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09/07/2011

Voz - Luciana Souza

Como diz em seu próprio site, Luciana Souza é uma das mais expressivas e importantes cantoras de Jazz da atualidade. Vencedora do Grammy junto a Herbie Hancock em seu aclamado disco “River – The Joni Letters” em 2008, Luciana também foi nomeada ao prestigioso prêmio com quatro de seus próprios discos: "Brazilian Duos" em 2002, "North and South" em 2003, and "Duos II" em 2005, e seu ultimo disco, “Tide” de 2009. Todas as suas gravações foram aclamadas pela crítica mundial, incluindo “Neruda” de 2004, e seu famoso “The New Bossa Nova” de 2007, produzido por seu esposo, o talentoso Larry Klein, e considerado pela Billboard Magazine como “Latin Jazz Album of the Year”. Luciana Souza nasceu em São Paulo, em 1966, filha dos compositores Walter Santos e Tereza Souza. Cresceu num ambiente extremamente musical, e já era veterana de estúdios aos dezesseis anos, tendo participado em mais de 200 jingles.   

Premiada com bolsas de estudo, Luciana graduou-se no renomado Berklee College of Music, de Boston, em composição, e fez seu mestrado no New England Conservatory. Como professora, Luciana lecionou na Unicamp, Berklee College of Music, e na Manhattan School of Music, de New York. Seu trabalho como cantora transcende barreiras tradicionais de estilo, oferecendo sofisticação e profundidade musical tanto em Jazz, como em Música Popular Brasileira, bem como música clássica, tendo cantado com as maiores orquestras dos Estados Unidos (New York Philharmonic, Boston Symphony Orchestra, Los Angeles Philharmonic, Chicago Symphony) e do mundo, incluindo a OSESP, em repertório que inclui Manuel de Falla, Jobim, Osvaldo Golijov, entre outros.

Seu último lançamento, “Tide”, na Universal Records, apresenta Luciana como compositora e intérprete sem igual. Seu canto é considerado “perfeito” pela Billboard Magazine, que declarou que “Tide” é um dos melhores discos de 2009. Produzido por seu esposo, Larry Klein, “Tide” conta com a participação dos veteranos Romero Lubambo, Cyro Baptista, Vinnie Collaiuta, Larry Goldings, Larry Koonse, e Rebecca Pidgeon. Luciana consegue fazer definitivas interpretações de “Adeus América” e “Sorriu Para Mim”. O grande poeta Brasileiro Paulo Leminski é homenageado, bem como o Americano e.e.cumming, em belas canções musicadas por Luciana.

Luciana Souza já participou de concertos e gravou com músicos do calibre de Herbie Hancock, Paul Simon, Bobby McFerrin, Milton Nascimento, Maria Schneider, Danilo Perez, John Patitucci, Hermeto Pascoal, e Chris Potter, entre outros. Em 2005, Luciana foi premiada como Melhor Cantora De Jazz pela Jazz Journalists Association.

Para os amigos, deixo as faixas Corcovado e Chega de Saudade, retiradas do álbum Norte e Sul, lançado em 2003 pela Sunnyside. Com ela estão Fred Hersch (p), Donny McCaslin (ts), Scott Colley (b) e Clarence Penn (d).



E, aproveitando o friozinho, seguem cinco dicas de vinhos nacionais a bons preços:

Aurora Reserva Tannat 2009 - Após dez meses em barricas de carvalho francês e americano, este tinto da Serra Gaúcha surpreende com seus aromas de frutas vermelhas, embora seus taninos selvagens impressionem as bocas mais sensíveis. Na faixa de R$28,00.

Pequenas Partilhas Carmenère 2009 - Outro bom vinho da Aurora, dessa vez com taninos mais comportados e bom volume após meia hora de decantação. Por volta de R$37,00.

Merlot Reserva Pizzato 2006 - Também da Serra Gaúcha, mais precisamente do Vale dos Vinhedos, este tinto passa sete meses em barris de carvalho, o que lhe fornece bom equilíbrio, com taninos suaves e acidez correta. Na faixa de R$37,00.

Dal Pizzol Touriga Nacional 2009 - A cepa portuguesa saiu-se bem neste tinto nacional, de cor profunda, persistente na boca com seus elegantes taninos. Por volta de R$45,00.

Pizzato DNA99 2005 - Merlot de boa safra produzido em Bento Gonçalves, com especiarias e bom equilíbrio. Na faixa de R$110,00.

Bom inverno a todos!


11/04/2011

O primeiro livro brasileiro sobre jazz e a multiplicação da rapadura

Tudo corria bem durante nossa última reunião do Clube das Terças até que Dr. Frutuoso, o mais novo sócio do clube, retira de sua maleta preta um estetoscópio, dois bisturis, um volume com as poesias completas de Cruz e Souza e um imenso envelope de radiografia de tórax contendo dois pequenos objetos não imediatamente identificados, e pergunta: qual o primeiro livro de jazz escrito por um brasileiro? Como quem não quer nada, Reinaldo finge estar distraído e segue em direção ao lavabo. Rogério, fitando o novo sócio por cima dos óculos, batuca calmamente sobre a mesa, dando a impressão de que a pergunta de Dr. Frutuoso é, no mínimo, elementar. Chico, o maior especialista em sebos do Espírito Santo, termina de beber seu terceiro litro de água mineral gasosa e coça a cabeça, como que empurrando a memória, e diz: já estive com esse livro na mão! Era uma capa preta, com letra vermelha, eu acho. João Luiz, sem conseguir esconder um certo ar de satisfação sob a sobrancelha impecável, afirma: o primeiro livro brasileiro de jazz é Jazz Panorama, escrito por Jorge Guinle e publicado em 1953 pela editora Agir! Sorrindo sempre, Dr. Frutuoso limita-se a perguntar "tem certeza disto?". Nesse instante, aproximam-se John Lester e Tobias Serralho, confabulando animadamente sobre o sucesso de vendas do livro Confesso que ouvi, lançado por Érico Cordeiro, em Vitória. Quando souberam do enigma proposto por Dr. Frutuoso, entreolharam-se, como que concedendo um ao outro a oportunidade de esclarecer a questão.

Foi então que Tobias nos contou da existência do livro Pequena História do Jazz, escrito por Sérgio Porto e publicado também em 1953, pela Imprensa Nacional. Assim é que, disse o amigo maranhense, nunca saberemos ao certo qual o primeiro livro brasileiro sobre jazz. Lester, então, intervém, lembrando que, na introdução de Jazz Panorama, Vinicius de Morais afirma que o trabalho de Guinle é pioneiro no Brasil. Sem afastar a invencível credibilidade do poetinha, Tobias faz registrar em ata que, na introdução da Pequena História do Jazz, Sérgio Porto afirma que "este pequeno trabalho é o primeiro que se faz no Brasil".

Nesse instante, aproxima-se André, o mais enciclopédico dos sócios. Informado em detalhes sobre o acirrado embate, confirma que, salvo novas provas, ninguém sabe ao certo qual dos dois livros foi publicado primeiro. Mas ressalta a semelhança forte entre os dois trabalhos: ambos traçam um breve histórico sobre as origens do jazz, as primeiras influências das work songs, dos spirituals e do blues. Os dois falam sobre os três primeiros grandes estilos do jazz: o New Orleans, o Chicago e o Swing. E, também nos dois casos, terminam suas anotações falando sobre os estilos Bebop e Dixieland (chamado de Renascença). Poderíamos, continuou André, afirmar mesmo uma certa identidade estrutural: ambos apresentam algumas fotografias - sendo que, nos dois livros, aparecem fotos de Jelly Roll Morton e Louis Armstrong; ambos apresentam informações bibliográficas e recomendações discográficas.

John Lester, então, observa que Sérgio Porto confessa explicitamente em sua obra ter utilizado fartamente as informações constantes do livro Estética del Jazz, escrito pelo musicólogo argentino Néstor Ortiz Oderigo, um ferrenho tradicionalista que via o Bebop como verdadeira aberração musical. A influência de Oderigo sobre Sérgio Porto é flagrante, sobretudo nas passagens em que o brasileiro analisa o Bebop. Leiamos alguns trechos:

"Os solistas do be bop, nas suas execuções, sacrificavam, não só o swing - aqui empregado na sua verdadeira significação - como também a melodia de seus coros, que são tocados a toda velocidade, num afã de alinhar notas e diminuir as quintas, pelo puro prazer do virtuosismo. Com esse processo, sem dúvida mais original do que melódico, resulta profundamente monótona a execução".

"Não só a melodia e o swing são sacrificados na escola que abordamos. A improvisação e o ritmo também, longe estão de se enquadrarem dentro das características do jazz".

Segundo Sérgio Porto, os solos individuais do Bebop não correspondem "aos verdadeiros anseios do jazz, que requer a improvisação coletiva". Afirma ainda que o ritmo sofreu profunda deturpação; que a guitarra tornou-se dispensável; que a bateria, "ao invés de ocupar-se da pulsação - verdadeiro mister da bateria e da qual depende o eixo do solista - torna-se independente, não havendo nenhuma relação entre o baterista e o músico solista". "O apoio daquele à improvisação deste, resume-se numa série infindável de breaks que, diga-se de passagem, são perfeitamente dispensáveis". Atingindo os limites da ortodoxia, Sérgio diz:

"Creio que não seria demais afirmar que o instrumento de percussão, tocado como está sendo no bop e tocado como deve ser no jazz, torna-se o mais eloqüente exemplo de que uma música não tem nada a ver com a outra" e

"Ao invés de encontrar novos caminhos para a música de jazz, conforme fora a intensão (sic) no início do movimento, o be bop criou uma outra expressão musical, completamente diferente do jazz, em suas características básicas".

Coitado do Parker, resmungou Fernando Achiamé boquiaberto com as esmagadoras críticas de Sérgio ao Bebop. Ato contínuo, João Luiz II coloca a faixa Just Friends , gravada por Charlie Parker em 1951, no Birdland, com Walter Bishop Jr. (p) Teddy Kotick (b), Roy Haynes (d) e orquestra, perguntando: será que Sérgio ouviu esse álbum?

