31/10/2011

Dick Garcia: Message From

Há quem diga que o artista é fruto das influências que o cercam e, quanto a isso, não parece haver muita celeuma. O que angustia e aflige, sobretudo ao amigo e baterista angolano Alex Marretta, o maior especialista em congo de Copacabana, é que alguns músicos saiam tocando impunemente por aí, sem nunca terem estudado música. "Isto é um absurdo, isto é mentira, isto é impossível!" gritava Mr. Marretta diante de seus jovens e dedicados alunos de sino de igreja - sim, Mr. Marretta é também um dos últimos devotados mestres de sino de igreja do Brasil. Sua ONG Bate o Sino Pequenino tem sido responsável pela convocação de milhares de bons católicos, mediante pancadas ensurdecedoras no belo instrumento da fé. O curso de sino, devido à sua enorme complexidade, exige uma semana de aulas teóricas e ao menos dois dias úteis de prática. Já Dick Garcia, guitarrista nascido em New York no dia 11 de maio de 1931, preferiu sair tocando de ouvido seu instrumento aos nove anos de idade. Nascido numa família de músicos, Dick viveu rodeado de guitarristas, entre eles alguns tios e um dos avôs, recebendo suas primeiras aulas formais apenas aos treze anos de idade. Fortemente influenciado pelo guitarrista Charlie Christian, foi em Charlie Parker que Dick encontrou seu modelo artístico. Aos dezenove, Dick já integrava o quarteto de Tony Scott, um dos melhores clarinetistas do Bebop, estilo que quase levou o delicado instrumento à extinção.   

Ainda na década de 1950, Dick trabalhou com músicos como Charlie Parker, George Shearing, Bill Evans e Milt Buckner, entre outros, além de liderar seus próprios conjuntos. Além de trabalhar com Kai Winding e Nancy Wilson na década de 1960, pouco se sabe sobre os rumos tomados por Dick. Para os amigos deixo as faixas Have You Met Miss Jones, If I'm Lucky, Stompin' At the Savoy e Like Someon in Love, retiradas do excelente CD A Message From Garcia, lançado pela Blue Moon na série The Classic Dawn Recordings, onde memoráveis álbuns do selo Dawn estão sendo relançados. Com Dick estão Tony Scott (cl), Gene Quill (as), Bill Evans (p), John Drew (b) e Camille Morin (d). 

Garcia by Jazzland

26/10/2011

Aos Confusos, Jazzseen Recomenda Boas Cachaças


Para todos aqueles que ficaram confusos com a postagem anterior, que versava sobre o I Encontro Internacional de Blogueiros de Jazz, fica a recomendação, sem moderação, das seguintes cachaças, eleitas as melhores pela revista Playboy:


1º. lugar: Anísio Santiago/Havana(Salinas, MG), 
2º. lugar: Vale Verde (Betim, MG),
3º. lugar: Claudionor (Januária, MG),
4º. lugar: Germana (Nova união, MG),
5º. lugar: Canarinha (Salinas, MG),
6º. lugar: Serra Limpa (Duas Estradas, PB),
7º. lugar: Maria Izabel (Parati, RJ),
8º. lugar: Seleta (Salinas, MG),
9º. lugar: Sagatiba Preciosa (Ribeirão Preto, SP),
10º. lugar: Germana Heritage (Nova união, MG),
11º. lugar: Mato Dentro Prata (São Luis do Paraitinga, SP),
12º. lugar: Cachaça da Tulha Ouro (Mococa, SP),
13º. lugar: Santo Grau Coronel Xavier Chaves (Cel. Xavier, MG),
14º. lugar: Boazinha (Salinas, MG),
15º. lugar: Lua Cheia (Salinas, MG),
16º. lugar: Casa Bucco Ouro (Bento Gonçalves, RS),
17º. lugar: Nêga Fulô (Nova Friburgo, RJ),
18º. lugar: Armazém Vieira Safira (Florianópolis, SC),
19º. lugar: Weber Haus (Motim, RS),
20º. lugar: Rainha das Gerais (Curvelo, MG)

Para quem, ainda assim, continuar confuso com os textos do Jazzseen, a única solução será comprar, e se possível ler, o seguinte livro:

Mais detalhes aqui



24/10/2011

I Encontro Internacional dos Blogueiros de Jazz



O I Encontro Internacional dos Blogueiros de Jazz foi um absoluto sucesso. Idealizado pela equipa do Jazzseen e contando com o patrocínio da Casa Bonita - Arte & Objetos e com o apoio cultural da Galeria Nardelli, o evento ocorreu no Rio de Janeiro, entre os dias 30 de setembro e 20 de outubro de 2011, mesmo período em que acontecia o XL Festival de Triângulos Equiláteros de Caruaru, outro espetacular evento idealizado pelo percussionista angolano e blogueiro Alex Marretta, considerado pela crítica especializada o baterista mais sensível de Copacabana. Os dois eventos tiveram lugar no Pavilhão de São Cristóvão, espaço democrático onde rapaduras e tablets conviveram em perfeita harmonia. Ao que tudo indica, este é o primeiro encontro internacional de blogueiros de jazz. Organizado sob a esmerada direção de Frederico Bravante, Editor do Jazzseen, o evento contou com a presença de alguns dos mais importantes autores de blogs de jazz do Brasil e do exterior, como John Lester, Paula Nadler, Érico Cordeiro, Olney Figueiredo, Sérgio Sônico, Rogério Coimbra, Tobias Serralho e muitas outras personalidades do meio artístico e empresarial.

