10/02/2010

Samba também é jazz - Laurindo Almeida

Aproveitando que a programação da TV era repentinamente interrompida por um maçante pronunciamento do sempre inoportuno Hugo Chavez, voltei a ler o interessante livro de Harold McGhee: On Food and Cooking: The Science and Lore of the Kitchen, Scribner, 2004, p. 131. Lá estava a história e a receita do milenar Sukiyaki, prato de origem camponesa que remonta a era medieval japonesa. A palavra é composta, onde Suki significa rastelo e Yaki significa assar. Rastelo é um instrumento agrícola, semelhante a uma enxada, só que munido de dentes de ferro ou madeira. Ocorre que o rastelo japonês possuía forma peculiar, o que permitia sua utilização para o cozimento de alimentos, dispensando outros utensílios e facilitando a vida dos camponeses. Com o passar do tempo, optou-se pelas panelas de ferro nas datas festivas, com todos os comensais servindo-se da mesma panela. Hoje o Sukiyaki é um prato tradicional e sofisticado, sendo preparado com diversos legumes e molhos e alcançando um alto valor espiritual para o japonês, que é o de reafirmar os laços familiares, afetivos e de amizade através da mesa, resguardando sua cultura e tradição. Quase que imediatamente lembrei da faixa Sukiyaki, gravada por Laurindo Almeida e constante do álbum Dance the Bossa Nova, lançado pelo selo Saludos Amigos em 1994. Para os amigos fica a receita do prato e a faixa I Left My Heart In San Francisco , cidade onde comi o melhor Sukiyaki da minha vida, no retaurante Hana Zen, na rua Cyril Magnin, nº 115. Agora é com Mestre Pituco.

Ingredientes
•30g de manteiga sem sal
•200g de filé mignon fateado finamente
•6 folhas de acelga
•100g de moyashi ( brotos de feijão)
•1 unidade de cebola média
•½ maço de naga negui (cebolinha grossa,cebolão, cebolinha branca)
•8 unidades de cogumelos Shiitake
•250g de itoh konhaku ( macarrão de batata)
•200g de tofu ( queijo de soja)
Dashi (molho)
•100 ml de shoyu ( molho de soja)
•50ml de sake comum
•50ml de mirim ( sake doce)
•15g de açúcar

Porção para 4 pessoas (ou 8 japoneses) - Modo de preparo: Lave bem as mãos, depois as folhas de acelga, cortando-as em cubos. Lave os talos da cebolinha grossa e corte-as em pequenos talos de 5 cm em diagonal (se necessário, utilize régua, compasso e transferidor), retire os talos do cogumelo shiitake e corte em cubos de 5 cm o queijo de soja.

Retire o macarrão de batata do pacote e cuidadosamente esprema-os com as mãos de modo que saia o máximo do soro que o envolve. Evite coçar o nariz nesse momento.

Aqueça o rastelo, a enxada ou a panela e derreta a manteiga, em seguida refogue levemente a carne sem deixar dourar.

Prosseguindo, coloque as folhas de acelga cortadas em cubos, a cebola cortada em meias rodelas de 1 cm de espessura, os cogumelos shiitake sem os talos e as cebolinhas cortadas em bastonetes de 5 cm de comprimento em diagonal e o tofu cortado em cubos.

Misture todos os ingredientes do molho e adicione ao sukiyaki. Em seguida acrescente o macarrão de batata.

Certifique-se de que todos os ingredientes estão dispostos de forma artística e tampe a panela por 8 minutos. Depois retire a tampa e acrescente o broto de feijão.

Deixe cozinhar por 2 minutos e estará pronto para ser fotografado e servido.

Observação: Caso o molho comece a transbordar da panela retire um pouco com uma concha e reserve. A medida que o molho for secando, vá acrescentando aos poucos o que você retirou.

07/02/2010

Vee Jay - Gratius ex ipso fonte bibuntur aquae

Fiquei extremamente comovido quando, ao telefonar para Lester, ouvi do outro lado da linha: gratius ex ipso fonte bibuntur aquae. Isso foi depois de confessar-lhe que estava inconsolável: afinal, havia inutilmente procurado informações sobre o selo Vee Jay em duas respeitáveis fontes: 1) The New Grove Dictionary of Jazz, volume único publicado em 1994 e 2) Glossário do Jazz, 2ª edição, 2009, escrito pelo amigo Mário Jorge Jacques. Como último recurso, estava ali, aguardando que Lester pudesse trazer alguma luz sobre tão obscuro selo. Sim, a Vee Jay Records havia sido a maior gravadora criada e administrada por negros até o surgimento da Motown. O nome é fruto das iniciais do casal Vivian Carter e James Bracken, que a fundaram em 1953, em Gary, Indiana. Vivian era disc jokey da WGRY e James era proprietário de uma bem sucedida loja de discos. Ambos sentiam a ausência de uma série de artistas talentosos no mercado fonográfico e decidiram alterar essa situação: com US$500.00 obtidos numa loja de penhores, iniciaram aquela que seria uma das maiores gravadoras negras dos EUA. Suas bases foram solidamente firmadas nos estilos blues e rhythm and blues, contando com artistas como Jimmy Reed, Eddie Taylor, Billy Boy Arnold, Snooky Pryor, John Lee Hooker, Big Joe Williams, Floyd Jones, Pee Wee Crayton, J.B. Lenoir e Elmore James. Com o passar do tempo, começam a gravar também músicos brancos, além de ampliar seu repertório com álbuns de soul, pop, jazz, gospel e rock n’ roll. Entre seus artistas principais, vale destacar os grupos Four Seasons e The Beatles.

