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03/07/2011

Jazz criollo - Cafés e lojas de CD



Em nossa última viagem a Buenos Aires, em fevereiro de 2011, pudemos constatar que nem só de livrarias e bifes de chorizo vive a capital argentina. Em cada boa esquina você encontra agradáveis cafés, alguns deles centenários, como é o caso do lendário e pouco comentado Café de Los Angelitos, situado na Av. Rivadávia, 2.100. Inaugurado em 1890 pelo italiano Bautisto Fazio com o nome de Bar Rivadavia, o local com piso de terra e instalações precárias virou ponto de encontro da malandragem da época, reunindo uma série de payadores, espécie de repentistas, poetas improvisadores que, acompanhados ao violão, desafiavam-se uns aos outros, entre eles Gabino Ezeiza, Higuito Cazon e Jose Betinotti.



Devido à proximidade com o edifício do Congresso da Nação, o Café contava também com a frequência de muitos políticos, sempre dispostos a produzir aclamadas e infrutíferas discussões, como era o caso de figuras como Hipólito Irigoyen, José Ingenieros e Alfredo Palacios. Em 1920, ao ser adquirido pelo espanhol Ángel Salgueiro, o bar recebe seu nome atual que, segundo a lenda, faz referência à índole "angelical" de seus frequentadores, sempre vigiados de perto pela polícia. Torna-se também cada vez mais um ponto de encontro de artistas e intelectuais, como Carlos Gardel. Embora tenha fechado suas portas durante quinze anos (1992-2007), o Café de Los Angelitos voltou a funcionar, apresentando alguns dos melhores espetáculos de tango da cidade, agora com atenciosas funcionárias e instalações confortáveis para bem receber os turistas.



Já o Café Tortoni (primeira foto acima) é um clássico bastante conhecido e frequentado pelos turistas, onde é oferecido um show de tango mais estereotipado. Contudo, os bons músicos, suas instalações históricas e sua própria história valem a visita. Apesar de seu sucesso e importância, o site do café pouco informa sobre sua origem. Melhores informações podem ser obtidas no site Paralelo 35. Embora tenha sido inaugurado em 1858 pelo francês Jean Touan, é sob o comando de outro francês, Celestino Curutchet, que o Tortoni adquire seu nobre endereço atual e sua importância cultural. Diz a lenda que foram os olhos vivos de Curutchet, um homem pequeno de corpo e grande de espírito, que mantinha impecável a barbicha pontiaguda sob o casquete árabe de seda preta, que fez o sucesso do local. Talvez...

Situado na Avenida de Mayo, a meio caminho entre o Congresso e a Casa Rosada, o café era frequentado por pintores, escritores e músicos que, segundo o próprio Curutchet, se não podiam gastar muito, forneciam grande fama ao local, atraindo o público mais abastado. A forte imagem do café, portanto, foi construída ao longo de mais de cinquenta anos de dedicação de Curutchet, que esteve no comando do local até sua morte em 1925, aos noventa e sete anos de idade.



Já quanto às lojas de discos, é surpreendente o número das que ainda sobrevivem em Buenos Aires, principalmente nos bairros Recoleta e Palermo. Não faço a menor ideia de como elas competem com a internet, talvez mediante compras abusivas como as que realizei em diversas delas, do que resultaram duas boas centenas de álbuns, a maioria deles sobre músicos de jazz argentinos. Ou então sobrevivam apenas por cobrarem preços justos: o CD custa em média R$10,00. Bem, seja lá como for, para não ser cansativo, recomendarei ao amigo leitor apenas três delas: a Minton's, a Miles (Palermo) e a Notorious, esta última um misto de loja de CD, bar e casa de shows, onde se pode desembrulhar tranquilamente os álbuns adquiridos tomando um acolhedor café em seu diminuto e agradável jardim.

John Lester no jardim da Notorious, ouvindo jazz e visivelmente preocupado com a crise na Grécia.
Ele não sabia ainda, mas em poucas horas seria confrontado com um lauto chorizo e boas taças de um Catena Alta malbec 2002.


