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30/10/2009

Charlie Christian (1916-1942)

Depois de ler as duas resenhas de Mestre Edù sobre Benny Goodman, como não escrever algumas breves linhas sobre Charlie Christian, um dos poucos instrumentistas do jazz capazes de lançar alguma sombra sobre o virtuoso clarinetista? Guitarrista do Swing e do Bebop, Charlie nasceu em Dallas, Texas, no dia 29 de julho, mas passa uma infância humilde em Oklahoma City. Filho de um guitarrista e cantor itinerante cego, seus dois irmãos também demonstram inclinação musical, embora não cheguem a se destacar. Pobre demais para poder comprar um instrumento, constrói sua primeira guitarra com caixas de cigarro vazias e, em pouco tempo, estabelece sua reputação entre os músicos locais. No início da década de 1930, Charlie começa a trabalhar profissionalmente em pequenas bandas da região (territory bands), como as de Anna Mae Winburn (que mais tarde seria a líder do grupo Sweethearts of Rhythm), Nat Towles e Alphonso Trent (onde toca contrabaixo). Por volta de 1937, Charlie inicia suas experiências com a guitarra amplificada eletricamente, ao mesmo tempo em que amplia sua reputação de excelente guitarrista. Com o apoio de Mary Lou Williams, Charlie é ouvido por John Hammond no Ritz Café, em Oklahoma City. Impressionado com o talento do jovem, Hammond tenta persuadir Benny Goodman a convidá-lo para uma sessão de gravação, em Los Angeles. Embora não estivesse muito convencido acerca das possibilidades da guitarra elétrica e não aprovasse as roupas demasiadamente coloridas de Christian, Benny concorda em recebê-lo no restaurante Victor Hugo, em Beverly Hills, onde se apresentava. Auxiliado por Hammond, o guitarrista carrega sua incômoda parafernália elétrica para o palco, onde um Benny Goodman contrariado e furioso inicia Rose Room, tema que acreditava não fosse conhecido por Christian. No entanto, quando chega a vez de Christian realizar seu solo, improvisa 25 brilhantes choruses (variações sobre o tema), entusiasmando o público, os músicos presentes e o próprio Benny Goodman, que pedem bis. Infelizmente os 45 minutos de apresentação dessa noite memorável não foram gravados, mas Christian saiu do palco empregado como o mais novo integrante do famoso sexteto de Goodman. Foi a partir daí que, com a enorme exposição pública oferecida por Goodman, Christian alcança a fama e a fortuna, conquistas que não soube administrar: tocando com qualquer um e em qualquer lugar, Christian dorme pouco, mergulha na bebida e abraça a promiscuidade, o que lhe rende uma importante tuberculose em 1941. Internado e com a saúde devastada, recebe a visita de amigos que realizam festanças ali mesmo no hospital, ao lado de seu leito, até que conseguem matá-lo no dia 02 de março. E o que mais chama a atenção no curto trajeto de Christian não é o fato de ter utilizado a guitarra amplificada eletricamente – ele não foi o primeiro a fazê-lo. Ao contrário de Vovô Acácio, o inventor da cuíca elétrica, a mais importante contribuição de Christian foi a de ter escrito o roteiro da guitarra no estilo Bebop, contribuição levada a efeito nas muitas sessões realizadas no Minton’s Playhouse, famoso clube do Harlem, em New York, ao lado de Charlie Parker e Dizzy Gillespie, algumas delas felizmente gravadas por um fã. Seu estilo contido e aparentemente simples ocultava um discurso brilhante e inventivo, inaugurando os longos legatos e desenvolvendo ambiciosas progressões de acordes que determinariam não apenas o caminho a seguir por seus companheiros de instrumento, como também influenciando solistas de outros instrumentos. Charlie é mais um desses gênios que, como Vovô Acácio, nos abandonam antes de esgotarem todo seu potencial criativo. Para os amigos ficam algumas sugestões discográficas e a faixa Rose Room , aquela com que Benny tentou dar uma rasteira em Christian.
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The Genius of the Electric Guitar - 1939-1941 - Columbia CK 40846 - Este cd é fruto de uma difícil seleção feita a partir do box set de mesmo nome, com 4 cd's. São 16 faixas que constituem uma excelente introdução ao trabalho de Christian. Contudo, para os colecionadores ou amantes da jazz guitar, o box set constitui melhor compra. Essencial em qualquer discoteca de jazz e recomendado apenas para aqueles que não puderem comprar o box set. Com Cootie Williams, Alec Fila, Jimmy Maxwell, Irving Goodman (t), Cutty Cutshall, Lou McGarity, (tb), Benny Goodman (cl), Gus Bivona, Skip Martin (as), Georgie Auld, Pete Mandello (ts), Bob Snyder (bs), Lionel Hampton (vib), Count Basie (p), Dudley Brooks, Johnny Guarnieri, Fletcher Henderson (p), Artie Bernstein (b), Harry Joeger (d), Jo Jones, Nick Fatool, Dave Tough (d).

The Genius of the Electric Guitar - 1939-1941 - Columbia CK 65564 - Box set com 4 cd's apresentando 98 faixas com notável qualidade sonora, fruto de cuidadosa remasterização. Sem dúvida uma documentação importante não apenas para observarmos a curta carreira desse guitarrista que morreu aos 25 anos de idade, como também para ouvirmos boa parcela do melhor jazz que se produziu nesse período. E, embora alguns sardônicos críticos questionem a real importância de Charlie Christian, alegando que ele não foi o primeiro guitarrista a tocar guitarra elétrica (parece ter sido um tal de Lloyd Loar, um funcionário da Gibson), nem o primeiro guitarrista do jazz a tocar guitarra elétrica (parece ter sido Eddie Durham, que gravou em 1938), não há como negar que foi ele quem deu nova performance à guitarra elétrica, substituindo a técnica utilizada na guitarra acústica, revolucionando o papel do instrumento no jazz e, sem exagero algum, na música. Tudo isso fica muito claro nestas gravações realizadas com Benny Goodman e convidados de peso, como Lester Young, Count Basie, Benny Carter, Bucky Clayton e Gene Krupa. Não bastasse, acompanha farto livreto de Peter Broadbent e detalhada informação discográfica de Loren Schoenberg e Les Paul. Com Jimmy Mundy (arr), Cootie Williams, Alec Fila, Jimmy Maxwell, Irving Goodman, Bucky Clayton, Ziggy Elman, Harry James, Johnny Martel (t), Cutty Cutshall, Lou McGarity, Red Ballard, Vernon Brown, Cutty Cutshall, Jack Teagarden, Ted Vesely (tb), Benny Goodman (cl), Gus Bivona, Skip Martin, Buff Estes, Toots Mondello, Les Robinson (as), Georgie Auld, Pete Mandello, Bus Bassey, Lester Young, Jerry Jerome, Eddie Miller (ts), Bob Snyder (bs), Lionel Hampton (vib), Count Basie, Dudley Brooks, Johnny Guarnieri, Ken Kersey, Fletcher Henderson (p), Arnold Covey, Freddie Green (g), Artie Bernstein, Bob Haggart, Walter Page (b), Harry Jaeger, Jo Jones, Nick Fatool, Dave Tough, Gene Krupa (d), Helen Forrest (v).

04/04/2009

Puma

Na resenha anterior, quando Mr. Bravante mencionou o felino puma, lembrei imediatamente do guitarrista Joe Puma (1927-2000), figura bastante admirada pelos amantes do jazz West Coast, muito embora seja originário da costa leste. Injustamente, ele não é citado na The Virgin Encyclopedia of Jazz, edição de 2004, nem tampouco consta do The Rough Guide to Jazz, 3rd Edition, do mesmo ano. Mas os guias de maior gabarito falam desse guitarrista nascido numa família de músicos de New York e que aprende ainda criança seu ofício. Aos 22 anos inicia para valer a carreira ao lado do vibrafonista Joe Roland. Na década de 1950’ Puma é visto em todos os lugares, gravando inúmeras sessões com gente do naipe de Louie Bellson, Artie Shaw, Eddie Bert, Herbie Mann, Chris Connor, Paul Quinichette e, na década seguinte, Bobby Hackett, Gary Burton e Carmen McRae. Nos anos 1970’ forma um duo com o guitarrista Chuck Wayne, além de dedicar-se ao ensino, sacerdócio que não o impediu de manter-se ativo como músico até quase sua morte. Joe foi um guitarrista sensível, acentuadamente discreto e, embora inteligente e criativo, nunca obteve o destaque de público que poderia alcançar caso assim desejasse. Contudo, era respeitado pelos músicos e pela crítica, chegando a obter o prêmio de melhor guitarrista em 1957 pela revista Metronome. Em minhas orelhas fica a impressão de um Jimmy Raney em baixa rotação e tocando com oito dedos, mas nem por isso menos swingante e imaginativo. Para os amigos deixo uma faixa que diz muito sobre ele: Time Was , onde podemos comprovar que a máxima “menos é mais” tem sua razão de ser. Ela foi retirada da excelente coletânea The Jazz Guitar of Joe Puma, lançada pela Fresh Sound, onde foram reunidos os álbuns East Coast Jazz Series, Vol. 3 e Joe Puma Quintet (primeiras gravações como líder, realizadas em 1954, com Barry Galbraight (g), Don Elliot (vib), Vinnie Burke (b) e Ted Sommer (d) e lançadas pela Bethlehem), além de outras faixas gravadas em 1955, 1956 e 1957, em New York, com os músicos Dick Garcia (g), Eddie Costa (p, vib), Bill Evans (p), Dante Martucci, Oscar Pettiford (b), Al Levitt, Jimmy Campbell e Paul Motian (d). Enfim, o que Frederico Bravante tem de bagagem, Joe Puma tem de síntese.

