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31/10/2011

Dick Garcia: Message From

Há quem diga que o artista é fruto das influências que o cercam e, quanto a isso, não parece haver muita celeuma. O que angustia e aflige, sobretudo ao amigo e baterista angolano Alex Marretta, o maior especialista em congo de Copacabana, é que alguns músicos saiam tocando impunemente por aí, sem nunca terem estudado música. "Isto é um absurdo, isto é mentira, isto é impossível!" gritava Mr. Marretta diante de seus jovens e dedicados alunos de sino de igreja - sim, Mr. Marretta é também um dos últimos devotados mestres de sino de igreja do Brasil. Sua ONG Bate o Sino Pequenino tem sido responsável pela convocação de milhares de bons católicos, mediante pancadas ensurdecedoras no belo instrumento da fé. O curso de sino, devido à sua enorme complexidade, exige uma semana de aulas teóricas e ao menos dois dias úteis de prática. Já Dick Garcia, guitarrista nascido em New York no dia 11 de maio de 1931, preferiu sair tocando de ouvido seu instrumento aos nove anos de idade. Nascido numa família de músicos, Dick viveu rodeado de guitarristas, entre eles alguns tios e um dos avôs, recebendo suas primeiras aulas formais apenas aos treze anos de idade. Fortemente influenciado pelo guitarrista Charlie Christian, foi em Charlie Parker que Dick encontrou seu modelo artístico. Aos dezenove, Dick já integrava o quarteto de Tony Scott, um dos melhores clarinetistas do Bebop, estilo que quase levou o delicado instrumento à extinção.   

Ainda na década de 1950, Dick trabalhou com músicos como Charlie Parker, George Shearing, Bill Evans e Milt Buckner, entre outros, além de liderar seus próprios conjuntos. Além de trabalhar com Kai Winding e Nancy Wilson na década de 1960, pouco se sabe sobre os rumos tomados por Dick. Para os amigos deixo as faixas Have You Met Miss Jones, If I'm Lucky, Stompin' At the Savoy e Like Someon in Love, retiradas do excelente CD A Message From Garcia, lançado pela Blue Moon na série The Classic Dawn Recordings, onde memoráveis álbuns do selo Dawn estão sendo relançados. Com Dick estão Tony Scott (cl), Gene Quill (as), Bill Evans (p), John Drew (b) e Camille Morin (d). 

Garcia by Jazzland

09/03/2011

Samba também é jazz - Lula Galvão

Foi grande a confusão quando Chico Brahma chegou ao Clube das Terças afirmando que, finalmente, conseguira destilar uma excepcional tequila em seu quintal. Sim, com a garrafa em punho, ele passaria a narrar toda sua grande aventura a um público boquiaberto e atento. Embora de origem polonesa, mais afeita à destilação da vodka a partir de batatas ou beterrabas, Chico ouvira falar que mais à direita, na Rússia, as melhores vodkas eram produzidas a partir do centeio, com eventuais adições de trigo, aveia ou cevada. "Mas o importante é a qualidade da água", advertiu Fernando Achiamé, lembrando que a presença de metais pesados é que causam dor de cabeça. Considerando que o quintal de Chico fica localizado na Praia do Canto, em Vitória, o terroir desaconselhava a plantação de grãos, daí Chico também ter desistido da produção do uísque a partir da cevada ou do milho,  voltando todos os seus esforços para a produção de grappa e conhaque, dois famosos destilados obtidos a partir do vinho. Conforme John Lester havia advertido, a excessiva umidade gerada pelo microclima capixaba, aliada ao fato da pequena exposição solar em seu quintal, resultou no aparecimento de fungos e pragas nefastas, dando fim a suas  três belas videiras de touriga nacional, cepa clássica de Portugal.  Inconformado, aquele homem de bochechas rosadas e pés ligeiros passa  um breve período tentando produzir sidra a partir das belas maçãs e pêras colhidas em seu florido quintal. Seguindo as orientações da família Bockmann, de Campos do Jordão, Chico passa a destilar um excelente calvado (brandy) a partir da sidra, utilizando a técnica que John Lester havia introduzido em New Orleans, onde produzira excelentes applejacks. Infelizmente, contando com apenas uma macieira e uma pereira, a produção anual não chegava a duas doses, fato que o levou a abandonar o projeto.

Rejeitando mais uma vez os conselhos de John Lester, Chico põe na cabeça que obterá gim e steinheger, bi-destilados obtidos a partir do mosto de bagas de zimbro, arbusto que ele mantinha com orgulho em seu diversificado e bem cuidado quintal. Esquecendo-se que a planta é típica do clima temperado do hemisfério norte, observa novo fracasso. Antes que desistisse de produzir seu próprio destilado, Chico aceita o conselho de Lester e passa a trabalhar com mosto de abacaxi, nossa nativa e dulcíssima bromeliácea. A variedade escolhida foi o abacaxi pérola, que além do belo fruto, fornece belas flores. Ainda seguindo a orientação do velho amigo, Chico planta alguns pés de agave que, além de ornamentarem lindamente qualquer espaço, ainda poderiam nos fornecer alguma tequila caso tudo desse certo. E deu! Ao contrário do abacaxi, o agave azul demonstrou grande rendimento em álcool no preparo do mosto fermentado, auxiliando consideravelmente o processo de destilação. Embora detenha alguma semelhança com o abacaxi, a piña retirada do agave azul (foto abaixo) é venenosa e pode alcançar  extraordinários 70kg. Após cozidas em panela de pressão, as piñas eram moídas com o motor do velho Gol 1981, que Chico preservou com muito carinho. Após a fermentação, era só esperar que as altas temperaturas do alambique fornecessem o néctar mexicano.


Emocionado, Chico confessou que muito de sua inspiração era devida ao falecido Lula Galvão, o grande e bigodudo crítico de gastronomia e vinho, responsável por mais de trinta anos de deliciosas matérias publicadas no Estadão. Antes que Chico pudesse terminar sua homenagem ao grande jornalista, João Luiz Mazzi intervém, dizendo que Lula Galvão nunca escreveu em jornal e está vivinho da silva! O nome do expert em comes e bebes é Saul Galvão, este sim falecido em 2009. Já Lula Galvão é um dos melhores guitarristas brasileiros em atividade. Aproveitando o clima carnavalesco, Pedro Nunes trouxe à baila a impressionate retirada de cabeças dos integrantes da Unidos da Tijuca: como eles retiravam as cabeças dos pescoços daquele jeito? Lester respondeu que, infelizmente, ninguém retirou a cabeça de Roberto Carlos, o que certamente o silenciaria para todo o sempre. Sem que mais ninguém à mesa prestasse atenção à tequila, passamos a ouvir o excelente álbum Bossa da Minha Terra, gravado para a Biscoito Fino. Nascido em Brasília, além de guitarrista, Lula é também excelente violonista e arranjador, daí ter trabalhado com artistas como Guinga, Rosa Passos. e Cláudio Roditi. Improvisador nato, começa a tocar violão aos quinze anos, mas somente aos 18 dedica-se seriamente ao instrumento.

Como demonstra ao longo do álbum, Lula domina o idioma do Bebop com fluência pouco usual entre instrumentistas brasileiros. Há também, embora discreta, a nítida influência da música clássica, estilo a que vem se dedicando nos últimos tempos. Amante da exuberante e rica música popular brasileira, Lula reconhece a influência de gente como Victor Assis Brasil, Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Hélio Delmiro e Hector Costita em sua formação inicial. Irmão do baterista Zequinha Galvão e do contrabaixista e compositor Carlos Galvão, Lula integra o conjunto Pagode Jazz Sardinhas Club, com o qual já lançou dois álbuns. Para os amigos, deixo duas faixas, na companhia de Idriss Boudrioua (saxofone), Fernando Moraes (piano), Sérgio Barrozo (contrabaixo), Rafael Barata (bateria), além das participações especiais de Rosa Passos, Cláudio Roditi, Raul de Souza e Mauricio Einhorn.