Foi lá, na Notorious, que conheci o saxofonista Piotr Baron, nascido em Wroclaw, Polônia, em 1961. Aos 16 anos já estava tocando jazz profissionalmente. Em 1984, recebe o prêmio de melhor solista no Jazz Aldia, festival de jazz em San Sebastian, Espanha. Além de trabalhar com grandes músicos da Europa, como Urszula Dudziak, Michał Urbaniak, Tomasz Stanko e Jasper Van't Hof, Piotr tem atuado também ao lado de grandes nomes do jazz norte-americano, tais como Art Farmer, Billy Harper, David Murray, Kevin Mahogany, Victor Lewis, Roy McCurdy, John Hicks, Marvin "Smitty" Smith, Kei Akagi, Joe LaBarbera, Billy Hart, David Friesen e Wadada Leo Smith, entre outros. Não bastasse, Piotr atua também como professor na Polônia e nos EUA.



Além de exímio saxofonista tenor e soprano, Piotr utiliza também com muita competência os saxofones alto e barítono, além do clarone. Nitidamente influenciado pelo Hard Bop, sua linguagem é impregnada pela música clássica e popular, o que o torna um intérprete versátil. A modernidade de seu fraseado sabe dosar com equilíbrio a técnica com a beleza, fazendo com que seus seis álbuns como líder possam ser apreciados não apenas pelos cultores do Neo-Bop, mas também por qualquer ouvinte que goste de boa música. Para os amigos deixo as faixas Tingel Tango e St. Louis Blues, retiradas do álbum Tango, gravado em 1996 para a Polonia Records. Com Piotr estão Jacek Niedziela (b) e Adam Czerwinski (d).


13/06/2011

Jazz Criollo - Argento Parrilla

                                                                                
É com grande prazer que recebemos em Vila Velha, Espírito Santo, o primeiro restaurante genuinamente argentino, situado na Rua Afonso Pena, 677, na Praia da Costa. O Argento Parrilla é comandado pelo simpático casal Fernando e Carol, sempre dispostos a nos acolher e servir da melhor maneira possível. A amizade foi, digamos, imediata. Após uma breve visita do casal à Casa Bonita, resolvi que deveria responder à altura ao espetacular lomo ao molho de malbec que o casal havia servido em minha última visita ao restaurante. Perguntando a Fernando se gostava de jazz, prometi a ele duas surpresas: apresentar-lhe um músico de jazz e um vinho argentinos que ele não conhecesse. Ele sorriu e disse que não acreditava que isso pudesse acontecer, dada sua vasta experiência sonora e etílica na terra das milongas. Preocupado, resolvi vasculhar minha desorganizada estante, em busca de algum músico bem estranho, sem esquecer de provar antes uma garrafa do vinho escolhido, um Bramare 2006, malbec produzido pela Viña Cobos, envelhecido 18 meses em barris novos. Ele já não é encontrado no site da Grand Cru, onde somente comparece o da safra 2008 que, acredito, deve manter o surpreendente equilíbrio entre elegância e potência, com a poderosa explosão de framboesa que pode até mesmo destruir narinas mais delicadas. A safra 2006 estava perfeita, agora só faltava o tal músico de jazz argentino...



Decidi por Barbieri. Ao chegar no restaurante, Fernando sorriu a valer, dizendo que possuía toda a obra de Leandro 'Gato' Barbieri, que adorava o saxofonista, etc e tal. Foi então que lhe perguntei se apreciava também a música do irmão do saxofonista, o trompetista Rubén Barbieri. Visivelmente surpreso, Fernando disse que nem sabia que Leandro tinha um irmão e muito menos que era um trompetista de jazz. Sacando do bolso o álbum Radio Auditions & El Perseguidor, solicitei ao amigo dos pampas que o colocasse a tocar. Partindo em direção ao meu segundo gol, coloquei sobre a mesa o tal malbec, identificado imediatamente por Fernando como um dos melhores produzidos na argentina. Jogo empatado em 1x1, só restou-me contar um pouco sobre a estória desse esquecido músico argentino.

Rubén nasceu em Rosario, no dia 12 de dezembro de 1928. Após algumas aulas com Alfredo Serafino, aos treze anos já apreciava o jazz (as primeiras influências ficaram a cargo das orquestras de Glenn Miller e Duke Ellington, líderes que fizeram com que se apaixonasse completamente pelo jazz) e aos quatorze já estava apto a tocar na orquestra de Adolfo de los Santos, onde conhece os trompetistas Tomás Lepere e Rafael Morelli. Em seguida, Ruben é convidado a tocar com René Cóspito, em Buenos Aires. Na década de 1950, ele e o irmão passam a frequentar o Bop Club de Buenos Aires, onde colocam em prática, respectivamente, os estilos lançados por Miles Davis e Lee Konitz, então considerados pioneiros do estilo cool jazz. É nesse ambiente fértil que conhecem grandes músicos argentinos, como o saxofonista Luis Horacio 'Chivo' Borraro e o trompetista Roberto Branca.

