28/02/2010

Elas também tocam jazz - Dorothy Ashby

Nosso amigo Sófocles, em sua peça Ajax, faz constar a seguinte gnoma: “Às mulheres convém o silêncio”. Não parece ter sido esse o caso de Dorothy Ashby, harpista de jazz nascida em Detroit, Michigan, no dia 06 de agosto de 1932, ano em que Di Cavalcanti é preso pela Revolução Constitucionalista. Sob influência do pai guitarrista, Ashby anima-se com as aulas de música na escola secundária, onde também estuda Donald Byrd. Terminados os estudos, passa a tocar piano e harpa em diversos pequenos grupos, algumas vezes como líder. No final da década de 1950, participa de uma série de gravações com músicos importantes, como Richard Davis, Frank Wess e Jimmy Cobb, além de gravar Jazz Harpist em 1957 para a Savoy, seu primeiro álbum como líder. Na década de 1960, apresenta seu próprio show, numa rádio de Detroit, além de apresentar-se com seu marido, o baterista John Ashby, na companhia de teatro Ashby Players of Detroit. Movendo-se para a Costa Oeste, Dorothy passa a trabalhar em orquestras de estúdio, além de atuar como sidewoman numa série de gravações de músicos do estilo West Coast. Com sua técnica refinada e ampla capacidade inventiva, Dorothy foi certamente uma das poucas pessoas a tocar harpa no estilo Bebop de forma convincente. Dorothy morreu em Santa Monica, California, no dia 13 de abril de 1986, mesmo ano em que a Desembargadora Thereza Grisólia Tang assume a Presidência do Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina. Para os amigos, fica a faixa Bohemia After Dark, retirada do lp In A Minor Groove, gravado para a New Jazz em 1958. Na versão em CD de mesmo título, temos a reunião de dois lp’s, gravados para a Prestige e para a New Jazz (In A Minor Groove e Hip Harp). Com Dorothy estão Frank Wess (f), Gene Wright (b) e Roy Haynes (d).

23/02/2010

Jazz na Caixa

CAIXA CULTURAL SÃO PAULO APRESENTA MOSTRA 'O JAZZ BRASIL' - Workshops e a diversidade de intérpretes marcam a segunda edição desse festival - Com patrocínio da Caixa Econômica Federal, a mostra 'O Jazz Brasil' é um festival de música brasileira que traz o panorama da música instrumental e cantada, baseada na improvisação e inventividade do jazz. Será uma oportunidade única para o público paulistano conhecer, no Grande Salão da Caixa Cultural São Paulo (Sé), os trabalhos solísticos de instrumentistas que muitas vezes são mais conhecidos como acompanhantes de cantores e cantoras importantes do país. Esse evento acontece entre os dias 23 de fevereiro e 06 de abril de 2010, às terças-feiras, em dois horários (19 e 20h). Por todo o mundo acontecem festivais de jazz similares, onde é possível celebrar o momento pelo qual o gênero pode ultrapassar fronteiras, incorporar sotaques e transformar-se em um novo fazer musical. Esse projeto surge em um momento de iniciativa e demonstração do panorama musical e instrumental que promove a união de novos talentos e referências musicais consolidadas na música brasileira. Será uma oportunidade em que o público entrará em contato com músicos de notória importância, e outros que demonstram trilhar caminhos sólidos, porém questionadores. Por tantas mudanças sociais deflagradas por ingredientes tecnológicos que parecem ser tão pragmáticos, propor ao ouvinte um formato musical, de características opostas ao descrito, com exercícios instantâneos de criação, arranjo, timbre e poesia, indubitavelmente significa um convite à reflexão.



Programação:



Praticatatum 23/02 às 19h

Marlui Miranda 23/02 às 20h

Martini Blues 09/03 às 19h

Vanessa Jackson 09/03 às 20h

Lauro Lellis 23/03 às 19h

Banda Savana 23/03 às 20h

Sóprosbatuqueiros 06/04 às 19h

Léo Gandelman 06/04 às 20h



Workshops:

- Nos dias 09/03 e 06/04, às 15h

- ministrante: percussionista / vibrafonista Arlen Ribeiro (curador da Mostra O Jazz Brasil)



Sobre os artistas:

Praticatatum - 23/02 - 19h

O nome Praticatatum é decorrente da tentativa de expressar silabicamente o som de alguns instrumentos de percussão, tais como bumbo, surdo, caixa e pratos. Pra- seria a tradução do som da apogiatura na caixa, Ti- um leve toque no prato, Ca- um toque simples na caixa e Tum- uma batida no bumbo ou surdo. A apresentação será composta por 35 crianças e adolescentes carentes que residem no distrito Raposo Tavares, região oeste de São Paulo. Mas o projeto conta com a participação de mais 160 estudantes que fazem parte deste projeto. O projeto tem como proposta desenvolver, por meio da prática musical, as habilidades artísticas e intelectuais dos jovens participantes. O conhecimento musical conduz ao pensamento crítico e proporciona a seus envolvidos o contato com uma nova realidade repleta de manifestações culturais. Atualmente, o grupo incorporou outros instrumentos, além dos de percussão: o teclado, a flauta-doce, o cavaquinho, violão, o Disc Jockey (D.J.), a guitarra, o contrabaixo, o trumpete, o cornet, a tuba, o bombardino, o saxofone, o trombone e o xilofone.

Marlui Miranda - 23/02 - 20h

Nascida em Fortaleza e criada em Brasília, mudou para o Rio de Janeiro na década de 70 e estudou violão clássico com professores renomados como Turíbio Santos, Paulo Bellinati e outros. Tocou com Egberto Gismonti, Milton Nascimento, Jards Macalé, e em 1979 lançou o disco "Olho d'Água". Compôs trilhas para cinema e teatro e atua também como compositora. Suas músicas já foram gravadas por Ney Matogrosso, Sá & Guarabyra e outros. A partir da década de 70 passou a pesquisar e estudar a música dos índios brasileiros, atividade a que se dedicou por diversos anos. Ganhou bolsa de uma instituição nova-iorquina e realizou um projeto de preservação e recriação da música indígena da Amazônia brasileira. Com esse trabalho atuou como consultora de música indígena em filmes e eventos, gravou discos para o Brasil e para o exterior e produziu espetáculos, como a missa indígena criada a partir de músicas de tribos e apresentada na Catedral da Sé, em São Paulo, em 1997, com a participação de orquestra jazz sinfônica e coral. Em 1998 participou do disco "O Sol de Oslo", com Gilberto Gil, Bugge Wesseltoft, Trilok Gurtu, Rodolfo Stroeter e Toninho Ferragutti. Em 2009, Marlui participou de turnê com o The Ripple Effect e o lendário baterista Jack Dejonnette. Atualmente, além de seu trabalho solo, Marlui desenvolve trabalhos com o grupo Anima.

Martini Blues - 09/03 - 19h

Músico profissional desde os 17 anos, Martini já ultrapassou a casa dos trinta na estrada. Percorreu o mesmo caminho que seus ídolos: New Orleans, Chicago, New York. Brasileiro, viveu como um autêntico músico local, tocando em bares e clubes para refinar a técnica da voz e de sua guitarra. Estamos falando de um legítimo blues-man e mestre no swing originário de New Orleans, tocando sem a utilizaçao da palheta. Sua musicalidade foi influenciada por Robert Johnson, Big Bill Broonzy, Count Basie e Joe Turner. Apreciaremos uma apresentação repleta de swing e sutileza que poucos conseguem expressar.

Vanessa Jackson - 09/03 - 20h

Garota de origem humilde e criada num conjunto habitacional paulista, nasceu numa família de músicos. Seu tio, o pianista de samba jazz Dom Salvador, despertou nela o interesse pela música e aos treze anos já atuava como cantora em bares e restaurantes de São Paulo. Desde então passou a ser backing-vocal dos grupos Art Popular, Soweto e Wilson Simoninha. Foi eleita com 18 milhões de votos a melhor cantora do programa FAMA da Rede Globo de Televisão e isto proporcionou a gravação de seu primeiro disco solo na cidade de Los Angeles (Estados Unidos). Em seguida excursionou pela Europa, obtendo muito prestígio. Já cantou ao lado de Jimmy Cliff, Youssou N`Dour, Araketu, Roberto Carlos, Dog Murras, Erica Nelumba, Shaggy, entre outros. Neste show para a Mostra 'O Jazz Brasil' promete muito swing, energia e sofisticação. Não percam essa que uma das melhores revelações no canto da música brasileira.

