30/03/2010

Elas também tocam jazz - Marlis Walter

Nem só de excelentes chocolates e discretos bancos vive a Suíça. Não mesmo. Há também o turismo variado e organizado, capaz de nos mostrar todas as belezas naturais e culturais desse país cercado - e profundamente influenciado - pela França, pela Alemanha, pela Itália e pelo bizarro principado de Liechtenstein, decerto quatro excelentes vizinhos. Era verão quando minha equipe de inteligência acampou em Solothurn, cidade banhada pelo rio Aare, em busca da cueca do Inspetor-Geral dos Portos da Barra do Jucu que, dizem, estaria repleta de dólares. De fato, o Inspetor-Geral estava por lá, mais precisamente em Lausanne, mas infelizmente sua cueca milionária até hoje não foi encontrada, apesar dos esforços medonhos de diversos organismos de repressão ao contrabando de instrumentos de percussão. Mas não viemos aqui para revelar segredos de justiça. O que mais interessa nessa minha aventura foi que conheci a belíssima cidade de Solothurn, ricamente decorada com lindos jardins, construções antigas muito bem conservadas, ruelas limpas e floridas, bares simpáticos onde, para minha total surpresa, pode-se beber um bom vinho - sim, há vinho na Suiça, esse país ávido por vinho, que exporta apenas 1% de sua produção - e ouvir uma boa música. Alguns supõem que a tradição vinícola suíça precede os romanos, mas o fato é que somente a partir da Idade Média, por intermédio dos moges cistercienses, é que a viticultura se expandiu. As vinhas suíças são as plantadas em maior altitude na Europa, e a tradição de consumir preferencialmente o vinho branco mudou acentuadamente, sendo o vinho tinto o mais consumido hoje em dia. Grande parte da produção, cerca de 80%, vem da chamada Suisse romande, região sob influência francesa, sendo Valais a localidade mais produtiva. É nesse vale aberto nos Alpes pelo rio Rhône, de clima obviamente alpino, com bastante sol e verão seco, que pequenas propriedades familiares produzem vinhos bastante honestos, como é o caso do tinto Cayas, que tive o privilégio de conhecer. Produzido por Jean-René Germanier, na região oeste, trata-se de um Syrah impressionante, resultado de cuidadosos 10 dia de maceração, 20 dias de fermentação e 12 meses de repouso em barril, 50% novos. Já para o vinho branco, a uva mais difundida na suíça francófona é a Chasselas pálida e, a leste, na suíça germanófona, é a Müller-Thurgau. Para a produção de vinho tinto, a uva predominante é a Pinot Noir, conhecida por lá como Blauburgunder ou Clevener, com exceção para a região de Ticino, sob influência italiana, onde predomina a Merlot.

Enquanto isso, pensando tratar-se do efeito maravilhoso do Cayas, escuto quatro pianos tocando Love Is Here To Stay. Só posso estar ficando louco, pensei. Consultado o cordial garçon, ficamos sabendo, eu e Naura Telles, pintora capixaba que me acompanhava, tratar-se do Gershwin Piano Quartet, estranho combo criado por André Desponds em 1996 e dedicado à execução de música clássica, jazz, música para balé clássico e música da Broadway. Um quarteto de pianos... E grand pianos, executados por pianistas de estirpe, dentre eles nossa homenageada do mês, Marlis Walter, nascida em Solothurn, no dia 02 de fevereiro de 1976. Recebe suas primeiras aulas aos seis anos de idade, formando-se pelo Conservatório de Zurich. Mais tarde, aprimora os estudos com Brigitte Meyer, em Lausanne. Aos 22 anos, Marlis vence o 32nd Concours Féminine de Musique Internationale. Após integrar durante nove anos o Gershwin Piano Quartet, apresentando-se em importantes cidades, inclusive São Paulo, Marlis retorna à cidade natal, onde leciona e apresenta recitais. Especialista em Bach, Schubert e Mozart, Marlis reflete sem pudor suas fortes influências, tanto em suas composições quanto em seus improvisos. Para os amigos, deixamos uma taça de Cayas e a faixa recomendada por Naura Telles: The Man I Love.          
 