Quanto ao jazz, a Vee Jay gravou artistas como Gary Bartz, Bunny Berigan, Benny Carter, Paul Chambers, Arnett Cobb, Tadd Dameron, Buddy DeFranco, Eric Dolphy, Harry ‘Sweets’ Edison, Victor Feldman, Frank Foster, Wardell Gray, Bennie Green, Bunky Green, Eddie Harris, Louis Hayes, Earl Hines, Ahmad Jamal, Wynton Kelly, John Kirby, Toshiko Akiyoshi, Bill Marx, Big Jay McNeely, Jay McShann, Lee Morgan, Sam Most, Wayne Shorter, Sonny Stitt, Frank Strozier, Art Tatum, Leroy Vinnegar, Baby Face Willette e Lester Young. Infelizmente, a comunhão de problemas familiares, financeiros, administrativos e judiciais terminou por levar ao fechamento do selo, em maio de 1966, mês e ano em que John Lester nasceu. Apesar disso, em meados da década de 1970 a Vee Jay relançou alguns álbuns de seu catálogo e, mais recentemente, alguns selos têm feito o mesmo, como é o caso da Blue Moon que entregou ao mercado uma série formidável de gravações da Vee Jay.

Para os amigos fica a faixa Jim Dog, retirada do álbum The Swingin'est, gravado em 1958, com Benny Green (tb), Nat Adderley (c), Gene Ammons, Frank Foster (ts), Frank Wess (f, ts), Tommy Flanagan (p), Ed Jones (b) e Albert Heath (d). Cético em relação às fontes secundárias, Lester recomendou-me ir direto à primária, onde a água é bebida com mais gosto, como afirmara Ovídio em seu Epistulae ex Ponto.

05/02/2010

Jazzseen recomenda: Bauhaus

Um espaço para encontros, debates, divulgação e aprendizado em torno da arte e da cultura em geral, realizados através de exposições, cursos livres, palestras e grupos de estudo com professores e profissionais renomados. Seu objetivo é promover experiências e fomentar conhecimentos unindo cultura, arte e educação através da oferta de cursos nas diversas áreas das ciências humanas e sociais, cujo formato procura unir a informalidade da transmissão do saber (através de um ambiente descontraído inspirado nos antigos saraus) ao rigor acadêmico (através de professores e especialistas consagrados). A Staatliches Bauhaus ou, simplesmente, bauhaus foi uma escola de design, arquitetura e arte de vanguarda fundada pelo arquiteto Walter Gropius em Weimar, Alemanha, no início do século XX e que se tornou um dos mais representativos ícones do modernismo, em especial no design e na arquitetura. Sua proposta de ensino visava não apenas a reprodução de saberes, mas a transformação da arte de seu tempo e a construção de uma estética e saberes em bases essencialmente humanistas.

Seu espírito revolucionário e universalista inspirou a criação da Bauhaus capixaba, um espaço de convivência, interação e troca de idéias voltado para os amantes da cultura e do saber. O espaço consiste de uma casa em estilo colonial em Vitória/ES, localizada à Av. Saturnino Rangel Mauro, 488. Sua área é de 460 m², distribuídos entre um auditório para cerca de 60 pessoas, salas de aula com capacidade para até 35 pessoas, salas voltadas para atendimento de atividades com público restrito (reuniões, grupos de estudo, pequenos cursos, etc.), salão decorado de forma aconchegante inspirado nos antigos ambientes de saraus que é utilizado como galeria para pequenas exposições e ambiente para cursos, palestras e debates. Possui equipamentos e serviços necessários para a oferta de cursos e utilização do espaço para eventos em geral tais como Datashow, notebook/computador, retroprojetor, DVD player, TV e Vídeo Cassete, quadro branco, serviços de coffee-break, etc. Vale uma visita.

02/02/2010

Crianças e cachorros

Todos já viram alguma foto sua. Eu adoro essa aí, das três senhoras passeando no parque. Filho de imigrantes russos, Elliott Erwitt nasceu no dia 26 de julho de 1928, passando os primeiros anos de vida na Itália. Aos dez anos, muda-se para Paris e, em seguida, tranfere-se para New York, onde vive dois anos, até fixar-se em Los Angeles. Enquanto estuda na Hollywood High School, Elliott trabalha num laboratório, revelando fotografias de astros do cinema. Em uma de suas viagens exploratórias por New York, tem o privilégio de conhecer Edward Steichen, Robert Capa e Roy Stryker, que admiram seu trabalho e passam a mentores do curioso discípulo. No entanto, é em 1949 que inicia sua carreira profissional em viagens pela Itália e França. Em 1951, recrutado pelo Exército dos EUA, consegue conciliar a carreira com o serviço militar, passando por New Jersey, Alemanha e França. Em 1953, dá baixa e recebe o convite de Robert Capa para integrar a Magnum Photos, um de seus fundadores. Quinze anos depois, passa a condição de presidente da prestigiada agência, cargo que voltaria a ocupar mais duas vezes. Atuando nos mais diversos campos da fotografia, desde a artística até a publicitária, Elliott encanta pelo humor e ironia com que flagra o cotidiano, ora denunciando o absurdo humano, ora revelando a beleza da vida. Ainda na ativa, continua fotografando para a imprensa e para agências de publicidade, sem falar de seus inúmeros livros e exposições realizadas nos maiores museus e galerias do mundo. Não bastasse, Elliott arisca-se em outras áreas, elaborando uma série de documentários, tais como Beauty knows no pain (A beleza desconhece a dor) e The glassmakers of Herat (Os sopradores de vidro de Herat) e produzindo uma série de especiais para a TV. Elliott gosta de crianças e cachorros.