Lauro Lellis Quarteto - 23/03 - 19h

Natural de São Paulo, é um dos melhores bateristas do Brasil e, com uma intensa experiência nacional e internacional, traz consigo a tradição e o swing da bateria brasileira, além da expressão artística. É também reconhecido como excelente professor e trabalhou com diversos artistas da MPB: Martinha, Miriam Batucada, Tetê da Bahia, Amelinha, Elba Ramalho, Djalma Dias, Vicente Barreto, Jarbas Mariz, Zé Miguel Visnick, entre outros. Desde 1990 atua com o cantor e compositor "Tom Zé". Apresenta-se nos principais palcos do mundo: Heineken Concert, Rock in Rio III, Mostra de Música Brasileira-Zurich, Mostra de Música Latina "Queen Elizabeth Hall" ( Londres), Moma - (Museu de Arte Moderna) - (New York ) Summerstage - Central Park - (New York - U.S.A), Du Morrier Jazz Festival - (Vancouver, Edmonton, Toronto, Montreal, Sask (Canadá), Drum Rhythm Fest Amsterdã - (Holanda), Expo 98 - Lisboa - (Portugal), Ruhrfestspiele - Recklinghausen - (Alemanha), "Trama Show Case"- L'Europeen - Paris (França), Fest. "Jazz en Vienne" , 39º Festival de "Jazz de Montreux" - Montreux Fest. "Tropicália" - Barbican Center - Londres, Fest. Spoken Word - Gijón, Sons da Diversidade - Santiago de Compostela. Será uma experiência rítmica inesquecível!

Banda Savana - 23/03 - 20h

Com 21 anos de estrada pelo Brasil afora e no exterior, esta banda fundada em 1988 e sustentada por 19 competentes músicos, sob o comando do trompetista, arranjador e maestro José Roberto Branco, já traçava um caminho: fazer música instrumental para concertos, divulgando, genuinamente, nossa música brasileira, com temas conhecidos e de criação própria. Em pouco tempo, tornou-se reconhecida por brasileiros e estrangeiros, como uma super big band brasileira, graças à sua original apresentação e seus inusitados arranjos. BANDA SAVANA é considerada a "mãe" de muitas outras bandas instrumentais brasileiras, que vieram depois, pois nela, qual celeiro de estrelas, passaram grandes músicos, que despontam em outras bandas conhecidas em nosso país. Em sua trajetória, a BANDA SAVANA já se apresentou nos mais importantes centros culturais de São Paulo e do Brasil. Sua música é tocada nos países da Europa e Japão. Também realizou diversos programas de TV e de Rádio, com destaque para o projeto Memória Brasileira - Arranjadores, apresentando a música de Pixinguinha ao lado de Moacir Santos, Eumir Deodato, Duda do Recife e Cipó, em concertos gravados ao vivo pela RTC, Rádio Televisão Cultura. Para 2010, um novo CD, o terceiro, já está sendo planejado pelo maestro Branco, sempre em evidência, o melhor da nossa Música Brasileira.

Orquestra Sóprosbatuqueiros - 06/04 - 19h

A orquestra é liderada pelo percussionista Arlen Ribeiro, que toca um repertório de canções brasileiras e latinoamericanas. Participam deste projeto importantes músicos paulistas, com seus estilos variados fazendo a diferença! É um privilégio assistir a tantos músicos juntos com uma notória excelência musical. Os músicos desta orquestra individualmente participam de diversos projetos com artistas extremamente renomados nacionais e internacionais. O som desta moçada nos aproxima dos grandes compositores de modo muito peculiar, haja vista o nome desse grupo, bastante sugestivo, que decorre do modo como os arranjos são elaborados, muito percussivos. Esta é uma oportunidade de conferir uma música feita de forma coletiva, com muita energia, improvisos e criatividade.

