11/04/2011

O primeiro livro brasileiro sobre jazz e a multiplicação da rapadura

Tudo corria bem durante nossa última reunião do Clube das Terças até que Dr. Frutuoso, o mais novo sócio do clube, retira de sua maleta preta um estetoscópio, dois bisturis, um volume com as poesias completas de Cruz e Souza e um imenso envelope de radiografia de tórax contendo dois pequenos objetos não imediatamente identificados, e pergunta: qual o primeiro livro de jazz escrito por um brasileiro? Como quem não quer nada, Reinaldo finge estar distraído e segue em direção ao lavabo. Rogério, fitando o novo sócio por cima dos óculos, batuca calmamente sobre a mesa, dando a impressão de que a pergunta de Dr. Frutuoso é, no mínimo, elementar. Chico, o maior especialista em sebos do Espírito Santo, termina de beber seu terceiro litro de água mineral gasosa e coça a cabeça, como que empurrando a memória, e diz: já estive com esse livro na mão! Era uma capa preta, com letra vermelha, eu acho. João Luiz, sem conseguir esconder um certo ar de satisfação sob a sobrancelha impecável, afirma: o primeiro livro brasileiro de jazz é Jazz Panorama, escrito por Jorge Guinle e publicado em 1953 pela editora Agir! Sorrindo sempre, Dr. Frutuoso limita-se a perguntar "tem certeza disto?". Nesse instante, aproximam-se John Lester e Tobias Serralho, confabulando animadamente sobre o sucesso de vendas do livro Confesso que ouvi, lançado por Érico Cordeiro, em Vitória. Quando souberam do enigma proposto por Dr. Frutuoso, entreolharam-se, como que concedendo um ao outro a oportunidade de esclarecer a questão.

Foi então que Tobias nos contou da existência do livro Pequena História do Jazz, escrito por Sérgio Porto e publicado também em 1953, pela Imprensa Nacional. Assim é que, disse o amigo maranhense, nunca saberemos ao certo qual o primeiro livro brasileiro sobre jazz. Lester, então, intervém, lembrando que, na introdução de Jazz Panorama, Vinicius de Morais afirma que o trabalho de Guinle é pioneiro no Brasil. Sem afastar a invencível credibilidade do poetinha, Tobias faz registrar em ata que, na introdução da Pequena História do Jazz, Sérgio Porto afirma que "este pequeno trabalho é o primeiro que se faz no Brasil".

Nesse instante, aproxima-se André, o mais enciclopédico dos sócios. Informado em detalhes sobre o acirrado embate, confirma que, salvo novas provas, ninguém sabe ao certo qual dos dois livros foi publicado primeiro. Mas ressalta a semelhança forte entre os dois trabalhos: ambos traçam um breve histórico sobre as origens do jazz, as primeiras influências das work songs, dos spirituals e do blues. Os dois falam sobre os três primeiros grandes estilos do jazz: o New Orleans, o Chicago e o Swing. E, também nos dois casos, terminam suas anotações falando sobre os estilos Bebop e Dixieland (chamado de Renascença). Poderíamos, continuou André, afirmar mesmo uma certa identidade estrutural: ambos apresentam algumas fotografias - sendo que, nos dois livros, aparecem fotos de Jelly Roll Morton e Louis Armstrong; ambos apresentam informações bibliográficas e recomendações discográficas.

John Lester, então, observa que Sérgio Porto confessa explicitamente em sua obra ter utilizado fartamente as informações constantes do livro Estética del Jazz, escrito pelo musicólogo argentino Néstor Ortiz Oderigo, um ferrenho tradicionalista que via o Bebop como verdadeira aberração musical. A influência de Oderigo sobre Sérgio Porto é flagrante, sobretudo nas passagens em que o brasileiro analisa o Bebop. Leiamos alguns trechos:

"Os solistas do be bop, nas suas execuções, sacrificavam, não só o swing - aqui empregado na sua verdadeira significação - como também a melodia de seus coros, que são tocados a toda velocidade, num afã de alinhar notas e diminuir as quintas, pelo puro prazer do virtuosismo. Com esse processo, sem dúvida mais original do que melódico, resulta profundamente monótona a execução".