30/01/2011

O jazz morreu: Lage Lund

Se você deseja saber o que os guitarristas de jazz andam fazendo por aí, aqui está uma boa opção. Segundo álbum como líder, apresentando composições próprias que se debruçam entre os limites do neo-bebop e da avant-garde, Unlikely Stories, lançado pela Criss Cross em 2010, certamente não é um álbum para iniciantes no jazz, nem para aqueles ouvintes mais ortodoxos que somente ouvem Barney Kessel, Wes Montgomery ou Howard Alden. Lage Lund nasceu na Noruega e, após algum tempo retirando neve das estradas, resolve partir para Berklee, a famosa escola de Boston. Mais tarde, continuaria os estudos, dessa vez na também prestigiada Juilliard, de New York, sendo então o primeiro aluno de guitarra elétrica na história dessa instituição. Aproveitando sua estadia nos EUA, Lund trabalha com músicos de primeira linha, como Wynton Marsalis, Ron Carter, Mulgrew Miller, Seamus Blake, Carmen Lundy, Aaron Parks e Marcus Strickland, além de integrar a The Mingus Band. Em 2005, vence o importante The Thelonious Monk international jazz competition, sendo imediatamente sondado por inúmeras gravadoras de jazz. Atualmente, além de atuar como líder, Lung integra o quarteto de David Sanchez. Para os amigos dispostos a quebrar a dieta de fibras e frutas, fica a suculenta faixa Swagger , temperada com ingredientes bastante calóricos. Com ele estão Ed Simon (p), Ben Street (b) e Bill Stewart (d).

09/09/2010

Lenda viva: Cornell Dupree

A reunião do Clube das Terças prosseguia incólume aos abomináveis efeitos da propaganda eleitoral gratuita. Pedro Nunes tentava explicar a Chico Brahma as diferenças entre a palilogia, a anadiplose e a epanalepse, todas maravilhosas figuras de nossa linguagem. Na outra margem da mesa, um orgulhoso Gumercindo ostentava o álbum Bop 'N' Blues, do guitarrista Cornell Dupree. Torcendo o nariz, João Luiz diz a Gumercindo para jogar o álbum no lixo, que aquilo era álbum de rock. Reinaldo intercede surpreendentemente, alegando que, apesar da alta voltagem do álbum, o velho guitarrista fazia um bom soul jazz, no que é apoiado por maioria relativa do clube. Fernando, com sua verve característica, coça o reluzente crânio e complementa: Cornell Dupree nasceu em 19 de dezembro de 1942, em Fort Worth, Texas. Autodidata, começou a carreira ainda adolescente em sua cidade natal, sofrendo forte influência do excelente blues existente na região, além da música country. Aos vinte anos, já em New York, passa a integrar a banda de King Curtis, além de trabalhar um breve período com Jimi Hendrix. No final da década de 1960, entusiasmado com a capacidade de Dupree em solar e manter o ritmo ao mesmo tempo, o produtor Jerry Wexler o contrata como guitarrista oficial do selo Atlantic. É nesse período que grava com uma série de músicos importantes do Blues e do R&B, além de integrar durante dez anos a banda da vocalista Aretha Franklin, outra grande inspiradora de seu estilo. Apesar de milhares de sessões de gravações como sideman, Dupree gravou poucos álbuns de jazz como líder, estilo em que trafega com facilidade, sobretudo no soul jazz. Seu fraseado funky não se perde no contexto mais elaborado do bebop, como comprova seu desempenho no álbum Bop 'N' Blue, gravado em 1994 para o selo Kokopelli. Para os amigos fica a faixa 'Round About Midnight , com Herbie Mann (arr), Terell Stafford (t), Bobby Watson (as), Ronnie Cuber (bs), Leon Pendarvis (p, org), Chuck Rainey (b), Ricky Sebastian (d), Sammy Figueroa (perc). Dupree sempre se manteve atuante, gravando, apresentando-se sozinho ou em grupo, seja com o Bayou Buddies ou com o The Soul Survivors. Lenda viva! E quem estiver em New York entre os dias 24 e 26 de setembro, poderá ouvi-lo no Iridium, clube que recomendo sem ressalvas.   

15/02/2010

Lenda viva: Mundell Lowe

Enquanto terminava meu arroz-de-cuxá, ouvia Lester lamentar a queda de visitas ao Jazzseen durante o carnaval. Olhando incrédulo pela janela, dizia: “É sempre assim, Mr. Serralho, não sei por que essa gente invariavelmente troca o jazz pela dança do lelê, pelo cacuriá, pela dança do caroço ou pelo temível bambaê de caixa”. Pensando comigo mesmo, eu, Tobias Serralho, não poderia censurá-los, uma vez que era eu o responsável pelo roncador, o maior dos três tambores que integram o tambor-de-crioula, dança típica do meu querido Maranhão. Os outros tambores são o socador (tambor médio, responsável pelo ritmo) e o crivador (tambor pequeno, responsável pelo repicado). Lester nunca poderia supor que eu, um admirador de Mundell Lowe, era também apaixonado pela punga, aquela umbigada que as dançarinas dão umas nas outras. Sim, a tradição do tambor-de-crioula vem dos descendentes africanos. É uma dança sensual, excitante, que apresenta variantes quanto ao ritmo e a forma de dançar, e que não tem um calendário fixo, embora seja praticada especialmente em louvor a São Benedito. É dançada exclusivamente por mulheres que fazem uma roda, em cujo centro evolui apenas uma delas. O momento alto da evolução é a tal "punga" ou umbigada. A punga é uma forma de convite para que outra dançarina assuma a evolução no centro da roda. Tentando reanimar Lester, lembrei-lhe que Mundell Lowe, o grande guitarrista, ainda está vivo e forte. Sim, respondeu Lester balançando a cabeça animadamente: “Uma lenda viva!” E prosseguiu: Lowe nasceu no dia 21 de abril de 1922, em Laurel, Mississipi. Começou a aprender a guitarra aos seis e, aos treze, foge de casa, encaminhando-se para os bares de New Orleans, onde ouve e aprende o estilo dos mestres.

Claro que seu pai, um violinista amador e pastor Batista, o encontra num daqueles terríveis clubes de jazz, levando-o imediatamente para casa. Não demorou muito para que fugisse novamente, tentando a carreira com a banda de Pee Wee King, mas é novamente resgatado ao lar pela diligência paterna. Em 1940, terminada a escola, Lowe ingressa imediatamente na banda de Jan Savitt, até que é convocado a prestar o serviço militar. Designado para uma base próxima a New Orleans, tem a sorte de conhecer o oficial responsável pelos entretenimentos da base, ninguém menos que John Hammond Jr., aquele que viria a ser um dos maiores produtores do jazz e que, terminada a guerra, muito o auxiliaria na carreira. Foi por intermédio de Hammond que Lowe conheceu Ray McKinley. Em seguida, trabalha com Benny Goodman, Wardell Gray, Fats Navarro e Red Norvo, entre outros grandes líderes. No início da década de 1950, Lowe passa a trabalhar em New York, atuando em clubes e em sessões de gravação ao lado de gente como Buck Clayton, Lester Young, Charlie Parker e Billie Holiday. Na mesma década, trabalha na orquestra da NBC e dirige para a televisão o show Today, atuando ainda na Brodway e participando de shows e gravações ao lado de músicos como Ben Webster, Ruby Braff e Georgie Auld.

Em 1965, Lowe estabelece-se em Los Angeles, onde atua no rádio e na televisão, tanto como intérprete quanto como compositor, além de dedicar o escasso tempo livre ao ensino. Sempre atuante, na década de 1980 forma seu próprio grupo, TransiWest, contando com músicos como Sam Most, Monty Budwig e Nick Ceroli, com o qual se apresenta no Monterey Jazz Festival de 1983. Embora reservadamente Lowe faça suas experimentações de vanguarda, é como um dos melhores guitarristas do cool jazz que seu nome ficará gravado no jazz, com seu discurso ágil, sedutor, repleto de swing e com seus inteligentes e divertidos solos, recheados de citações de Standards do jazz. Para os amigos, fica minha receita do arroz-de-cuxá e a faixa You Turned the Tables on Me, retirada do álbum A Grand Night for Swing, gravado em 1957 para a Riverside. Com Lowe estão Gene Quill (as), Billy Taylor (p), Les Grinage (b) e o grande Ed Thigpen (d), recentemente falecido. Curiosamente, Lester lembrou que este bom álbum recebe apenas duas de cinco estrelas da Virgin Encyclopedia of Jazz, 2004, editada por Collins Larkins. Já o All Music Guide é um pouco mais generoso, ofertando quatro de cinco estrelas para esse que, segundo Lester, merece três ou mais estrelas. Verificando se a quantidade de azedinha estava correta, Lester aprova tanto meu arroz-de-cuxá quanto os solos de Lowe. . Bom carnaval para todos!
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Ingredientes:

500 gr de camarões secos sem casca
1/2 xícara de farinha de mandioca
1 1/2 xícara de gergelim torrado
1 maço pequeno de vinagreira (azedinha) limpa, lavada e escorrida (não erre a mão, senão amarga)
2 colheres (sopa) de óleo
2 dentes de alho amassados
1 cebola média picada
2 tomates grandes sem pele e sementes, picados
500 gr de camarões frescos pequenos, limpos, lavados e escorridos
6 colheres (sopa) de cheiro verde (salsa, cebolinha e coentro) picados
3 xícaras de arroz limpo, lavado, escorrido e cozido.