Léo Gandelman - 06/04 - 20h

Saxofonista, produtor, compositor e arranjador, a música sempre esteve presente na vida de Leo Gandelman. Filho de uma pianista clássica e de um maestro, aos 15 anos já era solista da Orquestra Sinfônica Brasileira. Além da sólida formação clássica, estudou no Berklee College of Music, nos Estados Unidos, regressando ao Brasil em 1979 para dar início à carreira profissional. Seu trabalho também foi lançado com grande sucesso nos Estados Unidos, onde Leo desenvolveu uma carreira notável na última década, com direito a seis temporadas de casa cheia no Blue Note de Nova Iorque. Com o trânsito fluente entre o Jazz e o clássico, participou como solista - em 2001 - dos concertos da Orquestra Sinfônica Brasileira no Lincoln Center e no Central Park. Voltando ao Brasil, Gandelman também foi solista da Orquestra Sinfônica da Bahia e de Ribeirão Preto (SP), entre outras, interpretando a Fantasia de Villa Lobos para Sax Soprano e Orquestra e o Concertino para Sax Alto, de Radames Gnatalli. O mesmo repertório o levou à Sala São Paulo, onde se apresentou com a OSESP em 2003, sob a regência do maestro John Nashling. Em 2004, Leo Gandelman foi solista convidado da Orquestra Sinfônica de Brasília, no Concerto da Independência, com um repertório de músicas brasileiras para o presidente Lula e convidados do governo. E em 2006 gravou um CD/DVD com a Orquestra Sinfônica da Petrobrás, sob a regência do maestro Isaac Karabtchevsky, do Concertino de Radamés Ganattali, que foi lançado pela Rádio MEC. Leo já gravou dez discos ao longo de sua carreira solo, tendo vendido mais de 500.000 cópias. Nos últimos anos tem realizado workshops e participado de diversos festivais em todo o país. Com o CD "Radamés e o Sax", Leo Gandelman ganhou o prêmio TIM 2007 como "Melhor Disco Instrumental" e "Melhor Produtor". Atualmente, o artista se dedica ao lançamento do novo projeto, em CD e DVD, "Sabe Você", pela EMI Music Brasil, numa linda releitura de baladas brasileiras contando com participações especiais de grandes nomes da MPB como Caetano Veloso, Chico Buarque, Milton Nascimento, Luiz Melodia, Leny Andrade, Ney Matogrosso, Joel Nascimento e Leila Pinheiro.

SERVIÇO:

Entrada: franca (os ingressos poderão ser retirados na bilheteria com uma hora de antecedência)

Capacidade: 100 lugares

Recomendação etária: livre

Patrocínio: Caixa Econômica Federal

22/02/2010

Pandeiros

Davi, ao retornar de seu espetacular combate contra Golias, o gigante filisteu, foi recebido pelas mulheres de Israel ao som de flautas e pandeiros (a melhor tradução para toph segundo Roland de Candé, em sua História Universal da Música, São Paulo: Martins Fontes, 1994). Sim, amigos, pandeiros! E não sou eu quem o diz, mas Samuel, em 18, 6. Há outros resquícios de rufares de tambores na belíssima história dos hebreus, desde que Abraão parte de Ur em direção à Canaã. Exemplos? No livro da Gênese (31, 27) verificamos que na época de Jacó, os membros da tribo tinham o saudável hábito de percorrer um trecho da estrada com aquele que estava partindo, acompanhando-o ao som de pandeiros. Uma delícia. Em Êxodo (15), logo após a passagem pelo Mar Vermelho, a profetisa Míriam, irmã de Arão, canta e toca pandeiro. Em Juízes (11, 34), as moças recebem seus homens com danças, acompanhando-se com pandeiros. Com Samuel (2), último dos Juízes, verificamos um desalinhado rei Davi dançando com o povo ao som de pandeiros. Muito danado da vida, Deus, que não era surdo nem nada, mandou que Isaías (5, 12; 16, 11; 23, 15-16), Ezequiel (26, 13) e Jó (21, 12; 30; 31) colocassem um fim nessa escandalosa balbúrdia, calando os pandeiros, para a felicidade dos crentes e descrentes, entre estes eu, John Lester, um eterno postulator fidei et advocatus diaboli dos pandeiros e agogôs. Claro que sempre haverá os pecadores, muitos deles especializados em promover o rufar dos tambores, contribuindo assim para a ira divina.


