
Depois de ler as duas resenhas de Mestre Edù sobre Benny Goodman, como não escrever algumas breves linhas sobre Charlie Christian, um dos poucos instrumentistas do jazz capazes de lançar alguma sombra sobre o virtuoso clarinetista? Guitarrista do Swing e do Bebop, Charlie nasceu em Dallas, Texas, no dia 29 de julho, mas passa uma infância humilde em Oklahoma City. Filho de um guitarrista e cantor itinerante cego, seus dois irmãos também demonstram inclinação musical, embora não cheguem a se destacar. Pobre demais para poder comprar um instrumento, constrói sua primeira guitarra com caixas de cigarro vazias e, em pouco tempo, estabelece sua reputação entre os músicos locais. No início da década de 1930, Charlie começa a trabalhar profissionalmente em pequenas bandas da região (territory bands), como as de Anna Mae Winburn (que mais tarde seria a líder do grupo Sweethearts of Rhythm), Nat Towles e Alphonso Trent (onde toca contrabaixo). Por volta de 1937, Charlie inicia suas experiências com a guitarra amplificada eletricamente, ao mesmo tempo em que amplia sua reputação de excelente guitarrista. Com o apoio de Mary Lou Williams, Charlie é ouvido por John Hammond no Ritz Café, em Oklahoma City. Impressionado com o talento do jovem, Hammond tenta persuadir Benny Goodman a convidá-lo para uma sessão de gravação, em Los Angeles. Embora não estivesse muito convencido acerca das possibilidades da guitarra elétrica e não aprovasse as roupas demasiadamente coloridas de Christian, Benny concorda em recebê-lo no restaurante Victor Hugo, em Beverly Hills, onde se apresentava. Auxiliado por Hammond, o guitarrista carrega sua incômoda parafernália elétrica para o palco, onde um Benny Goodman contrariado e furioso inicia Rose Room, tema que acreditava não fosse conhecido por Christian. No entanto, quando chega a vez de Christian realizar seu solo, improvisa 25 brilhantes choruses (variações sobre o tema), entusiasmando o público, os músicos presentes e o próprio Benny Goodman, que pedem bis. Infelizmente os 45 minutos de apresentação dessa noite memorável não foram gravados, mas Christian saiu do palco empregado como o mais novo integrante do famoso sexteto de Goodman. Foi a partir daí que, com a enorme exposição pública oferecida por Goodman, Christian alcança a fama e a fortuna, conquistas que não soube administrar: tocando com qualquer um e em qualquer lugar, Christian dorme pouco, mergulha na bebida e abraça a promiscuidade, o que lhe rende uma importante tuberculose em 1941. Internado e com a saúde devastada, recebe a visita de amigos que realizam festanças ali mesmo no hospital, ao lado de seu leito, até que conseguem matá-lo no dia 02 de março. E o que mais chama a atenção no curto trajeto de Christian não é o fato de ter utilizado a guitarra amplificada eletricamente – ele não foi o primeiro a fazê-lo. Ao contrário de Vovô Acácio, o inventor da cuíca elétrica, a mais importante contribuição de Christian foi a de ter escrito o roteiro da guitarra no estilo Bebop, contribuição levada a efeito nas muitas sessões realizadas no Minton’s Playhouse, famoso clube do Harlem, em New York, ao lado de Charlie Parker e Dizzy Gillespie, algumas delas felizmente gravadas por um fã. Seu estilo contido e aparentemente simples ocultava um discurso brilhante e inventivo, inaugurando os longos legatos e desenvolvendo ambiciosas progressões de acordes que determinariam não apenas o caminho a seguir por seus companheiros de instrumento, como também influenciando solistas de outros instrumentos. Charlie é mais um desses gênios que, como Vovô Acácio, nos abandonam antes de esgotarem todo seu potencial criativo. Para os amigos ficam algumas sugestões discográficas e a faixa Rose Room , aquela com que Benny tentou dar uma rasteira em Christian.
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The Genius of the Electric Guitar - 1939-1941 - Columbia CK 40846 - Este cd é fruto de uma difícil seleção feita a partir do box set de mesmo nome, com 4 cd's. São 16 faixas que constituem uma excelente introdução ao trabalho de Christian. Contudo, para os colecionadores ou amantes da jazz guitar, o box set constitui melhor compra. Essencial em qualquer discoteca de jazz e recomendado apenas para aqueles que não puderem comprar o box set. Com Cootie Williams, Alec Fila, Jimmy Maxwell, Irving Goodman (t), Cutty Cutshall, Lou McGarity, (tb), Benny Goodman (cl), Gus Bivona, Skip Martin (as), Georgie Auld, Pete Mandello (ts), Bob Snyder (bs), Lionel Hampton (vib), Count Basie (p), Dudley Brooks, Johnny Guarnieri, Fletcher Henderson (p), Artie Bernstein (b), Harry Joeger (d), Jo Jones, Nick Fatool, Dave Tough (d).
The Genius of the Electric Guitar - 1939-1941 - Columbia CK 65564 - Box set com 4 cd's apresentando 98 faixas com notável qualidade sonora, fruto de cuidadosa remasterização. Sem dúvida uma documentação importante não apenas para observarmos a curta carreira desse guitarrista que morreu aos 25 anos de idade, como também para ouvirmos boa parcela do melhor jazz que se produziu nesse período. E, embora alguns sardônicos críticos questionem a real importância de Charlie Christian, alegando que ele não foi o primeiro guitarrista a tocar guitarra elétrica (parece ter sido um tal de Lloyd Loar, um funcionário da Gibson), nem o primeiro guitarrista do jazz a tocar guitarra elétrica (parece ter sido Eddie Durham, que gravou em 1938), não há como negar que foi ele quem deu nova performance à guitarra elétrica, substituindo a técnica utilizada na guitarra acústica, revolucionando o papel do instrumento no jazz e, sem exagero algum, na música. Tudo isso fica muito claro nestas gravações realizadas com Benny Goodman e convidados de peso, como Lester Young, Count Basie, Benny Carter, Bucky Clayton e Gene Krupa. Não bastasse, acompanha farto livreto de Peter Broadbent e detalhada informação discográfica de Loren Schoenberg e Les Paul. Com Jimmy Mundy (arr), Cootie Williams, Alec Fila, Jimmy Maxwell, Irving Goodman, Bucky Clayton, Ziggy Elman, Harry James, Johnny Martel (t), Cutty Cutshall, Lou McGarity, Red Ballard, Vernon Brown, Cutty Cutshall, Jack Teagarden, Ted Vesely (tb), Benny Goodman (cl), Gus Bivona, Skip Martin, Buff Estes, Toots Mondello, Les Robinson (as), Georgie Auld, Pete Mandello, Bus Bassey, Lester Young, Jerry Jerome, Eddie Miller (ts), Bob Snyder (bs), Lionel Hampton (vib), Count Basie, Dudley Brooks, Johnny Guarnieri, Ken Kersey, Fletcher Henderson (p), Arnold Covey, Freddie Green (g), Artie Bernstein, Bob Haggart, Walter Page (b), Harry Jaeger, Jo Jones, Nick Fatool, Dave Tough, Gene Krupa (d), Helen Forrest (v).