09/09/2010

Lenda viva: Cornell Dupree

A reunião do Clube das Terças prosseguia incólume aos abomináveis efeitos da propaganda eleitoral gratuita. Pedro Nunes tentava explicar a Chico Brahma as diferenças entre a palilogia, a anadiplose e a epanalepse, todas maravilhosas figuras de nossa linguagem. Na outra margem da mesa, um orgulhoso Gumercindo ostentava o álbum Bop 'N' Blues, do guitarrista Cornell Dupree. Torcendo o nariz, João Luiz diz a Gumercindo para jogar o álbum no lixo, que aquilo era álbum de rock. Reinaldo intercede surpreendentemente, alegando que, apesar da alta voltagem do álbum, o velho guitarrista fazia um bom soul jazz, no que é apoiado por maioria relativa do clube. Fernando, com sua verve característica, coça o reluzente crânio e complementa: Cornell Dupree nasceu em 19 de dezembro de 1942, em Fort Worth, Texas. Autodidata, começou a carreira ainda adolescente em sua cidade natal, sofrendo forte influência do excelente blues existente na região, além da música country. Aos vinte anos, já em New York, passa a integrar a banda de King Curtis, além de trabalhar um breve período com Jimi Hendrix. No final da década de 1960, entusiasmado com a capacidade de Dupree em solar e manter o ritmo ao mesmo tempo, o produtor Jerry Wexler o contrata como guitarrista oficial do selo Atlantic. É nesse período que grava com uma série de músicos importantes do Blues e do R&B, além de integrar durante dez anos a banda da vocalista Aretha Franklin, outra grande inspiradora de seu estilo. Apesar de milhares de sessões de gravações como sideman, Dupree gravou poucos álbuns de jazz como líder, estilo em que trafega com facilidade, sobretudo no soul jazz. Seu fraseado funky não se perde no contexto mais elaborado do bebop, como comprova seu desempenho no álbum Bop 'N' Blue, gravado em 1994 para o selo Kokopelli. Para os amigos fica a faixa 'Round About Midnight , com Herbie Mann (arr), Terell Stafford (t), Bobby Watson (as), Ronnie Cuber (bs), Leon Pendarvis (p, org), Chuck Rainey (b), Ricky Sebastian (d), Sammy Figueroa (perc). Dupree sempre se manteve atuante, gravando, apresentando-se sozinho ou em grupo, seja com o Bayou Buddies ou com o The Soul Survivors. Lenda viva! E quem estiver em New York entre os dias 24 e 26 de setembro, poderá ouvi-lo no Iridium, clube que recomendo sem ressalvas.   

20/05/2007

Malone, Russell Malone

Aqui está um guitarrista pós-80' do século passado: Russell Malone. O jovem tocou com Jimmy Smith, Harry Connick, Jr e também com a ex-gostosa Diana Kall. Ele faz parte de uma geração de novos músicos que não despreza as influências do swing, do r&b e do bop - graças a Deus. Nesse disco - Sweet Georgia Peach -, o guitarrista utiliza todas as suas influências articuladas às linguagens mais contemporâneas (isso pode ser observado especialmente nos arranjos dos temas executados). O trio que o acompanha é formado for Kenny Barron (p), Ron Carter (b) e Lewis Nash (d), músicos de primeira linha que ajudam-no a obter um excelente resultado nas gravações. Deixarei a irreverente faixa-título (observem o bom casamento das influências do guitarrista) e a reverente Swing low, sweet charriot (interpretação solo), que eu preferia ouvir numa mandada mais up, e que eu dedico à rapaziada gospel de plantão.

13/06/2009

Lou Mecca, o quiroprático

Quiroprático, Lou Mecca desempenou a coluna de muitos pacientes, entre eles amigos músicos e, em especial, bateristas e contrabaixistas obrigados a transportar seus desengonçados instrumentos de lá para cá. Mas foi como guitarrista que utilizou melhor as mãos, chegando a ser eleito o melhor guitarrista do ano pela Corporação de Radiodifusão Canadense e o “New Star” pelos críticos da Down Beat. Só se fala em outra coisa. Foi com estas palavras que Gumercindo, o sócio mais bem informado do Clube das Terças, sentou-se à mesa naquela reunião animadíssima. Retirando de uma sacola da Casa Bonita o álbum Lou Mecca Quartet, lançado pela Blue Note em 1955, Gumercindo deixou perplexa a maioria absoluta dos sócios: então, perguntamos todos, Lou Mecca não era apenas mais uma piada do amigo? Reinaldo, tentando não demonstrar surpresa, inicia impassível e retesado discurso sobre o moço: esse massagista nasceu com o nome de Louis John Meccia, em 1926. Antes que pudesse prosseguir, é interrompido por Mestre Edù, sócio-visitante do Clube, que exigia dia, mês e local de nascimento do ilustre desconhecido. Nosso presidente informa que foi no dia 23 de dezembro, em Passaic, New Jersey, e prossegue: o pai de Lou era um trompetista clássico italiano, daí ter sido esse o seu primeiro instrumento, que começa a aprender aos oito anos, sob orientação paterna. Mas, segundo suas próprias palavras, Lou não tinha fôlego suficiente para levar adiante o estudo do trompete, voltando-se para a guitarra quando ingressa na The Master School of Music, que, por 50 cents a hora, fornecia lições e, de quebra, emprestava o instrumento. Abandonando os estudos secundários para dedicar-se à carreira profissional, começa a tocar em bares de Passaic. Nesse meio tempo, é convidado a lecionar numa escola de música em New Jersey, onde recebe uma pilha de livros e uma série de classes, desde o sax alto até a gaita de foles. Por volta de 1947, conhece o excelente guitarrista Johnny Smith que, por coincidência, também andou tocando trompete na banda do Exército. Animado, Lou volta a estudar seu antigo instrumento e chega a tocá-lo na Clifton Symphony. Sempre brincalhão, Lou confessou que, nessa época, lia música mais rapidamente do que conseguia tocá-la e, assim, não nutria nenhuma expectativa imediata de desafiar Clifford Brown para uma competição ao trompete. Sempre tocando sua guitarra pelos bares e clubes de New Jersey e arredores, Lou dedica-se cada vez mais à sua profissão de quiroprático, praticamente abandonando a música e o ensino durante 25 anos, até sua aposentadoria. Apesar disso, arranjou tempo para trabalhar com grandes músicos, entre eles Bill Evans, Teddy Charles, Ella Fitzgerald, Gil Melle, Eddie Costa, Al Cohn e Chris Conners, entre outros, além de tocar em musicais da Brodway e integrar orquestras. Levantando-se para ir ao banheiro, Reinaldo nos deixa a todos perplexos com a vastidão de sua cultura jazzística. 

Gumercindo, que chegara ali sorridente e esfregando as mãos, acreditando ter finalmente encontrado um músico de jazz não conhecido pelo Clube das Terças, entrega cabisbaixo e sorumbático o velho lp para mim, responsável por transformá-lo em cd. Para os amigos fica a faixa, que é quase uma massagem, You Go To My , com Jack Hitchcock (vib), Vinnie Burke (b) e Jimmy Campbell (d). Em sua agenda, Mestre Edù registrava a data de nascimento de Lou, dos sócios do Clube das Terças e de todos os transeuntes do shopping Centro da Praia. Sorrindo, alegou que adora aniversários.