 Não é outro o caso de Osie Johnson, baterista injustamente ausente da Virgin Encyclopedia of Jazz, 2004, revista e atualizada, e do The Rough Guide to Jazz, 3rd Edition, também de 2004. Nascido em Washington, no dia 11 de janeiro de 1923, morre jovem, no dia 10 de fevereiro de 1966, em New York. Aos 18 anos, após estudar teoria e harmonia na Armstrong High School, onde teve como colegas Frank Wess e Leo Parker, Osie abandona os estudos secundários para se dedicar profissionalmente à música. Após um breve período em Boston, com o grupo de Sabby Lewis, Osie presta o serviço militar, tocando na banda da marinha, onde conhece Clark Terry e Willie Smith. Em seguida, parte para Chicago, onde trabalha como baterista e arranjador freelance. Na década de 1950, integra a banda de Earl Hines, além de tocar no Minton’s Palyhouse com o quarteto de Tony Scott. Em 1954, após ser eleito o melhor baterista do ano pela revista Down Beat, Osie parte em turnê pela Europa, acompanhando o saxofonista Illinois Jacquet. Na volta, passa a trabalhar com o trio da pianista Dorothy Donegan, no clube Embers, com Dan Terry, no Birdland e com Lou Stein, no Basin Street. A partir de 1955, embora integrasse os grupos de Clark Terry, Bob Bookmeyer, Al Cohn ou Zoot Sims, Osie torna-se quase que exclusivamente músico de estúdio, trabalhando para a televisão e participando de centenas de sessões de gravação, ao lado de músicos como Joe Newman, Frank Wess, Johnny Hodges, Coleman Hawkins, Dinah Washington, Jimmy Raney, Wes Montgomery, Sonny Stitt e Ben Webster. Em sua curta carreira, Osie ainda demonstrou sua habilidade na confecção de arranjos, sem falar na utilização eventual da voz.


Para os amigos fica a faixa Flute to Boot, retirada do álbum Osie’s Oasis, lançado pelo selo Original Jazz Classics, onde estão reunidas duas sessões gravadas para o selo Period em New York, ambas em fevereiro de 1955, mesma época em que a banda de Count Basie passava pela cidade. Com Osie estão Frank Wess (f), Benny Powell (tb), Dick Katz (p) e Eddie Jones (b).

15/02/2010

Lenda viva: Mundell Lowe

Enquanto terminava meu arroz-de-cuxá, ouvia Lester lamentar a queda de visitas ao Jazzseen durante o carnaval. Olhando incrédulo pela janela, dizia: “É sempre assim, Mr. Serralho, não sei por que essa gente invariavelmente troca o jazz pela dança do lelê, pelo cacuriá, pela dança do caroço ou pelo temível bambaê de caixa”. Pensando comigo mesmo, eu, Tobias Serralho, não poderia censurá-los, uma vez que era eu o responsável pelo roncador, o maior dos três tambores que integram o tambor-de-crioula, dança típica do meu querido Maranhão. Os outros tambores são o socador (tambor médio, responsável pelo ritmo) e o crivador (tambor pequeno, responsável pelo repicado). Lester nunca poderia supor que eu, um admirador de Mundell Lowe, era também apaixonado pela punga, aquela umbigada que as dançarinas dão umas nas outras. Sim, a tradição do tambor-de-crioula vem dos descendentes africanos. É uma dança sensual, excitante, que apresenta variantes quanto ao ritmo e a forma de dançar, e que não tem um calendário fixo, embora seja praticada especialmente em louvor a São Benedito. É dançada exclusivamente por mulheres que fazem uma roda, em cujo centro evolui apenas uma delas. O momento alto da evolução é a tal "punga" ou umbigada. A punga é uma forma de convite para que outra dançarina assuma a evolução no centro da roda. Tentando reanimar Lester, lembrei-lhe que Mundell Lowe, o grande guitarrista, ainda está vivo e forte. Sim, respondeu Lester balançando a cabeça animadamente: “Uma lenda viva!” E prosseguiu: Lowe nasceu no dia 21 de abril de 1922, em Laurel, Mississipi. Começou a aprender a guitarra aos seis e, aos treze, foge de casa, encaminhando-se para os bares de New Orleans, onde ouve e aprende o estilo dos mestres.