Enquanto as luzes do shopping se apagavam, Lester completou suas impressões sobre os dois livros, advogando a favor de Guinle. Filho de 2 bilhões de dólares, o maior playboy do Brasil esteve lá em New York quando o Bebop nasceu, ao lado de gente como Charlie Parker e Dizzy Gillespie. Sua visão do todo - vale lembrar que assistiu ao vivo também gente como Louis Armstrong, Duke Ellington, Billie Holiday - é mais ampla e mais vívida, sem deixar-se impregnar pelos preconceitos que o novo costuma engendrar nas mentes menos flexíveis. E, tanto em quantidade quanto em qualidade de informações, Guinle apresenta o livro mais completo.

Finalmente, Dr. Frutuoso abre o tal imenso envelope, retirando de lá um raro exemplar da Pequena História do Jazz e uma saborosa barra de rapadura, repartida fraternalmente conosco.    

                 

09/03/2011

Samba também é jazz - Lula Galvão

Foi grande a confusão quando Chico Brahma chegou ao Clube das Terças afirmando que, finalmente, conseguira destilar uma excepcional tequila em seu quintal. Sim, com a garrafa em punho, ele passaria a narrar toda sua grande aventura a um público boquiaberto e atento. Embora de origem polonesa, mais afeita à destilação da vodka a partir de batatas ou beterrabas, Chico ouvira falar que mais à direita, na Rússia, as melhores vodkas eram produzidas a partir do centeio, com eventuais adições de trigo, aveia ou cevada. "Mas o importante é a qualidade da água", advertiu Fernando Achiamé, lembrando que a presença de metais pesados é que causam dor de cabeça. Considerando que o quintal de Chico fica localizado na Praia do Canto, em Vitória, o terroir desaconselhava a plantação de grãos, daí Chico também ter desistido da produção do uísque a partir da cevada ou do milho,  voltando todos os seus esforços para a produção de grappa e conhaque, dois famosos destilados obtidos a partir do vinho. Conforme John Lester havia advertido, a excessiva umidade gerada pelo microclima capixaba, aliada ao fato da pequena exposição solar em seu quintal, resultou no aparecimento de fungos e pragas nefastas, dando fim a suas  três belas videiras de touriga nacional, cepa clássica de Portugal.  Inconformado, aquele homem de bochechas rosadas e pés ligeiros passa  um breve período tentando produzir sidra a partir das belas maçãs e pêras colhidas em seu florido quintal. Seguindo as orientações da família Bockmann, de Campos do Jordão, Chico passa a destilar um excelente calvado (brandy) a partir da sidra, utilizando a técnica que John Lester havia introduzido em New Orleans, onde produzira excelentes applejacks. Infelizmente, contando com apenas uma macieira e uma pereira, a produção anual não chegava a duas doses, fato que o levou a abandonar o projeto.

Rejeitando mais uma vez os conselhos de John Lester, Chico põe na cabeça que obterá gim e steinheger, bi-destilados obtidos a partir do mosto de bagas de zimbro, arbusto que ele mantinha com orgulho em seu diversificado e bem cuidado quintal. Esquecendo-se que a planta é típica do clima temperado do hemisfério norte, observa novo fracasso. Antes que desistisse de produzir seu próprio destilado, Chico aceita o conselho de Lester e passa a trabalhar com mosto de abacaxi, nossa nativa e dulcíssima bromeliácea. A variedade escolhida foi o abacaxi pérola, que além do belo fruto, fornece belas flores. Ainda seguindo a orientação do velho amigo, Chico planta alguns pés de agave que, além de ornamentarem lindamente qualquer espaço, ainda poderiam nos fornecer alguma tequila caso tudo desse certo. E deu! Ao contrário do abacaxi, o agave azul demonstrou grande rendimento em álcool no preparo do mosto fermentado, auxiliando consideravelmente o processo de destilação. Embora detenha alguma semelhança com o abacaxi, a piña retirada do agave azul (foto abaixo) é venenosa e pode alcançar  extraordinários 70kg. Após cozidas em panela de pressão, as piñas eram moídas com o motor do velho Gol 1981, que Chico preservou com muito carinho. Após a fermentação, era só esperar que as altas temperaturas do alambique fornecessem o néctar mexicano.


Emocionado, Chico confessou que muito de sua inspiração era devida ao falecido Lula Galvão, o grande e bigodudo crítico de gastronomia e vinho, responsável por mais de trinta anos de deliciosas matérias publicadas no Estadão. Antes que Chico pudesse terminar sua homenagem ao grande jornalista, João Luiz Mazzi intervém, dizendo que Lula Galvão nunca escreveu em jornal e está vivinho da silva! O nome do expert em comes e bebes é Saul Galvão, este sim falecido em 2009. Já Lula Galvão é um dos melhores guitarristas brasileiros em atividade. Aproveitando o clima carnavalesco, Pedro Nunes trouxe à baila a impressionate retirada de cabeças dos integrantes da Unidos da Tijuca: como eles retiravam as cabeças dos pescoços daquele jeito? Lester respondeu que, infelizmente, ninguém retirou a cabeça de Roberto Carlos, o que certamente o silenciaria para todo o sempre. Sem que mais ninguém à mesa prestasse atenção à tequila, passamos a ouvir o excelente álbum Bossa da Minha Terra, gravado para a Biscoito Fino. Nascido em Brasília, além de guitarrista, Lula é também excelente violonista e arranjador, daí ter trabalhado com artistas como Guinga, Rosa Passos. e Cláudio Roditi. Improvisador nato, começa a tocar violão aos quinze anos, mas somente aos 18 dedica-se seriamente ao instrumento.

Como demonstra ao longo do álbum, Lula domina o idioma do Bebop com fluência pouco usual entre instrumentistas brasileiros. Há também, embora discreta, a nítida influência da música clássica, estilo a que vem se dedicando nos últimos tempos. Amante da exuberante e rica música popular brasileira, Lula reconhece a influência de gente como Victor Assis Brasil, Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Hélio Delmiro e Hector Costita em sua formação inicial. Irmão do baterista Zequinha Galvão e do contrabaixista e compositor Carlos Galvão, Lula integra o conjunto Pagode Jazz Sardinhas Club, com o qual já lançou dois álbuns. Para os amigos, deixo duas faixas, na companhia de Idriss Boudrioua (saxofone), Fernando Moraes (piano), Sérgio Barrozo (contrabaixo), Rafael Barata (bateria), além das participações especiais de Rosa Passos, Cláudio Roditi, Raul de Souza e Mauricio Einhorn.



18/11/2010

Forró também é jazz: Frank Marocco

Ele é produzido apenas nos anos em que o enólogo decide que a colheita foi boa, dizia Tobias  Serralho enquanto eu tentava ouvir o solo de Frank Marocco, um dos mais respeitados acordeonistas dos EUA. Frank nasceu em Illinois no dia 2 de janeiro de 1931 e passou a infância num subúrbio de Chicago. Foi por lá que, aos sete anos de idade, iniciou os estudos do instrumento. Durante nove anos, além de tocar na banda escolar, foi instruído por George Stefani, sua primeira importante fonte de inspiração. Mais tarde, estudaria com o consagrado acordeonista Andy Rizzo, um dos mais influentes acordeonistas norte-americanos. Com dezessete anos, Frank vence um concurso nacional de acordeão, fato que o encorajaria a dedicar-se integralmente à música. Veja só, disse Tobias assim que o solo de Frank terminou: ele é cem por cento touriga nacional! Eu nem sabia que havia uma uva brasileira Lester! Antes que pudesse a explicar a Tobias que a touriga nacional não é uma cepa nativa do Brasil, Frank voltou a solar. Pois bem, após formar seu trio, Frank passa a se apresentar no nos estados do centro-oeste, onde conhece a esposa Anne, em Indiana. Já casado, decide fixar residência em Los Angeles e, já com um novo grupo, Frank passa a se apresentar em bares, clubes e hotéis de Las Vegas e Palm Springs. Ao mesmo tempo, aproveita as boas oportunidades oferecidas pelos estúdios de cinema e televisão, produzindo uma série de trilhas sonoras importantes, além de comparecer como sideman numa infinidade de shows e gravações. Ouça aqui sua interpretação de Four Brothers, retirada do álbum Jazz Accordion, lançado em 1979 pela Discovery.


Terminado o excelente 2º Festival Internacional de Juazeiro, que durante seis dias de shows reuniu o jazz de Frank Marocco, o tango do argentino Hector Del Curto, as melodias mediterrâneas do italiano Antonio Spaccarotella com os mais populares nomes do forró brasileiro, como Dominguinhos, Oswaldinho do Acordeom, Cicinho de Assis e Targino Gondim, pude finalmente verificar o estado deplorável em que se encontrava o velho amigo Tobias Serralho. Acostumado às doses homeopáticas da cachaça artesanal que produz em seu engenho em Petrolina, o poderoso organismo de Tobias não suportou adequadamente em jejum as três garrafas de Rio Sol Winemaker’s Selection Touriga Nacional. Produzido com a cepa nativa mais tradicional de Portugal, seu afinamento em madeira ocorre durante seis meses em barricas de carvalho francês. Vermelho-grená intenso e brilhante, possui aromas complexos que lembram frutas negras bem maduras, como amoras e framboesas, notas de pinheiro, chá earl grey e especiarias. Sedutor e encorpado, com taninos nobres. Fiquei absolutamente surpreso que, em pleno clima semi-árido, pudesse ser produzido um vinho tinto com tamanha qualidade, considerando seu custo: R$39,00.