01/06/2006

Rondando ao derredor do blues

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Em 1794 o francês Xavier De Maistre escrevia seu livro Viagem Ao Redor Do Meu Quarto (Ed. Mercado Aberto), onde fazia cada recanto do cômodo nos remeter a lugares imaginários. Ótima opção para brasileiros pobres ou internautas tarados. Ou, ainda, para miseráveis que, como eu, duzentos anos depois de De Maistre, cá estamos, viajando através do mundo a partir de nosso computador. Lembrando que dinheiro não traz felicidade e desconsideradas as terríveis dores no pescoço, pernas, costas e glúteos, fincamos pés virtuais em terras distantes de nossos quartos e inalcançáveis para nossos bolsos. Damos um pulo no Village, em New York, e olhamos toda aquela maravilhosa programação a que nunca poderemos assistir. Depois esticamos até a New Orleans da gripe espanhola, onde toda a família do guitarrista Lonnie Johnson morreu em 1915, com exceção de um de seus 12 irmãos.
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Menina levada do Storyville com gripe - 1912 - Bellocq
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Alonzo Johnson (?-1970) nasceu obviamente em New Orleans, numa família de músicos. Logo cedo aprendeu o violão e o violino. Após tocar em bares, bordéis e navios pelo rio Mississipi, viaja pelo mundo: aos dezessete anos parte para Londres, depois New York, Chicago e qualquer outra cidade onde um negro pudesse ganhar algumas moedas fazendo música. Na década de 20 tocou com astros como Eddie Lang, Louis Armstrong, Duke Ellington e Bessie Smith que, segundo as más línguas, teria levado uns pitacos do guitarrista. Os dois grandes problemas de Lonnie eram: primeiro ser um gênio negro da guitarra, inventor do solo desse instrumento no blues e no jazz, estando muito além de qualquer guitarrista de sua época, deixando um legado que influenciou Charlie Christian, Django Reinhardt, T-Bone Walker e B B King. Até mesmo Robert Johnson usava esse sobrenome para ser confundido como irmão de Lonnie. O segundo grande problema de Lonnie era não ser um negrinho engraçado e brincalhão. Lonnie Johnson era um homem educado, consciente de sua condição, nascido e criado numa grande cidade, onde os absurdos raciais eram denunciados e questionados por homens como ele. O próprio público negro afastou-se de sua música elaborada e inteligente, fazendo com que Lonnie fosse trabalhar como porteiro de Hotel.

Lonnie Johnson, que Roberto Muggiati chama de O Poeta do Blues
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Na década de 50 intelectuais brancos resolveram fazer o merecido resgate de Lonnie, levando-o para os estúdios e nos brindando com gravações que demonstram porque Lonnie é considerado o gênio do blues que revolucionou a guitarra do jazz. Os estudiosos do blues podem preferir aquelas obras mais autênticas, gravadas entre as décadas de 20 e 40. Para quem não curte chiados e tic-tacs, recomendo com ênfase o cd abaixo, com excelente som, gravado em 1960.
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Blues, Ballads, and Jumpin' Jazz, Vol. 2 - Bluesville - 1960


28/01/2009

There Is No Greater Love

E quem nunca passou uma lua-de-mel em New York ou Paris? Não? E em Parati ou Visconde de Mauá? Fale sério! Então case novamente e mãos à obra! Enquanto a bolha não sai voando nem estoura, recomendo uma lua-de-mel logo ali, em Visconde de Mauá e, se a carteira suportar, numa das suítes da Pousada Terra da Luz, logo na entrada da cidade. Além da aconchegante lareira próxima à cama, o deck da hidromassagem suporta bem a garrafa de tinto e duas taças. Em derredor, uma infinidade de plantas, milhares de insetos perigosíssimos e carradas de pássaros que, se por um lado não nos perseguem como no filme Alta Ansiedade, por outro espatifam-se nas generosas vidraças que compõem as instalações da pousada. Mesmo já tendo protestado junto ao proprietário, os acidentes continuam ocorrendo e é triste ver aqueles pássaros todos mortos ao redor da sala do café da manhã de manhã. Portanto, acorde tarde, quando já foram recolhidos num carrinho de mão por um dos atenciosos funcionários da casa. E corra porque nos dias 13 e 14 de fevereiro quem estará se apresentando por lá é Ricardo Silveira, um dos nossos melhores guitarristas. 

Segue breve histórico do músico, retirado de seu site: Ricardo Silveira é um músico brasileiro com carreira internacional. Nascido no Rio de Janeiro, sempre soube apreciar boa música e transita com facilidade pelos diversos idiomas musicais. Ainda adolescente, gostava de ouvir desde rock (Beatles, Rolling Stones, Jimmy Hendrix, Led Zeppelin, Cream) e blues (BB King, John Mayal) a música brasileira (João Gilberto, Chico Buarque, Mutantes, Novos Baianos, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Tom Jobim, Baden Powell). Logo cedo, descobriu também o jazz: Dave Brubeck, Miles Davis, Oscar Peterson, Joe Pass, George Benson, Wes Montgomery. Ainda adolescente, Ricardo se interessou pela guitarra e pelo violão. Costumava tirar as melodias das músicas que ouvia, primeiro só numa corda e depois tentando descobrir os acordes, tendo descoberto mais tarde ser este um ótimo exercício para o ouvido e para conhecer o braço do instrumento. Tocando com amigos e em alguns festivais de colégio, decidiu que queria ser músico profissional. Teve aulas de violão clássico e teoria musical e passou no vestibular para a Escola Nacional de Música, porém não havia a cadeira de violão ou guitarra nas universidades do Rio. Nessa época, assistiu a um show de Victor Assis Brasil, que tinha estudado na Berklee College of Music, em Boston, assim como o Márcio Montarroyos, que também tocou nesse mesmo show e o incentivou a fazer na Berklee um curso de dois meses. 

Após o curso, conseguiu uma bolsa e continuou a estudar em Boston. Após um ano, voltou ao Brasil, onde ficou por dois meses participando de shows com Márcio Montarroyos. De volta a Boston, por recomendação do guitarrista Bill Frisell, começou a trabalhar com uma banda de salsa, um de seus primeiros trabalhos profissionais nos EUA. Estrelas Latinas, como se chamava o grupo, era comandada por Fox, um violinista cubano, acompanhado por músicos de Santo Domingo, EUA, Porto Rico e Brasil. Nos finais de semana, Ricardo deixava Boston a caminho de Nova York, onde tocava com o grupo brasileiro Astra Carnaval. Recomendado pelo trompetista Cláudio Roditi, Silveira foi convidado para integrar o grupo do flautista Herbie Mann, com quem excursionou por dois anos pelos Estados Unidos. Nessa época, já morando em Nova York, começou também a trabalhar em estúdio com grandes músicos como Steve Gadd, Richard Tee, Marcus Miller, Michael Brecker, Jason Miles, Naná Vasconcelos, L. Shankar. Apesar dos quatro anos trabalhando fora de seu país, Ricardo manteve o contato com a música brasileira. Aliás, grande parte dos convites para tocar no exterior surgiu por ele ser um músico brasileiro. De volta, por recomendação do produtor e músico Liminha, que havia conhecido nos Estados Unidos, Ricardo foi convidado por Elis Regina para participar da turnê pelo Brasil do disco “Essa Mulher”. Foi no mesmo período que começou a surgir, além de shows, participações em gravações, desde jingles a discos dos mais diversos artistas. Após a turnê com Elis Regina, Ricardo começou a tocar com outros grandes nomes da MPB como Hermeto Paschoal, Maria Bethânia, Gilberto Gil, Milton Nascimento, João Bosco, Ivan Lins, Nana Caymmi e Ney Matogrosso para quem também fez arranjos e direção musical. Entre a participação nas gravações e nos shows dos grandes nomes da música brasileira, Ricardo começava a desenvolver seus projetos solos. Seu primeiro disco foi Bom de tocar (Polygram), lançado em 1984. A música fez tanto sucesso, que acabou virando vinheta da Rádio Globo FM, ficando no ar por 10 anos, e eternizando seus solos de guitarra na música que deu nome ao disco. 

