31/12/2009
19/12/2009
Natalis Invicti
Lá no início, nos seus primeiros quatro séculos de existência, a Igreja Católica preferia comemorar a morte ao invés do nascimento. Afinal, morte e culpa eram coisas sérias e lucrativas naqueles bons tempos, onde a venda de indulgências (perdão católico) garantia o vinho de boa safra aos bons padres. Com o tempo a coisa foi virando bagunça e o preço absurdo do garrafão de tinto obrigou a Igreja, muito a contragosto, a comemorar também a vida e o nascimento das pessoas. Ok, eu sei que foi uma grande derrota para os sombrios e taciturnos monges que, esfregando as mãos umas nas outras e sorrindo nervosamente, dedicavam toda a vida estudando e reverenciando a morte e a culpa. Mas a pressão dos pagãos e dos camelôs da Uruguaiana tornou inevitável a aceitação do Natal pela Igreja. O Natal nada mais é que uma ficção histórica rendosa, dado que ninguém sabe de fato quando Cristo nasceu. Alguns dizem que teria sido no dia 6 de janeiro. Mas não há nada nas escrituras sobre isso e o mais provável é mesmo que Jesus não tenha nascido em dezembro. Mas quem se importa? O dia 25 de dezembro foi escolhido apenas porque era a data de uma grande festa pagã (Natalis Invicti) que comemorava o nascimento do Sol. Era uma festa alegre e cheia de comes e bebes. Sendo assim, Constantino e o alto escalão da Igreja viram na data idólatra uma ótima oportunidade para se angariar devotos e, por conseqüência, vender indulgências e coxinhas de galinha. Foi nessa época que surgiu a famosa promoção de Natal: pague 3 e leve 2. Com aquela coisa de presentearem-se uns aos outros, nem mesmo os judeus reclamaram muito da festa, exceto os mais ortodoxos (quando eram obrigados a comprar algum presente sem a certeza de receber outro). Não seria mau se a Igreja Católica adotasse o jazz em suas celebrações natalinas. Talvez até rolasse a eleição de um Papa negro para animar o Vaticano. Aí, então, a festa estaria completa. Eu pagaria satisfeito para ouvir Miles Davis tocando dingo bel, dingo bel, acabou o papel...
13/12/2009
Rapaz de bem
Johnny Alf, grande compositor, pianista, cantor, um dos precursores da bossa nova, precisa de ajuda. Quem puder fazer algo por "Genialf" (como Tom Jobim chamava-o), a seguir as infos passadas por seu empresário, Nelson Valencia: Oi Pessoal! O Johnny entrou em uma fase mais agressiva do tratamento, está fazendo quimioterapia, em função disso, acontece uma baixa de imunidade, por isso tem precisado receber transfusão de sangue. O Banco de Sangue do Hospital Mário Covas, está pedindo doadores. Quem puder ou conhecer quem possa, por favor, peço essa ajuda. Apesar da agressividade do tratamento, no geral, ele está reagindo bem. Ontem ele me pediu para levar as partituras, pois quer montar o roteiro para um novo show, pesquisando músicas que não toca há muito tempo. Esse é o melhor sinal, é o milagre da música. Assim seja!
Hospital Mário Covas - Fone 2829-5000
Banco de Sangue - procurar a Catarina
Doar para Alfredo José da Silva
De 2a. a sábado das 8 às 13h00
Idade de 18 a 65 anos, com mais de 50 Kg
Pode tomar o café da manhã
Qualquer tipo de sangue.
O Hospital fornece atestado para quem precisar.
O Hospital Estadual Mário Covas está localizado na Rua Henrique Calderazzo, 321, Bairro Paraíso, em Santo André, próximo ao Shopping ABC e ao Hospital Brasil.