Modo de preparo:

No processador ou liquidificador, coloque os camarões secos, farinha de mandioca, gergelim, bata até obter uma mistura homogênea e reserve. Em uma panela, coloque a vinagreira, regue com um pouco de água, tempere com sal a gosto, cozinhe até ficar macia, tire a verdura do fogo, escorra, esprema, pique bem e reserve.
Coloque óleo em uma panela, leve ao fogo alto, deixe aquecer, junte alho, cebola, doure levemente, acrescente tomates, refogue até ficarem macios, junte camarões frescos e cozinhe por alguns minutos, somente até ficarem rosados.
Adicione a mistura de camarão seco, a verdura picada, cubra com água e cozinhe, mexendo de vez em quando, até obter um molho com consistência de mingau ralo.
Tire do fogo, junte cheiro verde e misture.
Coloque o arroz cozido e bem quente em um prato de servir, cubra com o molho de camarão e leve imediatamente à mesa

Rendimento: 4 pessoas, 8 japoneses ou 16 nordestinos

Sugestão: Prepare o molho sem os camarões frescos e sirva o arroz-de-cuxá acompanhado de peixe frito

10/02/2010

Samba também é jazz - Laurindo Almeida

Aproveitando que a programação da TV era repentinamente interrompida por um maçante pronunciamento do sempre inoportuno Hugo Chavez, voltei a ler o interessante livro de Harold McGhee: On Food and Cooking: The Science and Lore of the Kitchen, Scribner, 2004, p. 131. Lá estava a história e a receita do milenar Sukiyaki, prato de origem camponesa que remonta a era medieval japonesa. A palavra é composta, onde Suki significa rastelo e Yaki significa assar. Rastelo é um instrumento agrícola, semelhante a uma enxada, só que munido de dentes de ferro ou madeira. Ocorre que o rastelo japonês possuía forma peculiar, o que permitia sua utilização para o cozimento de alimentos, dispensando outros utensílios e facilitando a vida dos camponeses. Com o passar do tempo, optou-se pelas panelas de ferro nas datas festivas, com todos os comensais servindo-se da mesma panela. Hoje o Sukiyaki é um prato tradicional e sofisticado, sendo preparado com diversos legumes e molhos e alcançando um alto valor espiritual para o japonês, que é o de reafirmar os laços familiares, afetivos e de amizade através da mesa, resguardando sua cultura e tradição. Quase que imediatamente lembrei da faixa Sukiyaki, gravada por Laurindo Almeida e constante do álbum Dance the Bossa Nova, lançado pelo selo Saludos Amigos em 1994. Para os amigos fica a receita do prato e a faixa I Left My Heart In San Francisco , cidade onde comi o melhor Sukiyaki da minha vida, no retaurante Hana Zen, na rua Cyril Magnin, nº 115. Agora é com Mestre Pituco.

Ingredientes
•30g de manteiga sem sal
•200g de filé mignon fateado finamente
•6 folhas de acelga
•100g de moyashi ( brotos de feijão)
•1 unidade de cebola média
•½ maço de naga negui (cebolinha grossa,cebolão, cebolinha branca)
•8 unidades de cogumelos Shiitake
•250g de itoh konhaku ( macarrão de batata)
•200g de tofu ( queijo de soja)
Dashi (molho)
•100 ml de shoyu ( molho de soja)
•50ml de sake comum
•50ml de mirim ( sake doce)
•15g de açúcar

Porção para 4 pessoas (ou 8 japoneses) - Modo de preparo: Lave bem as mãos, depois as folhas de acelga, cortando-as em cubos. Lave os talos da cebolinha grossa e corte-as em pequenos talos de 5 cm em diagonal (se necessário, utilize régua, compasso e transferidor), retire os talos do cogumelo shiitake e corte em cubos de 5 cm o queijo de soja.

Retire o macarrão de batata do pacote e cuidadosamente esprema-os com as mãos de modo que saia o máximo do soro que o envolve. Evite coçar o nariz nesse momento.

Aqueça o rastelo, a enxada ou a panela e derreta a manteiga, em seguida refogue levemente a carne sem deixar dourar.

Prosseguindo, coloque as folhas de acelga cortadas em cubos, a cebola cortada em meias rodelas de 1 cm de espessura, os cogumelos shiitake sem os talos e as cebolinhas cortadas em bastonetes de 5 cm de comprimento em diagonal e o tofu cortado em cubos.

Misture todos os ingredientes do molho e adicione ao sukiyaki. Em seguida acrescente o macarrão de batata.

Certifique-se de que todos os ingredientes estão dispostos de forma artística e tampe a panela por 8 minutos. Depois retire a tampa e acrescente o broto de feijão.

Deixe cozinhar por 2 minutos e estará pronto para ser fotografado e servido.

Observação: Caso o molho comece a transbordar da panela retire um pouco com uma concha e reserve. A medida que o molho for secando, vá acrescentando aos poucos o que você retirou.

30/10/2009

Charlie Christian (1916-1942)

Depois de ler as duas resenhas de Mestre Edù sobre Benny Goodman, como não escrever algumas breves linhas sobre Charlie Christian, um dos poucos instrumentistas do jazz capazes de lançar alguma sombra sobre o virtuoso clarinetista? Guitarrista do Swing e do Bebop, Charlie nasceu em Dallas, Texas, no dia 29 de julho, mas passa uma infância humilde em Oklahoma City. Filho de um guitarrista e cantor itinerante cego, seus dois irmãos também demonstram inclinação musical, embora não cheguem a se destacar. Pobre demais para poder comprar um instrumento, constrói sua primeira guitarra com caixas de cigarro vazias e, em pouco tempo, estabelece sua reputação entre os músicos locais. No início da década de 1930, Charlie começa a trabalhar profissionalmente em pequenas bandas da região (territory bands), como as de Anna Mae Winburn (que mais tarde seria a líder do grupo Sweethearts of Rhythm), Nat Towles e Alphonso Trent (onde toca contrabaixo). Por volta de 1937, Charlie inicia suas experiências com a guitarra amplificada eletricamente, ao mesmo tempo em que amplia sua reputação de excelente guitarrista. Com o apoio de Mary Lou Williams, Charlie é ouvido por John Hammond no Ritz Café, em Oklahoma City. Impressionado com o talento do jovem, Hammond tenta persuadir Benny Goodman a convidá-lo para uma sessão de gravação, em Los Angeles. Embora não estivesse muito convencido acerca das possibilidades da guitarra elétrica e não aprovasse as roupas demasiadamente coloridas de Christian, Benny concorda em recebê-lo no restaurante Victor Hugo, em Beverly Hills, onde se apresentava. Auxiliado por Hammond, o guitarrista carrega sua incômoda parafernália elétrica para o palco, onde um Benny Goodman contrariado e furioso inicia Rose Room, tema que acreditava não fosse conhecido por Christian. No entanto, quando chega a vez de Christian realizar seu solo, improvisa 25 brilhantes choruses (variações sobre o tema), entusiasmando o público, os músicos presentes e o próprio Benny Goodman, que pedem bis. Infelizmente os 45 minutos de apresentação dessa noite memorável não foram gravados, mas Christian saiu do palco empregado como o mais novo integrante do famoso sexteto de Goodman. Foi a partir daí que, com a enorme exposição pública oferecida por Goodman, Christian alcança a fama e a fortuna, conquistas que não soube administrar: tocando com qualquer um e em qualquer lugar, Christian dorme pouco, mergulha na bebida e abraça a promiscuidade, o que lhe rende uma importante tuberculose em 1941. Internado e com a saúde devastada, recebe a visita de amigos que realizam festanças ali mesmo no hospital, ao lado de seu leito, até que conseguem matá-lo no dia 02 de março. E o que mais chama a atenção no curto trajeto de Christian não é o fato de ter utilizado a guitarra amplificada eletricamente – ele não foi o primeiro a fazê-lo. Ao contrário de Vovô Acácio, o inventor da cuíca elétrica, a mais importante contribuição de Christian foi a de ter escrito o roteiro da guitarra no estilo Bebop, contribuição levada a efeito nas muitas sessões realizadas no Minton’s Playhouse, famoso clube do Harlem, em New York, ao lado de Charlie Parker e Dizzy Gillespie, algumas delas felizmente gravadas por um fã. Seu estilo contido e aparentemente simples ocultava um discurso brilhante e inventivo, inaugurando os longos legatos e desenvolvendo ambiciosas progressões de acordes que determinariam não apenas o caminho a seguir por seus companheiros de instrumento, como também influenciando solistas de outros instrumentos. Charlie é mais um desses gênios que, como Vovô Acácio, nos abandonam antes de esgotarem todo seu potencial criativo. Para os amigos ficam algumas sugestões discográficas e a faixa Rose Room , aquela com que Benny tentou dar uma rasteira em Christian.
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The Genius of the Electric Guitar - 1939-1941 - Columbia CK 40846 - Este cd é fruto de uma difícil seleção feita a partir do box set de mesmo nome, com 4 cd's. São 16 faixas que constituem uma excelente introdução ao trabalho de Christian. Contudo, para os colecionadores ou amantes da jazz guitar, o box set constitui melhor compra. Essencial em qualquer discoteca de jazz e recomendado apenas para aqueles que não puderem comprar o box set. Com Cootie Williams, Alec Fila, Jimmy Maxwell, Irving Goodman (t), Cutty Cutshall, Lou McGarity, (tb), Benny Goodman (cl), Gus Bivona, Skip Martin (as), Georgie Auld, Pete Mandello (ts), Bob Snyder (bs), Lionel Hampton (vib), Count Basie (p), Dudley Brooks, Johnny Guarnieri, Fletcher Henderson (p), Artie Bernstein (b), Harry Joeger (d), Jo Jones, Nick Fatool, Dave Tough (d).