Por conta da repercussão, o guitarrista foi convidado para tocar no primeiro Free Jazz Festival, em 1985. Para o show, convidou os talentosos amigos: o baixista Nico Assumpção, o pianista Luiz Avellar, o baterista Carlos Bala e o saxofonista Nova Yorquino Steve Slagle. O resultado no palco foi tão bom que o quarteto acabou gravando um disco, o High Life, lançado em 1986 pelo selo Elektra Musician. O segundo trabalho solo data de 1987 e teve o mesmo selo. O disco tinha como título o nome do próprio guitarrista. Nos Estados Unidos, este trabalho ganhou o nome de Long Distance, pelo selo da Verve Forecast, que além deste lançou Sky Light, Amazon Secrets e Small World. Todos estiveram entre os cinco mais executados nas rádios de jazz americana, sendo que Sky Light e Amazon Secrets chegaram ao primeiro lugar. Nos Estados Unidos, além de excursionar com Herbie Mann tocou com nomes como Sérgio Mendes, Don Grusin, Dave Grusin, Oscar Castro Neves, Dori Caymmy, Nathan East, Vanessa Williams, El Debarge, Diana Ross, Brenda Russel, Justo Almario, Toots Tiellemans, Baby Face, John Pisano, Kevin Lethau, Ronnie Foster, Harvey Mason, Paty Austin, David Sanborn, Pat Metheny, Phil Perry, Earnie Watts, Gregg Karukas e Abe Laboriel. Com Matt Bianco, Silveira esteve duas vezes na Europa e no Japão, sendo que fez mais oito viagens para este último país em concertos de Sadao Watanabe e Dom Grusin. Com um outro selo - Kokopelli, de Herbie Mann - foi gravado seu sexto CD, o Storyteller, em 1995, que também esteve entre as cinco mais tocadas. Em 2001, o CD Noite Clara saiu no Brasil pela MP,B e em 2003 nos EUA pela Adventure Music. Este trabalho foi indicado ao Grammy Latino 2004 na categoria melhor CD Instrumental. No mesmo ano da indicação, Ricardo Silveira em parceria com Luiz Avellar, ambos com experiências em turnês ao lado de Milton Nascimento, gravam ao vivo – violão e piano – o CD Milton Nascimento ao Vivo pelo selo brasileiro da Universal e pelo americano Adventure Music. No dia 10 de julho de 2007 foi lançado nos EUA Outro Rio, seu décimo trabalho, e em fevereiro de 2008 no Brasil, repetindo a dobradinha dos selos Adventure Music e MPB.

Para os amigos fica a faixa There Is No Greater Love , retirada do álbum Toots & Sivuca, gravado no Chiko's Bar em 1986, com a participação de Ricardo. O Chiko's talvez tenha sido um dos melhores bares de música da Lagoa na década de 1980. Hoje está política e corretamente instalado na Barra da Tijuca, onde a dose do doze anos custa doze reais. Mas se, no final, nada der certo, vá para o mardi gras em New Orleans.

08/07/2007

II Penedo Winter Jazz


Amigo de longa data, o artista plástico e contrabaixista Roberto Granja está sempre descendo a serra de Visconde de Mauá para tocar jazz em Penedo. No frio daquelas noites, o Contraponto Duo, formado por Roberto e seu parceiro Marcelo Bezerra, levam jam sessions imperdíveis no excelente Jazz Village Bistrô. E, para completar, acontece agora em julho o II Penedo Winter Jazz. Saiba mais: O "II Penedo Winter Jazz" é promovido pelo Jazz Village Bistrô e conta com a colaboração de parceiros indispensáveis para a sua realização como a Prefeitura Municipal de Itatiaia, Pró-Penedo e ALOFIN (Casa do Papai Noel), os patrocinadores do evento. Na casa de jazz que se tornou referência na região a novidade fica por conta do I Encontro de Jazz Vocal do país. Marie Louise, a proprietária do espaço, é quem garante que o evento veio para ficar. "O Penedo Winter Jazz já faz parte do calendário turístico da região. Aliar as belezas naturais do local com a boa música é um sonho que conseguimos realizar.", diz eufórica. Outra novidade para o evento em 2007 são os shows gratuitos num palco coberto, armado em frente a Casa do Papai Noel. "Nossa idéia é democratizar o evento, oferecendo apresentações para a população que não pode pagar o couvert artístico da casa de espetáculo", revela Bernard Fines, que acredita que o show gratuito não esvaziará o show pago. "Há um público distinto para o Jazz Village Bistrô e outro para as apresentações na tenda", garante o músico. Batizado de Palco Finlândia, o espaço abrigará quatorze shows gratuitos ao ar livre, com destaque para a apresentação do guitarrista e cantor americano, de Nova Orleans, Kenny Brown. Quem também se apresenta no local, sob a chancela do Pró-Penedo e da Casa do Papai Noel, é o grupo Mello’s Mel e o músico Renato Gabbiani, que integram a programação do IX Festival de Inverno de Penedo. A associação de comerciantes de Penedo agendou também a participação do grupo de dança finlandesa, que fará sua performance todas as sextas e sábados de julho, sempre às 19h. As crianças também foram lembradas, e poderão participar de brincadeiras com pintura, escultura em balões, oficina de chocolate e um curso fashion. Haverá ainda um pequeno circo para entreter os pequenos.

PROGRAMAÇÃO COMPLETA DO II PENEDO WINTER JAZZ

PALCO JAZZ VILLAGE BISTRÔ – JAZZ VOCAL

06/07 – Sexta – 21h00 - Andréa Brandão canta Diana KrallDepois de uma temporada em Melbourne (Austrália), a cantora paulista homenageia a canadense Diana Krall, com sensualidade e emoção.
07/07 – Sábado – 21h00 - Morana "Divas e Clássicos"Ex vocalista do Tim Maia, Morana é uma das vozes mais marcantes da cena jazz carioca. Neste show mostra sua personalidade e audácia interpretando standards de jazz e até Carmen de Bizet.
13/07 – Sexta – 21h00 - Patrícia Bosio canta Billie HolidayA cantora argentina que já se apresentou no Blue Note em NY, coloca sua desenvoltura cool a serviço da obra da lendária "Lady Day".

14/07 – Sábado – 21h00 - Chamon canta Leny Andrade
Carioca ex integrante do Garganta Profunda, uma das vozes masculinas mais bonitas da música brasileira, Chamon canta o repertório da maior cantora de jazz do pais.

20/07 – Sexta – 21h00 - Bernard Fines e Malu Rocha "Ballads"A paulistana Malu Rocha e o francês Bernard Fines harmonizam suas vozes e levam a platéia numa volta ao mundo, interpretando baladas em português, francês, inglês, espanhol e italiano.

21/07 – Sábado – 21h00 - Carlos Montez "Sinatra'n Jazz"Considerado o melhor cantor brasileiro de jazz em atividade, com um feeling e um domínio do material vocal absoluto, o carioca Carlos Montes encanta com a obra do Frank Sinatra.

27/07 – Sexta – 21h00 - Ju Cassou "Brazil Mix'n Jazz"
De volta de uma temporada na Alemanha, a cantora e pianista curitibana, ex-integrante do grupo vocal Garganta Profunda mostra sua arte encontrando novas linguagens, fusões, feelings expressos com a marca da alma.

28/07 – Sábado – 21h00 - Nando Gabrieli "Ele canta Ella"O carioca traz de volta ao Brasil um pouco da sua carreira internacional (já se apresentou em Nova York no Birdland, Town Hall, Lincoln Center, gravou ao lado do Tommy Flanagan, legendário e saudoso pianista de Ella Fitzgerald), e homenageia a Primeira Dama do Jazz.
Obs: No Jazz Village Bistrô, o couvert artístico das apresentações de sexta-feira será de R$20,00 e as de sábado R$25,00. Reservas pelo telefone (24) 3351-1275 e 3351 1343.

PALCO FINLANDIA

07/07 - Sábado - 20h00 - Karana e Grupo
O pernambucano mescla com muito talento sua brasilidade e sua convivência com músicos e professores da Berklee School, mostrando com muito suingue a fusão entre jazz e world music.

14/07 - Sábado - 20h00 - Os Silvas
A banda consagrada no cenário sul-fluminense traz a Penedo um show especial de Blues repleto de energia, passeando com desinvoltura entre Eric Clapton e Gary Moore.

19/07 - Quinta - 20h00 - Júlio Bittencourt Jazz Quinteto
A banda de Cruzeiro toca standards de jazz e releituras de marchinhas de carnaval, num show dinâmico e interativo, chegando a ensinar ao público a arte do improviso

20/07 - sexta - 20h00 – Rarybecla
O repertório da banda penedense, instrumental e vocal, inclui grandes temas de música brasileira, jazz e salsa, em releituras onde improviso e cumplicidade reinam pelo prazer dos nossos ouvidos

21/07 - sábado- 14h00 - Júlio Portes Quarteto
O guitarrista penedense Júlio Portes, formado no GIT de Los Angeles, interpreta com muito suingue standards de jazz e obras de jazz fusion de George Benson, Jeff Beck e Stevie Wonder.

17h00 - Aniceto Jazz Band
Com repertorio repleto de clássicos da música americana e brasileira, a banda do trompetista resendense é garantia absoluta de muita diversão e entretenimento.
20h00 - Kenny Brown
Sensação da inauguração do Jazz Village Bistrô, o grande guitarrista e cantor de New Orleans volta a Penedo e faz um show cheio de energia e de swing, mostrando toto o tempero cultural de sua cidade natal, berço do jazz.

22/07 – domingo
11h00 - Júlio Henrique e Paulo Blanc
Os músicos acompanhantes do Elymar Santos coloquem suas dupla musicalidade popular e erudito a serviço de um repertório de standards de jazz.