Além de apresentar o cool jazz à Argentina, Ruben manteve-se toda a vida na vanguarda, sobretudo por sua participação na Agrupación Nueva Música, também denominada Agrupación Nuevo Jazz, formada na década de 1960. Além de excelente instrumentista, Ruben destacou-se também como professor (Leandro foi seu primeiro aluno) e como compositor, chegando a compor a trilha sonora do filme El Perseguidor, de Osías Wilenski, baseado num conto homônimo de Julio Cortázar sobre Charlie Parker.

Embora atuante tanto como músico quanto como professor, Rubén nos deixou em 17 de março de 2006, em Buenos Aires. Para os amigos, as faixas La calle del delfin verde, Recordaré abril e Vida fácil. Com Rubén estão Rodolfo Alchourron (g), Jorge 'Negro' Gonzalez (b) e Norberto Minichillo (d). Imaginem ouvir esse som no Argento Parrilla, um restaurante que, respeitadas as normas básicas sobre o tema, não cobra a rolha! 

  

20/03/2011

Jazz criollo - Creole Jazz Band

Segundo o jornal britânico The Guardian, a segunda livraria mais bonita do mundo encontra-se em Buenos Aires: é a El Ateneo Grand Splendid, localizada na  Avenida Santa Fé, 1860, no bairro de Recoleta. A mais bonita do mundo, segundo o mesmo periódico, seria a  livraria holandesa Boekhandel Selexyz Dominicanen, instalada em uma antiga igreja, na cidade de Mastrich. Em terceiro fica a livraria portuguesa Lello, na cidade do Porto. O Brasil do PT, obviamente, não consta da importante lista. A livraria Ateneo foi instalada no antigo Teatro Grand Splendid, local onde se apresentaram alguns dos mais importantes artistas argentinos, entre eles Carlos Gardel. São 2.000 metros quadrados recobertos com belíssima cúpula, pintada pelo italiano Nazareno Orlandi. Construído em 1919, o teatro encontra-se em perfeitas condições de conservação, muito embora suas poltronas tenham sido substituídas por fartas estantes, os camarotes sejam utilizados como agradáveis ambientes de leitura  e o palco transformado em movimentado bar e café. A livraria recebe 3.000 visitantes por dia, do que resulta numa venda anual de mais de 700.000 livros, entre os quais gostaria de destacar Esquema de la música afroargentina, que reúne textos do estudioso Néstor Ortiz Oderigo, reunidos pelo editor Norberto Pablo Cirio.

Néstor foi um importante colaborador de diversos jornais e revistas. Seus primeiros artigos apareceram na revista Fonos, em 1928. Em seguida, escreve para La Nación, El Mundo, Associated Negro Press (Chicago), Oportunity (New York), Playback (New Orleans), Jazz Magazine (Inglaterra), Hot Club Magazine (Bruxelas), Música Jazz (Milão), Pensamento da América (Rio de Janeiro), Folha da Manhã (São Paulo), Ritmo (Madri), Quilombo (Rio de Janeiro), Rhythme (Holanda) e Australian Jazz Quarterly, entre muitas outras publicações. Em 1933, Néstor apresenta o primeiro programa de rádio argentino sobre jazz. Conforme ele mesmo afirma na página 325: "Creemos que el panorama que acabamos de trazar es suficiente para convencer al más remiso de la presencia africana en el ámbito de nuestro folclore y certificar, una vez más, el hecho de que los negros han contribuido a nuestra cultura en medida mucho más amplia de lo que los 'interesados' hispanistas, sin aportar pruebas claras y concluyentes, nos han querido hacer creer". Conclusão surpreendente quando verificamos que, durante os dez dias que passei vagando pelas ruas, cafés, livrarias, lojas e casas noturnas  de Buenos Aires, não encontrei um único negro. Afinal, perguntava-me incrédulo, por onde andam os negros desta cidade? Um taxista disse a mim, sem conseguir esconder um certo sorriso de satisfação no rosto,  que eles somente podiam ser encontrados nos bairros mais distantes e pobres da capital, sendo quase impossível localizá-los em regiões nobres e estabelecimentos sofisticados. Portanto, disse ele, eu poderia ficar tranquilo...

