31/05/2011

Lenda Viva - Randy Weston

Como se poderia prever que um excelente pianista do Hard Bop transformar-se-ia num dos mais importantes compositores da Fusion? Nascido no dia 6 de abril de 1926 em New York, Randy Weston cresceu no Brooklyn, bairro extremamente musical: primo de Wynton Kelly, vizinho de Eddie Heywood, é trabalhando num restaurante que conhece alguns grandes músicos do Bebop, como Max Roach, Duke Jordan, Cecil Payne e Thelonious Monk, uma de suas maiores influências. Decidido a tornar-se músico, Randy inicia tocando em bandas de Rhythm & Blues, absorvendo os novos rumos do jazz naquela década de 1940, dominada pelo Bebop. Ao mesmo tempo, dedica-se a estudar os ritmos africanos e caribenhos, elementos que seriam fundamentais em suas futuras composições. Após algum tempo trabalhando com Eddie 'Cleanhead' Vinson e Kenny Dorham, Randy torna-se um dos primeiros músicos a assinar com a Riverside, gravando seu álbum de estréia em 1954. Nos anos seguintes, gravaria uma série de excelentes álbuns dentro do contexto Hard Bop, até que, em 1961, grava com sua big band Uhuru Afrika, álbum repleto de influências africanas, com letras de Langston Hughes e arranjos de Melba Liston. Entre os solistas, vale destacar Freddie Hubbard, Yusef Lateef, Max Roach e Babatunde Olotunji. No mesmo ano, inicia suas viagens à África, visitando a Nigéria.

Definitivamente respeitado como compositor, seu estilo ao piano torna-se cada vez mais percussivo, eclético e abrangente, contando com colorações que vão desde o boogie-woogie até o bebop, passando pelo blues e pelos complexos ritmos africanos. Após trabalhar algum tempo com Booker Ervin e Ed Blackwell, ainda na década de 1960, Randy cria seu próprio selo, o Bakton, de vida curta diante do panorama musical da época. Decide então passear por quatorze países da África, estabelecendo-se em Marrocos, em 1968, retornando aos EUA apenas em 1973.

Retomando seus trabalhos com big band, Randy grava Blue Moses, Tanjah e The Spirits of Our Ancestors, este último com arranjos de Melba Liston e solistas memoráveis, como Dizzy Gillespie, Dewey Redman e Pharoah Sanders. Para os amigos, ficam algumas faixas retiradas de seu álbum With These Hands, gravado para a Riverside em 1956. Com Randy estão Cecil Payne (bs), Ahmed Abdul-Malik (b) e Wilbert Hogan (d). Hard Bop de alto nível feito por uma lenda viva da Fusion.

30/05/2011

QUINO








O jazz morreu - Chris Lightcap

Nascido em 1971, na cidade de Latrobe, Pennsylvania, Chris Lightcap começou a estudar o piano aos oito anos, passando para o violino aos nove e para o contrabaixo elétrico aos quatorze, agora como autodidata. Embora tocasse música clássica com seu violino, Chris atuava também no contexto do rock e do jazz com seu contrabaixo e, ainda na adolescência, passa a tocar o contrabaixo acústico. Ingressando no Williams College, recebe aulas de Cameron Brown e Milt Hinton, dois consagrados contrabaixistas de jazz. Durante um semestre, Chris estuda na Wesleyan University, onde recebe lições do baterista Edward Blackwell. Após a graduação, parte para New York, onde se estabelece e inicia uma série de colaborações com músicos locais, atuando como sideman, compositor, músico de estúdio e líder de seu próprio quarteto, o Bigmouth, cujo álbum de estréia, Lay-Up, de 2000, foi muito bem recebido pela crítica. Entre os músicos que já contaram com seus serviços, vale destacar Marc Ribot, Regina Carter, Craig Taborn, Mark Turner, John Scofield, Dave Liebman, Paquito D'Rivera, Joe Morris,  Sheila Jordan, James Carter, Butch Morris, Ben Monder e Tom Harrell.

