08/03/2011
27/02/2011
Jazz criollo - Enrique Mono Villegas
A grande dúvida: o espetacular corte Cuvelier Los Andes 2006 deveria ter sido desarorolhado ou não? Seus 70% de malbec, com 10% de cabernet sauvignon, 10% de merlot e 10% de syrah estariam ou não prontos para beber? Paula Nadler objetou que, embora seus taninos já estivessem devidamente aparados e contidos, o corpulento corte argentino certamente envelheceria bem por mais um ou dois anos. Eu, após sorver até a última gota do escuro e sedoso néctar, percebi que não havia qualquer sedimento na garrafa de rótulo simples e discreto. Fiz notar apenas que pagamos R$70,00 num vinho que é vendido por R$198,00 no Brasil, trazido pela Expand. Se erramos, saberemos apenas ano que vem, quando será aberta a garrafa de mesma safra que Paula contrabandeou para o Brasil em seu estojo de maquiagem. Perambulando pela cidade, passamos a conversar sobre outra grande paixão argentina: livros. Desconhecemos bibliografia disponível mais completa sobre o jazz argentino que El jazz criollo y otras yerbas, escrito por Walter Thiers e publicado pela Corregidor. Embora haja um bom número de livrarias em Buenos Aires, não é um livro fácil de ser encontrado. Da mesma editora, mas impossível de ser localizado, exceto, talvez, em sebos, é Memorias del jazz argentino: décadas del '40 e del '50, escrito por Ricardo Risetti. E, na era do mp3, formidável a quantidade e qualidade de lojas de cd's na capital porteña. Uma das melhores que conheci foi a Miles, localizada na Rua Honduras, em Palermo, um bairro agradável, muito arborizado, repleto de lojas, cafés, sorveterias e livrarias interessantes, como a Prometeo. E foi na Miles que encontrei uma fartura surpreendente de álbuns de jazz argentino. De pouco em pouco, fui distraidamente selecionando aqueles que considerei mais próximos a meu estilo predileto, o Hard Bop. Quando dei por mim, carregava 40 cd's nas mãos sedentas, ocasião em que fui abordado por gentil vendedora, oferecendo-me ajuda e perguntando se gostaria de uma cesta. Percebendo a situação absurda em que me encontrava, dirigi-me rapidamente ao caixa, aguardando a profunda punhalada em minha carteira. Mas que boa surpresa verificar que, em média, cada cd custava em torno de 25 pesos, algo equivalente aos nossos R$10,00, coisa inacreditável para quem está acostumado aos preços aviltantes do cd no Brasil. Feliz da vida, corri para o hotel, onde certamente poderia ouvir alguns álbuns antes de terminada a viagem.
Comecei pelo álbum Enrique Mono Villegas Vol. 2, lançado pelo selo Melopea, um dos melhores selos de jazz da argentina, reunindo em seu extenso catálago muitos dos principais músicos do estilo. Villegas nasceu em Buenos Aires, no dia 3 de agosto de 1913. Órfão cedo, foi criado pelas tias, que sempre lhe deram muita liberdade para fazer o que quisesse. Aos sete anos, já tocava Mozart corretamente. Aos nove, conhece o jazz através do professor Alberto Williams, que lhe permitia tocar todos os estilos, desde o tango até o stride. Em 1932, estréia o Concerto para piano e orquestra, de Ravel, no Teatro Odeón, em Buenos Aires. Por essa época, dedica-se mais seriamente ao jazz, tendo por norte músicos como Art Tatum, Fats Waller, Duke Ellington e Louis Armstrong, influências que mais tarde seriam complementadas por músicos do Bebop. Também em 1932, estréia Rhapsody in Blue, de Gershwin. Na década de 1940, Villegas compõe (Jazzeta, primer movimiento) e lidera uma série de formações, como o Santa Anita Sextet (com o trompetista Juan Salazar, o clarinetista Panchito Cao e o saxofonista tenor Chino Ibarra) e o combo Los Punteros (com o saxofonista Bebe Eguía).
Em 1955, segue para New York, onde gravaria com Milt Hinton e Cozy Cole, para a Columbia. Apaixonado pelo cinema, permanece nesta cidade, assistindo a todos os filmes que pode, além de tocar em diversos bares de jazz, onde trava contato com músicos como Cole Porter, Count Basie, Nat King Cole e Coleman Hawkins. Em 1957, em Cleveland, teve o privilégio de ouvir Duke Ellington, uma de suas primeiras influências. Na década de 1970, já de volta à Argentina, apresenta-se para um público de 20.000 pessoas, interpretando novamente a Rhapsody in Blue, no clube Vélez Sarsfield. Em 1975, apresenta-se no Teatro Cólon, tocando jazz. Sua estranha figura encurvada, com olhos penetrantes e mãos ariscas, foram os responsáveis por uma série de apelidos, tais como quasímodo, duende e mono (macaco). Apaixonado também pelas mulheres e pela noite, Villegas foi um dos artistas mais importantes de sua geração, daí suas amizades com gente como o escritor Jorge Luis Borges, o pintor Xul Solar e Astor Piazzola, que lhe dedicou o tema Villeguita. Embora ricamente influenciado pela música folclórica, seu estilo demonstra um domínio perfeito da inteligência delicada de um Bill Evans e da genialidade rude de um Thelonious Monk. Para os amigos, deixo a faixa Blue Orchids , retirada do álbum acima citado.