The Genius of the Electric Guitar - 1939-1941 - Columbia CK 65564 - Box set com 4 cd's apresentando 98 faixas com notável qualidade sonora, fruto de cuidadosa remasterização. Sem dúvida uma documentação importante não apenas para observarmos a curta carreira desse guitarrista que morreu aos 25 anos de idade, como também para ouvirmos boa parcela do melhor jazz que se produziu nesse período. E, embora alguns sardônicos críticos questionem a real importância de Charlie Christian, alegando que ele não foi o primeiro guitarrista a tocar guitarra elétrica (parece ter sido um tal de Lloyd Loar, um funcionário da Gibson), nem o primeiro guitarrista do jazz a tocar guitarra elétrica (parece ter sido Eddie Durham, que gravou em 1938), não há como negar que foi ele quem deu nova performance à guitarra elétrica, substituindo a técnica utilizada na guitarra acústica, revolucionando o papel do instrumento no jazz e, sem exagero algum, na música. Tudo isso fica muito claro nestas gravações realizadas com Benny Goodman e convidados de peso, como Lester Young, Count Basie, Benny Carter, Bucky Clayton e Gene Krupa. Não bastasse, acompanha farto livreto de Peter Broadbent e detalhada informação discográfica de Loren Schoenberg e Les Paul. Com Jimmy Mundy (arr), Cootie Williams, Alec Fila, Jimmy Maxwell, Irving Goodman, Bucky Clayton, Ziggy Elman, Harry James, Johnny Martel (t), Cutty Cutshall, Lou McGarity, Red Ballard, Vernon Brown, Cutty Cutshall, Jack Teagarden, Ted Vesely (tb), Benny Goodman (cl), Gus Bivona, Skip Martin, Buff Estes, Toots Mondello, Les Robinson (as), Georgie Auld, Pete Mandello, Bus Bassey, Lester Young, Jerry Jerome, Eddie Miller (ts), Bob Snyder (bs), Lionel Hampton (vib), Count Basie, Dudley Brooks, Johnny Guarnieri, Ken Kersey, Fletcher Henderson (p), Arnold Covey, Freddie Green (g), Artie Bernstein, Bob Haggart, Walter Page (b), Harry Jaeger, Jo Jones, Nick Fatool, Dave Tough, Gene Krupa (d), Helen Forrest (v).

09/07/2009

Álbum - Jazzseen Recomenda - Segundo o colunista Luiz Orlando Carneiro, o disco do guitarrista Victor Biglione “Uma guitarra no Tom" (selo Delira Música ) “é o melhor tratamento jazzístico em forma de trio da obra de Jobim” que o ilustre jornalista reconhece. Para tanto, Biglione utiliza uma criteriosa seleção pessoal da obra do compositor privilegiando, preferencialmente, sua própria sensibilidade pessoal como músico em conjunto à riqueza harmônica e melódica da obra. Nessa fascinante e quase espartana experiência, uma espécie de desafio criativo: a alteração da estrutura e andamento de conhecidas canções de apelo popular da bossa nova para forma de trio adicionou-se, sedutoramente, “novas tonalidades e cores” num caminho aparentemente esgotado. Nessa missão, Victor Biglione contou com o indispensável auxilio de seu trio formado pelo lendário baixista Sérgio Barroso - ex participante do histórico grupo Rio 65 no instrumento acústico - e nosso amigo, assíduo visitante e participante do Jazzseen - o baterista André Tandeta. Para audição dos visitantes fica a faixa Mojave , do mencionado trabalho, confirmando o entusiasmado endosso de Luiz Orlando.

13/06/2009

Lou Mecca, o quiroprático

Quiroprático, Lou Mecca desempenou a coluna de muitos pacientes, entre eles amigos músicos e, em especial, bateristas e contrabaixistas obrigados a transportar seus desengonçados instrumentos de lá para cá. Mas foi como guitarrista que utilizou melhor as mãos, chegando a ser eleito o melhor guitarrista do ano pela Corporação de Radiodifusão Canadense e o “New Star” pelos críticos da Down Beat. Só se fala em outra coisa. Foi com estas palavras que Gumercindo, o sócio mais bem informado do Clube das Terças, sentou-se à mesa naquela reunião animadíssima. Retirando de uma sacola da Casa Bonita o álbum Lou Mecca Quartet, lançado pela Blue Note em 1955, Gumercindo deixou perplexa a maioria absoluta dos sócios: então, perguntamos todos, Lou Mecca não era apenas mais uma piada do amigo? Reinaldo, tentando não demonstrar surpresa, inicia impassível e retesado discurso sobre o moço: esse massagista nasceu com o nome de Louis John Meccia, em 1926. Antes que pudesse prosseguir, é interrompido por Mestre Edù, sócio-visitante do Clube, que exigia dia, mês e local de nascimento do ilustre desconhecido. Nosso presidente informa que foi no dia 23 de dezembro, em Passaic, New Jersey, e prossegue: o pai de Lou era um trompetista clássico italiano, daí ter sido esse o seu primeiro instrumento, que começa a aprender aos oito anos, sob orientação paterna. Mas, segundo suas próprias palavras, Lou não tinha fôlego suficiente para levar adiante o estudo do trompete, voltando-se para a guitarra quando ingressa na The Master School of Music, que, por 50 cents a hora, fornecia lições e, de quebra, emprestava o instrumento. Abandonando os estudos secundários para dedicar-se à carreira profissional, começa a tocar em bares de Passaic. Nesse meio tempo, é convidado a lecionar numa escola de música em New Jersey, onde recebe uma pilha de livros e uma série de classes, desde o sax alto até a gaita de foles. Por volta de 1947, conhece o excelente guitarrista Johnny Smith que, por coincidência, também andou tocando trompete na banda do Exército. Animado, Lou volta a estudar seu antigo instrumento e chega a tocá-lo na Clifton Symphony. Sempre brincalhão, Lou confessou que, nessa época, lia música mais rapidamente do que conseguia tocá-la e, assim, não nutria nenhuma expectativa imediata de desafiar Clifford Brown para uma competição ao trompete. Sempre tocando sua guitarra pelos bares e clubes de New Jersey e arredores, Lou dedica-se cada vez mais à sua profissão de quiroprático, praticamente abandonando a música e o ensino durante 25 anos, até sua aposentadoria. Apesar disso, arranjou tempo para trabalhar com grandes músicos, entre eles Bill Evans, Teddy Charles, Ella Fitzgerald, Gil Melle, Eddie Costa, Al Cohn e Chris Conners, entre outros, além de tocar em musicais da Brodway e integrar orquestras. Levantando-se para ir ao banheiro, Reinaldo nos deixa a todos perplexos com a vastidão de sua cultura jazzística. 