29/03/2010

Livro: Jazz ao seu alcance

Jazz ao alcance de todos? Sim, é isso mesmo, segundo Emerson Lopes: "O principal objetivo deste livro é desmitificar o jazz e mostrar que uma "pessoa normal" pode ter prazer em ouvir Miles Davis, Dizzy Gillespie, Duke Ellington e tantos outros mestres. O melhor exemplo para ilustrar isso é a minha própria experiência. Não sou músico, não fui influenciado pelo amigo, irmão, pai ou mãe, não tive a revelação mais importante da minha vida ao ouvir este ou aquele tema de jazz, não bebo uísque ou fumo charuto, nunca chorei ao ouvir um solo de piano, sax ou trompete e muito menos quero parecer "cool" ou culto porque escuto jazz. O meu caso pode ser exceção, mas servirá para responder algumas questões e quebrar alguns tabus, entre eles, que o jazz é uma música difícil de ouvir e que apenas pessoas mais velhas e com mais instrução podem apreciá-la". São as palavras do autor, Emerson Lopes. Os interssados podem comprar seu exemplar na Livraria Cultura ou Multifoco Editora. Conheça um pouco mais sobre Emerson através da entrevista a seguir, concedida ao blog Jazz no país do improviso, em 2007: Emerson Marques Lopes, jornalista há 10 anos, colaborador da revista Jazz + e autor do site Guia de Jazz. A sua ligação ao Jazz começou quando trabalhava na loja Mr. Music, no bairro dos Jardins, em São Paulo, e prolongou-se até à loja Musical Box, no bairro de Higienópolis, que está há 25 anos no mercado e já teve um dos melhores acervos de jazz e música clássica da cidade. Emerson está ligado a Portugal por laços familiares pois o seu pai e avôs maternos e paternos são portugueses.


JNPDI: Como está o panorama do Jazz no Brasil em termos de interesse do público, media, editoras? Tem aumentado ou diminuído?

Emerson Lopes: A música instrumental brasileira, o que podemos traduzir como jazz brasileiro, tem passado por um bom momento. É claro que ainda há grandes dificuldades, mas em comparação com a década passada já avançámos bastante. Hoje há mais espaço para os músicos se apresentarem ao vivo e um interesse maior do público. A Internet tem ajudado muito na divulgação de novos talentos e no acesso a instrumentistas que não têm espaço na grande mídia. Os veículos de comunicação ainda são um problema. Não há espaço na televisão aberta para instrumentistas. A excepção é a TV educativa do Estado de São Paulo, a TV Cultura, que tem em sua programação programas como o Ensaio (programa que está há 30 anos no ar) , Sr. Brasil (programa que abre espaço para a música regional do Brasil) e Vila Minha Viola (programa que destaca os grandes nomes da música sertaneja do Brasil). O mesmo problema acontece com a mídia impressa. Há uma publicação especializada sobre jazz chamada Jazz+, da qual sou colaborador, e algumas revistas segmentadas para instrumentistas como a Sax & Metais, Guitar Cover e Acústico.

JNPDI: Qual é actualmente o evento/festival mais importante realizado em torno do Jazz em São Paulo?


EL: Sem dúvida o festival mais interessante na actualidade é o Tudo É Jazz, que acontece anualmente [desde 2002] na cidade de Ouro Preto, no Estado de Minas Gerais. O festival sempre traz atracções internacionais e na maioria das vezes jazzistas de vanguarda dos Estados Unidos e da Europa. Este ano, nomes como Madeleine Peyroux, Wallace Roney, Joshua Redman e Ingrid Jensen foram confirmados para a 6º edição do festival, em Setembro.

JNPDI: Existe literatura sobre a história do Jazz no Brasil?


EL: A literatura é pouca em língua portuguesa. É claro que temos grandes livrarias que vendem os principais livros editados nos Estados Unidos, mas há o problema do idioma. Em português, podemos destacar o livro Jazz: Das Raízes ao Pós-Bop, de Augusto Pellegrini, e Jazz Panorama, de Jorge Guinle.

Este ano foi lançado no Brasil o livro Kind of Blue – A História da Obra-prima de Miles Davis, de, Ashley Kahn. A mídia escrita deu grande destaque para o lançamento e o livro conseguiu uma boa vendagem em comparação com outros livros do mercado editorial brasileiro. Foi uma boa surpresa para todos nós que tentamos divulgar o jazz por aqui.



JNPDI: Como classificaria os preços dos discos de Jazz no Brasil? As vendas são boas? Quanto pode vender um disco de jazz de sucesso?

