28/09/2011

Lançamento



No Festival de Contrabaixos será lançado o livro de Érico Renato Serra Cordeiro:
"Confesso que Ouvi". Autógrafos às 18h antes de todos os concertos do Festival (sexta, sábado e domingo). Esperamos vocês Lá!


26/09/2011

Basso Valdambrini Quintet

A fotografia ao lado poderia ter sido feita numa das muitas e longas estradas da Califórnia, afinal estamos em 1959 e os dois músicos ao lado estão tocando West Coast Jazz da melhor qualidade. Nada disso. Estamos na Itália, mais precisamente em Milão, cidade situada a noroeste do país, região dominada pelos solos de marga calcária, argila, areia, cascalho e plácer glacial. A topografia da região lembra um pouco a do Barro Vermelho, um dos bairros mais agradáveis de Vitória, ES, com suas abruptas subidas e descidas assustadoras para qualquer enfisematoso ou cardíaco. E foi exatamente ali, na residência do amigo Chico Brahma, que encontrei o álbum Basso Valdambrini Quintet, talvez o único exemplar existente no estado, em forma de long-play. Enquanto cortava generosas lascas de presunto de Parma e de um delicioso stracchino, queijo feito à base de leite de vaca cansada, Chico comentava que, na verdade, o Barro Vermelho não passa de uma das regiões que compõem o bairro mais requintado do Espírito Santo, denominado Praia do Canto, resultado dos esforços do sanitarista Saturnino de Brito. Orgulhoso, Chico afirmava que morava ali desde o tempo em que bunda era palavrão, enquanto servia-me uma generosa taça de LINI 910 Scuro, produzido pela competente Alicia Lini. Sim, o Lambrusco de qualidade, que originalmente possuía um caráter tinto, seco e levemente frisante, ideal para acompanhar o presunto de Parma, adquiriu na década de 1980 o aspecto monstruoso de vinho branco doce e espumante, fazendo grande sucesso junto aos ouvintes de Julio Iglesias e às festas de casamento da classe média brasileira. Com o aumento da demanda, explicava eu para Chico, os produtores passaram a introduzir grandes quantidades desnecessárias de açúcar, além de remover sua coloração tinta original e engarrafá-lo com rosca.

Alicia Lini

Como sempre acontece nestes casos, o nível do vinho caiu drasticamente, bem como seu preço e respeitabilidade. O bom Lambrusco costuma ter procedência no sul de Modena, especialmente o produzido nas encostas da porção norte dos Apeninos, onde a pouca insolação retarda o amadurecimento das uvas, que chegam à vinícola com pouco teor de açúcar e rica acidez. A maceração breve extrai mais cor do que tanino e a fermentação em tanques selados ajuda a preservar o dióxido de carbono, concedendo ao vinho sua leve efervescência característica. O Lambrusco tradicional deve ser produzido preferencialmente com a uva lambrusco, e engarrafado com rolha do tipo cogumelo, apresentando-se quase sempre seco, refrescante, com teor alcoólico moderado e sabor imediato de uva. As DOC's mais tradicionais na produção do Lambrusco são Sorbara e Grasparossa di Castelvetro, situadas em Emilia (Emiliana Romagna).

Nisso, percebi que Chico, um abstêmio convicto, cochilava profundamente com o álbum do quinteto escorrendo lentamente de sua mão. Após alguns minutos de silêncio, Chico levanta assustado e concorda com tudo que eu disse, acrescentando que se Basso e Valdambrini não existissem, o jazz em Milão certamente não seria tão bom. Gianni Basso nasceu no dia 24 de maio de 1931, em Asti, região que produziu o primeiro vinho espumante doce do mundo. Após estudar clarinete no Conservatorio di Asti, passa a trabalhar com diversos grupos norte-americanos que se apresentaram na Europa na década de 1940, sobretudo na Bélgica e na Alemanha. De volta à Itália, trabalha em diversas orquestras de dança até ser contratado para integrar a orquestra de rádio de Armando Trovajoli, em 1956. Entre 1955 e 1960, lidera com o trompetista Oscar Valdambrini um dos melhores combos da Itália, além de acompanhar grandes músicos que visitavam a Europa, entre eles Chet Baker, Buddy Collette, Slide Hampton, Maynard Ferguson, Phil Woods e Gerry Mulligan. Na final da década de 1970, forma a banda Saxes Machine. Suas principais influências musicais foram Stan Getz e, mais tarde, Sonny Rollins. Embora ainda toque em alguns clubes, Basso tem atuado mais como músico de estúdio.