"Não só a melodia e o swing são sacrificados na escola que abordamos. A improvisação e o ritmo também, longe estão de se enquadrarem dentro das características do jazz".

Segundo Sérgio Porto, os solos individuais do Bebop não correspondem "aos verdadeiros anseios do jazz, que requer a improvisação coletiva". Afirma ainda que o ritmo sofreu profunda deturpação; que a guitarra tornou-se dispensável; que a bateria, "ao invés de ocupar-se da pulsação - verdadeiro mister da bateria e da qual depende o eixo do solista - torna-se independente, não havendo nenhuma relação entre o baterista e o músico solista". "O apoio daquele à improvisação deste, resume-se numa série infindável de breaks que, diga-se de passagem, são perfeitamente dispensáveis". Atingindo os limites da ortodoxia, Sérgio diz:

"Creio que não seria demais afirmar que o instrumento de percussão, tocado como está sendo no bop e tocado como deve ser no jazz, torna-se o mais eloqüente exemplo de que uma música não tem nada a ver com a outra" e

"Ao invés de encontrar novos caminhos para a música de jazz, conforme fora a intensão (sic) no início do movimento, o be bop criou uma outra expressão musical, completamente diferente do jazz, em suas características básicas".

Coitado do Parker, resmungou Fernando Achiamé boquiaberto com as esmagadoras críticas de Sérgio ao Bebop. Ato contínuo, João Luiz II coloca a faixa Just Friends , gravada por Charlie Parker em 1951, no Birdland, com Walter Bishop Jr. (p) Teddy Kotick (b), Roy Haynes (d) e orquestra, perguntando: será que Sérgio ouviu esse álbum?

Enquanto as luzes do shopping se apagavam, Lester completou suas impressões sobre os dois livros, advogando a favor de Guinle. Filho de 2 bilhões de dólares, o maior playboy do Brasil esteve lá em New York quando o Bebop nasceu, ao lado de gente como Charlie Parker e Dizzy Gillespie. Sua visão do todo - vale lembrar que assistiu ao vivo também gente como Louis Armstrong, Duke Ellington, Billie Holiday - é mais ampla e mais vívida, sem deixar-se impregnar pelos preconceitos que o novo costuma engendrar nas mentes menos flexíveis. E, tanto em quantidade quanto em qualidade de informações, Guinle apresenta o livro mais completo.

Finalmente, Dr. Frutuoso abre o tal imenso envelope, retirando de lá um raro exemplar da Pequena História do Jazz e uma saborosa barra de rapadura, repartida fraternalmente conosco.    

                 

09/04/2011

Pensar

Os leitores do jornal A GAZETA (Espírito Santo) contam com um novo caderno dedicado à cultura. O Pensar apresenta textos, artigos, críticas, análises e ensaios assinados por quem entende do assunto: especialistas, professores universitários e profissionais da área cultural.


O suplemento aborda temas ligados a várias áreas do saber como Música, Literatura, Artes Plásticas, Filosofia, História, Teatro, Psicanálise, entre outras. Poesias, crônicas e resenhas também estão no cardápio do caderno.
O Pensar é editado pelo jornalista José Roberto Santos Neves, ex-editor do Caderno 2, e o projeto gráfico está nas mãos de Dirceu Sarcinelli. Com 12 páginas e formato tabloide, o suplemento é mensal, sempre em um sábado. "A iniciativa é inédita no jornalismo local. A ideia é trazer a colaboração de especialistas para produzir textos mais aprofundados, mas que também sejam leves, didáticos e agradáveis de serem lidos", explica o editor José Roberto. 