Claro que seu pai, um violinista amador e pastor Batista, o encontra num daqueles terríveis clubes de jazz, levando-o imediatamente para casa. Não demorou muito para que fugisse novamente, tentando a carreira com a banda de Pee Wee King, mas é novamente resgatado ao lar pela diligência paterna. Em 1940, terminada a escola, Lowe ingressa imediatamente na banda de Jan Savitt, até que é convocado a prestar o serviço militar. Designado para uma base próxima a New Orleans, tem a sorte de conhecer o oficial responsável pelos entretenimentos da base, ninguém menos que John Hammond Jr., aquele que viria a ser um dos maiores produtores do jazz e que, terminada a guerra, muito o auxiliaria na carreira. Foi por intermédio de Hammond que Lowe conheceu Ray McKinley. Em seguida, trabalha com Benny Goodman, Wardell Gray, Fats Navarro e Red Norvo, entre outros grandes líderes. No início da década de 1950, Lowe passa a trabalhar em New York, atuando em clubes e em sessões de gravação ao lado de gente como Buck Clayton, Lester Young, Charlie Parker e Billie Holiday. Na mesma década, trabalha na orquestra da NBC e dirige para a televisão o show Today, atuando ainda na Brodway e participando de shows e gravações ao lado de músicos como Ben Webster, Ruby Braff e Georgie Auld.

Em 1965, Lowe estabelece-se em Los Angeles, onde atua no rádio e na televisão, tanto como intérprete quanto como compositor, além de dedicar o escasso tempo livre ao ensino. Sempre atuante, na década de 1980 forma seu próprio grupo, TransiWest, contando com músicos como Sam Most, Monty Budwig e Nick Ceroli, com o qual se apresenta no Monterey Jazz Festival de 1983. Embora reservadamente Lowe faça suas experimentações de vanguarda, é como um dos melhores guitarristas do cool jazz que seu nome ficará gravado no jazz, com seu discurso ágil, sedutor, repleto de swing e com seus inteligentes e divertidos solos, recheados de citações de Standards do jazz. Para os amigos, fica minha receita do arroz-de-cuxá e a faixa You Turned the Tables on Me, retirada do álbum A Grand Night for Swing, gravado em 1957 para a Riverside. Com Lowe estão Gene Quill (as), Billy Taylor (p), Les Grinage (b) e o grande Ed Thigpen (d), recentemente falecido. Curiosamente, Lester lembrou que este bom álbum recebe apenas duas de cinco estrelas da Virgin Encyclopedia of Jazz, 2004, editada por Collins Larkins. Já o All Music Guide é um pouco mais generoso, ofertando quatro de cinco estrelas para esse que, segundo Lester, merece três ou mais estrelas. Verificando se a quantidade de azedinha estava correta, Lester aprova tanto meu arroz-de-cuxá quanto os solos de Lowe. . Bom carnaval para todos!
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Ingredientes:

500 gr de camarões secos sem casca
1/2 xícara de farinha de mandioca
1 1/2 xícara de gergelim torrado
1 maço pequeno de vinagreira (azedinha) limpa, lavada e escorrida (não erre a mão, senão amarga)
2 colheres (sopa) de óleo
2 dentes de alho amassados
1 cebola média picada
2 tomates grandes sem pele e sementes, picados
500 gr de camarões frescos pequenos, limpos, lavados e escorridos
6 colheres (sopa) de cheiro verde (salsa, cebolinha e coentro) picados
3 xícaras de arroz limpo, lavado, escorrido e cozido.

Modo de preparo:

No processador ou liquidificador, coloque os camarões secos, farinha de mandioca, gergelim, bata até obter uma mistura homogênea e reserve. Em uma panela, coloque a vinagreira, regue com um pouco de água, tempere com sal a gosto, cozinhe até ficar macia, tire a verdura do fogo, escorra, esprema, pique bem e reserve.
Coloque óleo em uma panela, leve ao fogo alto, deixe aquecer, junte alho, cebola, doure levemente, acrescente tomates, refogue até ficarem macios, junte camarões frescos e cozinhe por alguns minutos, somente até ficarem rosados.
Adicione a mistura de camarão seco, a verdura picada, cubra com água e cozinhe, mexendo de vez em quando, até obter um molho com consistência de mingau ralo.
Tire do fogo, junte cheiro verde e misture.
Coloque o arroz cozido e bem quente em um prato de servir, cubra com o molho de camarão e leve imediatamente à mesa

Rendimento: 4 pessoas, 8 japoneses ou 16 nordestinos

Sugestão: Prepare o molho sem os camarões frescos e sirva o arroz-de-cuxá acompanhado de peixe frito