entre os concorrentes, há gente de idades, profissões e interesses diversos. Os 10 vencedores serão conhecidos em uma edição especial da Revista.AG, que circula com A GAZETA no dia 27 de dezembro. Vote nos seus destaques e não perca o resultado, no último domingo do ano. Vote AQUI.

Elas também tocam jazz: Paula Shocron

Na Argentina, nem só de malbec vive o vinho, nem só de tango vive a música. Em Luján de Cuyo, região de Mendoza, certos dias permitem a belíssima visão de brancas montanhas congeladas sobre um imenso tapete verde formado por centenários vinhedos, alguns deles contendo excelentes cepas de cabernet franc, essa prima mais leve e suave da cabernet sauvignon, utilizada nos cortes de Bordeaux e nos varietais do Vale do Loire. Há também jazz na Argentina. Paula Shocron nasceu em Rosário, no dia 17 de março de 1980. Inicia seus estudos de piano clássico em sua cidade natal, ao mesmo tempo em que se interessa pela música popular e, aos dezesseis anos, conhece o jazz. Após estudar na Escuela de Música de la Universidad Nacional de Rosario, Paula decide-se pelo jazz e, aos vinte anos, passa a se apresentar em Buenos Aires. Em 2001, recebe uma bolsa de estudos da Berklee, mas permanece na Argentina em virtude da crise econômica que assola o país. Incentivada pela bolsa, segue trabalhando com o jazz, participando dos grupos Fuga de Cerebros (trio) e La Revancha (quarteto), com quem grava o álbum La intensidad del jogo. Em 2003, forma um trio com Ada Rave (ts) e Daniela Horovitz (v), recebendo elogios da crítica. É nesse período que consolida sua colaboração com o guitarrista Marcelo Gutfraind, com quem grava o álbum Percepciones, pelo selo BlueArt, em 2004. Além de atuar como sidewoman, Paula lidera seu próprio trio, formado por Jerónimo Carmona (b) e Carto Brandán (d). Em 2005, Paula grava La voz que te lleva, primeiro álbum de piano solo de uma pianista de jazz argentina, recebendo boa acolhida pela crítica internacional. Nesse mesmo ano, recebe o prêmio Clarín, na categoria revelação. Para os amigos fica a faixa Evidence , de Monk, retirada do álbum La voz que te lleva, que traz três composições de Thelonious Monk, interpretadas de maneira absolutamente sensível, inteligente e original. Para quem tem interesse no piano Post-Bebop, obviamente repleto de sotaque porteño, Paula é uma gratificante opção. Seu domínio técnico não chega a manifestar-se de forma opressiva, oferecendo um inteligente suporte quando atua como acompanhante, enriquecendo o discurso solista com discretas frases ora solenes, ora repletas de humor. Mas é como solista que sua presença marca, exatamente pela tensão que consegue descrever, seduzindo o ouvinte de maneira quase imperceptível. Quando damos conta, já estamos entregues aos jogos harmônicos dessa moça que, embora seja leve e suave como uma cabernet franc, tem a persistência típica dos melhores malbecs de Mendoza. Quanto ao vinho argentino que recebeu 96 pontos de Robert Parker, trata-se do Pulenta Estate Gran Cabernet Franc 2006, produzido na pequena vinícola dos irmãos Hugo e Eduardo Pulenta, em Luján de Cuyo, região irrigada pelo degelo da Cordilheira dos Andes e submetida a uma magnífica amplitude térmica. Recomendo ambos, pianista e vinho.

25/11/2009

Lenda Viva: Bill Crow


Na seção Lenda Viva o Jazzseen procura, em princípio, divulgar aos nossos 3.000 leitores mensais os grandes mestres do jazz ainda vivos. Tudo na perspectiva de que, caso possam, aproveitem qualquer oportunidade que surgir para ouvi-los ao vivo. Hoje falaremos sobre um mestre que não consta dos guias e manuais: Bill Crow, contrabaixista do mainstream jazz, fluente tanto no Swing, quanto no Bebop e no Cool Jazz. Nascido em 1927, em Othelo, Washington, passa a infância em Kirkland, onde aprende os rudimentos do piano com a mãe, que também o incentiva a cantar. No colégio, passa a estudar o trompete e, mais tarde, o baritone horn (espécie de pequena tuba). Já na University of Washington, Bill dedica-se ao sousaphone (tuba especialmente desenvolvida para a banda de John Philip Sousa, visando facilitar a execução enquanto o músico marcha ou caminha) e, em 1946, durante o serviço militar, toca também trombone de válvula e bateria, até 1949. De volta à universidade, Bill passa a tocar bateria e percussão em clubes de Seattle. Em 1950, parte para New York, onde estuda trombone de válvula com Lennie Tristano durante um curto período. Suas primeiras atuações nos clubes de New York são com o trombone, mas logo interessa-se pelo contrabaixo acústico, instrumento que dominaria rapidamente como autodidata, embora mais tarde complementasse seus estudos com Fred Zimmerman, da New York Philharmonic. Nesse período em New York, Bill atuaria com uma série de músicos importantes, como Dave Lambert, Mike Riley e Teddy Charles, apresentando-se como cantor, comediante, baterista, trombonista e contrabaixista.