Talvez o taxista nem soubesse que a música que tocava em seu rádio fosse jazz, estilo que, assim como o tango, tem suas raízes na herança cultural negra. Sim, ele não percebia, mas o negro estava presente em toda a Buenos Aires, inclusive ali, dentro do táxi, através de sua música. A faixa que ouvíamos era Apex Blues, do genial clarinetista Jimmie Noone, executada pela sexagenária banda  argentina Creole Jazz Band, formada em 1957. Desde 1979 a banda mantém essencialmente a mesma formação: César Borsano (cl, arr), Guillermo Calliero (t), Edgrado 'Pucky' D'Alessandro (tb), Orlando Merli (ts), Juan Pablo Hournou (p), Alberto García (bj), Guillermo Delgado (b) - substituído no álbum Creole Touch por Adrián Minuchin (tba) -, Oscar Linero (d) e Eleonora Eubel (v). Embora haja outras bandas argentinas que tocam dixieland e swing, a Creole Jazz Band parece ser a única que possui vocalista, realiza arranjos próprios e apresenta composições originais. Em 1984, quando foi contratada pelo tradicional Café Tortoni, a banda tornou-se nacionalmente conhecida. Para os amigos deixo a tal faixa que ouvi no táxi, mais o clássico After You've Gone, ambas retiradas do álbum Creole Touch, gravado em 1994.




27/02/2011

Jazz criollo - Enrique Mono Villegas

A grande dúvida: o espetacular corte Cuvelier Los Andes 2006 deveria ter sido desarorolhado ou não? Seus 70% de malbec, com 10% de cabernet sauvignon, 10% de merlot e 10% de syrah estariam ou não prontos para beber? Paula Nadler objetou que, embora seus taninos já estivessem devidamente aparados e contidos, o corpulento corte argentino certamente envelheceria bem por mais um ou dois anos. Eu, após sorver até a última gota do escuro  e sedoso néctar, percebi que não havia qualquer sedimento na garrafa de rótulo simples e discreto. Fiz notar apenas que pagamos R$70,00 num vinho que é vendido por R$198,00 no Brasil, trazido pela Expand. Se erramos, saberemos apenas ano que vem, quando será aberta a garrafa de mesma safra que Paula contrabandeou para o Brasil em seu estojo de maquiagem. Perambulando pela cidade, passamos a conversar sobre outra grande paixão argentina: livros. Desconhecemos bibliografia disponível mais completa sobre o jazz argentino que El jazz criollo y otras yerbas, escrito por Walter Thiers e publicado pela Corregidor. Embora haja um bom número de livrarias em Buenos Aires, não é um livro fácil de ser encontrado. Da mesma editora, mas impossível de ser localizado, exceto, talvez, em sebos, é Memorias del jazz argentino: décadas del '40 e del '50, escrito por Ricardo Risetti. E, na era do mp3, formidável a quantidade e qualidade de lojas de cd's na capital porteña. Uma das melhores que conheci foi a Miles, localizada na Rua Honduras, em Palermo, um bairro agradável, muito arborizado, repleto de lojas, cafés, sorveterias e livrarias interessantes, como a Prometeo. E foi na Miles que encontrei uma fartura surpreendente de álbuns de jazz argentino. De pouco em pouco, fui distraidamente selecionando aqueles que considerei mais próximos a meu estilo predileto, o Hard Bop. Quando dei por mim, carregava 40 cd's nas mãos sedentas, ocasião em que fui abordado por gentil vendedora, oferecendo-me ajuda e perguntando se gostaria de uma cesta. Percebendo a situação absurda em que me encontrava, dirigi-me rapidamente ao caixa, aguardando a profunda punhalada em minha carteira. Mas que boa surpresa verificar que, em média, cada cd custava em torno de 25 pesos, algo equivalente aos nossos R$10,00, coisa inacreditável para quem está acostumado aos preços aviltantes do cd no Brasil. Feliz da vida, corri para o hotel, onde certamente poderia ouvir alguns álbuns antes de terminada a viagem.

