31/03/2011
22/03/2011
Confesso que ouvi, agora em Vitória - ES
20/03/2011
Jazz criollo - Creole Jazz Band
Segundo o jornal britânico The Guardian, a segunda livraria mais bonita do mundo encontra-se em Buenos Aires: é a El Ateneo Grand Splendid, localizada na Avenida Santa Fé, 1860, no bairro de Recoleta. A mais bonita do mundo, segundo o mesmo periódico, seria a livraria holandesa Boekhandel Selexyz Dominicanen, instalada em uma antiga igreja, na cidade de Mastrich. Em terceiro fica a livraria portuguesa Lello, na cidade do Porto. O Brasil do PT, obviamente, não consta da importante lista. A livraria Ateneo foi instalada no antigo Teatro Grand Splendid, local onde se apresentaram alguns dos mais importantes artistas argentinos, entre eles Carlos Gardel. São 2.000 metros quadrados recobertos com belíssima cúpula, pintada pelo italiano Nazareno Orlandi. Construído em 1919, o teatro encontra-se em perfeitas condições de conservação, muito embora suas poltronas tenham sido substituídas por fartas estantes, os camarotes sejam utilizados como agradáveis ambientes de leitura e o palco transformado em movimentado bar e café. A livraria recebe 3.000 visitantes por dia, do que resulta numa venda anual de mais de 700.000 livros, entre os quais gostaria de destacar Esquema de la música afroargentina, que reúne textos do estudioso Néstor Ortiz Oderigo, reunidos pelo editor Norberto Pablo Cirio. Néstor foi um importante colaborador de diversos jornais e revistas. Seus primeiros artigos apareceram na revista Fonos, em 1928. Em seguida, escreve para La Nación, El Mundo, Associated Negro Press (Chicago), Oportunity (New York), Playback (New Orleans), Jazz Magazine (Inglaterra), Hot Club Magazine (Bruxelas), Música Jazz (Milão), Pensamento da América (Rio de Janeiro), Folha da Manhã (São Paulo), Ritmo (Madri), Quilombo (Rio de Janeiro), Rhythme (Holanda) e Australian Jazz Quarterly, entre muitas outras publicações. Em 1933, Néstor apresenta o primeiro programa de rádio argentino sobre jazz. Conforme ele mesmo afirma na página 325: "Creemos que el panorama que acabamos de trazar es suficiente para convencer al más remiso de la presencia africana en el ámbito de nuestro folclore y certificar, una vez más, el hecho de que los negros han contribuido a nuestra cultura en medida mucho más amplia de lo que los 'interesados' hispanistas, sin aportar pruebas claras y concluyentes, nos han querido hacer creer". Conclusão surpreendente quando verificamos que, durante os dez dias que passei vagando pelas ruas, cafés, livrarias, lojas e casas noturnas de Buenos Aires, não encontrei um único negro. Afinal, perguntava-me incrédulo, por onde andam os negros desta cidade? Um taxista disse a mim, sem conseguir esconder um certo sorriso de satisfação no rosto, que eles somente podiam ser encontrados nos bairros mais distantes e pobres da capital, sendo quase impossível localizá-los em regiões nobres e estabelecimentos sofisticados. Portanto, disse ele, eu poderia ficar tranquilo...
Talvez o taxista nem soubesse que a música que tocava em seu rádio fosse jazz, estilo que, assim como o tango, tem suas raízes na herança cultural negra. Sim, ele não percebia, mas o negro estava presente em toda a Buenos Aires, inclusive ali, dentro do táxi, através de sua música. A faixa que ouvíamos era Apex Blues, do genial clarinetista Jimmie Noone, executada pela sexagenária banda argentina Creole Jazz Band, formada em 1957. Desde 1979 a banda mantém essencialmente a mesma formação: César Borsano (cl, arr), Guillermo Calliero (t), Edgrado 'Pucky' D'Alessandro (tb), Orlando Merli (ts), Juan Pablo Hournou (p), Alberto García (bj), Guillermo Delgado (b) - substituído no álbum Creole Touch por Adrián Minuchin (tba) -, Oscar Linero (d) e Eleonora Eubel (v). Embora haja outras bandas argentinas que tocam dixieland e swing, a Creole Jazz Band parece ser a única que possui vocalista, realiza arranjos próprios e apresenta composições originais. Em 1984, quando foi contratada pelo tradicional Café Tortoni, a banda tornou-se nacionalmente conhecida. Para os amigos deixo a tal faixa que ouvi no táxi, mais o clássico After You've Gone, ambas retiradas do álbum Creole Touch, gravado em 1994.