Ben Ratliff, o respeitado crítico do New York Times, certa vez disse que Mr. Lightcap é um dos poucos músicos em atividade capazes de dividir seu trabalho entre aquilo que se denomina avant garde jazz e mainstream jazz. De fato, se toda sua habilidade técnica enfrenta facilmente qualquer desafio que lhe possa ser imposto pelo Post Bebop, sua criativa curiosidade tem mantido vivo seu interesse pelo jazz de vanguarda, daí já ter atuado também com músicos como Cecil Taylor e Archie Shepp.

Para os amigos, a faixa Platform , retirada do álbum Deluxe, lançado em 2010 pelo louvável selo Clean Feed. Com Chris estão Chris Cheek e Tony Malaby (ts), Craig Taborn (Wurlitzer electric piano) e Gerald Cleaver (d). 


26/05/2011

Guy Lafitte - Blue and Sentimental

Infelizmente, somente em minha segunda visita a Paris tive o privilégio de conhecer o Sunside Jazz Club, certamente um dos melhores clubes parisienses de jazz tradicional, criado em 2001 especificamente para a apresentação de música feita com instrumentos acústicos. O clube que lhe deu origem, o Sunset, é mais antigo. Localizado no coração da cidade, entre o Forum des Halles e o Centre George Pompidou, o Sunset Jazz Club foi criado em 1983 por Michele and Jean Marc Portet, sendo o primeiro da Rue des Lombards, logradouro que conta com outros importantes clubes de jazz, entre eles o Le Baiser Salé e o Le Duc des Lombards. Tendo começado a funcionar como bar e restaurante, foi por insistência dos músicos que frequentavam o local que surgiu ali um clube de jazz. O repertório inicial do Sunset era dedicado sobremaneira ao estilo Fusion, sendo ampliado aos poucos, de modo que praticamente todos os estilos fossem acolhidos no estabelecimento. Não é à toa que por lá passaram músicos tão diferentes como Jaco Pastorius e Benny Golson ou Didier Lockwood e Tal Farlow. Além dos músicos locais, como Barney Wilen e Michel Petrucciani, já tocaram ali nomes como Steve Lacy, Frank Morgan e Lee Konitz.

Em 1993, Stephan Portet decide ampliar definitivamente os estilos de jazz tocados no Sunset, transformando-o num "club of all jazz". Desde então, podemos ouvir antigos e novos talentos apresentando-se na casa, como Roy Haynes, Bireli Lagrène, Richard Galliano, Jacky Terrasson, Laurent de Wilde, Ravi Coltrane, Dewey Redman, Truffaz, Julien Lourau, Sylvain Luc, Stefano di Battista, Paolo Fresu, Bojan Z, David Linx, Richard Bona, Magic Malik e muitos outros. O sucesso do clube pode ser avaliado também por seus frequentadores, entre eles Miles Davis, Herbie Hancock e Wynton Marsalis. Finalmente, no dia 13 de outubro de 2001, nasce o Sunside, dedicado aos instrumentos acústicos, ficando os amplificados a cargo do Sunset. Caso único no mundo: um só local com dois clubes anexos, apresentando dois shows todas as noites, sete dias por semana!


Naura Telles, fumando um cigarrinho no Sunside


Em homenagem aos velhos tempos, deixo a faixa Blue and Sentimental  , sob os auspícios de Guy Lafitte, saxofonista tenor francês nascido em 1927. Embora tenha iniciado a carreira tocando clarinete, em 1947 Guy toma o saxofone como seu primeiro instrumento, provavelmente após ouvir Coleman Hawkins tocando Body and Soul. Antes de sua morte, em 1998, Guy estabeleceu-se como um dos melhores saxofonistas franceses do Swing, formando seus próprios conjuntos ou acompanhando músicos que visitavam a Europa, como Bill Coleman e Buck Clayton. Além de ter participado como sideman de um bom número de gravações, Guy gravou também como líder, em especial para a Pathe, Columbia e RCA. Com ele estão Geo Daly (vib), Raymond Fol (p), Jean Bonal (g), Alix Bret (b) e Bernard Planchenault (d).

Durante minha primeira visita a Paris, eu não sabia, Guy fazia sua última apresentação no Sunset, morrendo poucos meses depois. 

   


Guy