Comecei pelo álbum Enrique Mono Villegas Vol. 2, lançado pelo selo Melopea, um dos melhores selos de jazz da argentina, reunindo em seu extenso catálago muitos dos principais músicos do estilo. Villegas nasceu em Buenos Aires, no dia 3 de agosto de 1913.  Órfão cedo, foi criado pelas tias, que sempre lhe deram muita liberdade para fazer o que quisesse. Aos sete anos, já tocava Mozart corretamente. Aos nove, conhece o jazz através do professor Alberto Williams, que lhe permitia tocar todos os estilos, desde o tango até o stride. Em 1932, estréia o Concerto para piano e orquestra, de Ravel, no Teatro Odeón, em Buenos Aires.  Por essa época, dedica-se mais seriamente ao jazz, tendo por norte músicos como Art Tatum, Fats Waller, Duke Ellington e Louis Armstrong, influências que mais tarde seriam complementadas por músicos do Bebop. Também em 1932, estréia Rhapsody in Blue, de Gershwin. Na década de 1940, Villegas compõe (Jazzeta, primer movimiento) e lidera uma série de formações, como o Santa Anita Sextet (com o trompetista Juan Salazar, o clarinetista Panchito Cao e o saxofonista tenor Chino Ibarra) e o combo Los Punteros (com o saxofonista Bebe Eguía).

Em 1955, segue para New York, onde gravaria com Milt Hinton e Cozy Cole, para a Columbia. Apaixonado pelo cinema, permanece nesta cidade, assistindo a todos os filmes que pode, além de tocar em diversos bares de jazz, onde trava contato com músicos como Cole Porter, Count Basie, Nat King Cole e Coleman Hawkins. Em 1957, em Cleveland, teve o privilégio de ouvir Duke Ellington, uma de suas primeiras influências. Na década de 1970, já de volta à Argentina, apresenta-se para um público de 20.000 pessoas, interpretando novamente a Rhapsody in Blue, no clube Vélez Sarsfield. Em 1975, apresenta-se no Teatro Cólon, tocando jazz. Sua estranha figura encurvada, com olhos penetrantes e mãos ariscas, foram os responsáveis por uma série de apelidos, tais como quasímodo, duende e mono (macaco). Apaixonado também pelas mulheres e pela noite, Villegas foi um dos artistas mais importantes de sua geração, daí suas amizades com gente como o escritor Jorge Luis Borges, o pintor Xul Solar e Astor Piazzola, que lhe dedicou o tema Villeguita. Embora ricamente influenciado pela música folclórica, seu estilo demonstra um domínio perfeito da inteligência delicada de um Bill Evans e da genialidade rude de um Thelonious Monk. Para os amigos, deixo a faixa Blue Orchids , retirada do álbum acima citado.