12/03/2011
Homecooking & Dixieland
Embora eu já tenha ido três vezes a New Orleans, somente em uma das ocasiões visitei Baton Rouge, a agradável capital do úmido estado da Louisiana. Meus dois principais objetivos eram visitar algumas belas e antigas plantations existentes em torno da cidade, verdadeiros marcos históricos do modelo escravista adotado nos primeiros séculos de ocupação do estado. E, depois, conhecer a Southern University, uma universidade fundada em 1890 e voltada essencialmente para alunos negros - sim, por lá eles se organizam bem. Entre uma visita e outra, a fome bateu e procurei algum local simples, onde pudesse comer uma rápida comida caseira. Por sorte, fui ao lugar certo: Christina's. Após lambuzar-me com um espetacular feijão vermelho com paio, pão de milho e galinha frita, fiz questão de agradecer pessoalmente a Debra Ely, responsável pela excelente cozinha da casa. Nascida em New Orleans, a sorridente Debra trabalha há mais de 17 anos para o Christina's, localizado na Rua St. Charles. Foi também durante o almoço que ouvi o álbum Joe Darensbourg and His Dixie Flyers, gravado ao vivo em 1957 no The Lark Club, em Los Angeles. Joe nasceu em Baton Rouge, em 1906. Aos 14 anos já tocava clarinete em bandas locais de New Orleans, ao lado de músicos como Buddy Petit, Fate Marable e Jelly Roll Morton. Aos 19 anos, já em Los Angeles, Joe passa a integrar a banda Jeffersonians, liderada pelo trompetista Mutt Carey. Na década de 1930, Joe passa a tocar também o saxofone soprano, atuando em diversas bandas de Seattle, Vancouver e da Costa Oeste. Nesse período, tem como aluno o saxofonista Dick Wilson que mais tarde integraria a banda de Andy Kirk. Com o revival do jazz tradicional ocorrido na década de 1940, baseado no estilo New Orleans, Joe ajuda a estabelecer os fundamentos do estilo Dixieland, atuando com instrumentistas como Johnny Wittwer, Kid Ory, Joe Liggins e Wingy Manone até que, em 1956, forma sua própria banda, a Dixie Flyers. Além de presença constante nos shows promovidos na Disneylandia, onde atua com o conjunto Young Men of New Orleans, Joe trabalha durante 3 anos com Louis Armstrong, participando da gravação do álbum Hello Dolly! Embora acometido de problemas cardíacos, Joe trabalhou até sua morte, ocorrida em 1985. Um dos clarinetistas mais formidáveis dos estilos New Orleans e Dixieland, comparável a instrumentistas como Albert Nicholas e Barney Bigard, Joe dominou como poucos a técnica do 'slap-tongue', tornada clássica em sua versão de Yellow Dog Blues, gravado em 1958.
Para os amigos, fica a faixa Blues For Al, retirada do álbum a baixo, com Mike Delay (t), Warren Smith (tb), Harvey Brooks (p), Al Morgan (b) e George Vanns (d).
