Enquanto saboreava uma devassa loura na belíssima e deserta Praia do Sono, em Paraty, na expectativa vã de recuperar-me dos exageros natalinos, podia ouvir ao longe uma música que, até então, seria absolutamente inpensável naquelas paragens: Spring Is Here, composição de Ornette Coleman, mas sob interpretação digna e, em diversas passagens, virtuosa. Certamente não é Coleman quem pilota o saxofone, assim como parecia certo que estaria delirando sob o efeito desse azul estonteante de Van Gogh que recobre o céu e o mar de Paraty em fortes pinceladas. Ao abrir mais uma garrafa recoberta por aquela sensual nuvem de gelo, para que pudesse aplacar a sede provocada por camarões flambados na cachaça local e servidos no abacaxi, pude ouvir, dessa vez nitidamente, embora sem ainda identificar a origem, mais uma composição de Coleman, Complete Communion, interpretada pelo mesmo grupo. Olhando para todos os lados, em busca de alguma informação que indicasse a fonte de tão inusitada sonoridade, nada vi, exceto uma sonolenta escuna rasgando suavemente aquele delicioso mar sem ondas. Ela vinha em minha direção. Visivelmente alcoolizados, quatro pessoas saltam aleatoriamente da escuna, desferindo grotescas barrigadas sobre a água, enquanto alguns dedicados tripulantes lançavam coloridas bóias em suas direções, o que tornou viável sua sobrevivência até as branquíssimas areias da, até então, tranquila praia.
Entre eles, identifiquei imediatamente Aldo Romano, o aclamado baterista de jazz que, embora tenha nascido na Itália, mudou-se ainda criança para a França, onde o conheci numa de suas inúmeras apresentações no le Chat Qui Pêche, famoso clube de jazz francês. Emocionados, lembramos dos bons tempos em podíamos trocar o prosecco pelo champagne. Foi nesse período que Aldo tocou com os mestres do Hard Bop em Paris, como Jackie McLean, Bud Powell, Lucky Thompson, J.J. Johnson e Woody Shaw. No entanto, sua mente aberta e sempre disposta a explorar novos desafios possibilitou experiências com o Free Jazz, desenvolvendo trabalhos com gente como Don Cherry, Gato Barbieri, Frank Wright, Michel Portal e Steve Lacy. Na década de 1970, seduzido pela eletricidade, integra o conjunto Riverbop, ao lado do contrabaixista Jean-François Jenny-Clark, do saxofonista Charlie Mariano e do guitarrista Philip Catherine. Aos 37 anos, lança seu primeiro álbum como líder, Il Piacere, pelo selo OWL. Em 1980, apresenta ao mundo o pianista Michel Petrucciani e mantém suas raízes italianas no trabalho que desenvolve em seu Italian Quartet, ao lado do trompetista Paolo Fresu, também italiano. Sempre desbravador, consegue conciliar sua sólida formação tradicional, baseada no Bebop, com música latina, óperas e, quem diria, a música de Coleman, para a qual já prestou diversos tributos. Excelente introdução à música daquele que é considerado erroneamente o pai do Free Jazz, o álbum Complete Communion conta com a magnífica participação da saxofonista Géraldine Laurent, do trompetista Fabrizio Bosso e do contrabaixista Henri Texier, os outros três sobreviventes que pularam da escuna. Para o amigo Olney, que fez aniversário dia 19 de dezembro, deixo a faixa explosiva Music Man . Agora preciso seguir para Visconde de Mauá, onde enfrentarei o deslizamento de barreiras e passarei o Ano Novo ao lado do cava Brut Nature Reserva, que recebeu 90 pontos de Robert Parker, e pode ser encontrado na Casa Bonita por honestos R$95,00. Não é à toa que o cava é o espumante mais vendido do mundo, superando o champagne em vendas desde 2001. Um equivalente francês com os mesmos 90 pontos de Robert Parker como, digamos, o champagne Gosset Grand Reserve, sai por R$290,00. É claro que sempre poderemos nos socorrer em produções nacionais, afinal os espumantes brasileiros estão cada vez melhores. Veja o caso do espumante Do Lugar Espumante Brut Charmat, ganhador da Grande Medalha de Ouro do VI Concurso do Espumante Brasileiro, promovido pela ABE em 2009, e que pode ser encontrado nas boas lojas por simpáticos R$30,00. Grande abraço a todos e até 2011.