30/11/2009

Elas também tocam jazz: Paula Shocron

Na Argentina, nem só de malbec vive o vinho, nem só de tango vive a música. Em Luján de Cuyo, região de Mendoza, certos dias permitem a belíssima visão de brancas montanhas congeladas sobre um imenso tapete verde formado por centenários vinhedos, alguns deles contendo excelentes cepas de cabernet franc, essa prima mais leve e suave da cabernet sauvignon, utilizada nos cortes de Bordeaux e nos varietais do Vale do Loire. Há também jazz na Argentina. Paula Shocron nasceu em Rosário, no dia 17 de março de 1980. Inicia seus estudos de piano clássico em sua cidade natal, ao mesmo tempo em que se interessa pela música popular e, aos dezesseis anos, conhece o jazz. Após estudar na Escuela de Música de la Universidad Nacional de Rosario, Paula decide-se pelo jazz e, aos vinte anos, passa a se apresentar em Buenos Aires. Em 2001, recebe uma bolsa de estudos da Berklee, mas permanece na Argentina em virtude da crise econômica que assola o país. Incentivada pela bolsa, segue trabalhando com o jazz, participando dos grupos Fuga de Cerebros (trio) e La Revancha (quarteto), com quem grava o álbum La intensidad del jogo. Em 2003, forma um trio com Ada Rave (ts) e Daniela Horovitz (v), recebendo elogios da crítica. É nesse período que consolida sua colaboração com o guitarrista Marcelo Gutfraind, com quem grava o álbum Percepciones, pelo selo BlueArt, em 2004. Além de atuar como sidewoman, Paula lidera seu próprio trio, formado por Jerónimo Carmona (b) e Carto Brandán (d). Em 2005, Paula grava La voz que te lleva, primeiro álbum de piano solo de uma pianista de jazz argentina, recebendo boa acolhida pela crítica internacional. Nesse mesmo ano, recebe o prêmio Clarín, na categoria revelação. Para os amigos fica a faixa Evidence , de Monk, retirada do álbum La voz que te lleva, que traz três composições de Thelonious Monk, interpretadas de maneira absolutamente sensível, inteligente e original. Para quem tem interesse no piano Post-Bebop, obviamente repleto de sotaque porteño, Paula é uma gratificante opção. Seu domínio técnico não chega a manifestar-se de forma opressiva, oferecendo um inteligente suporte quando atua como acompanhante, enriquecendo o discurso solista com discretas frases ora solenes, ora repletas de humor. Mas é como solista que sua presença marca, exatamente pela tensão que consegue descrever, seduzindo o ouvinte de maneira quase imperceptível. Quando damos conta, já estamos entregues aos jogos harmônicos dessa moça que, embora seja leve e suave como uma cabernet franc, tem a persistência típica dos melhores malbecs de Mendoza. Quanto ao vinho argentino que recebeu 96 pontos de Robert Parker, trata-se do Pulenta Estate Gran Cabernet Franc 2006, produzido na pequena vinícola dos irmãos Hugo e Eduardo Pulenta, em Luján de Cuyo, região irrigada pelo degelo da Cordilheira dos Andes e submetida a uma magnífica amplitude térmica. Recomendo ambos, pianista e vinho.

14/08/2008

Jazz na Argentina

No Clube de Jazz nosso amigo Wilson Garzon relembra, recupera e vasculha o jazz produzido na vizinha Argentina que, ao contrário do futebol, tem boas coisas a nos apresentar na música. A seguir o texto do especialista: " Antecedentes - Meu primeiro contato ficou por conta do pianista Lalo Schfrin que fazia parte do quinteto de Dizzy Gillespie, no álbum “An Electrifying Evening with the Dizzy Gillespie Quintet” onde fazia solos em “Kush” e “The Mooche”, que se pareciam como solos de um músico brasileiro. Mas quem me marcou de vez foi o saxofonista Gato Barbieri, que antes de fazer grande sucesso com a trilha de “Último Tango em Paris”, gravou em 1971 “Fenix”, álbum em que interpretava com técnica e talento “Falsa Bahiana” de Geraldo Pereira e “Bahia” de Ary Barroso”, tendo a seu lado Ron Carter, Lonnie Smith e Lennie White. Outra presença, esta muito maior, ficou por conta do mago Astor Piazzolla em obras marcantes como “Maria de Buenos Aires” e principalmente nas suas gravações com Gerry Muligan. Depois de um breve tempo fui também apresentado ao trompetista Fats Fernandez, mas esse foi um caso isolado.

Clube de Jazz

A partir de 2004, com a entrada do site no ar, meu contato com o jazz argentino, aos poucos deixou de ser uma curiosidade e se tornou um tema relevante no meu trabalho de divulgar e promover o jazz. Primeiro, foram os shows que assisti da “Antiqua Jazz Band” e a “Porteña Jazz Band”, nos festivais dedicados ao hot jazz & swing. Segundo, e mais importante, foi o contato que fiz com o produtor fonográfico e empresário Ruben Bondoni. Além de publicar uma entrevista e divulgar cds da sua gravadora MDR, pude conhecer grupos contemporâneos de jazz porteño, como o Escalandrum, Pablo Ziegler & Quique Sinesi, Manuel Ochoa, Gustavo Bergalli e Jorge Navarro, entre outros. Mas não me deixou satisfeito, pois tinha conhecido apenas a ponte do iceberg d o jazz argentino. Para resolver essa demanda reprimida precisava de viajar até Buenos Aires.

Viagem

A minha viagem para Buenos Aires, além dos naturais interesses históricos e turísticos, existia um propósito maior: o de conhecer as melhores casas de jazz da cidade, conversar com os músicos, entrar em contato com as gravadoras, livrarias, programas de rádio e jornalistas dedicados ao jazz. Tudo, com certeza, não conseguiria, mas tinha que começar de algum ponto. Nesse momento, agradeço aos músicos Marcelo Coelho e Marvio Ciribelli que me abriram seus contatos para que eu pudesse conhecer Buenos Aires da melhor maneira: regada a muita música de qualidade.