09/03/2011
Samba também é jazz - Lula Galvão
Foi grande a confusão quando Chico Brahma chegou ao Clube das Terças afirmando que, finalmente, conseguira destilar uma excepcional tequila em seu quintal. Sim, com a garrafa em punho, ele passaria a narrar toda sua grande aventura a um público boquiaberto e atento. Embora de origem polonesa, mais afeita à destilação da vodka a partir de batatas ou beterrabas, Chico ouvira falar que mais à direita, na Rússia, as melhores vodkas eram produzidas a partir do centeio, com eventuais adições de trigo, aveia ou cevada. "Mas o importante é a qualidade da água", advertiu Fernando Achiamé, lembrando que a presença de metais pesados é que causam dor de cabeça. Considerando que o quintal de Chico fica localizado na Praia do Canto, em Vitória, o terroir desaconselhava a plantação de grãos, daí Chico também ter desistido da produção do uísque a partir da cevada ou do milho, voltando todos os seus esforços para a produção de grappa e conhaque, dois famosos destilados obtidos a partir do vinho. Conforme John Lester havia advertido, a excessiva umidade gerada pelo microclima capixaba, aliada ao fato da pequena exposição solar em seu quintal, resultou no aparecimento de fungos e pragas nefastas, dando fim a suas três belas videiras de touriga nacional, cepa clássica de Portugal. Inconformado, aquele homem de bochechas rosadas e pés ligeiros passa um breve período tentando produzir sidra a partir das belas maçãs e pêras colhidas em seu florido quintal. Seguindo as orientações da família Bockmann, de Campos do Jordão, Chico passa a destilar um excelente calvado (brandy) a partir da sidra, utilizando a técnica que John Lester havia introduzido em New Orleans, onde produzira excelentes applejacks. Infelizmente, contando com apenas uma macieira e uma pereira, a produção anual não chegava a duas doses, fato que o levou a abandonar o projeto.
Rejeitando mais uma vez os conselhos de John Lester, Chico põe na cabeça que obterá gim e steinheger, bi-destilados obtidos a partir do mosto de bagas de zimbro, arbusto que ele mantinha com orgulho em seu diversificado e bem cuidado quintal. Esquecendo-se que a planta é típica do clima temperado do hemisfério norte, observa novo fracasso. Antes que desistisse de produzir seu próprio destilado, Chico aceita o conselho de Lester e passa a trabalhar com mosto de abacaxi, nossa nativa e dulcíssima bromeliácea. A variedade escolhida foi o abacaxi pérola, que além do belo fruto, fornece belas flores. Ainda seguindo a orientação do velho amigo, Chico planta alguns pés de agave que, além de ornamentarem lindamente qualquer espaço, ainda poderiam nos fornecer alguma tequila caso tudo desse certo. E deu! Ao contrário do abacaxi, o agave azul demonstrou grande rendimento em álcool no preparo do mosto fermentado, auxiliando consideravelmente o processo de destilação. Embora detenha alguma semelhança com o abacaxi, a piña retirada do agave azul (foto abaixo) é venenosa e pode alcançar extraordinários 70kg. Após cozidas em panela de pressão, as piñas eram moídas com o motor do velho Gol 1981, que Chico preservou com muito carinho. Após a fermentação, era só esperar que as altas temperaturas do alambique fornecessem o néctar mexicano.
Emocionado, Chico confessou que muito de sua inspiração era devida ao falecido Lula Galvão, o grande e bigodudo crítico de gastronomia e vinho, responsável por mais de trinta anos de deliciosas matérias publicadas no Estadão. Antes que Chico pudesse terminar sua homenagem ao grande jornalista, João Luiz Mazzi intervém, dizendo que Lula Galvão nunca escreveu em jornal e está vivinho da silva! O nome do expert em comes e bebes é Saul Galvão, este sim falecido em 2009. Já Lula Galvão é um dos melhores guitarristas brasileiros em atividade. Aproveitando o clima carnavalesco, Pedro Nunes trouxe à baila a impressionate retirada de cabeças dos integrantes da Unidos da Tijuca: como eles retiravam as cabeças dos pescoços daquele jeito? Lester respondeu que, infelizmente, ninguém retirou a cabeça de Roberto Carlos, o que certamente o silenciaria para todo o sempre. Sem que mais ninguém à mesa prestasse atenção à tequila, passamos a ouvir o excelente álbum Bossa da Minha Terra, gravado para a Biscoito Fino. Nascido em Brasília, além de guitarrista, Lula é também excelente violonista e arranjador, daí ter trabalhado com artistas como Guinga, Rosa Passos. e Cláudio Roditi. Improvisador nato, começa a tocar violão aos quinze anos, mas somente aos 18 dedica-se seriamente ao instrumento.