Entre os diversos temas abordados nas dezenas de conferências realizadas durante o Encontro, a que mais despertou a atenção do público e da imprensa foi a questão dos direitos autorais, objeto de profunda reflexão durante a palestra do blogueiro Sérgio Sônico. Denominada de "Sai da minha calçada!", a palestra de Sérgio Sônico baseava-se em fatos reais, acontecidos recentemente no Rio de Janeiro, onde um belo ciclista que vendia álbuns piratas de Carlos Gardel foi brutalmente assediado por seguranças da boate Milonga, em Ipanema. Como não cedesse às libidinosas propostas dos musculosos algozes, o jovem amante do tango foi proibido de vender seus álbuns em frente ao estabelecimento, ouvindo dos seguranças a frase ameaçadora: sai da minha calçada! Moral da estória, segundo o jovem ciclista: no governo Dilma, quem não paga o dízimo não engole a hóstia. Outro ponto polêmico abordado por Sérgio em sua palestra foi a questão de saber até que ponto podemos e devemos, em termos morais e legais, divulgar álbuns de tango e jazz que estão fora de catálogo. Devem os amantes dos estilos aguardar pacientemente que os detentores dos direitos autorais decidam relançar tais álbuns? E caso nunca voltem a ser relançados? Que tipo de proteção autoral estes álbuns devem ter, considerando que muitos deles foram gravados há 30 anos ou mais? Nestes casos, até que ponto a pirataria prejudica os músicos? E o que vai ser dos direitos autorais diante do poder cada vez maior da internet de divulgar música gratuitamente?

É claro que as grandes gravadoras têm tentado proteger seus ícones de vendas, como Miles Davis, Tom Jobim, Roberto Carlos e Ivete Sangalo, inserindo 'códigos' nas faixas de seus álbuns, o que tem permitido um certo controle sobre a movimentação destes arquivos pela internet, impedindo ou dificultando seu download, upload e hospedagem em sites de compartilhamento. Contudo, tais 'códigos' são quase sempre 'decifrados' por especialistas em informática, em sua maioria jovens desconfiados dos velhos conceitos de 'direito autoral', o que os leva a tornar tais arquivos acessíveis ao público, pelo menos até que sobrevenha nova proteção imposta pela indústria fonográfica.

Da esquerda: Érico Cordeiro, Olney Figueiredo, Sérgio Sônico, Rogério Coimbra e John Lester
I EIBLOJAZZ - Rio de Janeiro - Outubro de 2011


As duas outras palestras que mais chamaram a atenção dos visitantes e da crítica especializada foram as realizadas pelo baterista Alex Marretta, que discursou sobre a importância das baquetas produzidas com carvalho francês, material capaz de fornecer uma sonoridade achocolatada, e a do arquiteto e clarinetista John Lester, que refletiu sobre o quase desaparecimento do jazz gravado na década de 1970 e a importância da gravadora e selo Xanadu. Criada em New York em 1975 por Don Schlitten, experiente produtor que por diversas vezes atuou também como fotógrafo e resenhista dos álbuns, a Xanadu torna-se rapidamente uma das mais respeitadas gravadoras de jazz, especialmente do estilo Hard Bop (Bebop). Seu repertório é dividido em duas séries: a Silver, contendo gravações inéditas de músicos como Al Cohn, Barry Harris, Dolo Coker, Jimmy Raney, Sonny Criss e Dexter Gordon, além de uma série de quatro long plays sobre o Montreux International Jazz Festival de 1978, e a Gold, especializada em relançamentos de importantes gravações do Swing e do Bebop, sempre com a preocupação de que o músico ou sua família recebessem os devidos direitos auorais. São dessa série alguns álbuns memoráveis, como os de Billy Eckstine, Art Tatum, Coleman Hawkins, Bud Powell e Art Pepper, entre outros.

Após realizar algumas turnês pelo Japão e pela África nas décadas de 1970 e 1980, na década de 1990 a Xanadu para de produzir novas gravações. Em 1999, vende seu catálogo para a eMusic, que também não realiza nenhuma nova gravação, embora continue vendendo os álbuns já existentes da Xanadu. Em 2007 a Orchard compra o catálogo da Xanadu e resolve realizar novas gravações pelo selo, mantendo sua afinidade com o Hard Bop (Bebop): o primeiro novo álbum da Xanadu é Monk, lançado em 2009, onde o guitarrista Peter Bernstein presta tributo ao grande pianista.