Criada em 2002 pela vinícola Portuguesa Dão Sul, a Vinibrasil é um dos mais recentes e inovadores projetos da viticultura e enologia no mundo por ser a única a produzir vinhos de qualidade internacional na latitude 8° sul. Localizada no interior do Estado de Pernambuco, às margens do rio São Francisco, a Vinibrasil já conta com uma área de 200 ha de vinhas, de um total de 1.600 ha, das variedades Cabernet Sauvignon, Syrah, Alicante Bouchet, predominantemente, além das variedades portuguesas Touriga Nacional e Tinta Roriz. Toda essa área está equipada com um dos mais modernos sistemas de fertilização e irrigação, que torna possível a produção em condições semi-áridas. Desde sua criação, seus vinhos têm sido distinguidos com diversos prêmios nacionais e internacionais. Atualmente exporta para mais de 15 países.

Enquanto preparava um javali com pimenta rosa para acompanhar o convincente tinto, Tobias colocou a faixa Cavaquinho , de Ernesto Nazaré, retirada do álbum Appassionato, lançado em 2008 pela Barvin. Depois ficamos ouvindo Dominguinhos, Oswaldinho do Acordeom, Targino Gondim e Cicinho de Assis, interpretando respectivamente Eu Só Quero um Xodó, Lamento de Sertanejo, Vida de Viajante e Esperando na Janela. Enquanto isso, o luar do sertão abraçava a noite.

04/09/2010

Lenda viva: O estranhíssimo desaparecimento de Zecalouro

Milhares de visitantes têm consultado o Jazzseen acerca do desaparecimento de nosso amigo Zecalouro, ou Zeca Louro como querem alguns. Afinal, qual o paradeiro do responsável pelo blog Loronix, visitado por mais de 3.000 pessoas por dia, ávidas pelos milhares de álbuns raros de MPB ali postados, com belas capas e links para downloads em MP3?

Certos tipos apostam em sua morte, outros em algum profundo estado de coma ou, na melhor das hipóteses, afastado de suas atividades virtuais em função de alguma doença terminal que lhe teria imobilizado todo o corpo. Creio que, felizmente, os pessimistas estão errados. Segundo a revista Carta Capital, Zecalouro está vivo e passa bem. Foi até entrevistado, vejam só: “Acho estranho jogar na rede o trabalho de alguém que ficou dez anos sem gravar e agora fez um disco. É sacanagem”, afirma Mauro Caldas, de 44 anos, integrante de banda punk no Rio de Janeiro dos anos 80, que hoje trabalha em informática e é o único dos blogueiros entrevistados a abrir publicamente sua identidade. Ele usa o codinome Zeca Louro no Loronix, um dos mais atuantes e abrangentes blogs musicais do Brasil. Escrito em inglês, recebe em média 3,2 mil visitas por dia e já foi acessado em 191 países, segundo Caldas. “Loronix só publica o que é antigo, sem nenhuma possibilidade comercial. Essa distinção a indústria sabe fazer muito bem”, diz, para justificar o fato de nunca ter sido incomodado ou ameaçado. Ao contrário: “Gente da indústria vem até mim, pergunta se tenho determinado disco, pede a capa se vai relançar. Eu colaboro”. (Leia o resto da entrevista sobre pirataria aqui).

Outros rastros de Zecalouro podem ser encontrados no site Clube de Jazz, onde verificamos que o desaparecido está trabalhando com Maria Luiza Kfouri, a responsável pelo belo site Músicos do Brasil. Vejam o que ela diz sobre seu novo projeto, a Enciclopédia Instrumental:  Por causa do Discos do Brasil acabei por conhecer um carioca louco por música, Fernando Barcellos Ximenes. Ele já tinha um grande banco de dados de instrumentistas brasileiros e há muito tempo projetava fazer um recenseamento dos músicos do Brasil. Ele me propôs juntarmos nossos trabalhos e nós entramos no edital de seleção de patrocínios da Petrobras em 2005/2006. Nosso projeto foi selecionado e, daí, foi só arregaçar as mangas e começar o trabalho. Fernando chamou Mauro Caldas, o Zecalouro do blog Loronix, para coordenar a parte de tecnologia e, assim, fomos construindo a Enciclopédia.

Assim sendo, só nos resta desejar sucesso ao amigo Zecalouro em seu novo projeto, amigo que tanta felicidade musical nos proporcionou através do Loronix. Em sua homenagem, deixamos a faixa  So Nice Summer Samba , com o trompetista Doc Severinsen. E antes que algum leitor mais ortodoxo diga que Doc não é músico de jazz, argumentamos que alguns álbuns gravados pelo trompetista são a 'cara' do Loronix, como o Swinging & Singing, de 1966.


Doc Severinsen nasceu em Arlington, Oregon, no dia 7 de julho de 1927. Iniciou os estudos musicais aos 7 anos e, em menos de um ano, já tocava o trompete tão bem que passa a integrar a banda do colégio. Aos 12, vence o Music Educators' National Contest e inicia sua vida de músico profissional, apresentando-se com a orquestra de Ted Fio Rito. A partir de 1945, após terminar os estudos secundários, atua em uma série de big bands, entre elas as de Tommy Dorsey, Charlie Barnet e Benny Goodman. Aos 22 anos, muda-se para New York, onde passa a trabalhar para a NBC e atuar como músico de estúdio, gravando ao lado de cantoras como Dinah Washington e Anita O'Day. Em 1952, é contratado pela orquestra de Skitch Henderson, com a qual se apresenta no famoso programa Tonight Show, de Steve Allen.

Em 1962, quando Johnny Carson assume o programa, Doc fortalece sua posição na orquestra, permanecendo ligado ao Tonight Show por mais de 25 anos e tornando-se, assim, um dos trompetistas mais conhecidos dos EUA. Ainda na década de 1960, Doc grava uma série de álbuns de Swing para a gravadora Command. Ainda no final da década, passa a gravar uma série de álbuns com forte apelo popular, embora eventualmente volte-se ao bom e velho Swing, como em 1985, quando grava o álbum The Tonight Show Band, recebendo o Grammy de Best Jazz Large Ensemble Recording.

Depois da saída de Carson, em 1992, Doc é dispensado do Tonight Show. Decide então reunir os melhores instrumentistas da antiga banda do programa e sair em turnê pelo país. Entre seus músicos, vale destacar os trompetistas Conte Candoli e Snooky Young e os saxofonistas Ernie Watts e Bill Perkins. Como se não bastasse, Doc atua ainda como maestro em diversas orquestras sinfônicas, realiza uma série de workshops sobre seu instrumento, apresenta-se como líder em pequenas formações, sem falar que desenha e fabrica trompetes. Verdadeira lenda viva, com agenda cheia até 2011!

Para os amigos fica uma segunda faixa, After You've Gone , retirada do álbum Tempestuous Trumpet, gravado em 1961. E, para os amigos do Zecalouro, seguem aqui os álbuns 1 e 2. Boa audição!

12/04/2010

Jazz no Café da Travessa

16 de abril - 20h30 - Cleber Alves Trio - Cleber Alves (saxofone), Milton Ramos (contrabaixo acústico) e André "Limão" Queiroz (bateria) - Repertório: Standards de jazz (Sonny Rollins, John Coltrane, etc...), instrumental brasileiro e composições autorais - Couvert: R$ 8,00 - 23 de abril - 20h30 - Daniela Rennó & Márcio Bahia Quarteto - Daniela Rennó (vibrafone), Márcio Bahia (bateria), Matheus Barbosa (guitarra) e Fred Heliodoro (contrabaixo) - Repertório: Clássicos de Hermeto Pascoal, Milton Nascimento e composições autorais. Couvert: R$ 8,00 - 30 de abril - 20h30 - Delaretti Trio - Fernando Delaretti (teclado), Marcus Marangon (contrabaixo) e Felipe Amorim (bateria) - Repertório: Standards do jazz de Miles Davis, John Coltrane, Herbie Hancock e Wayne Shorter, entre outros - Couvert: R$ 8,00. É.

23/02/2010

Jazz na Caixa

CAIXA CULTURAL SÃO PAULO APRESENTA MOSTRA 'O JAZZ BRASIL' - Workshops e a diversidade de intérpretes marcam a segunda edição desse festival - Com patrocínio da Caixa Econômica Federal, a mostra 'O Jazz Brasil' é um festival de música brasileira que traz o panorama da música instrumental e cantada, baseada na improvisação e inventividade do jazz. Será uma oportunidade única para o público paulistano conhecer, no Grande Salão da Caixa Cultural São Paulo (Sé), os trabalhos solísticos de instrumentistas que muitas vezes são mais conhecidos como acompanhantes de cantores e cantoras importantes do país. Esse evento acontece entre os dias 23 de fevereiro e 06 de abril de 2010, às terças-feiras, em dois horários (19 e 20h). Por todo o mundo acontecem festivais de jazz similares, onde é possível celebrar o momento pelo qual o gênero pode ultrapassar fronteiras, incorporar sotaques e transformar-se em um novo fazer musical. Esse projeto surge em um momento de iniciativa e demonstração do panorama musical e instrumental que promove a união de novos talentos e referências musicais consolidadas na música brasileira. Será uma oportunidade em que o público entrará em contato com músicos de notória importância, e outros que demonstram trilhar caminhos sólidos, porém questionadores. Por tantas mudanças sociais deflagradas por ingredientes tecnológicos que parecem ser tão pragmáticos, propor ao ouvinte um formato musical, de características opostas ao descrito, com exercícios instantâneos de criação, arranjo, timbre e poesia, indubitavelmente significa um convite à reflexão.



