Em nossa última viagem a Buenos Aires, em fevereiro de 2011, pudemos constatar que nem só de livrarias e bifes de chorizo vive a capital argentina. Em cada boa esquina você encontra agradáveis cafés, alguns deles centenários, como é o caso do lendário e pouco comentado Café de Los Angelitos, situado na Av. Rivadávia, 2.100. Inaugurado em 1890 pelo italiano Bautisto Fazio com o nome de Bar Rivadavia, o local com piso de terra e instalações precárias virou ponto de encontro da malandragem da época, reunindo uma série de payadores, espécie de repentistas, poetas improvisadores que, acompanhados ao violão, desafiavam-se uns aos outros, entre eles Gabino Ezeiza, Higuito Cazon e Jose Betinotti.
Devido à proximidade com o edifício do Congresso da Nação, o Café contava também com a frequência de muitos políticos, sempre dispostos a produzir aclamadas e infrutíferas discussões, como era o caso de figuras como Hipólito Irigoyen, José Ingenieros e Alfredo Palacios. Em 1920, ao ser adquirido pelo espanhol Ángel Salgueiro, o bar recebe seu nome atual que, segundo a lenda, faz referência à índole "angelical" de seus frequentadores, sempre vigiados de perto pela polícia. Torna-se também cada vez mais um ponto de encontro de artistas e intelectuais, como Carlos Gardel. Embora tenha fechado suas portas durante quinze anos (1992-2007), o Café de Los Angelitos voltou a funcionar, apresentando alguns dos melhores espetáculos de tango da cidade, agora com atenciosas funcionárias e instalações confortáveis para bem receber os turistas.
Já o Café Tortoni (primeira foto acima) é um clássico bastante conhecido e frequentado pelos turistas, onde é oferecido um show de tango mais estereotipado. Contudo, os bons músicos, suas instalações históricas e sua própria história valem a visita. Apesar de seu sucesso e importância, o site do café pouco informa sobre sua origem. Melhores informações podem ser obtidas no site Paralelo 35. Embora tenha sido inaugurado em 1858 pelo francês Jean Touan, é sob o comando de outro francês, Celestino Curutchet, que o Tortoni adquire seu nobre endereço atual e sua importância cultural. Diz a lenda que foram os olhos vivos de Curutchet, um homem pequeno de corpo e grande de espírito, que mantinha impecável a barbicha pontiaguda sob o casquete árabe de seda preta, que fez o sucesso do local. Talvez...
Situado na Avenida de Mayo, a meio caminho entre o Congresso e a Casa Rosada, o café era frequentado por pintores, escritores e músicos que, segundo o próprio Curutchet, se não podiam gastar muito, forneciam grande fama ao local, atraindo o público mais abastado. A forte imagem do café, portanto, foi construída ao longo de mais de cinquenta anos de dedicação de Curutchet, que esteve no comando do local até sua morte em 1925, aos noventa e sete anos de idade.
Já quanto às lojas de discos, é surpreendente o número das que ainda sobrevivem em Buenos Aires, principalmente nos bairros Recoleta e Palermo. Não faço a menor ideia de como elas competem com a internet, talvez mediante compras abusivas como as que realizei em diversas delas, do que resultaram duas boas centenas de álbuns, a maioria deles sobre músicos de jazz argentinos. Ou então sobrevivam apenas por cobrarem preços justos: o CD custa em média R$10,00. Bem, seja lá como for, para não ser cansativo, recomendarei ao amigo leitor apenas três delas: a Minton's, a Miles (Palermo) e a Notorious, esta última um misto de loja de CD, bar e casa de shows, onde se pode desembrulhar tranquilamente os álbuns adquiridos tomando um acolhedor café em seu diminuto e agradável jardim.
Foi lá, na Notorious, que conheci o saxofonista Piotr Baron, nascido em Wroclaw, Polônia, em 1961. Aos 16 anos já estava tocando jazz profissionalmente. Em 1984, recebe o prêmio de melhor solista no Jazz Aldia, festival de jazz em San Sebastian, Espanha. Além de trabalhar com grandes músicos da Europa, como Urszula Dudziak, Michał Urbaniak, Tomasz Stanko e Jasper Van't Hof, Piotr tem atuado também ao lado de grandes nomes do jazz norte-americano, tais como Art Farmer, Billy Harper, David Murray, Kevin Mahogany, Victor Lewis, Roy McCurdy, John Hicks, Marvin "Smitty" Smith, Kei Akagi, Joe LaBarbera, Billy Hart, David Friesen e Wadada Leo Smith, entre outros. Não bastasse, Piotr atua também como professor na Polônia e nos EUA.
Além de exímio saxofonista tenor e soprano, Piotr utiliza também com muita competência os saxofones alto e barítono, além do clarone. Nitidamente influenciado pelo Hard Bop, sua linguagem é impregnada pela música clássica e popular, o que o torna um intérprete versátil. A modernidade de seu fraseado sabe dosar com equilíbrio a técnica com a beleza, fazendo com que seus seis álbuns como líder possam ser apreciados não apenas pelos cultores do Neo-Bop, mas também por qualquer ouvinte que goste de boa música. Para os amigos deixo as faixas Tingel Tango e St. Louis Blues, retiradas do álbum Tango, gravado em 1996 para a Polonia Records. Com Piotr estão Jacek Niedziela (b) e Adam Czerwinski (d).