Gumercindo, que chegara ali sorridente e esfregando as mãos, acreditando ter finalmente encontrado um músico de jazz não conhecido pelo Clube das Terças, entrega cabisbaixo e sorumbático o velho lp para mim, responsável por transformá-lo em cd. Para os amigos fica a faixa, que é quase uma massagem, You Go To My , com Jack Hitchcock (vib), Vinnie Burke (b) e Jimmy Campbell (d). Em sua agenda, Mestre Edù registrava a data de nascimento de Lou, dos sócios do Clube das Terças e de todos os transeuntes do shopping Centro da Praia. Sorrindo, alegou que adora aniversários.

05/06/2009

Les Spann

Se você for até o All Music Guide, vai encontrar o seguinte sobre a biografia do moço: “Figura interessante que tocava guitarra e, como segundo instrumento, flauta. Sideman popular na década de 1950”. E mais nada. A resenha acolhedora de Alex Henderson sobre o álbum Gemini, gravado em 1960 para a Jazzland, já condiz melhor com a qualidade desse músico esquecido pelos amantes de jazz. Alex aponta o fato de que, apesar de acompanhar mestres como Quincy Jones, Dizzy Gillespie, Johnny Hodges ou Ben Webster, Les Spann nunca realizou grandes feitos como líder, atribuindo tal fato à inusitada personalidade desse excelente guitarrista e flautista. Afinal, quantos músicos podem largar o violão e sair tocando flauta impunemente? Sua competência no contexto do hard bop é plenamente confirmada pela qualidade de seus acompanhantes no álbum em apreço: Julius Watkins (frhn), Tommy Flanagan (p), Sam Jones (b), Al "Tootie" Heath e Louis Hayes (d). Spann nasceu em 1932 em Pine Bluff, Arkansas. Quando ingressou na Tennessee State University, Spann já era um acompanhante ágil na flauta e bluesy na guitarra. No final da década de 1950, concentra-se na guitarra, trabalhando com Phineas Newborn e Dizzy Gillespie. Nas décadas seguintes apresenta-se e trabalha em diversos contextos, tanto nos EUA quanto na Europa. Sempre na condição de sideman, atua ao lado de nomes como Duke Ellington, Benny Bailey, Randy Weston, Charlie Shavers, Charles Mingus e Sonny Stitt, entre outros. Para os amigos deixo a faixa There Is No Greater Love , do álbum Gemini, que recomendo aos completistas do hard bop.

26/05/2009

Te cuida, Egberto!

Orgulho-me de ter vários discos de Egberto Gismonti. Passei todo o domingo matinal ouvindo Água e Vinho, seu disco de 72, e o showzão com o baixista Charlie Haden em Montreal. Um amigo afirmou que orgulhar-se disso é fácil. Disse ele: “Orgulhar-se de estar casado por vinte anos com uma mulher bonita, compreensiva, gostosa e inteligente é moleza. Difícil é ter orgulho de estar casado com uma bruaca chata e lenta de raciocínio.” E concluiu: “Quero ver o cara orgulhar-se - e sair dizendo por aí - que possui todos os discos de Chitãozinho e Xororó.” Em outras épocas meu amigo teria razão. Hoje, não. A humildade foi para o espaço, escafedeu-se, volatilizou-se. Li uma entrevista em que o tal cantor Daniel afirma não compreender por que é considerando intelectualmente inferior a Edu Lobo. Chegando a Vila Velha, município da Grande Vitória, há um outdoor tamanho família, potentemente iluminado no qual se estampa a foto de uma dupla denominada João Neto & Frederico. Não sei quem são. Não sei e não quero saber, porque consigo, por meio de mínima dedução, entender que se trata de dupla caipira, sertaneja ou algo do gênero. Certamente vai lotar clube, estádio ou parque de exposições. Haverá gritinhos adolescentes e muitos pais preocupados porque as filhinhas ainda não chegaram e já é tarde da noite. E pensar que o show de Egberto Gismonti, há dois anos, em Vitória, contou com menos de 100 pessoas. Egberto Gismonti é um dos grandes músicos atuais, mas quem quer saber?

Egberto quem?, perguntarão, uníssonos, João Neto & Frederico. Tenham certeza: a humildade não existe mais. Egberto Gismonti que se cuide porque, talvez, nem entre para uma História escrita por adolescentes adoradores das duplas sertanejas, do axé, dos cantores evangélicos e do roquezinho nacional. Entendo essa triste realidade, mas vou ouvindo Gismonti assim mesmo.

16/05/2009

Irio

E nós estamos satisfeitos com os nossos guias de música, Mr. Lester? Sim, Mr. Scardua, até que nossos guias estão melhorando pouco a pouco. Durante muitos anos a única referência bibliográfica digna de nota nesse campo foi a honesta Enciclopédia da Música Brasileira – lançada inicialmente em dois volumes pela Art Editora, em 1977 – e, revista e atualizada, em 1998 pela PubliFolha em tomo único. Quer dizer então, Mr. Lester, que já contamos com outra fonte de referência importante? Isso mesmo, Mr. Scardua. Em 2006 o Instituto Antônio Houaiss e o Instituto Cultural Cravo Albin fizeram editar pela Paracatu o vetusto tarugo Dicionário Houaiss Ilustrado da Música Popular Brasileira. Mas, então, porque essa cara desanimada, Mr. Lester? Bem, em primeiro lugar porque o Dicionário é muito parecido com a Enciclopédia – verbetes, biografias e discografia muito semelhantes entre si, salvo que, no Dicionário, as gravações de todos os artistas são amontoadas no final da obra, ao passo que, na Enciclopédia, as gravações acompanham os respectivos verbetes, facilitando consideravelmente a leitura e a consulta. Em segundo lugar, Mr. Scardua, verificamos a ausência imperdoável de muitos e importantes artistas.


Veja o caso do violonista Irio de Paula, instrumentista aclamado na Europa e sequer citado nas obras em questão. Dizem que ele já tocava profissionalmente aos seis anos, é verdade Mr. Lester? Sim, é correto Mr. Scardua, aos seis anos Irio já tocava em uma banda com seus irmãos e já se apresentava nas rádios cariocas. Sua carreira no Brasil inclui trabalhos com Paulo Moura, Baden Powell, Raul de Souza, Djalma Ferreira, Astrud Gilberto e Chico Buarque, entre muitos outros. No total, são mais de 60 lp’s e cd’s já gravados, como sideman e como líder, em contextos bastante diversos, com destaque para a Bossa Nova e o Jazz. Gravou, por exemplo, com Sal Nistico, Steve Grossman, Dannie Richmond, Archie Shepp, Don Pullen, Ray Mantilla, Phil Woods, Lee Konitz e Franco D’andrea, apenas para citarmos alguns. Na década de 70’ Irio parte em turnê pela Europa, acompanhando a cantora Elza Soares. Nessa época, apresenta-se com seu trio no Pescara Jazz Festival e termina por fixar-se na Itália. Desde então mantém agenda repleta, apresentando-se em programas de rádio e televisão, festivais e shows – como o realizado no Birdland de New York, em companhia do trompetista brasileiro Claudio Roditi, única oportunidade em que tive o privilégio de ouvi-lo ao vivo. Não bastasse, Irio tem trabalhado com artistas do padrão de Gato Barbieri, Barney Kessel, Tal Farlow, Toots Thielemans, Buster Williams, Bobby Durham, Jimmy Cobb, Fabrizio Bosso, Phil Woods e Gianni Basso, além de atuar como solista da Synphonic Orchestra of Sanremo and Palermo. Parece que ele também domina o cavaquinho, não é Lester? Sim, Roberto. Um dia, tenho certo, nossos guias de música chegarão ao nível de artistas como Irio.


Para os amigos Lester recomendou a faixa West Coast Blues , retirada do álbum Lembrando Wes Montgomery, gravado em 2003 e lançado pela Philology em 2004. Com mestre Irio estão Riccardo Ballerini (org), Francesco Lo Cascio (vib) e Pietro Iodice (d). E Mr. Lester deu a entender que nosso amigo Loronix anda preparando algo sobre Irio para publicação lá em seu blog. Já era hora, não era?