Programação:



Praticatatum 23/02 às 19h

Marlui Miranda 23/02 às 20h

Martini Blues 09/03 às 19h

Vanessa Jackson 09/03 às 20h

Lauro Lellis 23/03 às 19h

Banda Savana 23/03 às 20h

Sóprosbatuqueiros 06/04 às 19h

Léo Gandelman 06/04 às 20h



Workshops:

- Nos dias 09/03 e 06/04, às 15h

- ministrante: percussionista / vibrafonista Arlen Ribeiro (curador da Mostra O Jazz Brasil)



Sobre os artistas:

Praticatatum - 23/02 - 19h

O nome Praticatatum é decorrente da tentativa de expressar silabicamente o som de alguns instrumentos de percussão, tais como bumbo, surdo, caixa e pratos. Pra- seria a tradução do som da apogiatura na caixa, Ti- um leve toque no prato, Ca- um toque simples na caixa e Tum- uma batida no bumbo ou surdo. A apresentação será composta por 35 crianças e adolescentes carentes que residem no distrito Raposo Tavares, região oeste de São Paulo. Mas o projeto conta com a participação de mais 160 estudantes que fazem parte deste projeto. O projeto tem como proposta desenvolver, por meio da prática musical, as habilidades artísticas e intelectuais dos jovens participantes. O conhecimento musical conduz ao pensamento crítico e proporciona a seus envolvidos o contato com uma nova realidade repleta de manifestações culturais. Atualmente, o grupo incorporou outros instrumentos, além dos de percussão: o teclado, a flauta-doce, o cavaquinho, violão, o Disc Jockey (D.J.), a guitarra, o contrabaixo, o trumpete, o cornet, a tuba, o bombardino, o saxofone, o trombone e o xilofone.

Marlui Miranda - 23/02 - 20h

Nascida em Fortaleza e criada em Brasília, mudou para o Rio de Janeiro na década de 70 e estudou violão clássico com professores renomados como Turíbio Santos, Paulo Bellinati e outros. Tocou com Egberto Gismonti, Milton Nascimento, Jards Macalé, e em 1979 lançou o disco "Olho d'Água". Compôs trilhas para cinema e teatro e atua também como compositora. Suas músicas já foram gravadas por Ney Matogrosso, Sá & Guarabyra e outros. A partir da década de 70 passou a pesquisar e estudar a música dos índios brasileiros, atividade a que se dedicou por diversos anos. Ganhou bolsa de uma instituição nova-iorquina e realizou um projeto de preservação e recriação da música indígena da Amazônia brasileira. Com esse trabalho atuou como consultora de música indígena em filmes e eventos, gravou discos para o Brasil e para o exterior e produziu espetáculos, como a missa indígena criada a partir de músicas de tribos e apresentada na Catedral da Sé, em São Paulo, em 1997, com a participação de orquestra jazz sinfônica e coral. Em 1998 participou do disco "O Sol de Oslo", com Gilberto Gil, Bugge Wesseltoft, Trilok Gurtu, Rodolfo Stroeter e Toninho Ferragutti. Em 2009, Marlui participou de turnê com o The Ripple Effect e o lendário baterista Jack Dejonnette. Atualmente, além de seu trabalho solo, Marlui desenvolve trabalhos com o grupo Anima.

Martini Blues - 09/03 - 19h

Músico profissional desde os 17 anos, Martini já ultrapassou a casa dos trinta na estrada. Percorreu o mesmo caminho que seus ídolos: New Orleans, Chicago, New York. Brasileiro, viveu como um autêntico músico local, tocando em bares e clubes para refinar a técnica da voz e de sua guitarra. Estamos falando de um legítimo blues-man e mestre no swing originário de New Orleans, tocando sem a utilizaçao da palheta. Sua musicalidade foi influenciada por Robert Johnson, Big Bill Broonzy, Count Basie e Joe Turner. Apreciaremos uma apresentação repleta de swing e sutileza que poucos conseguem expressar.

Vanessa Jackson - 09/03 - 20h

Garota de origem humilde e criada num conjunto habitacional paulista, nasceu numa família de músicos. Seu tio, o pianista de samba jazz Dom Salvador, despertou nela o interesse pela música e aos treze anos já atuava como cantora em bares e restaurantes de São Paulo. Desde então passou a ser backing-vocal dos grupos Art Popular, Soweto e Wilson Simoninha. Foi eleita com 18 milhões de votos a melhor cantora do programa FAMA da Rede Globo de Televisão e isto proporcionou a gravação de seu primeiro disco solo na cidade de Los Angeles (Estados Unidos). Em seguida excursionou pela Europa, obtendo muito prestígio. Já cantou ao lado de Jimmy Cliff, Youssou N`Dour, Araketu, Roberto Carlos, Dog Murras, Erica Nelumba, Shaggy, entre outros. Neste show para a Mostra 'O Jazz Brasil' promete muito swing, energia e sofisticação. Não percam essa que uma das melhores revelações no canto da música brasileira.

Lauro Lellis Quarteto - 23/03 - 19h

Natural de São Paulo, é um dos melhores bateristas do Brasil e, com uma intensa experiência nacional e internacional, traz consigo a tradição e o swing da bateria brasileira, além da expressão artística. É também reconhecido como excelente professor e trabalhou com diversos artistas da MPB: Martinha, Miriam Batucada, Tetê da Bahia, Amelinha, Elba Ramalho, Djalma Dias, Vicente Barreto, Jarbas Mariz, Zé Miguel Visnick, entre outros. Desde 1990 atua com o cantor e compositor "Tom Zé". Apresenta-se nos principais palcos do mundo: Heineken Concert, Rock in Rio III, Mostra de Música Brasileira-Zurich, Mostra de Música Latina "Queen Elizabeth Hall" ( Londres), Moma - (Museu de Arte Moderna) - (New York ) Summerstage - Central Park - (New York - U.S.A), Du Morrier Jazz Festival - (Vancouver, Edmonton, Toronto, Montreal, Sask (Canadá), Drum Rhythm Fest Amsterdã - (Holanda), Expo 98 - Lisboa - (Portugal), Ruhrfestspiele - Recklinghausen - (Alemanha), "Trama Show Case"- L'Europeen - Paris (França), Fest. "Jazz en Vienne" , 39º Festival de "Jazz de Montreux" - Montreux Fest. "Tropicália" - Barbican Center - Londres, Fest. Spoken Word - Gijón, Sons da Diversidade - Santiago de Compostela. Será uma experiência rítmica inesquecível!

Banda Savana - 23/03 - 20h

Com 21 anos de estrada pelo Brasil afora e no exterior, esta banda fundada em 1988 e sustentada por 19 competentes músicos, sob o comando do trompetista, arranjador e maestro José Roberto Branco, já traçava um caminho: fazer música instrumental para concertos, divulgando, genuinamente, nossa música brasileira, com temas conhecidos e de criação própria. Em pouco tempo, tornou-se reconhecida por brasileiros e estrangeiros, como uma super big band brasileira, graças à sua original apresentação e seus inusitados arranjos. BANDA SAVANA é considerada a "mãe" de muitas outras bandas instrumentais brasileiras, que vieram depois, pois nela, qual celeiro de estrelas, passaram grandes músicos, que despontam em outras bandas conhecidas em nosso país. Em sua trajetória, a BANDA SAVANA já se apresentou nos mais importantes centros culturais de São Paulo e do Brasil. Sua música é tocada nos países da Europa e Japão. Também realizou diversos programas de TV e de Rádio, com destaque para o projeto Memória Brasileira - Arranjadores, apresentando a música de Pixinguinha ao lado de Moacir Santos, Eumir Deodato, Duda do Recife e Cipó, em concertos gravados ao vivo pela RTC, Rádio Televisão Cultura. Para 2010, um novo CD, o terceiro, já está sendo planejado pelo maestro Branco, sempre em evidência, o melhor da nossa Música Brasileira.

Orquestra Sóprosbatuqueiros - 06/04 - 19h

A orquestra é liderada pelo percussionista Arlen Ribeiro, que toca um repertório de canções brasileiras e latinoamericanas. Participam deste projeto importantes músicos paulistas, com seus estilos variados fazendo a diferença! É um privilégio assistir a tantos músicos juntos com uma notória excelência musical. Os músicos desta orquestra individualmente participam de diversos projetos com artistas extremamente renomados nacionais e internacionais. O som desta moçada nos aproxima dos grandes compositores de modo muito peculiar, haja vista o nome desse grupo, bastante sugestivo, que decorre do modo como os arranjos são elaborados, muito percussivos. Esta é uma oportunidade de conferir uma música feita de forma coletiva, com muita energia, improvisos e criatividade.

Léo Gandelman - 06/04 - 20h

Saxofonista, produtor, compositor e arranjador, a música sempre esteve presente na vida de Leo Gandelman. Filho de uma pianista clássica e de um maestro, aos 15 anos já era solista da Orquestra Sinfônica Brasileira. Além da sólida formação clássica, estudou no Berklee College of Music, nos Estados Unidos, regressando ao Brasil em 1979 para dar início à carreira profissional. Seu trabalho também foi lançado com grande sucesso nos Estados Unidos, onde Leo desenvolveu uma carreira notável na última década, com direito a seis temporadas de casa cheia no Blue Note de Nova Iorque. Com o trânsito fluente entre o Jazz e o clássico, participou como solista - em 2001 - dos concertos da Orquestra Sinfônica Brasileira no Lincoln Center e no Central Park. Voltando ao Brasil, Gandelman também foi solista da Orquestra Sinfônica da Bahia e de Ribeirão Preto (SP), entre outras, interpretando a Fantasia de Villa Lobos para Sax Soprano e Orquestra e o Concertino para Sax Alto, de Radames Gnatalli. O mesmo repertório o levou à Sala São Paulo, onde se apresentou com a OSESP em 2003, sob a regência do maestro John Nashling. Em 2004, Leo Gandelman foi solista convidado da Orquestra Sinfônica de Brasília, no Concerto da Independência, com um repertório de músicas brasileiras para o presidente Lula e convidados do governo. E em 2006 gravou um CD/DVD com a Orquestra Sinfônica da Petrobrás, sob a regência do maestro Isaac Karabtchevsky, do Concertino de Radamés Ganattali, que foi lançado pela Rádio MEC. Leo já gravou dez discos ao longo de sua carreira solo, tendo vendido mais de 500.000 cópias. Nos últimos anos tem realizado workshops e participado de diversos festivais em todo o país. Com o CD "Radamés e o Sax", Leo Gandelman ganhou o prêmio TIM 2007 como "Melhor Disco Instrumental" e "Melhor Produtor". Atualmente, o artista se dedica ao lançamento do novo projeto, em CD e DVD, "Sabe Você", pela EMI Music Brasil, numa linda releitura de baladas brasileiras contando com participações especiais de grandes nomes da MPB como Caetano Veloso, Chico Buarque, Milton Nascimento, Luiz Melodia, Leny Andrade, Ney Matogrosso, Joel Nascimento e Leila Pinheiro.