Como demonstra ao longo do álbum, Lula domina o idioma do Bebop com fluência pouco usual entre instrumentistas brasileiros. Há também, embora discreta, a nítida influência da música clássica, estilo a que vem se dedicando nos últimos tempos. Amante da exuberante e rica música popular brasileira, Lula reconhece a influência de gente como Victor Assis Brasil, Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Hélio Delmiro e Hector Costita em sua formação inicial. Irmão do baterista Zequinha Galvão e do contrabaixista e compositor Carlos Galvão, Lula integra o conjunto Pagode Jazz Sardinhas Club, com o qual já lançou dois álbuns. Para os amigos, deixo duas faixas, na companhia de Idriss Boudrioua (saxofone), Fernando Moraes (piano), Sérgio Barrozo (contrabaixo), Rafael Barata (bateria), além das participações especiais de Rosa Passos, Cláudio Roditi, Raul de Souza e Mauricio Einhorn.
Rejeitando mais uma vez os conselhos de John Lester, Chico põe na cabeça que obterá gim e steinheger, bi-destilados obtidos a partir do mosto de bagas de zimbro, arbusto que ele mantinha com orgulho em seu diversificado e bem cuidado quintal. Esquecendo-se que a planta é típica do clima temperado do hemisfério norte, observa novo fracasso. Antes que desistisse de produzir seu próprio destilado, Chico aceita o conselho de Lester e passa a trabalhar com mosto de abacaxi, nossa nativa e dulcíssima bromeliácea. A variedade escolhida foi o abacaxi pérola, que além do belo fruto, fornece belas flores. Ainda seguindo a orientação do velho amigo, Chico planta alguns pés de agave que, além de ornamentarem lindamente qualquer espaço, ainda poderiam nos fornecer alguma tequila caso tudo desse certo. E deu! Ao contrário do abacaxi, o agave azul demonstrou grande rendimento em álcool no preparo do mosto fermentado, auxiliando consideravelmente o processo de destilação. Embora detenha alguma semelhança com o abacaxi, a piña retirada do agave azul (foto abaixo) é venenosa e pode alcançar extraordinários 70kg. Após cozidas em panela de pressão, as piñas eram moídas com o motor do velho Gol 1981, que Chico preservou com muito carinho. Após a fermentação, era só esperar que as altas temperaturas do alambique fornecessem o néctar mexicano.
Emocionado, Chico confessou que muito de sua inspiração era devida ao falecido Lula Galvão, o grande e bigodudo crítico de gastronomia e vinho, responsável por mais de trinta anos de deliciosas matérias publicadas no Estadão. Antes que Chico pudesse terminar sua homenagem ao grande jornalista, João Luiz Mazzi intervém, dizendo que Lula Galvão nunca escreveu em jornal e está vivinho da silva! O nome do expert em comes e bebes é Saul Galvão, este sim falecido em 2009. Já Lula Galvão é um dos melhores guitarristas brasileiros em atividade. Aproveitando o clima carnavalesco, Pedro Nunes trouxe à baila a impressionate retirada de cabeças dos integrantes da Unidos da Tijuca: como eles retiravam as cabeças dos pescoços daquele jeito? Lester respondeu que, infelizmente, ninguém retirou a cabeça de Roberto Carlos, o que certamente o silenciaria para todo o sempre. Sem que mais ninguém à mesa prestasse atenção à tequila, passamos a ouvir o excelente álbum Bossa da Minha Terra, gravado para a Biscoito Fino. Nascido em Brasília, além de guitarrista, Lula é também excelente violonista e arranjador, daí ter trabalhado com artistas como Guinga, Rosa Passos. e Cláudio Roditi. Improvisador nato, começa a tocar violão aos quinze anos, mas somente aos 18 dedica-se seriamente ao instrumento.
Como demonstra ao longo do álbum, Lula domina o idioma do Bebop com fluência pouco usual entre instrumentistas brasileiros. Há também, embora discreta, a nítida influência da música clássica, estilo a que vem se dedicando nos últimos tempos. Amante da exuberante e rica música popular brasileira, Lula reconhece a influência de gente como Victor Assis Brasil, Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Hélio Delmiro e Hector Costita em sua formação inicial. Irmão do baterista Zequinha Galvão e do contrabaixista e compositor Carlos Galvão, Lula integra o conjunto Pagode Jazz Sardinhas Club, com o qual já lançou dois álbuns. Para os amigos, deixo duas faixas, na companhia de Idriss Boudrioua (saxofone), Fernando Moraes (piano), Sérgio Barrozo (contrabaixo), Rafael Barata (bateria), além das participações especiais de Rosa Passos, Cláudio Roditi, Raul de Souza e Mauricio Einhorn.
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