Devido à proximidade com o edifício do Congresso da Nação, o Café contava também com a frequência de muitos políticos, sempre dispostos a produzir aclamadas e infrutíferas discussões, como era o caso de figuras como Hipólito Irigoyen, José Ingenieros e Alfredo Palacios. Em 1920, ao ser adquirido pelo espanhol Ángel Salgueiro, o bar recebe seu nome atual que, segundo a lenda, faz referência à índole "angelical" de seus frequentadores, sempre vigiados de perto pela polícia. Torna-se também cada vez mais um ponto de encontro de artistas e intelectuais, como Carlos Gardel. Embora tenha fechado suas portas durante quinze anos (1992-2007), o Café de Los Angelitos voltou a funcionar, apresentando alguns dos melhores espetáculos de tango da cidade, agora com atenciosas funcionárias e instalações confortáveis para bem receber os turistas.
Já o Café Tortoni (primeira foto acima) é um clássico bastante conhecido e frequentado pelos turistas, onde é oferecido um show de tango mais estereotipado. Contudo, os bons músicos, suas instalações históricas e sua própria história valem a visita. Apesar de seu sucesso e importância, o site do café pouco informa sobre sua origem. Melhores informações podem ser obtidas no site Paralelo 35. Embora tenha sido inaugurado em 1858 pelo francês Jean Touan, é sob o comando de outro francês, Celestino Curutchet, que o Tortoni adquire seu nobre endereço atual e sua importância cultural. Diz a lenda que foram os olhos vivos de Curutchet, um homem pequeno de corpo e grande de espírito, que mantinha impecável a barbicha pontiaguda sob o casquete árabe de seda preta, que fez o sucesso do local. Talvez...
Situado na Avenida de Mayo, a meio caminho entre o Congresso e a Casa Rosada, o café era frequentado por pintores, escritores e músicos que, segundo o próprio Curutchet, se não podiam gastar muito, forneciam grande fama ao local, atraindo o público mais abastado. A forte imagem do café, portanto, foi construída ao longo de mais de cinquenta anos de dedicação de Curutchet, que esteve no comando do local até sua morte em 1925, aos noventa e sete anos de idade.
Já quanto às lojas de discos, é surpreendente o número das que ainda sobrevivem em Buenos Aires, principalmente nos bairros Recoleta e Palermo. Não faço a menor ideia de como elas competem com a internet, talvez mediante compras abusivas como as que realizei em diversas delas, do que resultaram duas boas centenas de álbuns, a maioria deles sobre músicos de jazz argentinos. Ou então sobrevivam apenas por cobrarem preços justos: o CD custa em média R$10,00. Bem, seja lá como for, para não ser cansativo, recomendarei ao amigo leitor apenas três delas: a Minton's, a Miles (Palermo) e a Notorious, esta última um misto de loja de CD, bar e casa de shows, onde se pode desembrulhar tranquilamente os álbuns adquiridos tomando um acolhedor café em seu diminuto e agradável jardim.
Foi lá, na Notorious, que conheci o saxofonista Piotr Baron, nascido em Wroclaw, Polônia, em 1961. Aos 16 anos já estava tocando jazz profissionalmente. Em 1984, recebe o prêmio de melhor solista no Jazz Aldia, festival de jazz em San Sebastian, Espanha. Além de trabalhar com grandes músicos da Europa, como Urszula Dudziak, Michał Urbaniak, Tomasz Stanko e Jasper Van't Hof, Piotr tem atuado também ao lado de grandes nomes do jazz norte-americano, tais como Art Farmer, Billy Harper, David Murray, Kevin Mahogany, Victor Lewis, Roy McCurdy, John Hicks, Marvin "Smitty" Smith, Kei Akagi, Joe LaBarbera, Billy Hart, David Friesen e Wadada Leo Smith, entre outros. Não bastasse, Piotr atua também como professor na Polônia e nos EUA.
Além de exímio saxofonista tenor e soprano, Piotr utiliza também com muita competência os saxofones alto e barítono, além do clarone. Nitidamente influenciado pelo Hard Bop, sua linguagem é impregnada pela música clássica e popular, o que o torna um intérprete versátil. A modernidade de seu fraseado sabe dosar com equilíbrio a técnica com a beleza, fazendo com que seus seis álbuns como líder possam ser apreciados não apenas pelos cultores do Neo-Bop, mas também por qualquer ouvinte que goste de boa música. Para os amigos deixo as faixas Tingel Tango e St. Louis Blues, retiradas do álbum Tango, gravado em 1996 para a Polonia Records. Com Piotr estão Jacek Niedziela (b) e Adam Czerwinski (d).