No endereço abaixo tem um mapa com a localização:
www.hospitalmariocovas.org.br/internas.aspx
Abraços,
Nelson
09/12/2009
O dia em que a Terra parou
Foi grande a confusão quando um sorridente Tobias Serralho apareceu na última reunião do Clube das Terças, o mais longevo e atuante clube de jazz do Espírito Santo. André e Pedro levantaram-se imediatamente, dizendo que iriam fumar fora do shopping. O presidente, Reinaldo, franziu a testa inconscientemente, como que prevendo o pior. Chico bebia tranquilo seus fartos litros d'água trazidos de casa, indiferente aos avisos de que água demais faz mal. João e João Luiz foram beber aquele café, enquanto Luiz Paixão cantarolava, ajeitava os suspensórios e espremia os olhos, tentando identificar o desconhecido que se aproximava com passos firmes. Salsa e Rogério partiram para o Balacobaco, bar tornado famoso por suas jam sessions e seus tremoços empanados. Gumercindo, recolhendo suas cinco sacolas, cada uma delas contendo algumas dezenas de raros lp's de maracatu, partiu em direção incerta, rumo ao lavabo. Grijó permanecia sentado, tronco ereto, cada uma das mãos sobre seus respectivos joelhos e, indiferente à tempestade que se aproximava, relia atento seu novo romance, fazendo algumas anotações esporádicas nos cantos das páginas, anotações que, segundo ele, serviriam ao seu discurso de lançamento do livro, marcado para amanhã, dia 10 de dezembro. Sem aparentar surpresa, John Lester levantou-se para receber o amigo maranhense, um belo exemplar de caboclo esculpido pela severa espátula da caatinga baiana. Sim, Tobias passou a infância em Cocorobó, cidadezinha da região conhecida como Sertão de Canudos, na margem direita do rio São Francisco, próximo às cabeceiras do rio Vaza Barris, um dos locais mais secos do mundo. Após um longo abraço, necessário para aplacar o distanciamento de quase uma década, Lester comete o erro de convidar o amigo para sentar-se à mesa, no que é firmemente impedido pelo presidente Reinaldo e pelo vice-presidentedo Luiz Paixão. Informam em duo, com certa dose de orgulho, que àquela mesa sentam-se somente os verdadeiros amantes do jazz. John Lester intercede em favor de Tobias, alegando uma série de antecedentes e atenuantes. Inflexíveis, o presidente e o vice são apoiados pelos demais sócios, todos antipáticos à idéia de franquear cadeira tão nobre a um desconhecido curioso e, o que é pior, muito sorridente. Foi quando Tobias, com educação mas determinado, propos à diretoria um desafio: ele faria uma pergunta sobre jazz aos membros do clube: se ninguém soubesse a resposta, ele poderia se juntar aos sócios. Todos concordaram imediatamente, imaginando que Tobias seria devidamente massacrado pelas toneladas de conhecimento acumulados ao longo de quase vinte anos de reuniões do Clube das Terças. Como que ajeitando a cartucheira, Tobias ajusta o cinto e dispara: quem era o pianista do primeiro conjunto de bebop a tocar na 52nd Street?
Um imenso silêncio tomou conta da mesa de reunião, enquanto os membros do clube entreolhavam-se entre apreensivos e assustados. Não lembro quem esboçou uma resposta, no que foi prontamente impedido pelo presidente: estamos diante de uma complexa questão, alertou ele. Precisamos de muita calma, concordou Luiz Paixão. Salsa, mais desinibido, perguntou a Tobias em que ano aconteceu a coisa, e Tobias respondeu: 1944. Fernando, sempre preocupado com as fontes, perguntou de onde ele teria retirado tal informação, e Tobias respondeu: foi do Gramophone Jazz Good CD Guide, 2nd edition, 1997, página 606. Sem graça e engolindo em seco, Fernando agradeceu. Arcemir, o mais negro dos integrantes do clube, retirando seu chapéu Panamá e ajeitando as vistosas meias listradas calçadas por sapatos brancos, insinuou que o pianista negro deveria ser ou Bud Powell, ou Thelonious Monk. Tobias informou-nos que o pianista era branco, o que só fez aumentar nossa perplexidade. Num ato desesperado, André fez seu blefe, murmurando de forma audível que, então, ou foi Al Haig, ou foi Lennie Tristano. Tobias, sempre generoso, informou a todos que não, não foi nem Haig nem Tristano. Enquanto alguns membros abandonavam a cena do crime, nosso presidente solicitou a Tobias que informasse, caso fosse possível, quais os integrantes desse tal grupo de bebop, o primeiro a se apresentar na famosa 52nd Street de New York. Tobias, quase com pena, informou: o grupo era co-liderado pelo trompetista Dizzy Gillespie e pelo contrabaixista Oscar Pettiford, acrescentando que o baterista era Max Roach.