É através de Teddy que conhece Jimmy Raney, um dos melhores guitarristas do estilo West Coast, que o convida para tocar com o quinteto de Stan Getz, ao lado de músicos como os trombonistas Bob Brookmeyer e Johnny Mandel, os pianistas Jerry Kaminsky, John Williams e Duke Jordan e os bateristas Roy Hynes, Alan Levitt e Kenny Clarke. Em 1953, Bill passa a integrar a orquestra de Claude Thornhill, onde aprende a ler com fluência as partituras para contrabaixo, algumas delas com formidáveis arranjos de Gil Evans. No ano seguinte, Bill passa a trabalhar com o quarteto de Terry Gibbs, além de participar de apresentações e gravações ao lado de George Wallington, Brew Moore e Billy Bauer, entre outros. Ainda em 1954, Bill integra o trio da pianista Marian McPartland, com Joe Morello na bateria, apresentando-se no Hickory House até 1955. Após um breve e importante aprendizado com a pianista, Bill é convidado a trabalhar com Gerry Mulligan, com quem colabora até 1965. Durante esse período, Bill atuaria também com uma infinidade de músicos importantes, entre eles Al Cohn, Zoot Sims, Clark Terry, Dizzy Gillespie, J. J. Johnson, Eddie Condon, Ruby Braff, Jim Hall, Lee Konitz, Art Farmer, Pee Wee Russell, Jimmy Rowles e, marcadamente, Duke Ellington, em um único concerto, em 1958, no Lewisohn Stadium. Bill também acompanhou vocalistas notáveis, como Mel Tormé, Nina Simone, Chris Connor, Al Jarreau, Carol Sloane e Anita O'Day.

Desde então, Bill tem se apresentado em diversos países e continentes, como América Latina, Europa, Japão, Rússia, Alemanha, Caribe e, mais recentemente, Espanha, Argentina, Chile e Irlanda. Não bastasse sua atuação como instrumentista, Bill ainda produziu uma série de musicais para a Brodway, escreveu uma autobiografia (From Birdland to Brodway) e um livro sobre casos pitorescos envolvendo músicos de jazz (Jazz Anecdotes) e, até hoje, toca em clubes de New York e produz programas para o rádio. Para os amigos, deixo a faixa título do álbum Jazz Anecdotes, lançado pelo selo japonês Venus na mesma época em que seu livro era lançado no Japão. Com Bill estão Carmen Leggio (ts), Joe Cohn (g) e David Jones. As demais faixas do álbum são:

2 Bohemia After Dark

3 In a Mellotone

4 Street of Dreams

5 Tarrytown

6 Lover, Come Back to Me

7 On the Alamo

8 Mack the Knife

9 These Foolish Things

10 'Round Midnight

11 Speak Low

12 Tickletoe

20/11/2009

Mulata

Sim, vovô Acácio sempre foi um exagerado em tudo: bebida, literatura, comida, jazz e mulheres. Sua imensa biblioteca ainda guarda as lembranças dos bons tempos em que trabalhava como estivador no porto de Santos. Estão ali os livros de Mencken e Sérgio Porto, amigo fiel e confidente, os álbuns de Moacyr Peixoto, primo distante, morador da Miguel Lemos, nº 7, em Copacabana e motivo de eterno orgulho, os copos vazios de café com guimbas de cigarro e centenas, talvez milhares, de fotografias de mulheres nuas, todas ex-namoradas, ex-esposas ou simples ex-amantes. Quem o vê hoje, alquebrado, sustentando com dificuldades a pesada armação de casco de tartaruga, com suas unhas imensas, generosos tufos de cabelo saindo do nariz e das orelhas, dentes e dedos amarelados pela nicotina, as camisas e cuecas ruídas pela cadela Billie, não poderia imaginar o absoluto sucesso que fazia junto às mulheres ou, como ele mesmo as chamava, essas danadinhas. Toda a desgraça que se abateu sobre o pobre vovô Acácio teve início, é claro, com uma mulata e um álbum de Latin Jazz. Uma mulata casada e, obviamente, casada com um português. E isso faz muito tempo: para se ter uma idéia, Lula ainda tinha dedo e Caetano ainda não havia notado seu analfabetismo. Foi vendo a mulata na feira, com sua sacola de nylon listrada, comprando frutas multicoloridas, que vovô sentiu aquele calafrio que somente um bicho-de-pé ou um solo de Charlie Parker são capazes de produzir num mortal. Quando se apresentou, a mulata, calada e séria, quase indignada, deu de costas, descrevendo um giro sestroso ao redor do tamanco amarelo, enquanto largava no ar um aroma quase amargo de tão doce. Petrificado, mas ainda consciente, vovô observou aquela saia branca descrever um círculo perfeiro para, em seguida, aterrissar lentamente e ajustar-se novamente ao corpo matreiro da moça.

Perguntando imediatamente ao vendedor de cuscuz se ele a conhecia, descobre, após comer seis fatias de quebra-queixo superfaturadas, que seu nome é Sol, que ela sorri pouco e que mora logo ali, na Rua 15, ao lado do velho prédio da Alfândega. Descobre também que ela gosta de cha cha cha e samba como ninguém. Seu marido, Manuel da Cuíca, é dono da loja de instrumentos da esquina, a tal de Casa do Caboclo, especializada em instrumentos de percussão. Dirigindo-se imediatamente à Casa do Cabloco, vovô é recebido pelos fartos bigodes de Manuel que, gentil, lhe oferece ajuda e algumas balas Juquinha. Coçando o queixo e fingindo interesse desusado pelas cuícas, vovô circula por todo o diâmetro da estreita loja, na esperança de ver a mulata novamente, nem que fosse por um breve instante. Manuel, percebendo o interesse de vovô, traz a mais nova cuíca da casa, desenvolvida com a última tecnologia disponível. Veja, disse ele a vovô, já vem com um paninho e uma garrafinha d’água, pronta para usar. Vovô, sem alternativa, segurou a cuíca e ficou um bom tempo observando-a. Balançava o instrumento de um lado para o outro, segurava-o no alto, fitando-o contra a luz, como que em busca de algum defeito ou observando algum detalhe somente identificável pelos mais experientes percussionistas. Nesse meio tempo, surge Sol por trás do balcão, com sua blusa lilás, chupando caju. Vovô, extasiado, ameaça friccionar a haste rígida da cuíca e dedicar-lhe um merengue em ré menor, quando se dá conta de que sempre odiou percussão, que nunca suportou nem mesmo os bateristas do West Coast, com suas delicadas escovinhas deslizantes, que dirá cuícas e atabaques. Ela, então, observando-o de cima a baixo, pediu com voz molhada: toca um pouquinho pra mim? Antes que vovô tivesse tempo de inventar alguma desculpa para Sol, Manuel retira da orelha o lápis suado e começa a fazer contas em voz alta, enquanto belisca alguns tremoços. Nisso, Sol passa do balcão à loja, já ensaiando alguns passos de salsa em direção a vovô Acácio. Toca, vai, ela insistiu enquanto encarava os olhos sedentos de vovô. Já bastante suado e quase sem ar, vovô observa em tom funesto que, infelizmente, o instrumento está desafinado, o que demandaria um diapasão e um pouco de couro de novilho precoce. O senhor tem um diapasão, perguntou vovô a Manuel. Não tenho não senhor, tenho apenas parmesão, serve?

Enquanto Sol e vovô sorriam um para o outro, Manuel embrulhava a cuíca em papel de pão, fazendo com que vovô prometesse voltar à loja com o instrumento devidamente afinado, para que Sol pudesse apreciar seu desempenho. Cuíca paga e promessa feita, vovô corre para a primeira loja especializada em cha cha cha e compra o álbum Mr. Bongo plays cha cha cha, de Jack Constanzo and his Latin Orchestra, com quem aprende não apenas a tocar cuíca, como também agogô, tamborim, pandeiro, bumbo, balde, washboard e caixa de fósforo. No exato instante em que coloquei a faixa Rabo e Mula para tocar e perguntei curiosa a vovô como tinha sido sua exibição para Sol, chega vovó Tícia, com café forte e cara de poucos amigos.