"O caderno se encaixa no projeto de evolução constante do jornal, que teve início no ano passado com o lançamento do Gazeta.com, e com os ajustes gráfico e editorial ocorridos em novembro. E vem mais mudança por aí", afirma o diretor de Conteúdo dos jornais A GAZETA e Notícia Agora, do Portal Gazeta Online e da Rádio CBN, Antônio Carlos Leite.



O que você vai encontrar no caderno Pensar



Ensaio.

O primeiro número traz uma análise do estudioso de música Fernando Duarte sobre a longevidade do Tropicalismo. 



Falando de música.

José Roberto Santos Neves escreve sobre lançamentos e reedições; na primeira edição, a bossa nova de Oscar Castro-Neves.



Entrelinhas.

Caê Guimarães apresenta lançamentos literários; na estreia, resenha de "Ribamar", novo livro de José Castello.



Literatura.

O professor universitário Wilberth Salgueiro faz a resenha do livro "Relíquias Culinárias".



Crônicas.

Nayara Lima e Milena Paixão expõem olhares sobre o dia a dia em linguagem sensível.



Poesias.

Gabriel Menotti estreia espaço dedicado à poesia com poemas do seu livro "Yú".



Artes visuais.

O designer, cenógrafo e diretor de videoclipes Gringo Cardia reflete sobre seu processo de criação.



Teatro.

O ator e diretor Luiz Tadeu Teixeira aponta carências e sugere caminhos para a produção teatral.



Jazz.

O especialista John Lester avalia disco gravado pelo pianista Oscar Peterson na Suíça, em 1953.



Memória.

Rogério Coimbra conta os bastidores da vinda da cantora Sarah Vaughan a Vitória, em 1977.

02/04/2011

JAM - Jazz Appreciation Month – 10th Anniversary



Women and Jazz: Transforming a Nation
O Jazz Appreciation Month 2011 – the 10th Anniversary – examinará o legado das mulheres ao jazz, verificando sua importância para o estabelecimento de novas relações sociais, de raça e de gênero mais justas e equilibradas nos EUA. O grupo The International Sweethearts of Rhythm, fundado em 1937 na Piney Woods School, Mississippi, será o foco do encontro JAM, promovido pelo National Museum of American History para homenagear esta formidável banda formada exclusivamente por mulheres.
O National Museum of American History (NMAH) elaborou para sua JAM 2011 um poster da legendária pianista Mary Lou Williams, em comemoração ao 10º aniversário do evento. Pianista inovadora, compositora e arranjadora, Mary trabalhou com músicos como Andy Kirk e Duke Ellington, e foi incluída na série Jazz: The Smithsonian Anthology.
Para maiores informações sobre o JAM (Jazz Appreciation Month) visite Smithsonian’s Jazz Appreciation Month Website .

01/04/2011

Jazz na Ilha de Toque Toque


Festival reúne o melhor do jazz!

A praia de Toque Toque Grande no litoral norte de São Paulo, será a rota do jazz contemporâneo nos charmosos finais de semana de inverno em junho de 2011. Todos os sábados do mês num clima de mar e montanha, alguns dos instrumentistas e intérpretes da atualidade vão apresentar uma trilha sonora da melhor qualidade aos hóspedes e convidados do
Ilha de Toque Toque Boutique Hotel.
Participam do Festival com curadoria de Glauber Amaral, produtor musical da Barraventoartes, empresa realizadora do Festival em conjunto com o hotel: Fabiano de Castro, Elizabeth Woolley, Lanny Gordin e Yaniel Matos.
Os artistas apresentarão uma mistura de estilos e tendências musicais, formando um painel do que há de mais importante no cenário do jazz contemporâneo no Brasil.
Um espetáculo exclusivo para poucos privilegiados VIPS, que poderão acompanhar a musicalidade desses artistas num ambiente aconchegante junto à natureza.
Confira e garanta sua participação: clique aqui para conhecer mais detalhes dos pacotes montados especialmente para o Festival e fazer sua reserva. Corra, pois são poucas unidades.