28/12/2010

Ornette Coleman na praia do sono

Enquanto saboreava uma devassa loura na belíssima e deserta Praia do Sono, em Paraty, na expectativa vã de recuperar-me dos exageros natalinos, podia ouvir ao longe uma música que, até então, seria absolutamente inpensável naquelas paragens: Spring Is Here, composição de Ornette Coleman, mas sob interpretação digna e, em diversas passagens, virtuosa. Certamente não é Coleman quem pilota o saxofone, assim como parecia certo que estaria delirando sob o efeito desse azul estonteante de Van Gogh que recobre o céu e o mar  de Paraty em fortes pinceladas. Ao abrir mais uma garrafa recoberta por aquela sensual  nuvem de gelo, para que pudesse aplacar a sede provocada por camarões flambados na cachaça local e servidos no abacaxi, pude ouvir, dessa vez nitidamente, embora sem ainda identificar a origem, mais uma composição de Coleman, Complete Communion, interpretada pelo mesmo grupo. Olhando para todos os lados, em busca de alguma informação que indicasse a fonte de tão inusitada sonoridade, nada vi, exceto uma sonolenta escuna rasgando suavemente aquele delicioso mar sem ondas. Ela vinha em minha direção. Visivelmente alcoolizados, quatro pessoas saltam aleatoriamente da escuna, desferindo grotescas barrigadas sobre a água, enquanto alguns dedicados tripulantes lançavam coloridas bóias em suas direções, o que tornou viável sua sobrevivência até as branquíssimas areias da, até então, tranquila praia.

Entre eles, identifiquei imediatamente Aldo Romano, o aclamado baterista de jazz que, embora tenha nascido na Itália,  mudou-se ainda criança para a França, onde o conheci numa de suas inúmeras apresentações no le Chat Qui Pêche, famoso clube de jazz francês. Emocionados, lembramos dos bons tempos em podíamos trocar o prosecco pelo champagne. Foi nesse período que Aldo tocou com os mestres do Hard Bop em Paris, como Jackie McLean, Bud Powell, Lucky Thompson, J.J. Johnson e Woody Shaw. No entanto, sua mente aberta e sempre disposta a explorar novos desafios possibilitou experiências com o Free Jazz, desenvolvendo trabalhos com gente como Don Cherry, Gato Barbieri, Frank Wright, Michel Portal e Steve Lacy. Na década de 1970, seduzido pela eletricidade, integra o conjunto Riverbop, ao lado do contrabaixista Jean-François Jenny-Clark, do saxofonista Charlie Mariano e do guitarrista Philip Catherine. Aos 37 anos, lança seu primeiro álbum como líder, Il Piacere, pelo selo OWL. Em 1980, apresenta ao mundo o pianista Michel Petrucciani e mantém suas raízes italianas no trabalho que desenvolve em seu Italian Quartet, ao lado do trompetista Paolo Fresu, também italiano. Sempre desbravador, consegue conciliar sua sólida formação tradicional, baseada no Bebop, com música latina, óperas e, quem diria, a música de Coleman, para a qual já prestou diversos tributos. Excelente introdução à música daquele que é considerado erroneamente o pai do Free Jazz, o álbum Complete Communion conta com a magnífica participação da saxofonista Géraldine Laurent, do trompetista Fabrizio Bosso e do contrabaixista Henri Texier, os outros três sobreviventes que pularam da escuna. Para o amigo Olney, que fez aniversário dia 19 de dezembro, deixo a faixa explosiva Music Man . Agora preciso seguir para Visconde de Mauá, onde enfrentarei o deslizamento de barreiras e passarei o Ano Novo ao lado do cava  Brut Nature Reserva, que recebeu 90 pontos de Robert Parker, e pode ser encontrado na Casa Bonita por honestos R$95,00. Não é à toa que o cava é o espumante mais vendido do mundo, superando o champagne em vendas desde 2001. Um equivalente francês com os mesmos 90 pontos de Robert Parker como, digamos, o champagne Gosset Grand Reserve, sai por R$290,00. É claro que sempre poderemos nos socorrer em produções nacionais, afinal os espumantes brasileiros estão cada vez melhores. Veja o caso do  espumante Do Lugar Espumante Brut Charmat, ganhador da Grande Medalha de Ouro do  VI Concurso do Espumante Brasileiro, promovido pela ABE em 2009, e que pode ser encontrado nas boas lojas por simpáticos R$30,00. Grande abraço a todos e até 2011.