Encontros

O primeiro contato foi com o saxofonista Rodrigo Dominguez, que fez parte da banda de Mariano Otero e que havia gravado recentemente “Amistad” em conjunto com outros três músicos. Nosso encontro se deu no jazzclub “Virasoro”, junto com o produtor Fernando Tarrés, que também dirige o selo Baú Records. Aos poucos me inteirava sobre o jazz da vanguarda argentina ao mesmo tempo em que escutava uma gig comandada pelo baterista Pepe Taveira e pelo tecladista / trompetista Enrique Norris. O próximo encontro se deu com o talentoso guitarrista Alejandro Demogli onde também pude conhecer as influências berkleeanas sobre o atual jazz porteño.
Mas, foi só com Ruben Bondoni, dono do jazzclub Notorious e do selo MDR é que pude entender o jazz argentino como um todo. Aos poucos fui apresentado ao veterano guitarrista Walter Malosetti, e também a Raul Barboza e Juan Falú; a nova geração representada pelo contrabaixista Mariano Otero e pelo pianista Ernesto Jodos, entre tantos outros. Ao final de uma semana, fiquei com o gosto de quero mais. Um bom palpite pode ser o festival de jazz que acontece pelas salas e parques na primavera de Buenos Aires. Mas, para orientar a quem se interesse pelo jazz argentino, listo abaixo uma pequena agenda, onde estão incluídos jazzclubs e alguns cds, distribuídos por gravadoras.


Pequena Agenda


Casas de Shows

1 – Thelonious Club
Salguero 1884 – 1º. Piso – Palermo
Tel: 4829-1562
www.theloniousclub.com.ar

2 – Notorious Bar
Av. Callao 966 - Centro - Buenos Aires
Tel: 4813-6888/4815-8473
www.notorious.com.ar

3 – Virasoro Bar
Guatemala 4328 - Palermo - Buenos Aires
4831-8918 - info@virasorobar.com.ar
www.virasorobar.com.ar

Cds / Gravadoras

1 – MDR Records
Av. Callao 964 - 6º "D" - C1023AAP - Buenos Aires
www.mdrrecords.com.ar
Ruben Bondoni – director

. Walter Malosetti – Palm
. Pablo Ziegler & Quique Sinesi – Buenos Aires Report
. Escalandrum – Visiones
. Manuel Ochoa – Manare
. Raul Barbosa – Dos orillas
. Banda Hermética – El calendário de los sonidos
. Manolo Juarez & Daniel Homer – Quarteto
. Ernesto Snajer – Despues de todo (em vivo)
. Altertango – Tormenta
. Beto Caletti - Tess

2 – Baú Records

. Rodrigo Dominguez – Tonal
. Mariano Otero - A Través
. Bárbara Togander - Lovemanual
. Fernando Tarrés - Perplexity
. Ramiro Flores – Flores

3 – Blue Art

Paraguay 727, 9 Piso, Oficina 8. S2000CVO Rosario, Argentina.
Tel.: Argentina: 0341 411 7929
Exterior: 00 54 341 4117929
Horacio Vargas / director:
www.blueart.com.ar

. Paula Schocron – Urbes
. Sued + Dominguez + Mandelman + Oberson – Amistad
. Ernesto Jodos – Solo
. Jorge Migoya – Casi solo(s)
. Mauri Sanchis – Good Vibes !!

4 – S Jazz

. Juan Cruz de Urquiza – De este lado
. Juan Cruz de Urquiza – Vigilia
. Pepi Taveira – BsAs Inferno
. Natalio Sued – Mirada Esquiva
. Mariano Otero – D Forma

Outros Cds

. Ale Demogli, Hill Greene & Oscar Giunta – 3:30
. Ernesto Jodos – Tristano/Konitz/Marsh/Bauer
. Jorge Cutello – Just in Time
. Norris, Verdinelli & Otero – Mes
. Oscar Edelstein & Raul Barboza – Dos Improptus
. Adrian Iaies – UnoDosTres
. Mariano Otero – Três
. Mariano Otero – Ca4tro".


Para os amigos, Gato Barbieri com Falsa Bahiana ( ).