04/04/2009

Puma

Na resenha anterior, quando Mr. Bravante mencionou o felino puma, lembrei imediatamente do guitarrista Joe Puma (1927-2000), figura bastante admirada pelos amantes do jazz West Coast, muito embora seja originário da costa leste. Injustamente, ele não é citado na The Virgin Encyclopedia of Jazz, edição de 2004, nem tampouco consta do The Rough Guide to Jazz, 3rd Edition, do mesmo ano. Mas os guias de maior gabarito falam desse guitarrista nascido numa família de músicos de New York e que aprende ainda criança seu ofício. Aos 22 anos inicia para valer a carreira ao lado do vibrafonista Joe Roland. Na década de 1950’ Puma é visto em todos os lugares, gravando inúmeras sessões com gente do naipe de Louie Bellson, Artie Shaw, Eddie Bert, Herbie Mann, Chris Connor, Paul Quinichette e, na década seguinte, Bobby Hackett, Gary Burton e Carmen McRae. Nos anos 1970’ forma um duo com o guitarrista Chuck Wayne, além de dedicar-se ao ensino, sacerdócio que não o impediu de manter-se ativo como músico até quase sua morte. Joe foi um guitarrista sensível, acentuadamente discreto e, embora inteligente e criativo, nunca obteve o destaque de público que poderia alcançar caso assim desejasse. Contudo, era respeitado pelos músicos e pela crítica, chegando a obter o prêmio de melhor guitarrista em 1957 pela revista Metronome. Em minhas orelhas fica a impressão de um Jimmy Raney em baixa rotação e tocando com oito dedos, mas nem por isso menos swingante e imaginativo. Para os amigos deixo uma faixa que diz muito sobre ele: Time Was , onde podemos comprovar que a máxima “menos é mais” tem sua razão de ser. Ela foi retirada da excelente coletânea The Jazz Guitar of Joe Puma, lançada pela Fresh Sound, onde foram reunidos os álbuns East Coast Jazz Series, Vol. 3 e Joe Puma Quintet (primeiras gravações como líder, realizadas em 1954, com Barry Galbraight (g), Don Elliot (vib), Vinnie Burke (b) e Ted Sommer (d) e lançadas pela Bethlehem), além de outras faixas gravadas em 1955, 1956 e 1957, em New York, com os músicos Dick Garcia (g), Eddie Costa (p, vib), Bill Evans (p), Dante Martucci, Oscar Pettiford (b), Al Levitt, Jimmy Campbell e Paul Motian (d). Enfim, o que Frederico Bravante tem de bagagem, Joe Puma tem de síntese.

28/01/2009

There Is No Greater Love

E quem nunca passou uma lua-de-mel em New York ou Paris? Não? E em Parati ou Visconde de Mauá? Fale sério! Então case novamente e mãos à obra! Enquanto a bolha não sai voando nem estoura, recomendo uma lua-de-mel logo ali, em Visconde de Mauá e, se a carteira suportar, numa das suítes da Pousada Terra da Luz, logo na entrada da cidade. Além da aconchegante lareira próxima à cama, o deck da hidromassagem suporta bem a garrafa de tinto e duas taças. Em derredor, uma infinidade de plantas, milhares de insetos perigosíssimos e carradas de pássaros que, se por um lado não nos perseguem como no filme Alta Ansiedade, por outro espatifam-se nas generosas vidraças que compõem as instalações da pousada. Mesmo já tendo protestado junto ao proprietário, os acidentes continuam ocorrendo e é triste ver aqueles pássaros todos mortos ao redor da sala do café da manhã de manhã. Portanto, acorde tarde, quando já foram recolhidos num carrinho de mão por um dos atenciosos funcionários da casa. E corra porque nos dias 13 e 14 de fevereiro quem estará se apresentando por lá é Ricardo Silveira, um dos nossos melhores guitarristas. 

Segue breve histórico do músico, retirado de seu site: Ricardo Silveira é um músico brasileiro com carreira internacional. Nascido no Rio de Janeiro, sempre soube apreciar boa música e transita com facilidade pelos diversos idiomas musicais. Ainda adolescente, gostava de ouvir desde rock (Beatles, Rolling Stones, Jimmy Hendrix, Led Zeppelin, Cream) e blues (BB King, John Mayal) a música brasileira (João Gilberto, Chico Buarque, Mutantes, Novos Baianos, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Tom Jobim, Baden Powell). Logo cedo, descobriu também o jazz: Dave Brubeck, Miles Davis, Oscar Peterson, Joe Pass, George Benson, Wes Montgomery. Ainda adolescente, Ricardo se interessou pela guitarra e pelo violão. Costumava tirar as melodias das músicas que ouvia, primeiro só numa corda e depois tentando descobrir os acordes, tendo descoberto mais tarde ser este um ótimo exercício para o ouvido e para conhecer o braço do instrumento. Tocando com amigos e em alguns festivais de colégio, decidiu que queria ser músico profissional. Teve aulas de violão clássico e teoria musical e passou no vestibular para a Escola Nacional de Música, porém não havia a cadeira de violão ou guitarra nas universidades do Rio. Nessa época, assistiu a um show de Victor Assis Brasil, que tinha estudado na Berklee College of Music, em Boston, assim como o Márcio Montarroyos, que também tocou nesse mesmo show e o incentivou a fazer na Berklee um curso de dois meses. 

Após o curso, conseguiu uma bolsa e continuou a estudar em Boston. Após um ano, voltou ao Brasil, onde ficou por dois meses participando de shows com Márcio Montarroyos. De volta a Boston, por recomendação do guitarrista Bill Frisell, começou a trabalhar com uma banda de salsa, um de seus primeiros trabalhos profissionais nos EUA. Estrelas Latinas, como se chamava o grupo, era comandada por Fox, um violinista cubano, acompanhado por músicos de Santo Domingo, EUA, Porto Rico e Brasil. Nos finais de semana, Ricardo deixava Boston a caminho de Nova York, onde tocava com o grupo brasileiro Astra Carnaval. Recomendado pelo trompetista Cláudio Roditi, Silveira foi convidado para integrar o grupo do flautista Herbie Mann, com quem excursionou por dois anos pelos Estados Unidos. Nessa época, já morando em Nova York, começou também a trabalhar em estúdio com grandes músicos como Steve Gadd, Richard Tee, Marcus Miller, Michael Brecker, Jason Miles, Naná Vasconcelos, L. Shankar. Apesar dos quatro anos trabalhando fora de seu país, Ricardo manteve o contato com a música brasileira. Aliás, grande parte dos convites para tocar no exterior surgiu por ele ser um músico brasileiro. De volta, por recomendação do produtor e músico Liminha, que havia conhecido nos Estados Unidos, Ricardo foi convidado por Elis Regina para participar da turnê pelo Brasil do disco “Essa Mulher”. Foi no mesmo período que começou a surgir, além de shows, participações em gravações, desde jingles a discos dos mais diversos artistas. Após a turnê com Elis Regina, Ricardo começou a tocar com outros grandes nomes da MPB como Hermeto Paschoal, Maria Bethânia, Gilberto Gil, Milton Nascimento, João Bosco, Ivan Lins, Nana Caymmi e Ney Matogrosso para quem também fez arranjos e direção musical. Entre a participação nas gravações e nos shows dos grandes nomes da música brasileira, Ricardo começava a desenvolver seus projetos solos. Seu primeiro disco foi Bom de tocar (Polygram), lançado em 1984. A música fez tanto sucesso, que acabou virando vinheta da Rádio Globo FM, ficando no ar por 10 anos, e eternizando seus solos de guitarra na música que deu nome ao disco. 

Por conta da repercussão, o guitarrista foi convidado para tocar no primeiro Free Jazz Festival, em 1985. Para o show, convidou os talentosos amigos: o baixista Nico Assumpção, o pianista Luiz Avellar, o baterista Carlos Bala e o saxofonista Nova Yorquino Steve Slagle. O resultado no palco foi tão bom que o quarteto acabou gravando um disco, o High Life, lançado em 1986 pelo selo Elektra Musician. O segundo trabalho solo data de 1987 e teve o mesmo selo. O disco tinha como título o nome do próprio guitarrista. Nos Estados Unidos, este trabalho ganhou o nome de Long Distance, pelo selo da Verve Forecast, que além deste lançou Sky Light, Amazon Secrets e Small World. Todos estiveram entre os cinco mais executados nas rádios de jazz americana, sendo que Sky Light e Amazon Secrets chegaram ao primeiro lugar. Nos Estados Unidos, além de excursionar com Herbie Mann tocou com nomes como Sérgio Mendes, Don Grusin, Dave Grusin, Oscar Castro Neves, Dori Caymmy, Nathan East, Vanessa Williams, El Debarge, Diana Ross, Brenda Russel, Justo Almario, Toots Tiellemans, Baby Face, John Pisano, Kevin Lethau, Ronnie Foster, Harvey Mason, Paty Austin, David Sanborn, Pat Metheny, Phil Perry, Earnie Watts, Gregg Karukas e Abe Laboriel. Com Matt Bianco, Silveira esteve duas vezes na Europa e no Japão, sendo que fez mais oito viagens para este último país em concertos de Sadao Watanabe e Dom Grusin. Com um outro selo - Kokopelli, de Herbie Mann - foi gravado seu sexto CD, o Storyteller, em 1995, que também esteve entre as cinco mais tocadas. Em 2001, o CD Noite Clara saiu no Brasil pela MP,B e em 2003 nos EUA pela Adventure Music. Este trabalho foi indicado ao Grammy Latino 2004 na categoria melhor CD Instrumental. No mesmo ano da indicação, Ricardo Silveira em parceria com Luiz Avellar, ambos com experiências em turnês ao lado de Milton Nascimento, gravam ao vivo – violão e piano – o CD Milton Nascimento ao Vivo pelo selo brasileiro da Universal e pelo americano Adventure Music. No dia 10 de julho de 2007 foi lançado nos EUA Outro Rio, seu décimo trabalho, e em fevereiro de 2008 no Brasil, repetindo a dobradinha dos selos Adventure Music e MPB.