Em 1955, segue para New York, onde gravaria com Milt Hinton e Cozy Cole, para a Columbia. Apaixonado pelo cinema, permanece nesta cidade, assistindo a todos os filmes que pode, além de tocar em diversos bares de jazz, onde trava contato com músicos como Cole Porter, Count Basie, Nat King Cole e Coleman Hawkins. Em 1957, em Cleveland, teve o privilégio de ouvir Duke Ellington, uma de suas primeiras influências. Na década de 1970, já de volta à Argentina, apresenta-se para um público de 20.000 pessoas, interpretando novamente a Rhapsody in Blue, no clube Vélez Sarsfield. Em 1975, apresenta-se no Teatro Cólon, tocando jazz. Sua estranha figura encurvada, com olhos penetrantes e mãos ariscas, foram os responsáveis por uma série de apelidos, tais como quasímodo, duende e mono (macaco). Apaixonado também pelas mulheres e pela noite, Villegas foi um dos artistas mais importantes de sua geração, daí suas amizades com gente como o escritor Jorge Luis Borges, o pintor Xul Solar e Astor Piazzola, que lhe dedicou o tema Villeguita. Embora ricamente influenciado pela música folclórica, seu estilo demonstra um domínio perfeito da inteligência delicada de um Bill Evans e da genialidade rude de um Thelonious Monk. Para os amigos, deixo a faixa Blue Orchids , retirada do álbum acima citado.
16/02/2011
Mestres: Billy Mitchell
A fumacinha que você vê flutuando na capa do álbum This Is Billy Mitchell seria responsável pelo câncer de pulmão que levaria à morte o magnífico saxofonista, em 2001. Mas, antes disso, Billy viveria 74 anos, 52 deles dedicados ao jazz. Nascido em Kansas City, estuda em Detroit, cidade onde iniciaria a carreira , em 1948, tocando na banda de Nat Towles. No mesmo ano, segue para New York, integrando a banda de Lucky Millinder. Em 1949, substitui Gene Ammons na banda de Woody Herman e realiza sua primeira gravação, ao lado de Milt Buckner. No início da década de 1950, forma seu próprio grupo, atuando em Detroit. Entre 1956 e 1957, Billy integraria a banda de Dizzy Gillespie e, entre 1957 e 1961, substitui Eddie 'Lockjaw' Davis na banda de Count Basie, onde voltaria a trabalhar entre 1966 e 1967. Durante 1961 e 1964, lidera com Al Grey um sexteto que contaria com grandes músicos, entre eles o vibrafonista Bobby Hutcherson. Ainda na década de 1960, Billy atua como diretor musical de Stevie Wonder. Na década seguinte, dedica-se ao ensino, ministrando uma série de seminários e workshops, além de atuar como freelance. Proprietário de uma sonoridade encorpada e um fraseado macio e linear, Billy trafegava tranquilo pelos estilos Swing e Bebop, tornando-se um dos mais completos saxofonistas do Hard Bop. Para os amigos deixo a faixa You Turned The Tables On Me e uma breve recomendação discográfica. Com Billy estão Bobby Hutcherson (vib), Billy Wallace (p), Herman Wright (b) e Otis Finch (d). O álbum é o da fumacinha, gravado em 1962 para a Verve.
Colossus of Detroit - 1978 - Xanadu 158 - Infelizmente Billy Mitchell gravou pouco como líder. Contudo, este álbum demonstra com clareza sua maestria. Com Barry Jones (p), Sam Jones (b) e Walter Bolden (d).
Colossus of Detroit - 1978 - Xanadu 158 - Infelizmente Billy Mitchell gravou pouco como líder. Contudo, este álbum demonstra com clareza sua maestria. Com Barry Jones (p), Sam Jones (b) e Walter Bolden (d).
06/02/2011
Elas também tocam jazz - Beegie Adair
Eu nunca poderia imaginar tamanha irresponsabilidade: postar no Jazzseen um tributo a Frank Sinatra. Afinal, sempre me coloquei frontalmente contra os vocalistas, sobremodo àqueles que, podendo cantar jazz, optaram pelo exclusivamente comercial. Sim, eu sei que poderia ser pior quando penso na ópera ou na música baiana. Contudo, considerando que Beegie Adair presta uma homenagem repleta de um delicioso swing, a coisa toda se justifica bem. Nascida no Kentucky, começa os estudos de piano aos cinco anos de idade. Durante o colegial, passa a tocar em bandas de jazz. Mudando-se para Nashville, atua como musicista de estúdio, produz jingles e participa do The Johnny Cash Show de 1969 até 1971. Na década de 1980, forma seu quarteto com o saxofonista Denis Solee, mais tarde ampliado para o sexteto denominado Be-Bop Co-Op. Embora more na terra da música country, Beegie (pronuncia-se bigi) tem mantido viva a cena jazzística local. Além de ter gravado 24 álbuns e atuado com músicos como Peggy Lee, Nat Adderley, Bill Watrous, Lew Tabackin, Terry Clarke e Urbie Green, Beegie apresenta um programa de rádio, recebendo convidados como Joe Williams, Marian McPartland, Benny Golson e Helen Merrill. Para os amigos deixo a faixa Call Me Irresponsable , retirada do álbum Swingn' With Sinatra, gravado em 2010 para o selo Green Hill.
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