Tendo Mr. Lester perdido o controle de um Ford 1954 em péssimo estado durante suas pesquisas in loco nas vielas de Havana, ocasionando um dos maiores atropelamentos de barraca de frutas já registrado na capital cubana, cá estou eu tentando manter vivo o Jazzseen, enquanto Mr. Lester é interrogado em alguma cela anônima e úmida da ditadura. Não há como falar da música cubana sem falar da trova. Assim como os troubadours medievais, os trovadores cubanos também perambulavam pelas cidades, vivendo daquilo que conseguiam arrecadar com suas apresentações. Daí sua formação típica ser em duo – uma guitarra e duas vozes, pois quanto maior o conjunto, menor o quinhão a receber. Na verdade, a trova tem sua origem no folclore rural, tornando-se uma das primeiras manifestações da música popular tipicamente cubana. Aparecendo no final do século XIX, atinge seu apogeu durante as décadas de 1910 e 1920, desaparecendo na década de 1950, até que o camarada Castro promove um revival do estilo. Contendo elementos da guaracha, da habanera, da rumba, do son e do bolero, entre outros, a trova tomou conta de Cuba, sendo tão comum nas ruas de Havana que os visitantes a consideravam música nacional. Durante a década de 1910 diversos trovadores gravariam em New York, entre eles Maria Teresa Vera (1895-1965), considerada a maior trovadora de todos os tempos e, dizem, a mais bonita. Maria começou estudando guitarra e aos quinze anos já se apresentava profissionalmente. Apesar de se apresentar sozinha em algumas ocasiões, Vera consolidou sua carreira em excelentes duos, em especial com Rafael Zequeira, Miguelito Garcia e Lorenzo Hierrezuelo. Teve também seu próprio grupo, o Sexteto Occidente. Além de seu sucesso em Cuba, Vera esteve diversas vezes em New York, onde gravou vários álbuns e se apresentou com a orquestra de Manuel Corona, além de se apresentar no México. Como compositora, seu principais sucessos foram Las Perlas de tu Boca e Veinte Años, esta última colocada a disposição do amigo visitante na radiola abaixo. Hasta luego!
¿Qué te importa que te ame,
si tú no me quieres ya?
El amor que ya ha pasado
no se debe recordar
Fui la ilusión de tu vida
un día lejano ya,
Hoy represento el pasado,
no me puedo conformar.
Si las cosas que uno quiere
se pudieran alcanzar,
tú me quisieras lo mismo
que veinte años atrás.
Con qué tristeza miramos
un amor que se nos va
Es un pedazo del alma
que se arranca sin piedad.