Para os amigos fica a faixa There Is No Greater Love , retirada do álbum Toots & Sivuca, gravado no Chiko's Bar em 1986, com a participação de Ricardo. O Chiko's talvez tenha sido um dos melhores bares de música da Lagoa na década de 1980. Hoje está política e corretamente instalado na Barra da Tijuca, onde a dose do doze anos custa doze reais. Mas se, no final, nada der certo, vá para o mardi gras em New Orleans.

01/09/2008

Sal

Sal Salvador (1925-1999) – Quintet/Quartet - Kenton Presents Sal Salvador - Blue Note - 1953-1954 –Sim, a capa não parece da Blue Note, mas é. Trata-se da quase sempre excelente série Kenton Presents, sob a supervisão do competente Michael Cuscuna. Sal Salvador não é argentino nem pernambucano. Nasceu no impronunciável Massachusetts e passou a maior parte da infância em Connecticut, levando aquela vida branda de quem vivesse numa Nova Inglaterra. Sal também não teve nenhum motivo particular para se interessar pela música ou pela guitarra, tampouco teve aquela vida sofrida e agitada que cercam de lendas outros grandes instrumentistas do jazz. Ele simplesmente, veio, ouviu e tocou. Sem qualquer pitada do romantismo que poderia sugerir seu sobrenome latino, Sal começou a tocar a guitarra que seu pai largou pela casa após algumas infrutíferas aulas. Inspirado pelos álbuns de Charlie Christian, Sal passou a ouvir também Parker e Dizzy, três influências fundamentais em sua trajetória. Aos 20 começa a tocar profissionalmente e aos 24 parte para New York, onde trabalharia com outros músicos de primeira linha, como Mundell Lowe. Em 1952 sai de New York para trabalhar com Stan Kenton, com quem ficaria até o final de 1953. Lépido e fagueiro, Sal destaca-se não apenas pela agilidade e técnica excelentes, mas, sobretudo, pela sonoridade típica do West Coast, estilo que ajudou a moldar e consolidar. Além de gravações para diversos selos importantes, Sal também lançou alguns métodos para guitarra. Esse seu lado pedagógico acabou lhe valendo uma cátedra na Universidade de Bridgeport, onde lecionou até sua morte, aos 73 anos. Nessa excelente coletânea Sal é acompanhado por Manny Albam (arr, bs), Jimmy Campbell (d), Eddie Costa (p, vib), Jim Gannon (b), Bill Holman (arr, ts), Joe Morello (d), Kenny O'Brien (b), Frank Sokolow (ts), John Williams (p). Para os amigos fica ( ). Boa audição.

07/07/2008

Steel Ukulele

Mal entrava no escritório mofado de vovô Acácio quando pude ouvir o final de seu resmungo: “a dose é que faz o veneno”. Antes que pudesse perquiri-lo sobre a famosa máxima, esclareceu-me que era de Paracelso, um médico corcunda que escrevia seus tratados científicos em forma poética, o que evitava problemas com a Inquisição uma vez que o texto poético admite uma infinidade de interpretações, o que facilitava, em casos de necessidade, encontrar uma que se adequasse aos anseios da Igreja ou do Papa, escapulindo assim o estranho doutor da excomunhão ou da fogueira. Enquanto falava, vovô limpava cuidadosamente seu steel ukulele, uma espécie estranha de cavaquinho que ele inventou em New Orleans, mas cuja patente foi adquirida por um saxofonista judeu que abandonou a música para se dedicar à bolsa de valores. Vovô explicou que steel guitar é expressão que se refere antes a um método que um instrumento específico: a guitarra é tocada na horizontal, por exemplo, deitando-se o violão sobre os joelhos, e com o auxílio de uma peça de aço (steel) que substitui o dedilhado. Diz a lenda que a coisa começou no Havaí, por volta de 1900. Mas adverte: não se deve confundir a steel guitar com a guitarra havaiana, esta última constituindo-se de uma guitarra comum, tocada com os dedos e na posição tradicional ou espanhola, só que com as cordas afrouxadas. Nem tampouco se deve confundir a steel guitar com a bottleneck guitar, tocada na posição tradicional com o auxílio de um gargalo de garrafa, muito comum entre os guitarristas de blues. Com o tempo a steel guitar foi tomando forma cada vez mais distinta da guitarra tradicional, até que perde o corpo com a eletrificação, sobrando apenas o braço e, em alguns casos mais extremos, fica com dois braços. Assustei-me quando, quebrando na parede uma garrafa já vazia de Jack Daniels, vovô pegou o gargalo e começou a improvisar sobre o tema de Indiana com seu estranho cavaquinho, acompanhando Buddie Emmons, exímio intérprete da steel guitar. Lembro que o álbum era Steel Guitar Jazz, gravado em 1963, com Jerome Richardson (ss, ts), Bobby Scott (p), Art Davis (b) e Charlie Persip (d). ( ) Embora não tenha sido o primeiro nem o único a ter feito jazz com a steel guitar, sem dúvida Buddie é o responsável pelo primeiro álbum totalmente dedicado ao instrumento, álbum aliás excelente. Entre as faixas vale ressaltar Oleo, de Sonny Rollins, que, segundo se comenta, não virá a Vitória no Tim 2008.

30/01/2008

Legends of Acid Jazz - Boogaloo

Boogaloo Joe Jones nasceu Ivan Joseph Jones na New Jersey de 1940. Sabemos pouco sobre esse guitarrista autodidata que aos 16 anos ganhou uma velha guitarra do pai. Inicialmente influenciado por Tal Farlow e Billy Butler, Boogaloo construiu seu estilo misturando muito funk, soul e blues, aprendidos com os mestres que atuavam em Atlantic City, entre eles Wild Bill Davis, Willis Jackson e Charlie Ventura. Nas décadas de 1960/70 Boogaloo gravou uma série de álbuns para a Prestige, a maioria deles relançada em cd. E quem acredita que Boogaloo não passa de um excelente guitarrista de R&B, está redondamente enganado. Em seus álbuns para a Prestige – em especial na coletânea Legends of Acid Jazz, que reúne os álbuns Boogaloo Jones (1969) e Right on Brother (1970) – Boogaloo demonstra sua habilidade para improvisar numa pegada que muito se assemelha a de um Grant Green ou, em alguns momentos mais ágeis, a de Pat Martino. O cd, embora contenha dois álbuns, parece curto demais de tão bom. Sempre muito bem acompanhado por músicos da categoria de Rusty Bryant (ts), Bernard Purdie (d), Sonny Phillips ou Charles Earland (org), Boogaloo deveria ser muito mais reconhecido pela crítica e pelo público. No entanto, gravou pouco e hoje nem sabemos ao certo por onde anda. Dizem que em Vineland, New Jersey. Para os amigos visitantes fica a faixa Boogaloo Joe. Até!