Oscar Valdambrini nasceu em Turin, no dia 11 de maio de 1924. Após estudar violino na infância, opta pelo trompete. Em 1948 tem o privilégio de participar de uma jam session ao lado de Rex Stwart, um dos maiores trompetistas do Swing. Em 1955 forma, com o saxofonista Gianni Basso, um dos melhores quintetos de jazz da Itália, frequentemente ampliado com a presença do trombonista Dino Piana. Atuando também como arranjador e compositor, Oscar trabalharia com uma série de músicos importantes nas décadas de 1960 e 1970, entre eles Giorgio Gaslini, Duke Ellington, Maynard Ferguson, Dusko Goykovich, Kai Winding, Frank Rosolino, Conte Candoli, Freddie Hubbard, Ernie Wilkins e Mel Lewis. É também nesse período que integra a orquestra da Televisão de Roma. Proprietário de um estilo bastante semelhante ao de Art Farmer, visivelmente moldado na linha do West Coast Jazz, com inteligentes fraseados bop e a característica delicadeza de timbre, Oscar foi obrigado a se afastar dos palcos nas décadas de 1980 e 1990 em função de problemas cardíacos. Faleceu em Roma, no dia 26 de dezembro de 1996.

Para os amigos, as faixas Come Out Wherever You Are, Fan Tan, I Wanna Be Kissed, Everything Happens To Me, Lo Struzzo Oscar, Lotar, Like Someone in Love, C'est Si Bon, Gone With the Wind e Ballad Medley (I Can't Get Started e Lover Man), todas retiradas do álbum acima, com Renato Sellani (p), Gianni Azzalini (b) e Gianni Cazzola (d). Saúde!

Basso-Valdambrini by Jazzseen

16/09/2011

Mestres: Harry 'Sweets' Edison

Meu amigo Frederico Bravante sempre disse que o problema de se resistir a uma tentação é que podemos não ter uma segunda chance. E complementava: Lester, não se preocupe em evitar as tentações - à medida que você envelhecer, elas o evitarão. Sendo assim, não resisti à tentação de comprar o álbum Just Friends numa das inúmeras e coloridas barracas que entre o fim de maio e início de junho tomam conta da Rue de Bretagne e suas transversais, em Paris. Tradicionais, as braderies de ruas lembram um pouco nossas feiras brasileiras, só que as barracas são montadas pelos habitantes, que oferecem diversos produtos, entre eles móveis, roupas, antiguidades, livros e velhos long-plays, tudo a bons preços. Enquanto eu comprava o tal álbum, Frederico apaixonava-se por um requixá amarelo de dois lugares, datado, segundo o esperto vendedor francês, de 1923. Após algumas horas de feira e de indecisão quanto à aquisição do requixá, decidimos nos instalar numa das diminutas mesas de um diminuto café, só para ficarmos vendo as pessoas passando por nós.

Enquanto Frederico sonhava acordado com o belíssimo veículo amarelo, eu lia as notas do long-play, onde pude constatar o ano da gravação, 1975, o selo francês, Black and Blue, e os excepcionais acompanhantes do trompetista Harry 'Sweets' Edison:  Eddie "Lockjaw" Davis (ts), Gerry Wiggins (p), Major Holley (b) e Oliver Jackson (d). Quando sabemos que o jazz quase morreu na década de 1970, período em que Miles Davis comprou um trompete vermelho e a maioria dos músicos de jazz passou a tocar rock, a importância do álbum Just Friends cresce ainda mais. Nessa década maldita para o jazz, os músicos jovens não conseguiam trabalhar, nem gravar, nem tinham oportunidade de levar adiante o Hard Bop, desenvolvendo-o com as inovações propostas na década anterior por músicos visionários como, por exemplo, John Coltrane. As bandas de jazz eram cada vez mais raras. Os locais para se ouvir jazz escasseavam, exceto em algumas poucas cidades da Europa. A música passava por um processo profundo de imbecilização, seguindo a trilha aberta pelos Beatles, tal como ocorre hoje no Brasil com Ivete Sangalo e Cia. Caberia então aos velhos mestres das décadas de 1940 e 1950 a difícil tarefa de manter o jazz vivo. Reunindo-se em pequenos combos e sustentados pelo respeito assegurado nas décadas anteriores, serão apenas músicos como Count Basie, Oscar Peterson, Ella Fitzgerald, Stan Getz e poucos outros que conseguirão manter suas bandas em atividade, gravando alguns álbuns de jazz acústico nas décadas de 1970 e 1980, sem apelo ao jazz-rock. E um desses mestres foi Harry 'Sweets' Edison.