14h00 - Ju Cassou "Brazil Mix'n Jazz"
17h00 - Andréa Brandão canta Diana Krall
20h00 - Bernard Fines “French jazz”
O cantor radicado em Penedo apresenta seu Jazz com Sotaque Francês relembrando sucessos e standards de jazz com arranjos da Ju Cassou e do Júlio Bittencourt Trio

27/07 – sábado

20h00 – Lico Brasil
O cantor e violonista resendense faz um show empolgante com sucessos da soul music brasileira homenageando os artistas mais jazzy da MPB, Ed Motta, Djavan, Lenine, Claudio Zoli.

26/01/2009

Guaramiranga & Fortaleza - Fevereiro

A 10a Edição do Festival de Jazz & Blues de Guramiranga e Fortaleza acontece entre os dias 21 e 24 de fevereiro (Guaramiranga) e 26 a 28 de fevereiro (Fortaleza). Entre os músicos esperados vale destacar o guitarrista e gaitista Toots Thielemans e o baixista Arthur Maia. A seguir, texto do repórter Dawlton Moura para O Diário do Nordeste: O Festival Jazz & Blues Guaramiranga chega à 10a. edição com uma lista de grandes nomes. Entre as atrações, Toots Thielemans, Dominguinhos e César Camargo Mariano. Quando fevereiro chegar trará consigo o décimo carnaval com uma opção de trilha sonora diferenciada, para quem sobe ao Maciço de Baturité. O Festival Jazz & Blues Guaramiranga celebra seu aniversário driblando as dificuldades que marcaram os bastidores das edições mais recentes e oferecendo uma programação à altura da efeméride. O evento, que atraiu projeção nacional ao se firmar como uma das principais referências no crescente calendário de festivais do tipo, também desempenhou um papel importante no fomento à atual cena instrumental cearense. E, ao menos a julgar pelas atrações musicais, contará com motivos suficientes para atrair, de 21 a 24 de fevereiro, tanto quem ainda não conferiu o festival quanto quem já se acostumou ao carnaval na serra. Afinal, a programação confirma a vocação do evento para a diversidade - em um ecletismo saudado por muitos, mas também recorrentemente visto com ressalvas por quem preferiria um Festival Jazz & Blues menos ´free´ e mais ´strictu sensu´. Seja como for, fica clara a intenção de marcar esse primeiro decênio com uma grande edição do festival - comparável aos melhores anos do evento. Como, por exemplo, 2005, quando o público pôde assistir, entre outros, a nomes como Pedro Aznar, Hélio Delmiro, Stanley Jordan, Jorge Hélder e Naná Vasconcelos. Pra começar, o encontro, enfim concretizado, com o gaitista belga Toots Thielemans, cujo nome esteve rondando a programação em diversas edições. Festa para os fãs do instrumento, aos quais o festival sempre contemplou, com harmonicistas como Gabriel Grossi, Sérgio Duarte, Jefferson Gonçalves e J. J. Milteau. E para os quais também traz, este ano, o som do gaitista brasiliense Pablo Fagundes. Outro ´acerto de contas´ do festival é com um músico aclamado tanto pelo público quanto pelos mais virtuosos: o pernambucano Dominguinhos. Acordeonista e compositor que chegou a ser anunciado como atração principal do evento em 2007, mas acabou tendo sua participação adiada, devido a cuidados médicos. Dois anos depois, o sorriso e o talento de Dominguinhos, presença freqüente em Fortaleza nos últimos anos, se encontrarão com a platéia do festival na serra. Oportunidade também para o mais legítimo discípulo de seu Luiz mostrar um outro lado de sua musicalidade. E o mesmo evento que já trouxe ao Ceará artistas como Gilson Peranzzeta e Heraldo do Monte, que se destacam como instrumentistas e arranjadores, desta vez fará as honras da casa para o mestre César Camargo Mariano, radicado nos Estados Unidos, mas de tantos serviços prestados à música brasileira. Também na perspectiva dessa contribuição instrumental à música popular pode ser vista a presença do veterano guitarrista Lanny Gordin, um dos responsáveis pela sonoridade consagrada à época da Tropicália. Superando contingências difíceis, Lanny retornou à cena nos últimos anos, realizando shows e atraindo boa repercussão para suas releituras de clássicos tropicalistas, ao som cortante de sua guitarra. Entre os representantes do blues, o festival anuncia a participação do gaitista e vocalista Paulo Meyer, um dos fundadores da banda Expresso 2222, marcante na cena blueseira em São Paulo. Também com um pé no blues, embora passeando por vertentes como o funk e a música brasileira, o baixista Arthur Maia, presente em Fortaleza em 2008 participando do I Festival Cover Baixo, retorna ao Ceará para mostrar seu som em Guaramiranga. Um toque mais contemporâneo na programação fica por conta da presença do pianista e produtor musical paulista Benjamin Taubkin, que realiza um amplo trabalho de pesquisa de música brasileira e latino-americana. Responsável pela curadoria musical do Mercado Cultural de Salvador, Taubkin defende - e pratica - uma música aberta à pluralidade de estilos e influências, sempre favorecendo um diálogo entre diferentes referências, sejam geográficas ou artísticas. E se a história do festival é também pontuada pela presença de grandes intérpretes femininas - de Leny Andrade a Fhátima Santos, de Jane Duboc a Big Time Sarah -, a paulista Ná Ozzetti retorna ao Estado, desta vez no contexto do evento. Esta, aliás, é uma boa característica do festival, enfatizada na programação dessa décima edição: a possibilidade de se conferir por aqui shows que, de modo isolado, dificilmente despertariam o interesse de produtores locais. Enquanto a programação de artistas cearenses ainda aguarda definição, o festival já confirma a manutenção de espaços consagrados ao longo de suas nove edições até aqui. É o caso dos ensaios abertos, realizados no início da tarde, no próprio Teatro Rachel de Queiroz (que, infelizmente, chega ainda inacabado ao décimo Jazz & Blues). Além da chance de uma ´palhinha´ sem necessidade de pagamento de ingresso, trata-se de uma oportunidade para troca de idéias de modo mais descontraído entre artistas e público.Os shows realizados em espaços abertos ao final da tarde também devem continuar, segundo a organização. Assim como em anos anteriores, quando o público pôde assistir a apresentações no belo cenário da escadaria da Igreja Matriz de Guaramiranga, a idéia é abrir espaço também para jovens instrumentistas ´garimpados´ em oficinas do projeto Novos Talentos, promovido pelo evento em municípios do Interior. Por fim, as ´jam-sessions´ da madrugada, após terminadas as atividades no palco principal, prometem movimentar o público, com direito a muita improvisação e a uma espontânea interação entre os músicos. Celebrando a reunião em mais um carnaval. Mais informações:Festival Jazz & Blues 2009. De 21 a 24 de fevereiro em Guaramiranga e de 26 a 28 em Fortaleza. Realização: Via de Comunicação e Cultura. Promoção: Sistema Verdes Mares. Informações: 3262.7230 e Via de Comunicação e Cultura. FIQUE POR DENTRO - Mesmo quem não subir a serra durante o carnaval contará, também este ano, com uma oportunidade de conferir as principais atrações do Festival Jazz & Blues. Como já é de costume, o evento tem sua continuidade em Fortaleza, após a quarta-feira de cinzas. Os shows na capital acontecem no Theatro José de Alencar, entre os dias 26 e 28, quando alguns dos músicos também ministrarão oficinas, voltadas para instrumentistas e estudantes de música, mas também para o público interessado em um contato mais direto com os artistas. O espaço para os shows na capital ainda será definido pela organização. E antes do festival na serra, a programação de ´aquecimento´ ´Na Trilha do Jazz´ deverá se estender por bares e casas de show de Fortaleza, com a participação de grupos locais. As apresentações musicais acontecerão de quarta a sábado, com destaque para releituras de clássicos do jazz e do blues, em novos arranjos e formações variadas, por alguns de nossos melhores instrumentistas e intérpretes.obama lula eleições eleito

15/02/2007

Morto em vida

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Henri Crolla é um daqueles músicos de jazz injustamente esquecidos. Além de ter morrido cedo, com apenas 40 anos, Crolla escolheu mal seu instrumento: resolveu tocar guitarra na mesma época de Django Reinhardt, o gênio cigano que obscurecia qualquer guitarrista de seu tempo. Para piorar as coisas, Crolla, que nasceu em Nápoles, resolveu tocar em Paris, reduto exclusivo de Django. Contudo, nada disso impediu que Crolla e Django fossem amigos. Quanto aos estilos de cada um, embora catalogáveis ambos sob o swing, eram bastante distintos. Crolla era nitidamente mais econômico, sem os rocambolescos arpegios tão apreciados por Django. Além disso, Crolla desenvolvia seus improvisos em estreita correlação com a melodia, tornando fácil e simpática a audição de suas gravações. E mais: Crolla era extremamente generoso com seus amigos de gravação, concedendo amplos espaços para seus improvisos. Na Radiola Jazzseen deixo a faixa All The Things You Are, com Martial Solal no piano. A gravação é de 1955 e faz parte do álbum Begin The Beguine, um de três álbuns relançados pela EmArcy. Um tributo merecido para o competente guitarrista.