EL: As vendas de discos em geral estão baixas. Há muita pirataria no Brasil. Para você entender bem aqui vai um número assustador. A cada dois CDs vendidos no Brasil, um é pirata, ou seja, a pirataria representa 50% do mercado de disco do Brasil. Aliado a isto, os downloads pela Internet são outro problema difícil para ser combatido. Mas é importante dizer que um disco original no Brasil custa muito caro, em média 14 euros, o que é elevado para um país onde o salário mínimo é de 150 euros. Hoje em dia, um disco que vende bem chega no máximo a 100 mil cópias, o que é pouco em comparação há 10 anos, quando os campeões de vendas chegavam entre 600 mil e 1 milhão de cópias. Não há muitos discos de jazz lançados pelas gravadoras brasileiras. A maior parte do acervo de jazz que encontramos nas lojas são importados dos Estados Unidos.

JNPDI: Quem for a São Paulo em viagem onde pode ir ouvir bom Jazz ao vivo?

EL: O principal local é o Bourbon Street, que fica no bairro de Moema. O preço é um pouco caro, mas normalmente há bons shows. Os grandes jazzistas norte-americanos quando vêm ao Brasil sempre tocam no Bourbon.

Outro bom local para ouvir música instrumental brasileira é o Tom Jazz, que fica no bairro de Higienópolis, e o All Of Jazz, que fica no bairro do Itaim. Todas as três casas têm site na internet e estão indicadas no meu site ao lado de outros endereços.


JNPDI: Que informação chega ao Brasil sobre os músicos de Jazz portugueses?


EL: Infelizmente nenhuma informação sobre o jazz ou até mesmo da música portuguesa. Nos últimos meses quem se apresentou em São Paulo foi a cantora Mariza. Foi um grande sucesso, mas a música portuguesa em geral não interessa aos brasileiros e muito menos aos grandes canais de TV ou jornais.

JNPDI: Que músicos da cena actual do Jazz mundial são mais populares no Brasil?

EL: O jazz é um ritmo pouco escutado e divulgado no Brasil. A maior parte do público acaba consumindo aquilo em que as grandes gravadoras investem dinheiro para divulgação ou aquilo que toca nas bandas sonoras das novelas. Conseguir emplacar uma música na principal novela da Rede Globo, a mais influente rede de TV do Brasil, é certeza de sucesso. Os jazzistas que mais vendem no Brasil são Norah Jones – que não é exactamente jazz – Diana Krall, Jamie Cullum, Jane Monheit, Madeleine Peyroux, John Pizzarelli, e alguns discos clássicos com Time Out, do Dave Brubeck e Kind Of Blue, do Miles Davis.

JNPDI: Quem são os opinion makers brasileiros na área do Jazz?

EL: Até onde sei, há apenas um opinion maker – aqui no Brasil chamamos de "Colunista" – com espaço cativo em um grande jornal. Seu nome é Luiz Orlando Carneiro, que escreve semanalmente uma coluna de jazz no Jornal do Brasil, que é mais vendido no Rio de Janeiro.

Há outros jornalistas que precisam ser citados como Carlos Calado, que escreve sobre jazz e música instrumental brasileira para a Folha de S. Paulo, o mais importante jornal do Brasil, editado em São Paulo, e Antônio Carlos Miguel, que escreve mais sobre música popular brasileira para o jornal O Globo, principal jornal do Rio de Janeiro.. 