SERVIÇO:

Entrada: franca (os ingressos poderão ser retirados na bilheteria com uma hora de antecedência)

Capacidade: 100 lugares

Recomendação etária: livre

Patrocínio: Caixa Econômica Federal

08/11/2009

Jazzseen recomenda: Blog do Casé


Pois é, quando estamos prestes a desistir, encontramos forças em blogs insuspeitos, como o desenvolvido pelo jornalista Fernando L. Barros. Um monumental trabalho de pesquisa sobre um de nossos melhores saxofonistas: Casé. Leia o prefácio da coisa: "A pesquisa sobre o saxofonista Casé resulta de um trabalho independente, iniciado em 2004. Depois de quatro anos, cerca de setenta entrevistas, oito viagens e muitas visitas à famíla Godinho, a salões de baile, a discotecas e arquivos, recompôs-se a movimentada vida do músico. Mesmo antes de morrer Casé era citado como lenda. Façanhas atribuídas a ele ganhavam versões cada vez mais extravagantes. Para romper a folclorização crescente, a pesquisa apoiou-se em documentos e ouviu, além de familiares, músicos e admiradores que, de fato, conheceram o saxofonista. Inédito, o material traz informações sobre o apogeu e a decadência da música feita ao vivo, num tempo de pouca ou nenhuma tecnologia. Invariavelmente deixados em plano secundário, como simples acompanhantes escondidos atrás de estantes de partituras, os músicos aqui ocupam o lugar de protagonistas. Como eram na fase dos grandes bailes.

Foi num desses eventos que vi pela primeira vez Casé em ação. Movido por grande curiosidade pela música consegui, com 13 anos, entrar num baile destinado aos maiores de 14. Anunciado num clube de Catanduva (SP) pelo maestro da orquestra J. Rodrigues, o saxofonista solou o Harlem Nocturne. Por instantes - cena inédita para mim - o baile parou para ouvir aquele som redondo, perfeito. Evidenciava-se no palco o olhar reverencial dos colegas de Casé. Ao final da música, foram os primeiros a aplaudi-lo.

Sete anos depois, na mesma cidade, em Samba de Verão, um improviso arrebatador, de uma ousadia à época incomum, encheu os ouvidos dos casais que dançavam embalados por um inexpressivo conjunto da região. Lá estava ele, Casé, só de passagem, como era do seu estilo, mantido até dia em que sua morte foi destacada por todos os jornais de São Paulo, em dezembro de 1978." Não deixe de visitar.

03/11/2009

Jazzseen Recomenda - Forests – Brazilian Trio – Zoho Music (2008)

Sem vestir mangas bufantes e balançar maracás, o Brazilian Trio revela no título a orgulhosa origem dos três músicos radicados há mais de vinte anos no circuito dos melhores clubes de jazz de Nova York e New Jersey. Todos os três, felizmente, tendo ingressado pela entrada da frente na barreira da imigração. Duduka Da Fonseca e Nilson Matta (o artigo 'da' foi retirado do sobrenome para facilitar a fluência na pronúncia do inglês) são amigos e parceiros de longa data no Trio da Paz - conjunto que conta com o agregamento do guitarrista Romero Lumambo - e gravações em discos com o vibrafonista Joe Locke e o pianista Kenny Barron. Apesar de Maúcha, mulher de Duduka, ter sido vocal de apoio da “Banda Nova” - de Tom Jobim - se desconhece o peso na decisão do baterista em acatar – no ano de 1975 - a sugestão do maestro e “fazer do portão de embarque do Galeão a melhor saída para o músico brasileiro”. Nilson, por sua vez, graduou-se na UFRJ com o decano dos professores de contrabaixo, Sandrino Santoro, e seguiu mesmo destino de “check in” em 1985. Hélio Alves, caçulinha do grupo com 43 anos, veio de São Paulo onde foi discípulo da lenda da vida noturna paulistana – o contrabaixista Xu Vianna. Desembarcou na Berklee em Boston onde concluiu seu bacharelado de piano no ano de 1990. Juntos, separados ou individualmente os três vértices musicais do trio brasileiro tem longa lista de participação como importantes colaboradores – tanto como instrumentistas ou arranjadores - em gravações com Joe Henderson, Yo Yo Ma, Joe Lovano, Paquito De Rivera, Gato Barbieri, Harry Allen, Herbie Mann, entre outros. Em 2008 o trio produziu seu primeiro disco pelo selo Zoho de título Forests – indicado ao Grammy Latino como melhor álbum instrumental - cuja faixa Paraty de autoria de Nilson fica para deleite dos visitantes.

08/10/2009

Traditional Jazz Band Brasil

Vovô Acácio talvez fosse um sábio tamanha sua humildade. Por vezes exasperava vovó Tícia com sua postura absolutamente comunal, recolhendo na rua cachorros abandonados e mendigos maltrapilhos, transbordando para nosso dia-a-dia aquele sentimento de solidariedade característico dos agrupamentos de judeus e mouros, comunidades que a História sempre cismou em alijar. Ou praticando atos que desvelavam as origens das comunas, aquelas povoações da Idade Média francesa que conseguiam se emancipar do feudalismo, governando-se autonomicamente. Nunca soubemos em detalhes qual o papel que vovô desempenhou na tomada do trem blindado, mas a velha estante de jacarandá guardava exultante a carta de agradecimento de Ernesto, segundo a qual a tomada de Santa Clara não teria sido possível sem que vovô descarrilha-se o temível ferrocarril batistiano. Tio Bravante, que também esteve por lá naquele dezembro de 1958, sempre se manteve inerte quando buscávamos esclarecer os pormenores dessa que foi a batalha decisiva para a vitória da Revolução Cubana. Seis anos depois, retornando ao Brasil em virtude de suas divergências com Fidel, vovô Acácio decide que sua luta pela liberdade passaria a ser exercida exclusivamente através da música, mais especificamente através de uma banda de Dixieland. É assim que, em 1964, idealiza a Traditional Jazz Band Brasil, talvez a mais longeva banda de jazz do Brasil. Mesmo lecionando Física Quântica na USP - e tendo entre seus alunos Mário Bunge, o filósofo argentino mais ranzinza do mundo - vovô arranjou tempo para reunir um pequeno grupo de jovens universitários paulistanos dispostos a abandonar os cabelos compridos, as passeatas e os Beatles para tocar jazz. Os ensaios, é claro, eram raros, afinal estávamos na época da pílula anticoncepcional, o que tornava as noites mais longas e muito mais divertidas. Entanto a coisa foi tomando corpo: em 1966 o 'clube do bolinha' recebe a cantora Stella Maris, fornecendo ao grupo aquela pitada feminina deliciosa.

Na década de 1970, quem não era perseguido pela ditadura podia andar tranquilamente pelas ruas brasileiras, não havia assaltos violentos, nem balas perdidas ou milícias. De segunda a sábado a Traditional Jazz Band podia ser ouvida no OPUS 2004, na Rua da Consolação, número 2004. O local não existe mais e o que restaram foram apenas fotos e sorrisos antigos. Além da boa música, a banda sempre primou pela boa apresentação, sendo marcante o estilo de seus uniformes. Entre as muitas atividades programadas por vovô Acácio para a banda, uma delas causava-lhe desusado prazer, qual seja, a participação da banda em trilhas sonoras para o cinema, como foi o caso de Eros e Amor Estranho Amor, filmes de Walter Hugo Khouri realizados em 1981 e 1982, com destaque para o tema Eros Blues. Em 1989, com 25 anos de estrada, a TJB é considerada o melhor conjunto instrumental de jazz do ano, recebendo do Museu do Ingá, no Rio de Janeiro, o prêmio Victor Assis Brasil. Seguindo a linha dos musicais da Broadway, a TJB inicia a década de 1990 com o show Mr. Jazz, contando com a partcipação de bailarinos e cantores, além da presença de Miele no papel de Mr. Jazz. Em 1993, a TJB resolve partir pra cima e implantar o Show Train: o septeto, que já havia se apresentado em circos, igrejas e aviões, resolve instalar-se num vagão-palco, percorrendo mais de 16 estações ferroviárias do Estado de São Paulo, levando ao público música e alegria gratuitamente. Muita gente, que nunca tinha ouvido falar em jazz, virou fã.

Em 1994, para comemorar seus 30 anos de existência, a TJB encomendou um bolo com 2,3 metros de altura, do qual saíram 15 sapateadores durante o show realizado no Teatro Cultura Artística, em São Paulo. Dez anos depois, já considerada uma das mais importantes bandas de jazz da América Latina, a TJB comemora seus 40 anos com diversos eventos, entre eles o lançamento de um documentário sobre a banda e uma noite de autógrafos na Livraria Cultura, no Shopping Villa-Lobos. E aqui estamos, comentava vovô Acácio, repimpado em sua velha poltrona de couro, mascando seu Hoyo de Monterrey Epicure nº2. Eu por mim não acreditava em sua tranquilidade: ninguém sabe que ele, vovô Acácio, foi o verdadeiro idealizador da TJB, nem mesmo os próprios integrantes da banda têm conhecimento disso. Mas, segundo vovô, o que importa é que ela está aí, fazendo jazz.

No site da TJB você encontra muitas informações sobre seus integrantes, agenda e álbuns. Vale apena conferir. Para os amigos deixo uma das 3 seleções preparadas pela Rádio USP FM no programa dedicado aos seus 45 anos. As demais seleções podem ser ouvidas aqui. Beijos!