30/01/2008

Legends of Acid Jazz - Boogaloo

Boogaloo Joe Jones nasceu Ivan Joseph Jones na New Jersey de 1940. Sabemos pouco sobre esse guitarrista autodidata que aos 16 anos ganhou uma velha guitarra do pai. Inicialmente influenciado por Tal Farlow e Billy Butler, Boogaloo construiu seu estilo misturando muito funk, soul e blues, aprendidos com os mestres que atuavam em Atlantic City, entre eles Wild Bill Davis, Willis Jackson e Charlie Ventura. Nas décadas de 1960/70 Boogaloo gravou uma série de álbuns para a Prestige, a maioria deles relançada em cd. E quem acredita que Boogaloo não passa de um excelente guitarrista de R&B, está redondamente enganado. Em seus álbuns para a Prestige – em especial na coletânea Legends of Acid Jazz, que reúne os álbuns Boogaloo Jones (1969) e Right on Brother (1970) – Boogaloo demonstra sua habilidade para improvisar numa pegada que muito se assemelha a de um Grant Green ou, em alguns momentos mais ágeis, a de Pat Martino. O cd, embora contenha dois álbuns, parece curto demais de tão bom. Sempre muito bem acompanhado por músicos da categoria de Rusty Bryant (ts), Bernard Purdie (d), Sonny Phillips ou Charles Earland (org), Boogaloo deveria ser muito mais reconhecido pela crítica e pelo público. No entanto, gravou pouco e hoje nem sabemos ao certo por onde anda. Dizem que em Vineland, New Jersey. Para os amigos visitantes fica a faixa Boogaloo Joe. Até!

11/06/2013

BMW Jazz Festival: Pat Metheny no palco do Vivo Rio


A última noite da terceira edição do BMW Jazz Festival contou com uma das apresentações mais esperadas pelos amantes do gênero musical: Pat Metheny Unity Band. O guitarrista americano é um ícone da safra de novos músicos, ou contemporâneos, como preferem dizer os experts. 
O músico se apresentou com a Unity Band, quarteto integrado por Chris Potter, Ben Williams e Antonio Sanchez. Pat Metheny leva o público ao delírio com suas improvisações, que já viraram marca registrada. Não é a toa que tem na estante de sua casa prêmios como Melhor Guitarrista, incluindo três discos de ouro por Still Life Talking, Letter from Home e Secret Story, além de 20 Grammy. Um luxo!
A safra do jazz contemporâneo comemora a chegada ao Brasil da terceira edição do BMW Jazz Festival, encontro de grandes nomes desta arte com o público brasileiro. Fomos ao Vivo Rio, na noite de sábado (8) conferir a apresentação de Esperanza Spalding, lançando seu Radio Music Society, e James Farm.
Esperanza Spalding toca um instrumento, o contrabaixo, que raramente é executado por mulheres. Aos 28 anos, ela tem no currículo três prêmios Grammy. Começou a carreira integrando a orquestra comunitária The Chamber Music Society of Oregon, de Portland, onde nasceu. Tinha apenas 15 anos e já demonstrava a paixão por gêneros como o blues, o funk e o hip hop. Para vocês terem uma ideia, com apenas 20 anos já era professora daBerklee College of Music, em Boston. Encantou os cariocas dominando o contrabaixo acústico e o elétrico.
Bonita também foi a apresentação do quarteto James Farm, formado em 2009 e integrado por Joshua Redman, ao saxofone, Aaron Parks (piano), Matt Penman, no contrabaixo e Eric Harland, na bateria. Segundo os especialistas do gênero, o quarteto tem por característica uma abordagem vanguardista e repleta de improvisações. 
A coluna acompanhou a segunda noite do BMW JazzFestival, no Vivo Rio. E foi a vez de Joe Lovano & Dave Douglas (saxofone e trompete) unirem forças para mostrar o poder do jazz contemporâneo. Foi a vez também de Brad Mehldau e seu piano já considerado referência.
O Quintet Sound Prints de Joe Lovano & Dave Douglas foi preparado com exclusividade para esta vinda ao Brasil. O saxofonista Joe e o trompetista Dave tem feito uma dobradinha  em gravações, como Fascination: Edition Two e Stolas, com uma ode aos mestres do jazz tradicional do passado.
Ficamos sabendo que, em 2008, quando estavam na S.F. Jazz Collective fizeram uma homenagem a Wayne Shorter, que tanto inspira o quinteto, integrado ainda pelo pianista Lawrence Fields, a baixista Linda Oh e o baterista Joey Baron. 
O Brad Mehldau trio leva a chancela de um pianista que está colhendo os belos frutos do seu trabalho mundo afora. Para o BMW Jazz Festival, ele trouxe o seu trio completado pelo baixista Larry Grenadier e o baterista Jeff Ballard.
Em tempo: suas músicas foram tema de filmes como De olhos bem abertos, de Stanley Kubrick, e O hotel de Um Milhão de Dólares, de Wim Wenders. 
Fonte: JB (Heloísa Tolipan)

14/08/2008

Jazz na Argentina

No Clube de Jazz nosso amigo Wilson Garzon relembra, recupera e vasculha o jazz produzido na vizinha Argentina que, ao contrário do futebol, tem boas coisas a nos apresentar na música. A seguir o texto do especialista: " Antecedentes - Meu primeiro contato ficou por conta do pianista Lalo Schfrin que fazia parte do quinteto de Dizzy Gillespie, no álbum “An Electrifying Evening with the Dizzy Gillespie Quintet” onde fazia solos em “Kush” e “The Mooche”, que se pareciam como solos de um músico brasileiro. Mas quem me marcou de vez foi o saxofonista Gato Barbieri, que antes de fazer grande sucesso com a trilha de “Último Tango em Paris”, gravou em 1971 “Fenix”, álbum em que interpretava com técnica e talento “Falsa Bahiana” de Geraldo Pereira e “Bahia” de Ary Barroso”, tendo a seu lado Ron Carter, Lonnie Smith e Lennie White. Outra presença, esta muito maior, ficou por conta do mago Astor Piazzolla em obras marcantes como “Maria de Buenos Aires” e principalmente nas suas gravações com Gerry Muligan. Depois de um breve tempo fui também apresentado ao trompetista Fats Fernandez, mas esse foi um caso isolado.

Clube de Jazz

A partir de 2004, com a entrada do site no ar, meu contato com o jazz argentino, aos poucos deixou de ser uma curiosidade e se tornou um tema relevante no meu trabalho de divulgar e promover o jazz. Primeiro, foram os shows que assisti da “Antiqua Jazz Band” e a “Porteña Jazz Band”, nos festivais dedicados ao hot jazz & swing. Segundo, e mais importante, foi o contato que fiz com o produtor fonográfico e empresário Ruben Bondoni. Além de publicar uma entrevista e divulgar cds da sua gravadora MDR, pude conhecer grupos contemporâneos de jazz porteño, como o Escalandrum, Pablo Ziegler & Quique Sinesi, Manuel Ochoa, Gustavo Bergalli e Jorge Navarro, entre outros. Mas não me deixou satisfeito, pois tinha conhecido apenas a ponte do iceberg d o jazz argentino. Para resolver essa demanda reprimida precisava de viajar até Buenos Aires.

Viagem

A minha viagem para Buenos Aires, além dos naturais interesses históricos e turísticos, existia um propósito maior: o de conhecer as melhores casas de jazz da cidade, conversar com os músicos, entrar em contato com as gravadoras, livrarias, programas de rádio e jornalistas dedicados ao jazz. Tudo, com certeza, não conseguiria, mas tinha que começar de algum ponto. Nesse momento, agradeço aos músicos Marcelo Coelho e Marvio Ciribelli que me abriram seus contatos para que eu pudesse conhecer Buenos Aires da melhor maneira: regada a muita música de qualidade.

