Nem só de excelentes chocolates e discretos bancos vive a Suíça. Não mesmo. Há também o turismo variado e organizado, capaz de nos mostrar todas as belezas naturais e culturais desse país cercado - e profundamente influenciado - pela França, pela Alemanha, pela Itália e pelo bizarro principado de Liechtenstein, decerto quatro excelentes vizinhos. Era verão quando minha equipe de inteligência acampou em Solothurn, cidade banhada pelo rio Aare, em busca da cueca do Inspetor-Geral dos Portos da Barra do Jucu que, dizem, estaria repleta de dólares. De fato, o Inspetor-Geral estava por lá, mais precisamente em Lausanne, mas infelizmente sua cueca milionária até hoje não foi encontrada, apesar dos esforços medonhos de diversos organismos de repressão ao contrabando de instrumentos de percussão. Mas não viemos aqui para revelar segredos de justiça. O que mais interessa nessa minha aventura foi que conheci a belíssima cidade de Solothurn, ricamente decorada com lindos jardins, construções antigas muito bem conservadas, ruelas limpas e floridas, bares simpáticos onde, para minha total surpresa, pode-se beber um bom vinho - sim, há vinho na Suiça, esse país ávido por vinho, que exporta apenas 1% de sua produção - e ouvir uma boa música. Alguns supõem que a tradição vinícola suíça precede os romanos, mas o fato é que somente a partir da Idade Média, por intermédio dos moges cistercienses, é que a viticultura se expandiu. As vinhas suíças são as plantadas em maior altitude na Europa, e a tradição de consumir preferencialmente o vinho branco mudou acentuadamente, sendo o vinho tinto o mais consumido hoje em dia. Grande parte da produção, cerca de 80%, vem da chamada Suisse romande, região sob influência francesa, sendo Valais a localidade mais produtiva. É nesse vale aberto nos Alpes pelo rio Rhône, de clima obviamente alpino, com bastante sol e verão seco, que pequenas propriedades familiares produzem vinhos bastante honestos, como é o caso do tinto Cayas, que tive o privilégio de conhecer. Produzido por Jean-René Germanier, na região oeste, trata-se de um Syrah impressionante, resultado de cuidadosos 10 dia de maceração, 20 dias de fermentação e 12 meses de repouso em barril, 50% novos. Já para o vinho branco, a uva mais difundida na suíça francófona é a Chasselas pálida e, a leste, na suíça germanófona, é a Müller-Thurgau. Para a produção de vinho tinto, a uva predominante é a Pinot Noir, conhecida por lá como Blauburgunder ou Clevener, com exceção para a região de Ticino, sob influência italiana, onde predomina a Merlot.
Enquanto isso, pensando tratar-se do efeito maravilhoso do Cayas, escuto quatro pianos tocando Love Is Here To Stay. Só posso estar ficando louco, pensei. Consultado o cordial garçon, ficamos sabendo, eu e Naura Telles, pintora capixaba que me acompanhava, tratar-se do Gershwin Piano Quartet, estranho combo criado por André Desponds em 1996 e dedicado à execução de música clássica, jazz, música para balé clássico e música da Broadway. Um quarteto de pianos... E grand pianos, executados por pianistas de estirpe, dentre eles nossa homenageada do mês, Marlis Walter, nascida em Solothurn, no dia 02 de fevereiro de 1976. Recebe suas primeiras aulas aos seis anos de idade, formando-se pelo Conservatório de Zurich. Mais tarde, aprimora os estudos com Brigitte Meyer, em Lausanne. Aos 22 anos, Marlis vence o 32nd Concours Féminine de Musique Internationale. Após integrar durante nove anos o Gershwin Piano Quartet, apresentando-se em importantes cidades, inclusive São Paulo, Marlis retorna à cidade natal, onde leciona e apresenta recitais. Especialista em Bach, Schubert e Mozart, Marlis reflete sem pudor suas fortes influências, tanto em suas composições quanto em seus improvisos. Para os amigos, deixamos uma taça de Cayas e a faixa recomendada por Naura Telles: The Man I Love.