26/03/2010

Lenda viva: Don Sebesky - Tributo a Bill Evans

Quase todos são capazes de suportar com certa facilidade a desgraça dos outros, mas pouquíssimas pessoas toleram sinceramente o sucesso alheio. Este é o caso de Don Sebesky com relação a Bill Evans. Verdadeira lenda viva, Sebesky trabalhou com músicos como Maynard Ferguson, Stan Kenton, Gerry Mulligan, Bill Russo, Wes Montgomery, Freddie Hubbard, Toots Thielemans, Kenny Burrell, Buddy Rich, Paul Desmond, Hubert Laws, Randy Weston, Milt Jackson, Sonny Stitt, Jim Hall, Charlie Mariano e Chet Baker, entre muitos outros. Nascido em New Jersey no dia 10 de dezembro de 1937, Sebesky começou seus estudos musicais aprendendo acordeão, passando em seguida para o piano. Durante a década de 1950, na Manhattan School of Music, estuda o trombone com Warren Covington, além de composição. Nesse mesmo período, toca e produz arranjos para uma série de bandas, entre elas as de Kay Winding e Claude Thornhill. Na década seguinte dedica-se aos arranjos, embora ainda tocasse esporadicamente. Sua associação com o produtor Creed Taylor resultou numa série de álbuns de sucesso, muitos deles com forte apelo popular, lançados pelas gravadoras Verve, A&M e CTI. Na década de 1970, Sebesky volta-se para a elaboração de trilhas sonoras para o cinema, sem nunca abandonar o jazz, seja tocando ou produzindo arranjos. É por essa época que começa a lecionar, o que o incentiva a escrever o livro The Contemporary Arranger (1975), além de experimentar algumas composições na seara da música clássica. Elegante e preciso, Sebesky é um dos mais respeitados e requisitados arranjadores do jazz, sabendo como poucos explorar as características técnicas dos instrumentos e as habilidades dos executantes. Não bastasse, em 1997 Sebesky elabora um magnífico tributo a Bill Evans - o melhor que já ouvi - cercando-se de músicos como Joe Lovano (ts), Tom Harrell (t), Larry Coryell (g), Marc Johnson (b) e Joe LaBarbera (d). Para os amigos fica a faixa Waltz For Debby, num elogio sincero à música de Bill.                



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19/03/2010

Oldies - Omer Simeon


Se você não for bonito aos vinte, forte aos trinta, esperto aos quarenta e rico aos cinquenta, não espere ser tudo isso aos sessenta anos. Foi exatamente assim que, intimado a dizer algumas palavras, John Lester iniciou seu discurso de inauguração da Associação da Terceira Idade de Vila Velha. Embora não possa ser considerado um cidadão politicamente correto, Lester sempre foi reconhecido por sua sinceridade e por seu alto grau de objetividade. Após o discurso, durante o animadíssimo baile, consultado por um ancião, Lester tranquilizou-o, lembrando que o homem é tão velho quanto se sente, já as mulheres são tão velhas quanto parecem. As risadas espalhavam-se pelo imenso salão enquanto um vacilante porém convicto Frederico Bravante encaminhava-se até sua vitrola portátil Philips vermelha, pondo a tocar Omer Simeon, um dos melhores clarinetistas do estilo New Orleans. Embora tenha nascido em New Orleans, no dia 21 de julho de 1902, Omer somente aprendeu o clarinete em Chicago, para onde sua família havia se transferido em 1914. Após algumas lições com Lorenzo Tio, Jr, Omer incia a carreira profissional ao lado do irmão, o violinista Al Simeon. Em 1923, ingressa na orquestra de Charlie Elgar, onde conhece Jelly Roll Morton, com quem gravaria importantes faixas do estilo New Orleans em 1926 e 1928, tornando-se seu clarinetista predileto. Em 1927, Omer passa a trabalhar com King Oliver. No ano seguinte, integra em Chicago a Vendome Orchestra, de Erskine Tate, até que, em 1931, passa a trabalhar para Earl Hines, com quem toca também o saxofone tenor. Após seis anos com o grande pianista, Omer associa-se a diversos líderes, como Horace Henderson, Walter Fuller, Coleman Hawkins, Jimmie Lunceford e Kid Ory. Em 1946, já morando em New York, Omer passa a integrar a New New Orleans Jazz Band, liderada por Wilbur de Paris, atividade que manteria até sua morte, no dia 15 de setembro de 1959. Embora tenha sido um dos mais hábeis clarinetistas nascidos em New Orleans, Omer gravou muito pouco como líder, o que faz do álbum Jazz Archives Nº 55 - Omer Simeon 1926/1929 um verdadeiro documento de seu talento como sideman. Acompanhando músicos como Kid Ory (tb), Jelly Roll Morton (p, arr), John Saint-Cyr (bjo), Barney Bigard (cl), King Oliver (c), Luis Russell (p), Paul Barbarin (d), Jabbo Smith (t, v) e Earl Hines (p), podemos constatar todo seu potencial. Incitado pelos convivas, John Lester lançou o slogan da Associação da Terceira Idade de Vila Velha: Entre enquanto há tempo! Para os amigos, deixo a interessante faixa Shreveport Stomp, gravada em 1928 com o trio de Jelly Roll Morton. Saúde!



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