Harry nasceu em Ohio, no dia 10 de outubro de 1915. Como muitos trompetistas de sua geração, sofre forte influência de Louis Armstrong. Após adquirir experiência em diversas bandas locais, entre elas a Jeter-Pillars Orchestra, pela qual passaram músicos como Jimmy Blanton, Kenny Clarke e Jimmy Forrest, Harry trabalha durante um breve período com Lucky Millinder. Em 1938, passa a integrar a orquestra de Count Basie, com quem permaneceria até a dissolução da banda, em 1950. A partir daí, inicia um longo período atuando como líder de pequenos conjuntos e como músico de estúdio, fase em que grava abundantemente como solista e também como solicitado sideman, ao lado de músicos como Shorty Rogers, Billie Holiday, Lester Young, Oscar Peterson, Art Tatum, Bill Perkins, Buddy Rich, Ben Webster, Ella Fitzgerald, Bud Shank, Herb Ellis, Jimmy Giuffre, Nat King Cole, Ray Brown, Buddy DeFranco, Sarah Vaughan, Peggy Lee, Anita O'Day, Manny Albam, Stan Getz, Chris Connor, Zoot Sims, Johnny Hodges, Milt Jackson, Paul Quinichette, Red Garland, Budd Johnson, Joe Williams, Nancy Wilson, Quincy Jones, Gerry Mulligan, Al Grey, Gil Fuller, Sonny Criss, Harry James, Louie Bellson, Roy Eldridge, Buddy Tate, Ray Charles, Sonnt Stitt, Eddie 'Lockjaw' Davis, Barney Kessel, Ray Bryant, Jimmy Rowles, Frank Wess, Clark Terry, Gene Harris, Lionel Hampton, apenas para citarmos alguns. Memoráveis também foram suas participações no JATP, Jazz At The Philharmonic.

Apesar disso, Harry torna-se conhecido para o grande público por alguns breves solos que produziu na orquestra de Nelson Riddle, quando esta acompanhava Frank Sinatra. Embora constituíssem belos solos, eram nada mais que obbligatos, sem qualquer traço de improviso, sua marca registrada. Além da formidável capacidade inventiva, Harry tornou-se respeitado no meio jazzístico por sua inigualável performance em surdina (Harmon mute), quase sempre produzida por frases lacônicas e inesperadas, construídas sobre notas esparsas, influência que certamente deve muito a seu primeiro grande professor, Count Basie, o mais econômico pianista do jazz. É devido à sua aguda inteligência musical que Harry torna-se não apenas um mestre absoluto do estilo Swing, como também um admirador dos complexos ideais do Bebop, sobretudo os propostos por Dizzy Gillespie. Daí ter produzido alguns dos melhores álbuns de jazz da fatídica década de 1970. Harry morreu aos 83 anos, no dia 27 de julho de 1999. Para os amigos, ficam as faixas Just Friends, There Is No Greater Love e My Old Flame, retiradas do tentador álbum Just Friends, onde podemos perceber toda sua delicadeza na interpretação de baladas, característica que lhe rendeu o apelido de 'Sweets', dado por Lester Young.

sweets by Jazzseen

Até hoje, todos os anos, Frederico Bravante retorna às feiras parisienses na esperança de reencontrar o requixá amarelo que deixou de comprar. Resistir à tentação dá nisso.

2º Festival de Contrabaixos do Rio de Janeiro

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