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22/05/2010

Diversa Estação

Sempre fui atacado por afirmar que a Third Stream é como um encorpado tinto californiano semelhante a um grand cru borgonhês. É certo que o vinho da California, assim como o jazz ali produzido, sempre demonstrou singular apreço pelos modelos europeus clássicos, muito embora a produção de jazz e vinhos varietais possa dissimular, num primeiro momento, essa inegável empatia histórica. E, na tentativa de comprovar nossa teoria, já traçamos breves notas anteriores sobre a Third Stream em nosso blog, o que demonstra não somente nosso apreço pelo vinho californiano, como também nossa simpatia por esse estilo de jazz menos festejado. Quando falamos em Third Stream logo nos vêm à cabeça os álbuns que Jacques Loussier gravou na década de 1950 com seu trio, onde temas de Bach serviam de pretexto para seus improvisos. A expressão 'third stream' fora inventada por Gunther Schuller em 1957, tendo como principais protagonistas músicos como John Lewis, pianista do Modern Jazz Quartet, J.J. Johnson e Bill Russo, além do próprio Schuller. A difícil associação entre a música clássica européia e o jazz tem sofrido de males estruturais que, dadas suas envergaduras, condenaram o movimento quase que exclusivamente ao improviso sobre temas clássicos famosos, muito embora sejam louváveis os esforços no sentido de uma combinação menos óbvia. Assim como no famoso julgamento de Paris, onde especialistas de renome foram incapazes de diferenciar os vinhos californianos dos vinhos franceses, há casos em que não somos capazes de distinguir nitidamente se aquilo que ouvimos é ou não third stream. Vejam o caso da faixa a seguir - - que é o primeiro andamento do segundo concerto de As Quatro Estações, de Vivaldi, interpretado pelo Roma Trio: Luca Mannutza (p), Gianluca Renzi (b) e Nicola Angelucci (d). Saúde!      

08/04/2010

Os benefícios da segunda fermentação

John Lester ainda nem era nascido quando comecei a trabalhar na Hanzell, no final da década de 1950. Localizada em Sonoma, California, essa pequena vinícola foi o berço da revolução que, duas décadas mais tarde, colocaria os vinhos californianos em pé de igualdade com os franceses, até então tidos como o padrão indiscutível de excelência. Foi ali, atuando como auxiliar direto de Bradford Webb, bioquímico graduado em Berkeley que dirigia a vinícula sob o título de maître de chai (mestre de adega), que aprendi os rudimentos da vitivinicultura. Sim, quando desembarquei na California, como mais um clarinetista de jazz desmpregado, eu não entendia absolutamente nada sobre vinhos ou videiras e admito que cheguei a plantar algumas mudas de cabernet sauvignon de cabeça para baixo, no que fui prontamente advertido por Peter Mondavi, o famoso vinicultor da Charles Krug Winery, meu primeiro empregador na região. Mas aprendi rápido de que lado brotam as uvas e caí nas graças de James Zellerbach, empresário de sucesso que eu havia conhecido durante a execução do Plano Marshall, que promovia a reconstrução da Europa após a Segunda Guerra. Cavaleiro da Confrérie des Chevaliers du Tastevin, associação que enaltece o vinho da Borgonha, Zellerbach aprendeu a admirar os dois vinhos mais respeitados da região: o pinot noir e o chardonnay, especialmente o tinto Romanée-Conti e o branco Meursault. Foi ali, tocando Debussy durante um desses encontros, que Zellerbach convidou-me a tocar cool jazz na California, estilo que, segundo ele, eu certamente aprovaria.

Retornando aos EUA, Zellerbach decide que produziria na California seus dois vinhos favoritos, contando para isso com sua vinícola (foto) construída em madeira e telhas de ardósia, nos moldes da Clos de Vougeot, na Borgonha, onde aconteciam as reuniões da Confrérie. Seu objetivo era o de produzir vinhos tão bons quanto os franceses e para isso contou com a ajuda dos pesquisadores da Universidade de Davis e os conhecimentos dos maiores especialistas em vinhos da California e da França, entre eles Ivan Schoch, Louis Latour, André Tchelistcheff, Harold Berg e John Ingraham. Foi com a ajuda dessas pessoas que Zellerbach trocou os grandes barris de sequóia ou carvalho americano, comuns na California, pelo envelhecimento em pequenos barris de carvalho francês. Além disso, construiu imensos tanques de aço com parede dupla, por entre as quais fazia circular água resfriada, mantendo assim a temperatura ideal para a fermentação, o que mantinha o sabor frutado dos vinhos, eliminando o característico sabor 'queimado' dos vinhos californianos, quase sempre fermentados muito acima das temperaturas européias. Foi também na Hanzell que se evitou o escurecimento do vinho branco, decorrente da oxidação resultante do excessivo contato com o ar, o que lhes retirava o sabor e os tornava acastanhados. O problema foi eliminado colocando-se uma camada de nitrogênio sobre os tanques.

