Sempre fui atacado por afirmar que a Third Stream é como um encorpado tinto californiano semelhante a um grand cru borgonhês. É certo que o vinho da California, assim como o jazz ali produzido, sempre demonstrou singular apreço pelos modelos europeus clássicos, muito embora a produção de jazz e vinhos varietais possa dissimular, num primeiro momento, essa inegável empatia histórica. E, na tentativa de comprovar nossa teoria, já traçamos breves notas anteriores sobre a Third Stream em nosso blog, o que demonstra não somente nosso apreço pelo vinho californiano, como também nossa simpatia por esse estilo de jazz menos festejado. Quando falamos em Third Stream logo nos vêm à cabeça os álbuns que Jacques Loussier gravou na década de 1950 com seu trio, onde temas de Bach serviam de pretexto para seus improvisos. A expressão 'third stream' fora inventada por Gunther Schuller em 1957, tendo como principais protagonistas músicos como John Lewis, pianista do Modern Jazz Quartet, J.J. Johnson e Bill Russo, além do próprio Schuller. A difícil associação entre a música clássica européia e o jazz tem sofrido de males estruturais que, dadas suas envergaduras, condenaram o movimento quase que exclusivamente ao improviso sobre temas clássicos famosos, muito embora sejam louváveis os esforços no sentido de uma combinação menos óbvia. Assim como no famoso julgamento de Paris, onde especialistas de renome foram incapazes de diferenciar os vinhos californianos dos vinhos franceses, há casos em que não somos capazes de distinguir nitidamente se aquilo que ouvimos é ou não third stream. Vejam o caso da faixa a seguir - - que é o primeiro andamento do segundo concerto de As Quatro Estações, de Vivaldi, interpretado pelo Roma Trio: Luca Mannutza (p), Gianluca Renzi (b) e Nicola Angelucci (d). Saúde!