Encontros

O primeiro contato foi com o saxofonista Rodrigo Dominguez, que fez parte da banda de Mariano Otero e que havia gravado recentemente “Amistad” em conjunto com outros três músicos. Nosso encontro se deu no jazzclub “Virasoro”, junto com o produtor Fernando Tarrés, que também dirige o selo Baú Records. Aos poucos me inteirava sobre o jazz da vanguarda argentina ao mesmo tempo em que escutava uma gig comandada pelo baterista Pepe Taveira e pelo tecladista / trompetista Enrique Norris. O próximo encontro se deu com o talentoso guitarrista Alejandro Demogli onde também pude conhecer as influências berkleeanas sobre o atual jazz porteño.
Mas, foi só com Ruben Bondoni, dono do jazzclub Notorious e do selo MDR é que pude entender o jazz argentino como um todo. Aos poucos fui apresentado ao veterano guitarrista Walter Malosetti, e também a Raul Barboza e Juan Falú; a nova geração representada pelo contrabaixista Mariano Otero e pelo pianista Ernesto Jodos, entre tantos outros. Ao final de uma semana, fiquei com o gosto de quero mais. Um bom palpite pode ser o festival de jazz que acontece pelas salas e parques na primavera de Buenos Aires. Mas, para orientar a quem se interesse pelo jazz argentino, listo abaixo uma pequena agenda, onde estão incluídos jazzclubs e alguns cds, distribuídos por gravadoras.


Pequena Agenda


Casas de Shows

1 – Thelonious Club
Salguero 1884 – 1º. Piso – Palermo
Tel: 4829-1562
www.theloniousclub.com.ar

2 – Notorious Bar
Av. Callao 966 - Centro - Buenos Aires
Tel: 4813-6888/4815-8473
www.notorious.com.ar

3 – Virasoro Bar
Guatemala 4328 - Palermo - Buenos Aires
4831-8918 - info@virasorobar.com.ar
www.virasorobar.com.ar

Cds / Gravadoras

1 – MDR Records
Av. Callao 964 - 6º "D" - C1023AAP - Buenos Aires
www.mdrrecords.com.ar
Ruben Bondoni – director

. Walter Malosetti – Palm
. Pablo Ziegler & Quique Sinesi – Buenos Aires Report
. Escalandrum – Visiones
. Manuel Ochoa – Manare
. Raul Barbosa – Dos orillas
. Banda Hermética – El calendário de los sonidos
. Manolo Juarez & Daniel Homer – Quarteto
. Ernesto Snajer – Despues de todo (em vivo)
. Altertango – Tormenta
. Beto Caletti - Tess

2 – Baú Records

. Rodrigo Dominguez – Tonal
. Mariano Otero - A Través
. Bárbara Togander - Lovemanual
. Fernando Tarrés - Perplexity
. Ramiro Flores – Flores

3 – Blue Art

Paraguay 727, 9 Piso, Oficina 8. S2000CVO Rosario, Argentina.
Tel.: Argentina: 0341 411 7929
Exterior: 00 54 341 4117929
Horacio Vargas / director:
www.blueart.com.ar

. Paula Schocron – Urbes
. Sued + Dominguez + Mandelman + Oberson – Amistad
. Ernesto Jodos – Solo
. Jorge Migoya – Casi solo(s)
. Mauri Sanchis – Good Vibes !!

4 – S Jazz

. Juan Cruz de Urquiza – De este lado
. Juan Cruz de Urquiza – Vigilia
. Pepi Taveira – BsAs Inferno
. Natalio Sued – Mirada Esquiva
. Mariano Otero – D Forma

Outros Cds

. Ale Demogli, Hill Greene & Oscar Giunta – 3:30
. Ernesto Jodos – Tristano/Konitz/Marsh/Bauer
. Jorge Cutello – Just in Time
. Norris, Verdinelli & Otero – Mes
. Oscar Edelstein & Raul Barboza – Dos Improptus
. Adrian Iaies – UnoDosTres
. Mariano Otero – Três
. Mariano Otero – Ca4tro".


Para os amigos, Gato Barbieri com Falsa Bahiana ( ).

31/10/2011

Dick Garcia: Message From

Há quem diga que o artista é fruto das influências que o cercam e, quanto a isso, não parece haver muita celeuma. O que angustia e aflige, sobretudo ao amigo e baterista angolano Alex Marretta, o maior especialista em congo de Copacabana, é que alguns músicos saiam tocando impunemente por aí, sem nunca terem estudado música. "Isto é um absurdo, isto é mentira, isto é impossível!" gritava Mr. Marretta diante de seus jovens e dedicados alunos de sino de igreja - sim, Mr. Marretta é também um dos últimos devotados mestres de sino de igreja do Brasil. Sua ONG Bate o Sino Pequenino tem sido responsável pela convocação de milhares de bons católicos, mediante pancadas ensurdecedoras no belo instrumento da fé. O curso de sino, devido à sua enorme complexidade, exige uma semana de aulas teóricas e ao menos dois dias úteis de prática. Já Dick Garcia, guitarrista nascido em New York no dia 11 de maio de 1931, preferiu sair tocando de ouvido seu instrumento aos nove anos de idade. Nascido numa família de músicos, Dick viveu rodeado de guitarristas, entre eles alguns tios e um dos avôs, recebendo suas primeiras aulas formais apenas aos treze anos de idade. Fortemente influenciado pelo guitarrista Charlie Christian, foi em Charlie Parker que Dick encontrou seu modelo artístico. Aos dezenove, Dick já integrava o quarteto de Tony Scott, um dos melhores clarinetistas do Bebop, estilo que quase levou o delicado instrumento à extinção.   

Ainda na década de 1950, Dick trabalhou com músicos como Charlie Parker, George Shearing, Bill Evans e Milt Buckner, entre outros, além de liderar seus próprios conjuntos. Além de trabalhar com Kai Winding e Nancy Wilson na década de 1960, pouco se sabe sobre os rumos tomados por Dick. Para os amigos deixo as faixas Have You Met Miss Jones, If I'm Lucky, Stompin' At the Savoy e Like Someon in Love, retiradas do excelente CD A Message From Garcia, lançado pela Blue Moon na série The Classic Dawn Recordings, onde memoráveis álbuns do selo Dawn estão sendo relançados. Com Dick estão Tony Scott (cl), Gene Quill (as), Bill Evans (p), John Drew (b) e Camille Morin (d). 

Garcia by Jazzland

17/05/2007

Alden & Pizzarelli

Descolei alguns discos do guitarrista Howard Alden. A curiosidade fica por conta da guitarra de sete cordas - aquela corda a mais que nossos chorões e sambistas utilizam para permitir fazer a linha de baixo - que se tornou a especialidade do rapaz. O disco que eu apresento - In a mellow tone - é uma parceria com outro especialista em sete cordas: Buck Pizzarelli (é ele mesmo: o pai do do jovem guitarrista que vem constantemente ao Brasil). O encontro das distintas gerações não é marcado por discrepâncias; ao contrário, percebe-se uma boa coesão entre a linguagem dos dois músicos. A pegada de Alden (e também a de Buck) está impregnada pelo swing, o que conseqüentemente deixa o disco recheado com a alegria peculiar a esse estilo do jazz. Deixo a faixa Tangerine para vosso deleite (clique sobre o nome e digite jazzseen).

Para os gringos, o comentário do All music:

Howard Alden and Buck Pizzarelli played together a number of times over the years during jazz parties and in concerts, though the two seven-string guitarists never made a full CD together until In a Mellow Tone (though Alden appeared on a few tracks of Pizzarelli's A portrait). Both heirs to the legacy of guitarist George Van Eps (who popularized the instrument), these two masters make magic on any session in which either of them takes place; combining the two meant that there was no reason for any additional players. With the extra string providing each man the ability to play a bassline for the other, they have a ball in the studio as they trade off playing gems like their cooking renditions of "In a Mellow Tone," "Cherokee," and "Three Little Words." Their slightly brisker treatment of Claude Tornhill's theme song "Snow Fall" works beautifully, while their intimate approach to "What's New" is among the best versions available on record or CD. They also capture the playful spirit of "Jitterbug Waltz" with a brilliant arrangement. Alden tackles both the haunting "In the Dark" and a brief take of "I'm Forever Blowing Bubbles" as solos. The sale of this highly recommended CD benefits the Sante Fe Jazz Foundation, which assisted Alden when illness limited his ability to tour for an extended period