Para os amigos, ficam as faixas 01 e 03 retiradas do álbum Xanadu at Montreux, Volume 3, gravado em 1978 com Sam Noto (t), Al Cohn, Billy Mitchell (ts), Ronnie Cuber (bs), Sam Most (f), Dolo Coker, Barry Harris (p), Ted Dunbar (g), Sam Jones (b), Frank Butler (d) e as faixas 02 e 04 retiradas do álbum Monk, gravado em 2009 pelo trio do guitarrista Peter Berenstein, com Doug Weiss (b) e Bill Stewart (d). Boa audição!


Xanadu by Jazzseen

21/10/2011

Ron Carter em SP

Ron Carter lembra 'anos incríveis' com grupo de Miles Davis - Ron Carter, um dos maiores contrabaixistas da história do jazz, se apresenta desta sexta a domingo no Sesc Pinheiros, em São Paulo. Os shows, cujos ingressos estão esgotados há mais de uma semana, serão baseados em Dear Miles, disco tributo ao trompetista americano Miles Davis, morto em 1991. E servirão como uma excelente introdução à exposição Queremos Miles, repleta de objetos pessoais e partituras de Davis, além de salas de audição para apreciar sua boa música. Carter, que integrou o grupo de Miles Davis de 1963 a 1968, falou ao site de VEJA sobre a experiência de tocar com o trompetista, bem como de suas colaborações com artistas de outros gêneros musicais e com grandes nomes da MPB.

Como o senhor entrou para o grupo de Miles Davis? Eu tocava na banda de Art Farmer quando Miles Davis apareceu no clube onde fazíamos nossas apresentações e perguntou se não estava interessado em fazer parte do grupo dele. Eu disse: “Já tenho um emprego, mas, se você deseja tanto que eu faça parte da sua banda, pergunte a Farmer se posso”. Davis conversou com Art Farmer, que me deixou partir. Passei , tocando com grandes músicos, como o baterista Tony Williams e o pianista Herbie Hancock.

Miles Davis tinha fama de incentivar a criatividade dos instrumentistas que tocavam com ele. O senhor teve alguma dificuldade em se adaptar ao seu método de trabalho? Nenhuma. Vamos colocar da seguinte maneira? Suponha que você trabalhe num laboratório cujo cientista responsável pedisse para você criar uma fórmula diferente por dia. Com Miles, era assim. Ele nos dava espaço para criar e fazer experimentações a cada noite. E deve ter gostado muito do meu trabalho, pois nunca chamou minha atenção.

Miles Davis era um inovador. Tempos depois, o senhor tocou com o trompetista Wynton Marsalis, cuja visão de jazz é totalmente voltada para o passado. Qual a diferença entre o método de trabalho desses dois grandes artistas? Já sei onde você quer chegar com essa pergunta... Mas não vou cair nela, não (risos). Vamos colocar da seguinte maneira? Quando eu toquei com Wynton Marsalis, ele era o músico mais jovem e menos experiente do grupo. Foi educado, aceitou nossas sugestões e fizemos um bom disco. Está bem assim?

Hoje, o senhor tem uma banda própria. Os desafios são maiores do que participar dos grupos de Art Farmer e Miles Davis? Eu diria que os desafios se dão muito mais no campo burocrático do que no musical. Quando você faz parte de uma banda – e geralmente nos grupos em que toquei eu estava em pé de igualdade com outros instrumentistas –, as discussões giram em torno do repertório e dos arranjos. Quando você lidera uma banda, começa a lidar com questões burocráticas. Quem você deve contratar, qual músico deve ser mandado embora, se deve correr atrás de shows, como definir os pagamentos dos seus instrumentistas. Pode ser complicado, mas faz parte da carreira de um bandleader.

O trabalho do senhor não se limitou ao jazz, não? Toquei em discos de artistas de soul music, como Aretha Franklin e Roberta Flack. De Roberta, trago ótimas recordações do disco de estreia dela, First Take, lançado no início dos anos 1970. O produtor da cantora não estava gostando do desempenho da banda e recrutou a mim e a outros músicos experientes, como o guitarrista Bucky Pizzarelli. Ficou um trabalho lindo! Roberta é uma ótima cantora e compositora. Por outro lado, me arrependo de nunca ter trabalhado com Ella Fitzgerald. Sabia que ela gostava do meu estilo de tocar, mas as nossas agendas nunca combinaram.

Os artistas brasileiros também adoram tocar com o senhor... Sim, participei dos discos de Tom Jobim, Milton Nascimento, Wanda Sá... São ótimas pessoas e foram receptivos às ideias que dei para a composição deles. Como recusaria?

Antes de se tornar contrabaixista, o senhor tocou violoncelo. Por que trocou a vida de músico erudito pelo jazz? Me responda com sinceridade: quantos instrumentistas negros você conhece que tocam música erudita? E desses instrumentistas, quais deles têm uma carreira de sucesso? Eu percebi que teria espaço reduzido na seara clássica ainda no segundo grau. Passei então para o contrabaixo e hoje tenho uma boa carreira. E de vez em quando toco algo no violoncelo, como trechos de As Seis Suítes para Violoncelo Solo, de Johann Sebastian Bach. (Fonte: Veja).