06/10/2009

Samba também é jazz - Hendrik Meurkens

Já fomos apedrejados diversas vezes durante estes três anos de luta em favor do jazz. Nunca soubemos quem atirou a primeira, mas a pedrada mais certeira foi desferida no dia em que firmamos a tese de que samba também é jazz, verdade apurada de forma empírica, é certo, através de longos anos de experimentos em bares suspeitos, clubes enfumaçados e becos soturnos. Mr. Bravante, um dos menos ortodoxos editores do Jazzseen, chegou a determinar teoricamente a relação íntima entre as linguagens musicais do jazz e do samba, relacionando o classic jazz e o dixieland com o chorinho, o bebop e o west coast jazz com a bossa nova e o free jazz com o axé e a jovem guarda. Sua interessante obra, contudo, jamais foi publicada adequadamente, encontrando-se esparsa em seus diversos endereços (Mallorca, Vila Isabel e New Orleans). De nossa parte, só nos resta reafirmar que samba também é jazz, samba também tem swing, também faz a gente 'sacudir' por dentro e seria bobagem negar que o samba, assim como o jazz, nasceu da hermenêutica negra operada sobre os conceitos musicais disponíveis em suas senzalas e arredores. E uma das testemunhas trazidas em nossa defesa é Hendrik Meurkens, vibrafonista e gaitista alemão capaz de rivalizar em técnica e sentimento com o mestre isolado da harmônica no jazz: o violonista Toots Thielemans. Hendrik nasceu em 1957 e tocava apenas o etéreo vibrafone até que, aos dezenove anos, ouve Toots tocando gaita e passa a experimentar o instrumento. Após estudar em Berklee, Hendrik passeia algum tempo pelo Brasil, na década de 1980, apaixonando-se por nossa música e gravando para o selo Bellaphon. De volta à Alemanha, fixa-se em Berlim, trabalhando em estúdios, gravando com a Danish Radio Orchestra e liderando seus próprios conjuntos de latin jazz, além de gravar com uma série de músicos importantes como Charlie Byrd, Manfredo Fest, Herb Ellis, Buddy Tate e Harry 'Sweets' Edson. Como líder, as gravações também são relevantes, sobretudo para os selos Concord e Zoho. Para os amigos navegantes deixo a faixa Vamos Nessa , gravada ao vivo em 2005 no Cecil's, clube de jazz que fica a poucos quarteirões da casa de Hendrik, em West Orange, New Jersey. Com ele estão os competentes Jed Levy (f, ts), Gustavo Amarante (b), Adriano Santos (d) e o excelente pianista Hélio Alves que dá um show à parte. E quem não sacudir que atire a primeira pedra!

04/10/2009

Clube do Jazz

Em nome da memória de Casé, saxofonista e gênio - Nessa entrevista concedida a Gustavo Kalil para o site Clube de Jazz, o jornalista e músico Fernando Lichti Barros nos conta sobre o seu trabalho em torno da preservação da memória de José Ferreira Godinho, o Casé. Gustavo Kalil - Conte um pouco sobre sua formação musical. Fernando Barros - Sou de uma família musical. O pessoal se reunia em casa e mandava bala: meu pai no piano, meus tios na sanfona, no pandeiro, na gaita. Dos seis aos dez anos estudei sanfona. Enquanto isso ia ouvindo o que caia na minha mão, numa época em que informação não andava, como agora, dando sopa por aí. Sou de 1953. Fazer um interurbano era dificílimo, as estradas eram péssimas, a televisão ainda não chegava lá. Para ouvir música, só se fosse no rádio, nos discos ou nos bailes. GK – E o jazz, quando é que ele apareceu na sua vida?FB - O jazz veio pelo rádio, pelo disco, pelo cinema, pela influência americana se esparramando no pós-guerra, pelo piano do meu pai, que tocava uns standards. Ele gostava muito de fox-trot. Nas festas familiares, regadas a hectolitros de vinho, meus tios paulistanos dançavam charleston. Duke Ellington, Cole Porter, Armstrong, essa turma toda tava no ar. E jazz, quando eu era criança, ainda era sinônimo de orquestra. Isso você vê nos livros em que o Érico Veríssimo retrata a década de 30. Não tive a sorte do filho dele, o Luis Fernando, com quem eu toco, de ver o Charlie Parker de perto. Leia a entrevista na íntegra aqui.

16/09/2009

Ave Maria Mater dei, Ora pro nobis pecatoribus

Como não agradecer a Mr. Lester? Com generosas mochilas às costas e todas as articulações perfuradas por mosquitos indomáveis, chegamos finalmente ao cume mais alto dos Pontões Capixabas, recanto considerado por Burle Marx como uma das mais lindas manifestações aleatórias da natureza. Sim, há dezenas de pequenos e médios ‘pães-de-açúcar’ espalhados a esmo ao longo de um belo descampado recortado pelas águas do Rio Pancas, um dos afluentes do Rio Doce, nas imediações do município de Colatina. Enquanto acariciava as reticentes bolhas adquiridas durante a colossal caminhada, ouvi Lester comentar: “foi aqui, disse saudoso, que Burle Marx descobriu a bela e curiosa Merianthera burle-marxii, um arbusto atarracado dotado de flores violetas, pertencente à família das Melastomataceae (bocas-negras), a mesma das Quaresmeiras.” Retirando de sua mochila o clarinete, Lester inicia solene uma emocionante interpretação de Ave Maria em ritmo de samba. Uma homenagem, segundo ele, a essa obra de arte natural esquecida por Deus e maltratada pelo homem. Em 2002, a área foi transformada em Parque Nacional e, recentemente, em Monumento Natural, permitindo, assim, a manutenção dos moradores na bela região, hoje palco cafeicultor. Todas estas deliciosas e tristes recordações vieram fáceis enquanto eu ouvia o álbum Worldbeat Bach, do clarinetista Richard Stoltzman, gravado em 1999 e que apresenta uma série de composições do barroco alemão em ritmo de jazz, samba e bossa nova. Além do domínio técnico exigido pelo rigoroso repertório clássico, que domina tranquilamente, Richard possui aquela rara sensibilidade do improvisador, que lhe permite frequentar o ambiente do swing ou do choro, graça concedida apenas a alguns poucos eleitos. Para os amigos fica a faixa Ave Maria - com Richard estão Gary Burton (vib), Peter John Stoltzman (p), Jeremy Wall (key), Romero Lubambo (g), Paul Meyers (g), Eddie Gomez (b) e Cyro Baptista (d) — e algumas informações adicionais sobre os Pontões Capixabas, retiradas do site Século Diário: “A região dos Pontões Capixabas, de Pancas a Ecoporanga - são oito municípios no total - tem área de 110 mil hectares. A área dos Pontões Capixabas já foi considerada a mais bela do planeta pelo paisagista Burle Marx, mas está devastada: perdeu a quase totalidade de suas matas nativas e, portanto, não tem mais água em abundância. Os predadores agora devastam os seus monumentos em granito.Cientistas e ambientalistas defendem a criação de um mosaico de unidades de conservação para os Pontões Capixabas. Entre as entidades que defendem esta proposta está o Conselho Natural da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica (CN-RBMA). Até agora não houve empenho em discutir um projeto para toda a região. O MMA e o governo do Estado sequer chegaram a liberar os recursos necessários para que a região fosse inteiramente fotografada do ar durante os estudos da área. A documentação aérea, passo essencial para saber o que resta de cobertura vegetal, só cobriu 90 mil hectares dos Pontões Capixabas. No processo de criação da unidade, o Ibama destacou a importância dos Pontões Capixabas. "A região noroeste do Espírito Santo foi, até o final da década de 1920, inteiramente coberta pela floresta atlântica. Com a cafeicultura, iniciou-se a ocupação mais intensa e a quase total transformação da área, fazendo com que hoje os remanescentes de vegetação nativa sejam muito raros. Uma particularidade regional ajudou a preservar alguns destes fragmentos, em locais quase inacessíveis: a presença de centenas de inselbergs, aqueles morros com formato de pão-de-açúcar, que conferem à região uma beleza singular.

Os maciços se distribuem por uma ampla região entre os municípios de Pancas e Ecoporanga. São compostos principalmente por granitos muito antigos, que originaram solos pobres e ácidos. Os rios que drenam a área são afluentes do Rio Doce e do rio Cricaré. O clima é do tipo tropical semi-úmido, com estação chuvosa no verão e seca no inverno. Dezembro e janeiro são os meses mais quentes e junho e julho os mais frios. A vegetação original é a floresta estacional semidecidual submontana. Esta floresta, onde parte das árvores perde as folhas na estação seca e fria, foi praticamente dizimada em sua área de ocorrência no Espírito Santo, substituída por agricultura e pastagem. Os remanescentes correspondem a áreas de maior declividade ou acesso difícil, como o topo dos pontões rochosos. Estes pontões formam vales fluviais alongados e encaixados, com relevo bastante abrupto, que criam condições peculiares para a floresta, em função de sombreamento, profundidade variável do solo e disponibilidade de água. A vegetação varia em pequenas extensões desde floresta subperenifólia de várzea e de encosta até florestas inteiramente caducifólias (onde a maior parte das árvores perde as folhas no inverno), nos sopés dos afloramentos, e vegetação rupestre sobre os afloramentos, criando condições que favorecem a existência de alta diversidade biológica. A fauna do noroeste capixaba foi muito pouco estudada e fortemente impactada pela ocupação humana e alteração do ambiente. Ainda são citados para a região a ocorrência da preguiça-de-coleira, da paca, do gato-do-mato, do gato-maracajá, do tamanduá-de-colete, do barbado, do sagui-de-cara-branca e da lontra, entre os mamíferos. Mais de 118 espécies de aves foram registradas.