27/11/2007

Anthony Wilson

Hoje o Jazzseen tem o privilégio de trazer para os amigos uma resenha do escritor Pedro Nunes. Publicada originalmente em seu Almanaque Íntimo, conseguimos permissão para publicá-la em nosso blog. É assim: "Quem assistiu ao DVD Live in Paris, de Diana Krall, pôde reparar que, além de a bela pianista apresentar-se com uma saia que batia nos tornozelos, o que só faz aumentar seus méritos num momento em que as grandes cantoras se apresentam bem menos vestidas, ela se fez acompanhar de um time de músicos de primeira: o brasileiro Paulinho da Costa, na percussão, John Clayton, no baixo, Jeff Hamilton, na bateria, e Anthony Wilson, na guitarra, além da orquestra regida por Claus Ogeman. E quem reparou melhor viu no canto esquerdo do vídeo, à direita da cantora, um sujeito com cara de nerd , com direito a óculos fundo-de-garrafa, mandando ver encurvado sobre uma Gibson. Na hora do solo, lá estava ele, debaixo dos olhos admirados da dona do show – que quase rouba. Pois é, Anthony Wilson é o nome do cara. Mas quem é Anthony Wilson? Existe vida além de Diana Krall? Felizmente sim. Bem, eu já tinha concluído, pelos motivos expostos, que estava diante de um grande músico, e, posto receasse encontrar algo diverso do que vira, resolvi arriscar um palpite. Para tentar ratificar minhas impressões, fiz chegar-me às mãos seu álbum de estréia, simplesmente Anthony Wilson, lançado em 1997. Claro que um álbum de estréia pode ser temerário, mas não me decepcionei. Muito pelo contrário. E olhe que, além de tocar, Anthony Wilson compôs sete das dez magníficas faixas do disco e é autor de todos os arranjos que executa em companhia de Carl Saunders no trompete, Ira Nepus no trombone, Louis Taylor em vários instrumentos de sopro, Pete Christlieb no tenor, Jack Nimitz no barítono, Brad Mehldau no piano, Danton Boller no baixo e Willie Jones III na bateria. Anthony Wilson tem pedigree: é filho do respeitadíssimo, embora pouco conhecido, band-leader e trompetista Gerald Wilson. Mas parece ter feito, e bem, seu próprio caminho. Claro que podia ter feito outras opções. Outros músicos bem mais velhos que ele escolheram caminhos mais fáceis, mas Anthony Wilson, felizmente, parece ter feito a escolha correta. Com os pés fincados no bebop, Anthony Wilson detém o prêmio do Thelonious Monk Institute International Composers’ pela faixa Karaoke, a terceira do CD – apesar do título, brilhante – , e já lançou cerca de meia-dúzia de trabalhos, dos quais Power of nine, lançado em 2006, foi considerado pelo The New Yorker’s como um dos dez melhores discos de jazz de 2006. Em março e abril deste ano fez diversas apresentações no Brasil com o violonista, guitarrista, compositor e arranjador Chico Pinheiro, com quem gravou o CD Nova. Existe a expectativa de que Nova renda várias apresentações no Brasil em novembro de 2007. Esperamos que ele apareça por aqui."

09/11/2007

Elf

Já faz algum tempo que não falamos sobre guitarristas aqui no Jazzseen. Lendo as resenhas de John sobre sua viagem ao Chile, lembrei logo de Mark Elf, guitarrista nascido em 1949, em New York. É que tive a sorte de conhecê-lo em minha visita ao Chile, em 1993, durante sua apresentação no Alcantilado, um pequeno bar no agradável bairro de Bellavista, em Santiago. O bar não existe mais. Ficou apenas o excelente álbum Mark Elf Trio, gravado naquele ano para o selo chileno Alerce. Com Mark estavam diversos músicos chilenos, entre eles Ramon Romero (b), Alejandro Espinosa (d) e a cantora Claudia Acuna na faixa Body and Soul. Como sempre, o som cristalino de Mark faz com que cada nota seja ouvida de forma clara, perfeita, independentemente da velocidade e quantidade em que sejam tocadas. Ao seu swing nato, Mark adicionou três anos de estudos em Berklee, o que lhe permitiu enfrentar todos os contextos do jazz, trabalhando com mestres tão distintos quanto Lou Donaldson, Dizzy Gillespie, Lionel Hampton e Branford e Wynton Marsalis. Para quem aprecia o trabalho fluido e melódico de músicos como Herb Ellis, Barney Kessel ou Pat Martino, recomendo o álbum Minor Scramble, gravado por Mark em 1996 para seu próprio selo, Jen Bay. Com ele estão vários músicos da noite novaiorquina, como Eric Alexander (ts), Nicholas Payton (t), Benny Green (p), Peter Washington (b) e Louis Nash (d), entre outros. Aqui você encontra de tudo, desde Tico Tico no Fubá até A Fine Romance. Fica a faixa título para os leitores avaliarem. Beijos!

01 A Minor Scrambl...

19/10/2007

Stan & João: 3 diálogos

Há quem diga que os norte-americanos apaixonaram-se pela Bossa Nova por ela dialogar com o jazz - o que é verdade se você pensar que os acordes dissonantes e a batida ao violão muito se assemelham ao formato jazzístico. Os puristas fazem careta quando alguém afirma isso, mas os puristas - em qualquer ramo do pensamento e da arte - fazem careta para tudo. Não vou dissertar sobre técnica ou histórias - nem da Bossa Nova nem do jazz, já que muito se escreveu sobre isso e os compêndios pressupõem muito mais fôlego que as poucas linhas de um blog. De fato me interessa escolher alguns exemplos desse tal diálogo: os três discos nos quais Stan Getz e João Gilberto mostram por que essa conversação revela um dos pontos extremos da música nos últimos tempos.
O Getz/Gilberto, de 1963, tem algumas vantagens sobre os outros dois. A menor delas é a de ser o primeiro disco, e isso o coloca em local privilegiado da memória. Outra vantagem: ter, ao piano, os dedos inspirados de Antônio Carlos Jobim. Tudo bem: conta, em algumas faixas, com o vocal meia-boca de Astrud Gilberto, então mulher de João, mas isso não chega a comprometer o disco, que é produzido pelo lendário Creed Taylor, fundador das gravadoras Impulse! e CTI e um os responsáveis pela difusão do ritmo brasileiro em terras ianques. É um disco em que sobra limpidez: tanto na voz incrivelmente bem pronunciada de João quanto no fraseado do sax de Stan, que chegam a seu momento ótimo nas faixas Doralice, Para Machucar meu Coração e Corcovado. A sensualidade musical é evidente. Sim, eu disse sensualidade. Esse é daqueles discos cuja musicalidade confronta o controle da natalidade. As sessões contam também com a presença bem-comportada (não poderia deixar de ser) de Tommy Williams, baixista que havia tocado no Benny Golson/Art Farmer Jazztet. Em 1964, Stan e João novamente se encontraram, e ao vivo - mas por um tempo breve. Apesar de a versão em cd possuir quinze faixas, em apenas cinco delas os dois dialogam, embora seja um diálogo muito sutil, pois Stan Getz atua praticamente como sideman. Não vou comentar detalhadamente as desafinações de Astrud Gilberto em It Might as Well be Spring e Only Trust your Heart porque as estrelas desse post são outras. Sim, mas elas aparecem menos, enquanto Astrud tenta desesperadamente brilhar. Em Garota de Ipanema - com vocal também de Gilberto - as coisas chegam a ganhar outro rumo quando Getz sola tendo como fundo a bateria de Joe Hunt, o Milton Banana deles. Para completar, Gary Burton é sempre um competente vibrafonista. No baixo, o ex-baterista Gene Cherico, que tocou com Sinatra e Benny Goodman. O produtor continua sendo o Creed Taylor.
Sai Astrud; entra Miúcha, mulher de João, à época. The Best of Two Worlds é um belo - e polêmico - disco produzido pelo próprio Getz, em 1975. Polêmico porque houve desentendimento entre as duas estrelas, e a ruptura parecia definitiva. Mais ainda: apesar de Miúcha estar na capa, seu nome não entra nos créditos do disco, além de não ter levado para casa um mísero vintém. Quer mais? Diz-se que Stan mixou o disco à revelia de João, e teria, então, aumentado o som do sax, privilegiando a si mesmo. Apesar de tudo, é um discaço. Double Rainbow, Águas de Março, Falsa Baiana, É Preciso Perdoar e Just One of Those Things são faixas para ouvir todos os dias, e durante muitos anos. Em Águas de Março, clássico de Jobim, Miúcha vira a estrela - cantando em inglês com uma voz pequena, mas muitíssimo afinada. Ok, ela não era uma Sarah Vaughan, mas e daí? Não é um disco de jazz - e sim um registro do que melhor se compôs na nova bossa e na mpb. No piano, Albert Dailey; na bateria, Billy Hart e Grady Tate. No baixo, Clint Houston e Steve Swallow; na percussão, Ray Armando, Rubens Bassini, Sonny Carr e Airto Moreira. Os arranjos ficaram por conta do violonista Oscar Castro-Neves.