23/03/2009

You Don't Know Her

Há muita controvérsia sobre o papel da mulher no jazz. Talvez a questão esteja de fato limitada, como afirma o amigo Frederico Bravante, às características físicas específicas da mulher, quase sempre as afastando de certos instrumentos, como o trompete, o trombone, o contrabaixo acústico ou, com menor incidência, os saxofones tenor e barítono. Ao aspecto estritamente fisiológico devemos associar o machismo que caracteriza decrescentemente a história humana, impedindo que homens e mulheres pudessem produzir cultura em eqüidade e equilíbrio. A depender da grande maioria dos homens, certamente as mulheres ainda estariam nas cozinhas ou nas saletas de chá, tricotando ou embalando seus gordos bebês. Na melhor das hipóteses, poderiam interpretar Chopin em seus doces lares, num piano comprado por seus pais ou maridos. John Lester mesmo sempre disse que há muitas cantoras no jazz pela simples razão de que a voz é um instrumento barato, fácil de transportar e que raramente podia ser retirado da mulher por seu homem para comprar bebida. E a breve história do jazz de 1900 a 1970 não nos deixa mentir: para cada centena de grandes cantoras, encontramos talvez meia dezena de grandes pianistas, quadro ainda mais reduzido quando procuramos por saxofonistas ou trompetistas. Eu mesmo só ouvi ao vivo uma contrabaixista em toda a minha vida: a bonita loira Nikki Parrott, sidewoman de Les Paul, no Iridium de New York. Durante o show conheci atônito o lado brincalhão do genial e octogenário guitarrista, que durante o show fazia piadas do tipo: “Estou me sentindo como Ray Charles quando encontrava o assento” (entrando em cena); ou “Quando toco penso na irmã de minha esposa” (agradecendo o entusiasmo do público); ou, ainda, “Ela é uma grande bunda (ass), digo, aquisição (asset)” (referindo-se à contrabaixista do grupo). Jennifer Aniston, a estrela de Hollywood, que estava bem próxima a Lester, não gostou da piada e retirou-se do clube, talvez em sinal de protesto. Mais tarde, enquanto comíamos uma pizza de peperoni nas proximidades de Grand Central Terminal, perguntei a Lester porque, ainda hoje, havia tantas cantoras e tão poucas instrumentistas. Lester disse que, a partir da década de 1980, esse quadro vem se alterando significativamente. A virilidade dos primeiros tempos do jazz tem experimentado cada vez mais a sensível inteligência feminina. E com tudo de bom que isso significa. Quem poderia supor que a deliciosa escovinha que ouvimos nos discos de Susie Arioli não é obra de nenhum baterista, que baterista não há no grupo. Essa gostosa escovinha, que é quase um carinho como diz Lester, surgiu porque Susie não sabia onde colocar as mãos durante suas apresentações. Coisa de mulher ou não? Para os amigos fica a faixa You don’t know me , com a canadense e seu fiel guitarrista Jordan Officer.

10/10/2006

Jazz guitar player's week: 4 - Raney & Martino


Considerando o fator tempo, acho melhor sapecar dois guitarristas de uma só vez. O primeiro já foi apresentado por Mr. Lester, em outro momento, aqui no blog (dêem uma conferida): o underrated Jimmy Raney (foto a sua esquerda), falecido em 1995. Lembro-me que eu também apresentei um disco, do Ted Brown, do qual Raney também participa. Vamos lá: é perceptível em sua técnica o feeling Cool e a habilidade do Bop. Ali pelo final dos anos quarenta ele tocou com Stan Getz (um daqueles discos com faixas curtíssimas) e repetiu no início dos anos cinqüenta. Esse, aliás, foi o seu período mais produtivo (tocou com Woody Herman, Al Haig, Buddy DeFranco entre outros). Já nos anos 60 apareceu um guitarrista irriquieto, com sonoridade próxima a de Wes, e não demonstra muito grilo ao despejar uma avalanche de notas sobre o ouvinte. Trata-se de Pat Martino (foto a sua direita). Esse tem uma história dramática: teve que ser operado em função de um aneurisma (aquele lance da artéria que resolve criar problemas pro sujeito - no caso de Pat, foi no cérebro) e o camarada ficou desmemoriado: esqueceu até como tocar guitarra. Depois de um longo tempo, ele recuperou a sua habilidade e anda por aí despejando notas pra todo lado, na maior festa. Para não fugir à regra, deixarei alguma coisa no Gramophone by Salsa para o deleite dos navegantes.
PS- Como as faixas são grandes só deixarei duas de cada guitarrista.

08/10/2006

Guitar player's week: 2 - Django Reinhardt


Já ouvi algumas versões sobre o acidente que inutilizou dois dedos da mão esquerda do guitarrista cigano Django Reinhardt. Todas levam a crer em algum barraco envolvendo a mulherada (vocês já devem ter ouvido falar do gênio esquentado das ciganas). Conta-se por aí que durante uma festa num acampamento (lá pelo final dos anos 20 do século passado) uma mulher ciumenta (outros dizem que foi o marido da cigana) tacou fogo no nosso guitarrista e inutilizou-lhe dois dedos da mão esquerda (o quarto e o quinto). A versão mais light diz que foi um incêndio acidental. O que importa é que, apesar dos dedos inutilizados, Django não desistiu e criou uma forma peculiar de tocar seu instrumento que tornou-se a sua assinatura. A pegada carregada de influência dos zíngaros impõe uma sonoridade especial nas suas interpretações. Indico o disco Nuits de Saint-Germain des-Prés para aqueles que ainda não conhecem o seu som (esse disco é da coleção jazz in Paris, da Gitanes que, aliás, lançou mais alguns de períodos diversos da vida do camarada). Foi gravado pouco antes de sua morte, em 1953. Deixarei alguma coisa para vocês ouvirem no Gramophone by Salsa.

21/08/2006

Elas Também Tocam Jazz

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A utilização sistemática de heroína talvez tenha contribuído decisivamente para o enfarto fulminante que matou Emily Remler aos 32 anos. Sua morte prematura impediu que essa excelente guitarrista estabelecesse de forma definitiva um estilo próprio. Bastante influenciada pelo toque de Wes Montgomery, a menina Emily começou estudando violão em Berklee aos dez anos e, em 1980, já gravava seu primeiro álbum como líder. Seu trabalho foi quase todo em trios ou quartetos, num clima post bop que me agrada bastante e faz a gente pensar que grande guitarrista ela poderia ter sido se ainda estivesse por aqui entre nós. Logo acima, no Gramophone Jazzseen, deixo para os amigos as faixas Hot House e In A Sentimental Mood. Boa audição!

10/07/2006

Jimmy Raney

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JIMMY RANEY (1927-1995) – Talvez o melhor guitarrista do cool jazz, Jimmy também encarava sem qualquer receio o escorregadio ambiente do bebop. Apesar da sutileza marcante de sua guitarra, era capaz de dialogar ferozmente com qualquer virtuoso do jazz, sempre imprimindo o som único e distinto de sua guitarra. Seus melhores momentos foram ao lado de Al Haig, Stan Getz, Red Norvo e Jimmy Lyon. Antes de morrer Jimmy tocou e gravou bastante em duo com seu filho, o competente guitarrista Doug Raney. Seguem quatro álbuns que recomendo aos navegantes:  

A – Prestige OJCCD-1706-2 – 1954-1955 – Reunião de três excelentes sessões distintas: As quatro primeiras faixas (Minor, Some Other Spring, Double Image e On The Square) foram gravadas em 28 de maio de 1954 com o quarteto formado por Hall Overton (p), Teddy Kotick (b) e Art Mardigan (d). As faixas 5 a 8 (Spring Is Here, One More For The Mode, What’s New e Tomorrow, Fairly Cloudy) são de 18 de fevereiro de 1955 e as faixas 9 a 12 (A Foggy Day, Someone To Watch Over Me, Cross Your Heart e You Don’t Know What Love Is) são de 8 de março de 1955, todas em quinteto com John Wilson (t), Hall Overton (p), Teddy Kotick (b) e Nick Stabulas (d).  

Two Jims And A Zoot – Mobile Fidelity MFCD 1-833 – 1964 – Elegância e descontração num ambiente bossa-nova ao lado de Jim Hall (g) e Zoot Sims (ts). Contém as faixas A Primeira Vez, Manhã De Carnaval, Este Seu Olhar, Coisa Mais Linda, entre outras. 

Complete Live In Tokyo – EPM FDC 5157 – 1976 – Relançamento em cd do excelente lp Xanadu 132, talvez este seja o melhor trabalho de Jimmy. Acompanhado nas nove primeiras faixas (How About You, Darn That Dream, Anthropology, Watch What Happens, Just Friends, Autumn Leaves, Stella By Starlight, Here's That Rainy Day e Cherokee) pelos competentes Sam Jones (b) e Leroy Williams (d), Jimmy recebe os convidados Charles McPherson (as) e Barry Harris (p) nas duas últimas (Groovin’ High e Blue ‘N’ Boogie).  

Wisteria – Criss Cross 1019 – 1985 – Outro excelente trabalho de Jimmy, dessa vez com a presença perfeita dos mestres Tommy Flanagan (p) e George Mraz (b). 

Logo ali em cima, na quarta faixa do Gramophone Jazzseen, você ouve Groovin' High, do álbum Complete Live In Tokyo. Boa audição.