14/07/2009

Cartoons em Jazz - Turi Collura

O pianista e compositor Turi Collura apresenta um espetáculo-performance, em que as músicas dos desenhos animados mais famosos ganham nova roupa ao som do jazz. A banda composta por 6 músicos e 4 cantoras apresenta as músicas de desenhos como Popeye, Batman, o Homem Aranha, os Flintstones, Pantera cor de rosa, Pica-Pau, Simpsons e outros clássicos revisitados por Turi Collura. Acompanham o show as projeções vídeo dos desenhos originais e outras criações que interagem com a música. As projeções dos cartoons reavivam a memória afetiva dos desenhos. Outras performances acontecem ao vivo durante o show garantindo um espetáculo rápido e brilhante. Considerados produtos para crianças, os desenhos animados divertem um público de todas as idades e suas músicas foram feitas por grandes nomes da música contemporânea. No final de dezembro de 2008 o espetáculo bem humorado foi eleito por um juri dojornal “A Gazeta” entre os melhores shows do ano, junto a Ney Matogrosso, Hamilton de Hollanda, Paralamas e Titâs. = No Rio = O Cinemathéque, no Rio de Janeiro, hospeda o show Cartoons em Jazz no dia 22 de julho, quarta-feira, a partir das 21h. Participam da data carioca Ney Conceição (baixo), Roberto Stepheson (sax), Leandro Soares (trompete) e Elias Corrêa Silva (sax).

09/07/2009

Álbum - Jazzseen Recomenda - Segundo o colunista Luiz Orlando Carneiro, o disco do guitarrista Victor Biglione “Uma guitarra no Tom" (selo Delira Música ) “é o melhor tratamento jazzístico em forma de trio da obra de Jobim” que o ilustre jornalista reconhece. Para tanto, Biglione utiliza uma criteriosa seleção pessoal da obra do compositor privilegiando, preferencialmente, sua própria sensibilidade pessoal como músico em conjunto à riqueza harmônica e melódica da obra. Nessa fascinante e quase espartana experiência, uma espécie de desafio criativo: a alteração da estrutura e andamento de conhecidas canções de apelo popular da bossa nova para forma de trio adicionou-se, sedutoramente, “novas tonalidades e cores” num caminho aparentemente esgotado. Nessa missão, Victor Biglione contou com o indispensável auxilio de seu trio formado pelo lendário baixista Sérgio Barroso - ex participante do histórico grupo Rio 65 no instrumento acústico - e nosso amigo, assíduo visitante e participante do Jazzseen - o baterista André Tandeta. Para audição dos visitantes fica a faixa Mojave , do mencionado trabalho, confirmando o entusiasmado endosso de Luiz Orlando.

26/05/2009

Te cuida, Egberto!

Orgulho-me de ter vários discos de Egberto Gismonti. Passei todo o domingo matinal ouvindo Água e Vinho, seu disco de 72, e o showzão com o baixista Charlie Haden em Montreal. Um amigo afirmou que orgulhar-se disso é fácil. Disse ele: “Orgulhar-se de estar casado por vinte anos com uma mulher bonita, compreensiva, gostosa e inteligente é moleza. Difícil é ter orgulho de estar casado com uma bruaca chata e lenta de raciocínio.” E concluiu: “Quero ver o cara orgulhar-se - e sair dizendo por aí - que possui todos os discos de Chitãozinho e Xororó.” Em outras épocas meu amigo teria razão. Hoje, não. A humildade foi para o espaço, escafedeu-se, volatilizou-se. Li uma entrevista em que o tal cantor Daniel afirma não compreender por que é considerando intelectualmente inferior a Edu Lobo. Chegando a Vila Velha, município da Grande Vitória, há um outdoor tamanho família, potentemente iluminado no qual se estampa a foto de uma dupla denominada João Neto & Frederico. Não sei quem são. Não sei e não quero saber, porque consigo, por meio de mínima dedução, entender que se trata de dupla caipira, sertaneja ou algo do gênero. Certamente vai lotar clube, estádio ou parque de exposições. Haverá gritinhos adolescentes e muitos pais preocupados porque as filhinhas ainda não chegaram e já é tarde da noite. E pensar que o show de Egberto Gismonti, há dois anos, em Vitória, contou com menos de 100 pessoas. Egberto Gismonti é um dos grandes músicos atuais, mas quem quer saber?

Egberto quem?, perguntarão, uníssonos, João Neto & Frederico. Tenham certeza: a humildade não existe mais. Egberto Gismonti que se cuide porque, talvez, nem entre para uma História escrita por adolescentes adoradores das duplas sertanejas, do axé, dos cantores evangélicos e do roquezinho nacional. Entendo essa triste realidade, mas vou ouvindo Gismonti assim mesmo.

19/05/2009

De Alfredo veio Johnny

A mais ambicionada experiência musical em meados dos anos 80 na cidade de São Paulo era concluída a goles de café e a margarina escorrendo pelos dedos proveniente do pão francês saído direto do forno. Eram as visitas matinais de finais de semana promovidas por amigos e conhecidos conduzindo alguns escolhidos fãs ao apartamento de Johnny Alf - localizado, na época, na sobreloja de uma padaria num bairro adjacente na zona central da cidade. Era a repetição da situação (sem pão,nem café) – da procura do público fiel, atento, quase capturado nos olhares e audição - que trinta anos antes reservava assento no bar do Plaza em Copabacana. Tom Jobim, Carlos Lyra,Luiz Eça e um baiano de hábitos estranhos recém chegado de Juazeiro chamado João Gilberto ocupavam lugar na platéia. Nara Leão, Roberto Menescal e o pianista Luis Carlos Vinhas mantinham-se,por medo, próximos a entrada do banheiro para,na even tualidade da presença do juizado de menores, escapulir pra dentro do cubículo.Com suas canções – algumas delas das mais notáveis do século XX do cancioneiro brasileiro. Forma de tocar piano – complexa e sofisticada. Estilo de cantar – aconchegante ,lírico numa balada e desconstruindo a divisão rítmica na voz num tema em bossa - fizeram de Johnny Alf uma espécie de farol da nossa melhor música “tornando sua luz” intima aos caminhos mais modernos que ela poderia trilhar. Nada disso surgiu de forma preconcebida ou elaborada. Alf nasceu Alfredo José da Silva em Vila Isabel , subúrbio do Rio de Janeiro, em 19 de maio de 1929. Filho de cabo do exército e empregada doméstica. Aos três anos de idade ficava órfão de pai e era obrigado a seguir junto à mãe ao trabalho pela ausência de creche ou alguém que “olhasse por ele”. Numa dessas residências ,pelo acaso do destino, rompe a barreira social ,aos oito anos de idade, atravessando o cômodo dos empregados em direção à sala de visitas.No piano que repousava na área o menino encontra sua familiaridade.Por generosidade da família , proprietária da casa,Johnny tem estudos custeados com a professora Geni Borges.Aos 14 anos forma seu primeiro grupo e como bolsista do colégio Pedro II entra em contato com o Instituto Brasil – EUA interessado em saber como se aprende inglês.Fundando,mais tarde, um pequeno núcleo dedicado ao intercâmbio da música brasileira e americana - apoiado pelo instituto - com sessões semanais direcionadas aos estudos das orquestrações,exibições de filmes e audições de concertos de jazz. Membro do Sinatra-Farney Club – fã clube dedicado ao culto de Frank Sinatra e Dick Farney - desde os 11 anos de idade, tem como colegas: João Donato, Paulo Moura e o cineasta Carlos Manga – líder do clã. Dentro das salas de cinema, aliás, Johnny passa grande parte de sua juventude assistindo sessões consecutivas de musicais,desenhos em longa metragem de Walt Disney interessado,especificamente, nas canções e nos arranjos das trilhas sonoras.
Com 23 anos de idade inicia peregrinação tocando piano no circuito das boates cariocas. Já se tornava então de Alfredo à Johnny Alf por sugestão de uma amiga antes de uma apresentação no programa de jazz de Paulo Santos na rádio MEC. Assim surgia o artista brasileiro mais jazzístico de seu tempo sem ter o menor conhecimento do que seria propriamente isso.Em algumas das boates em que trabalhava dividia sessão com outro pianista chamado Newton Mendonça.Parceiro de carreira e de vida curta ,autor de quinze preciosidades eternas com Tom Jobim entre elas: “Meditação”, ”Foi a Noite”, ”Desafinado” e “Caminhos Cruzados”. Newton Mendonça segundo os estudiosos, tinha equivalência em conhecimento musical com Jobim.Não raro, em composições da dupla, Tom ficava encarreg ado do caderno de rascunhos e do dicionário de rimas e Newton com a elaboração das harmonias e desenvolvimento melódico.Desse contato, movido a troca de sugestões, opiniões ,idéias e cigarros filados do maço mais próximo fizeram Johnny colocar para consideração de Newton suas composições como “O que é amar”, ”Céu e mar” e “Rapaz de bem” – considerada a música que precipitou o estilo da Bossa Nova (criada em 1952 quando o movimento formalmente teve inicio em 1958). Não foi a toa que Ronaldo Bôscoli na apresentação de um show de bossa na Faculdade de Arquitetura em 1960 dizia que “Johnny Alf já faz bossa nova há dez anos”.Várias definições foram aplicadas a Johnny.Pai da bossa nova.Dos geniais criadores da música brasileira, o mais desconhecido.Nenhuma definição foi tão precisa quanto aquela que conseguiu retirar a expressão parva das faces de João Gilberto substituindo - a por uma séria.O monossilábic o João disse :“Johnny Alf é o máximo !” numa tarde em Nova Iorque nos anos 90.De carreira de pouco mais de uma dúzia de discos, Johnny nunca perdeu tempo em lamentações.Preferiu dedicar o tempo disponível na doação integral a música. Seguindo fielmente seus instintos.Seja fazendo seu primeiro disco em 1953 de forma apenas instrumental na base do Nat King Cole trio( piano,contrabaixo e guitarra , uma de suas adorações). Como no amor declarado ao jazz. “Musica é som.Gosto de jazz e na minha música isso é o mais forte”. Na comemoração pífia dos cinqüenta anos da Bossa Nova em 2008 não tivemos a presença de Johnny Alf. Deteriorado na saúde e sofrendo constantes sessões de radioterapia não encontrou forças suficientes para uma apresentação pública. Poderíamos ficar tristes com essa situação justo neste mês de maio corrente em que completa seus 80 anos de vida - dia 19. Mas basta recordar as estrofes de “O que é amar”. “Agora eu posso arg umentar/Se perguntarem o que é amar/É só olhar, depois sorrir, depois gostar”. Que um pequeno quinhão de nossa própria felicidade pessoal seja dedicada a ele ao ouvir essa música e letra de sua inspiração. O escritor e jornalista Ruy Castro afirma que “assistir a Johnny Alf numa pequena boate é uma das grandes experiências que podemos ter na música”. Levando a efeito essa frase, deixo aos visitantes o tema “O que é amar” durante uma apresentação no Vinicius Piano Bar no Rio de Janeiro em 1997 com Alf ao piano, Idriss Boudrioua (sax alto), Marcos Souza (contrabaixo acústico) e Carlos Ramón (bateria).

