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20/01/2009

20 degrees north, 40 degrees west

Essa porcaria de telefone tocando às três da madrugada só poderia ser Mr. Bravante com mais uma de suas conversas malucas, e era, querendo trocar informações sobre um tal de Rudresh que um tal de MauNah havia descoberto através de um comentário que um tal de BraGil teria feito no tal de “O que estamos ouvindo” do blog Charuto Jazz. Tentei desconversar, dado o adiantado da hora, mas Mr. Bravante não me permitiu dizendo que se Rudresh merecia atenção específica do mais antigo blog sobre jazz do Brasil, então o Jazzseen também deveria se posicionar quanto aos músicos geniais desconhecidos ou esquecidos pelo público. Tentei argumentar que, estando ele na hora da sesta na Andaluzia, pouca ou nenhuma informação conseguiria a respeito do vendedor de esfihas Rudresh. Num último e desesperado lance foi então que recomendei a meu amigo espanhol ouvir alguma coisa do excelente pianista e compositor polonês Andrzej Trzaskowski nascido na Cracóvia em 23 de março de 1933 e que começou a tocar piano ainda criança para logo em seguida estudar musicologia na universidade além de receber aulas particulares de composição e teoria musical contemporânea ao mesmo tempo em que atuava no estúdio experimental da rádio polonesa. Assustado, Bravante tentava balbuciar alguma coisa do outro lado da linha, mas continuei falando sobre Trzaskowski e a formação em 1951 do Melomani, um dos primeiros grupos poloneses aptos a tocar swing e bebop, a participação em 1958 do quinteto Jazz Believers, com quem grava ao lado de Wojciech Karolak e Jan Wróblewski, além do trabalho desenvolvido em outro quinteto liderado por Jerzy Matuszkiewicz, para em 1959 formar seu próprio quinteto denominado Wreckers com o qual esteve em turnê pelos EUA. 


Tentando despedir-se apressadamente Mr. Bravante foi obrigado a ouvir que Trzaskowski gravou com diversos músicos norte-americanos em viagem pela Polônia como Stan Getz e Ted Curson além de servir de mentor para diversos jovens músicos europeus talentosos em início de carreira como Zbigniew Namyslowski, Tomasz Stanko e Michal Urbaniaki, além de incorporar elementos de vanguarda ao seu trabalho a partir de 1964 atuando em Hamburgo na Norddeutscher Rundfunk, compondo prolificamente, participando de workshops até que em 1975 passa a liderar a orquestra da rádio e televisão polonesa sobressaindo-se como compositor, escrevendo música para teatro e cinema, balés, jazz-sinfonias, uma delas executada por Don Ellis em 1962, embora seu talento como pianista seja considerável conforme o amigo poderá conferir na faixa The Hip Blues retirada do álbum Five Degrees East - Five Degrees West gravado em 1965 com Idrees Sulieman (t, as), Leo Wright (f), Michal Urbaniak (ss, ts), Rolf Kühn (cl, ts), Ronnie Ross (bs), Roman Dylag (b) e Rune Carlsson (d), sim, uma participação discreta e sutil, mas que comprova a competência do compositor como instrumentista. Por Alá quando dei por mim o espanhol já havia desligado o telefone e adormeci.

31/05/2007

Jazz no gueto

Essa nossa paixão pelo jazz é mesmo uma loucura. Foi conversando com Linda Desrosier, uma simpática funcionária do Jewish Museum In Prague, nos idos de 2003, que descobri algumas estórias muito bonitas sobre o jazz feito nos guetos. Um dos maiores músicos populares da Checoslováquia, Kamil Behounek (1916-1983) foi um mestre autodidata do acordeão. Em 1935 conheceu o diretor de orquestra Gramoklub, com a qual gravou, em 1936, para o selo Ultraphon. Também atuou como violinista e compositor. Trabalhou com o cantor Karel Leiss, gravou em 1939 com o grupo Blue Music, liderado pelo baterista Karel Slavík e atuou com os líderes de banda Emil Ludvik, R A Dvorský e Karel Vlach. Em 1944 formou seu septeto, tocando em rádios, gravando e se apresentando com regularidade no Lucena Bar, em Praga. Trabalhou também na Alemanha Ocidental, para onde se mudou definitivamente em 1948 após a revolução comunista na Checoslováquia.

Ao contrário de Behounek, o arranjador checo judeu Fritz Weiss teve mais dificuldade de fazer jazz. Perseguido pelos nazistas, Weiss foi levado para o gueto Terezin e, dois anos depois, para o campo de Auschwitz, onde morreu. Com imensas dificuldades, além de ser submetido à toda sorte de humilhações, a mais simbólica delas sendo a estrela afixada em suas roupas, Weiss sempre lutou para produzir jazz, sua paixão maior. Sujo, mal alimentado e quase sem esperanças, Weiss conseguiu ludibriar o feroz controle nazista, produzindo seus arranjos nada arianos para serem executados por uma banda cheia de 'estrelas'. Assim, sua música sobreviveu à estupidez daqueles anos e, no cd In Defiance of Fate, lançado pelo tal Museu Judeu de Praga (visite AQUI), pode ser ouvida no acordeão de Behounek. Para os amigos, circuncidados ou não, deixo as faixas Na programu máme swing e V lednu je máj, ambas gravadas em 1940. A senha de acesso aos arquivos é jazzseen. E não morra sem visitar Praga, uma linda cidade. Que loucura esse tal de jazz...