24/12/2010



Lá no início, nos seus primeiros quatro séculos de existência, a Igreja Católica preferia comemorar a morte ao invés do nascimento. Afinal, morte e culpa eram coisas sérias e lucrativas naqueles bons tempos, onde a venda de indulgências (perdão católico) garantia o vinho de boa safra aos bons padres. Com o tempo a coisa foi virando bagunça e o preço absurdo do garrafão de tinto obrigou a Igreja, muito a contragosto, a comemorar também a vida e o nascimento das pessoas. Ok, eu sei que foi uma grande derrota para os sombrios e taciturnos monges que, esfregando as mãos umas nas outras e sorrindo nervosamente, dedicavam toda a vida estudando e reverenciando a morte e a culpa. Mas a pressão dos pagãos e dos camelôs da Uruguaiana tornou inevitável a aceitação do Natal pela Igreja. O Natal nada mais é que uma ficção histórica rendosa, dado que ninguém sabe de fato quando Cristo nasceu. Alguns dizem que teria sido no dia 6 de janeiro. Mas não há nada nas escrituras sobre isso e o mais provável é mesmo que Jesus não tenha nascido em dezembro. Mas quem se importa? O dia 25 de dezembro foi escolhido apenas porque era a data de uma grande festa pagã (Natalis Invicti) que comemorava o nascimento do Sol. Era uma festa alegre e cheia de comes e bebes. Sendo assim, Constantino e o alto escalão da Igreja viram na data idólatra uma ótima oportunidade para se angariar devotos e, por conseqüência, vender indulgências e coxinhas de galinha. Foi nessa época que surgiu a famosa promoção de Natal: pague 3 e leve 2. Com aquela coisa de presentearem-se uns aos outros, nem mesmo os judeus reclamaram muito da festa, exceto os mais ortodoxos (quando eram obrigados a comprar algum presente sem a certeza de receber outro). Não seria mau se a Igreja Católica adotasse o jazz em suas celebrações natalinas. Talvez até rolasse a eleição de um Papa negro para animar o Vaticano. Aí, então, a festa estaria completa. Eu pagaria satisfeito para ouvir Miles Davis tocando dingo bel, dingo bel, acabou o papel...

10/12/2010

Nota triste: Morre James Moody

O saxofonista americano James Moody, um dos pais do bebop, o estilo do jazz desenvolvido nos anos 40, morreu na quinta-feira aos 85 anos de câncer de pâncreas em San Diego, informou nesta sexta-feira sua mulher, Linda Moody.

"Meu doce, querido e precioso marido morreu hoje [quinta-feira] após dez meses lutando contra o câncer de pâncreas."  "Meu grande desejo era garantir que Moody transcendesse pacífica e calmamente, e nos encontrávamos na residência para doentes de San Diego desde segunda-feira", explicou.

Moody era considerado uma instituição do jazz por ter sido um dos participantes da criação do bebop, um estilo musical do jazz que se desenvolveu nos anos 40 por iniciativa de Dizzy Gillespie, Charlie Parker, Max Roach, Bud Powell e Thelonious Monk. Como muitos músicos da época, o intérprete de "Moody's Mood for Love" começou a dar seus primeiros passos na arte em uma banda da Força Aérea e, após a guerra, juntou-se a Dizzy Gillespie, seu grande modelo.

O funeral do saxofonista, nascido no dia 26 março de 1925 em Savannah, na Geórgia, será uma cerimônia pública no dia 18 de dezembro no Greenwood Memorial Park de San Diego. (Fonte: New York Times)

Jazzseen recomenda: Emoções Baratas

O público se acomoda nas mesas e sofás do Estúdio Emme (zona oeste de São Paulo) ao som de um contrabaixo, postado no centro do palco. Logo percebe que um garçom nada convencional circula entre as mesas, com olhar fixo e sério. O espetáculo já começou.  No musical "Emoções Baratas", que estreou em 1988 e está de volta a SP até 18 de dezembro, o diretor José Possi Neto recria o clima dos cabarés do início do século 20 ao som do jazz de Duke Ellington.  Em cena estão duas cantoras, a banda Heartbreakers e nove bailarinos, que são "possuídos" pelas canções e protagonizam danças acrobáticas e sedutoras. Os números não se restringem ao palco, e o público fica sem saber para onde olhar --se para a banda ou para os atores, que se espalham pelo espaço e interagem com a plateia.

Abaixo, veja um bate-papo com José Possi Neto:

Guia Folha - Um dos objetivos do musical é conquistar novos "apaixonados" por jazz?

José Possi Neto - Todo espetáculo cria ou alimenta um novo público. "Emoções", creio eu, não só apresenta Duke Ellington para uma plateia jovem ou leiga em matéria de jazz, como também traz novos adeptos para o mundo fascinante da dança, uma dança que está longe de ser mera ilustração das músicas, mas que consegue construir personagens e relacioná-los através de uma dramaturgia dos sentidos ao invés das palavras.

Guia - Qual o significado do nome da peça?

Possi Neto - "Emoções Baratas" é o título do primeiro LP da divina Janis Joplin, um disco que fez minha geração ter arrepios de êxtase pela espinha dorsal e todo o corpo diante daquela voz rouca e dilacerada. Quis, com nosso espetáculo, provocar "emoções" através da simples beleza de um gesto, da energia e sensualidade de corpos sarados e suados, do lamento de um trompete, da beleza de uma voz. Quis um maremoto de emoções, portanto, baratas.

Guia - Para você, o jazz é um dos estilos mais sensuais?

Possi Neto - O jazz, como o samba, o bolero e a salsa são ritmos que nascem de origem africana, dos ritmos e dos ritos africanos. São sons sempre materializados nos corpos através da dança, portanto, não cerebrais, mas totalmente emocionais e principalmente sensuais.

Com: Bibba Chuqui, Ana Luisa Seelaender, Estela Cassilatti e outros
Duração: 75 minutos
Classificação: Não recomendado para menores de 12 anos
Texto e direção: José Possi Neto

Estúdio Emme
Av. Pedroso de Morais, 1.036 - Pinheiros - Oeste. Telefone: 2626-5835.
Aceita os cartões MasterCard, Visa. Ingresso: R$ 60 (mesa) e R$ 80 (camarote).
Quando
sábado: 21h.
sexta: 21h30.

Até 18/12. Tem ar condicionado. Vende ingresso pelo telefone. Tem música ao vivo. Proibido fumar. Não tem local para comer. 250 lugares. Valet (R$ 20).

Fonte: Folha de São Paulo