16/05/2009

Irio

E nós estamos satisfeitos com os nossos guias de música, Mr. Lester? Sim, Mr. Scardua, até que nossos guias estão melhorando pouco a pouco. Durante muitos anos a única referência bibliográfica digna de nota nesse campo foi a honesta Enciclopédia da Música Brasileira – lançada inicialmente em dois volumes pela Art Editora, em 1977 – e, revista e atualizada, em 1998 pela PubliFolha em tomo único. Quer dizer então, Mr. Lester, que já contamos com outra fonte de referência importante? Isso mesmo, Mr. Scardua. Em 2006 o Instituto Antônio Houaiss e o Instituto Cultural Cravo Albin fizeram editar pela Paracatu o vetusto tarugo Dicionário Houaiss Ilustrado da Música Popular Brasileira. Mas, então, porque essa cara desanimada, Mr. Lester? Bem, em primeiro lugar porque o Dicionário é muito parecido com a Enciclopédia – verbetes, biografias e discografia muito semelhantes entre si, salvo que, no Dicionário, as gravações de todos os artistas são amontoadas no final da obra, ao passo que, na Enciclopédia, as gravações acompanham os respectivos verbetes, facilitando consideravelmente a leitura e a consulta. Em segundo lugar, Mr. Scardua, verificamos a ausência imperdoável de muitos e importantes artistas.


Veja o caso do violonista Irio de Paula, instrumentista aclamado na Europa e sequer citado nas obras em questão. Dizem que ele já tocava profissionalmente aos seis anos, é verdade Mr. Lester? Sim, é correto Mr. Scardua, aos seis anos Irio já tocava em uma banda com seus irmãos e já se apresentava nas rádios cariocas. Sua carreira no Brasil inclui trabalhos com Paulo Moura, Baden Powell, Raul de Souza, Djalma Ferreira, Astrud Gilberto e Chico Buarque, entre muitos outros. No total, são mais de 60 lp’s e cd’s já gravados, como sideman e como líder, em contextos bastante diversos, com destaque para a Bossa Nova e o Jazz. Gravou, por exemplo, com Sal Nistico, Steve Grossman, Dannie Richmond, Archie Shepp, Don Pullen, Ray Mantilla, Phil Woods, Lee Konitz e Franco D’andrea, apenas para citarmos alguns. Na década de 70’ Irio parte em turnê pela Europa, acompanhando a cantora Elza Soares. Nessa época, apresenta-se com seu trio no Pescara Jazz Festival e termina por fixar-se na Itália. Desde então mantém agenda repleta, apresentando-se em programas de rádio e televisão, festivais e shows – como o realizado no Birdland de New York, em companhia do trompetista brasileiro Claudio Roditi, única oportunidade em que tive o privilégio de ouvi-lo ao vivo. Não bastasse, Irio tem trabalhado com artistas do padrão de Gato Barbieri, Barney Kessel, Tal Farlow, Toots Thielemans, Buster Williams, Bobby Durham, Jimmy Cobb, Fabrizio Bosso, Phil Woods e Gianni Basso, além de atuar como solista da Synphonic Orchestra of Sanremo and Palermo. Parece que ele também domina o cavaquinho, não é Lester? Sim, Roberto. Um dia, tenho certo, nossos guias de música chegarão ao nível de artistas como Irio.


Para os amigos Lester recomendou a faixa West Coast Blues , retirada do álbum Lembrando Wes Montgomery, gravado em 2003 e lançado pela Philology em 2004. Com mestre Irio estão Riccardo Ballerini (org), Francesco Lo Cascio (vib) e Pietro Iodice (d). E Mr. Lester deu a entender que nosso amigo Loronix anda preparando algo sobre Irio para publicação lá em seu blog. Já era hora, não era?

24/04/2009

Antes tarde do que nunca

Não foi a “grita” da legião de artistas excluídos do show comemorativo na praia de Ipanema. Nem mesmo o indevido “chã de cadeira” recebido pela platéia “escrava” aos caprichos de João Gilberto. O fato musical mais relevante de 2008 – oficializado como o ano da comemoração dos 50 anos da Bossa Nova - cruzou a ponte em sentido inverso e partiu de Niterói. Naquele município, distante 15 kms do Rio de Janeiro, através da fundação cultural municipal se produziu mil peças únicas do primeiro disco autoral do contrabaixista Luiz Alves – “Mar Azul”. Se nem tudo na vida foi tão azul para aquele que é considerado exemplo de “músico dos músicos”, Luiz não se indignou com a “ breve espera” de meio século de carreira para lançamento do primeiro disco. Afinal consumiu grande parte desse tempo concentrado na atividade profissional dentro dos estúdios de gravação, em turnês e principalmente tocando com: Tom Jobim, Sivuca, Paulo Moura, Hermeto Paschoal, Nana e Dori Caymmi, Egberto Gismonti, Luiz Eça e João Donato – parceiro musical de mais de 30 anos – entre outras eminências no decorrer dessas cinco décadas de carreira. Era o destino traçado do menino que aos oito anos de idade insistia em aprender violão com o pai e “colava” orelha, sempre que podia, no falante do rádio familiar escutando a voz de Orlando Silva,a sanfona de Luiz Gonzaga, o choro de Jacob do Bandolim ,o quinteto de Radamés Gnattali e a Orquestra Tabajara. Cheio de ímpeto aos 15 anos organizava seu primeiro grupo, o trio Guanabara, para apresentar-se na Rádio Mayrink Veiga. Em 1962, escolhe definitivamente o contrabaixo acústico pra seguir o oficio de músico. Esse instrumento, criado no século XIV e mais próximo de todos na comparação com a anatomia humana,foi definido,certa vez, por um amigo do também contrabaixista, Luiz Chaves, como “o que não sabemos o nome a primeira vista, mas quando falta num grupo leva a alma da música embora”. Luiz Alves, particularmente, na opinião desse escriba, é o maior contrabaixista acústico brasileiro em atividade. Viveu inclusive fase de “pop star” quando tomou parte no grupo Som Imaginário nos anos setenta. O grupo, de carreira curta de três lps – todos disputados em desleais cotoveladas pelos frequentadores dos sebos de discos - forma a estrutura musical do disco “Milagre dos Peixes” de Milton Nascimento, insistentemente escolhido como dos melhores da chamada MPB da década de 70. Inicialmente aprendendo música “de ouvido”, Alves entra, já atuando profissionalmente, na Escola de Música recebendo aulas de técnica de contrabaixo de seu mestre - Sandrino Santoro – prolongadas até mesmo aos período s recentes. No inicio da década de 80, conjuntamente com o pianista Luiz Eça e o baterista Robertinho Silva (parceiro de Som Imaginário) forma, por acaso, o Triângulo. Esse trio, de disco independente financiado e produzido por Egberto Gismonti (para seu selo Carmo) se coloca na lista dos melhores trabalhos instrumentais da década de 80. Após breve passagem de um ano por Los Angeles, Alves retorna - fora seu compromisso regular com João Donato – à vértice rítmica de trio contrabaixo - bateria e piano em 2006 com o Samba Jazz trio ao lado de Kiko Continentino (p) e Clauton Sales – baterista que atrevidamente maneja o sopro do trompete ao mesmo tempo “rufa” suas caixas e tambores. Essa trinca de músicos – de um cd apenas (pelo selo Guanabara Records) – resgata a herança da tradição dos trios instrumentais do chamado samba jazz nascido no Beco das Garrafas no início dos anos sessenta no Rio de Janeiro. Colocando-se como o melhor deles surgido nas ultimas três décadas desde a dissolução do mais lendário de todos - o Tamba – liderado pelo ex-parceiro Luiz Eça. O cd "Mar Azul", por sua vez, “navega” sob o frescor da Bossa Nova, cinqüenta anos depois, conduzindo primorosamente o estilo em dez temas (oito de Luiz), colocando no chão – ou seria na areia da praia - a teoria de que inexistem bons compositores em nossos dias. Um seleto grupo de músicos de diversas gerações e laços de amizade unem-se no grandioso pretexto de fazer boa música com especiais destaques ao contrabaixista do Tamba – Bebeto Castilho (desta vez tocando flauta transversal), o saxofonista Idriss Boudrioua e o gaitista Maurício Einhorn. Se na comemoração oficial dos cinquenta anos da Bossa Nova às horas de espera do ansioso público de João Gilberto descortinaram a seguinte realidade: demonstrada no palco, na voz e no violão, que o baiano persiste sendo - com todas suas idiossincrasias - um artista genial. Em especial, nessa comemoração informal, no caso de Luiz, a chance – antes tarde do que nunca – do lançamento de seu primeiro disco e a inspiração da certeza que para determinadas ocasiões – nunca é tarde demais esperar. Para os amigos visitantes deixo o tema “Fátima” de Luiz Alves dedicado a sua mulher com o próprio ao contrabaixo acústico acompanhado de Idriss Boudrioua (sax alto), Maurício Einhorn (gaita), Alberto Chimelli (piano), Ricardo Costa (bateria) – faixa do cd “Mar Azul".