Contudo, a maior inovação trazida pela Hanzell foi o controle da fermentação malolática, isto é, a segunda fermentação pela qual passa o vinho, tornando-o mais suave e maduro. A fermentação malolática ocorre normalmente nos vinhos da Borgonha feitos a partir da pinot noir e da chardonnay, enquanto descansam nos barris. Mas, na California, as coisas não eram assim tão simples. A segunda fermentação raramente ocorria em barril e, em certas ocasiões, dava-se no vinho já engarrafado, fornecendo-lhe uma efervescência que poderia fazê-lo explodir. Sabendo que a segunda fermentação era responsável pela eliminação do terrível ácido málico, sendo fundamental para atingir o nível de excelência francês, Zellerbach e seus colaboradores persistiram em conseguir uma segunda fermentação induzida por leveduras, até que, em 1959, a Hanzell produziu o primeiro vinho da história a ter uma segunda fermentação controlada. Em Roma, servindo como embaixador na Itália, Zellerbach servia seus vinhos aos convidados, sem lhes contar a procedência. E imaginem como ficava feliz quando alguém lhe dizia que seus pinot noirs e chardonnays eram certamente borgonhêses. James Zellerbach morreu em São Francisco, no dia 3 de agosto de 1963. Infelizmente, sua esposa nunca demonstrou interesse pela vinícola e a safra de 1963 sequer chegou a ser produzida. Meu único consolo é ter bebido com James um maravilhoso Hanzell Pinot Noir 1962, durante o show de Albert Ayler na Finlândia, no dia 30 de junho de 1962. De tão bom o vinho, até Ayler soava mais macio e sedutor. Para os amigos fica Summertime, faixa que certamente foi beneficiada pela segunda fermentação. Com Ayler estão Heikki Annala (b), Herbert Katz (g), Martti Äijänen (d) e Teuvo Suojärvi (p).

03/05/2009

Lenda Viva - Howard Rumsey

Da infinidade de grandes músicos de jazz sobre os quais ainda não tivemos oportunidade de prestigiar, selecionamos hoje o contrabaixista e líder Howard Rumsey (1917). Após dois anos de interação, em 1953 os três expoentes do primeiro The Lighthouse All-Stars - Shorty Rogers, Jimmy Giuffre e Shelly Manne - partiram para formar o Shorty Roger's Giants. Os próximos expoentes seriam Bob Cooper, Bud Shank e Claude Williamson, reunidos de 1953 a 1955 e responsáveis por importantes experiências com flautas e oboés no jazz, registradas em gravações memoráveis para a Contemporary. Foi desde 1948 no Lighthouse Cafe, em Hermosa Beach, California, sob o comando discreto de Rumsey, que muito do jazz moderno foi feito. Distante cerca de 50km de Hollywood, poucos residentes ou turistas empreenderiam viagem para ouvir esses músicos desconhecidos tocando uma música bastante estranha para a época. Um contato mais direto do jazz moderno com um público ilustrado ainda estava por vir. Alguns anos antes do Lighthouse acontecer, Dizzy Gillespie e Charlie Parker andaram aprontando as suas por alguns clubes de Hollywood, onde eram, na melhor das hipóteses, ouvidos por outros músicos bem informados. Muito lentamente o bebop foi conquistando a California, levando alguns músicos a experimentações que, nos anos seguintes, resultariam no surgimento do jazz West Coast. É nesse período que Rumsey inicia suas atividades no Lighthouse Cafe, partindo do princípio de que o jazz moderno poderia ser popular e viável economicamente sem concessões que pusessem em risco sua dignidade artística. Quebrando o sectarismo que caracterizaria os primeiros grupos do West Coast, Rumsey conseguiu reunir em seu clube uma infinidade dos mais importantes músicos de jazz californianos, estabelecendo um intercâmbio notável de influências, preferências e versões, sem falar no sucesso de público que fez daqueles anos os proprietários de uma das músicas populares mais ricas de que se tem notícia. 

Até mesmo os mais inóspitos e carrancudos gênios do jazz, muitos dos quais temiam não ser compreendidos diante de um público leigo, sorriam ao verificar o calor daquela casa, atenta e sedenta por experimentos e inovações. Howard Rumsey nasceu em Brawley, California e desde criança adorava música. Estudou pianoa durante oito anos, depois aprendeu bateria no colégio, chegando a tocar na Banda Municipal. Após a Lei Seca, muda-se para Los Angeles, estudando no City College e aprendendo sozinho o contrabaixo a partir de seus conhecimentos de piano. Em 1938 é o contrabaixista do conjunto de Vido Musso, onde conhece o pianista Stan Kenton. Partindo em turnê para o leste, toca durante 16 semanas no Blackhawk em Chicago, cidade que o levaria a conhecer Professor Jiska, primeiro contrabaixo da Sinfônica de Chicago, de quem recebe suas primeiras e únicas aulas do instrumento. Retornando a Los Angeles, aceita o convite para integrar a primeira banda de Stan Kenton, apresentando uma série de arranjos inovadores pouco aceitos tanto na costa leste quanto na costa oeste. Depois de trabalhar com inúmeros conjuntos, grandes e pequenos, do Dixieland ao Bebop, Rumsey finalmente realiza em 1948 o primeiro concerto de domingo no Lighthouse Cafe, empreendimento que comprova ser possível oferecer música de alta qualidade para um público amplo. Para os amigos fica a faixa The Song is You , retirada do álbum Howard Rumsey's Lighthouse All-Stars Volume Three, gravado entre 1952 e 1955. Com ele estão Shorty Rogers (t), Frank Rosolino (tb), Jimmy Giuffre (ts), Herb Geller, Bud Shank (as), Claude Williamson (p) e Max Roach (d). Lenda é lenda.