Após quase três horas de tentativa e erro, e já visivelmente abatidos, fomos obrigados a permitir que Tobias senta-se à mesa, ávidos pelo nome do pianista. Tobias, então, informa que o pianista era George Wallington, provavelmente um dos primeiros pianistas brancos a dominar o idioma bop. Por sua técnica e velocidade, foi muitas vezes comparado a Bud Powell, muito embora possuísse um estilo mais melódico, sendo também muito convincente na interpretação de baladas. E Tobias prosseguiu: Wallington foi também um competente compositor - ouçam, por exemplo, Godchild e Lemon Drop. Suas gravações em trio são excelentes e, embora mal remasterizadas, as gravadas para a Prestige em 1952 e 1953 foram lançadas em CD, com Charles Mingus, Oscar Pettiford, Curley Russell (b) e Max Roach (d). Para os amigos, a apimentada faixa Sqeezer's Breezer , com esse pianista, quem diria, siciliano nascido em Palermo, em 1924.
05/12/2009
O jazz morreu: Bernardo Sassetti
Bernardo nasceu em Lisboa em Junho de 1970. Iniciou os seus estudos de piano clássico aos nove anos e, mais tarde, frequenta a Academia dos Amadores de Música. Dedicou-se ao Jazz, estudando com Zé Eduardo, Horace Parlan e Sir Roland Hanna. Aos 17 anos inicia a carreira profissional, participando de concertos e tocando em clubes locais, além de constar em inúmeros festivais, shows e gravações, acompanhando músicos como Al Grey, Art Farmer, Kenny Wheeler, Freddie Hubbard, Benny Golson, Curtis Fuller, Eddie Henderson e Charles McPherson. Em 1994 grava seu primeiro álbum como líder, Salsetti, para a Movieplay, com a aprticipação de Paquito D'Rivera. Ainda na década de 1990 passa a integrar a United Nations Orchestra e o quinteto de Guy Barker, com o qual grava o álbum Into the blue, para a Verve. Em 1997, também com Guy Barker, grava What Love is, acompanhado pela London Philarmonic Orchestra. Em 2002 grava o álbum Nocturno, para a Clean Feed, recebendo o 1º Prêmio Carlos Paredes. Além de excelente pianista, Bernardo destaca-se também como compositor, associando à sua formação clássica elementos folclóricos de Portugal, Brasil e África em peças como as suítes Ecos de África, Sons do Brasil, Mundos, Fragments (Of Cinematic Illusion), Entropé (para piano e orquestra) e 4 Movimentos Soltos (para piano, vibrafone, marimba e orquestra). Igualmente importante são suas diversas composições para o cinema, entre elas a realizada para o filme The Talented Mr. Ripley, de Anthony Minguella. Atualmente Bernardo vem atuando regularmente com seu trio, formado por Carlos Barretto (b) e Alexandre Frazao (d), ou em duo com o pianista Mário Laginha. Ouça aqui a faixa Monkais , em óbvia homenagem, retirada do álbum Nocturno, com Carlos (b) e Alexandre (d). Apesar disso, o nome Bernardo Sassetti permanece absolutamente desconhecido do grande público de jazz norte-americano, embora já tenha sido ouvido ao lado de grandes músicos do jazz e em trilhas sonoras de sucesso. Afastando-se das primeiras influências rítmicas fortemente percussivas das músicas africana e brasileira, em Nocturno Bernardo passa a investigar com mais vagar os aspectos melódicos e harmônicos de seus instrumento, no que é francamente favorecido pela sólida formação clássica. As noções de pausa e silêncio, antes administradas burocraticamente, recebem agora atenção cuidadosa, do que resulta uma tensão especialmente sedutora, além de composições mais inventivas melodicamente que, necessariamente, nos remetem a Chopin ou Satie. Gravado na residência e com o instrumento da formidável pianista Maria João Pires, Nocturno estabelece com nítidez os dissimulados contornos da noite, como que descritos com o auxílio de amigos como Bill Evans, Keith Jarrett ou Horace Parlan, este último um dos professores do bardo. Dignas de nota são as atuações dos excelentes Carlos Barretto e Alexandre Frazao, acompanhantes precisos e estimulantes. Boa audição.
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