
A paixão pela música começou ainda na infância; o caminho para a erudição, aos 11, quando aprendeu a tocar teclado. Aos 17, aprendeu a ler partituras para se habilitar para o vestibular. "Não tem jeito, eu nasci para a música, estar aqui prova que não vale a pena viver sem sonhar." André não é o primeiro deficiente a chegar à faculdade de música da UFRGS. O pioneiro, Vilson Zattera, também cego, formou-se em instrumentos de cordas e sopros nos anos 80 e, hoje, toca jazz nos Estados Unidos. A chefe do departamento, Flávia Alves, afirma que a chegada desses jovens é um desafio à faculdade, que já começou a desenvolver material didático em braille.” E poderíamos falar aqui no Jazzseen sobre uma infinidade de músicos de jazz cegos, alguns desde o nascimento – como George Shearing ou Mike Markaverich – outros após o nascimento – como Ray Charles ou Roland Kirk – e os cegos de uma só vista, como Ry Cooder ou Art Tatum. Mas não há tempo agora. Ficaremos com um breve vídeo do pianista Alec Templeton (1909-1963), nascido cego em Cardiff, capital do País de Gales, único integrante do Reino Unido que manteve suas raízes célticas intactas e nunca permitiu a invasão dos anglo-saxões, devido não somente à bravura de seu povo como também pela sua montanhosa geografia. Daí seu nome Wales, que significa estrangeiro. Bem, não procure por Alec nos guias e dicionários de jazz, pois você ficará às cegas. Há um breve verbete sobre ele na página 726 do Dicionário Oxford de Música, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1994, obra dedicada à música clássica. Sim, após algumas lições quando criança, Alec completa seus estudos na London Academy of Music. Aos dezoito anos compõe um trio para flauta, oboé e piano, no que é congratulado por ninguém menos que Ralph Vaughan Williams. Em 1936 é convidado pelo bandleader inglês Jack Hilton a partir para os EUA, onde participaria de uma série de programas de rádio promovidos pela Standard Oil Company. Seu talento e espontaneidade são rapidamente reconhecidos, principalmente através de suas divertidas e inteligentes leituras dos clássicos, como nos álbuns Bach Goes To Town, Mozart Matriculates e Scarlatti Stoops To Conga, sempre revitalizados com a linguagem do jazz. Como ele mesmo disse certa vez: “Good music need not be ponderous to be good. It can be everything from Bach to jazz.” Embora seja mais lembrado como um versátil pianista popular, Alec registrou algumas composições sérias interessantes para piano, quarteto de cordas, orquestra e voz, quase sempre com fortes laços folclóricos. Célebre através dos diversos programas de rádio e televisão dos quais participou nas décadas de 1940 e 1950 – inclusive ao lado de gente como Bing Crosby – Alec chegou a ter seu próprio programa, o It’s Alec Templeton Time. A faixa a seguir, Moonglow, foi gravada em 1958, num dos Art Ford Jazz shows. Na volta da viagem, é claro, levei um bolo. Para quem não pode olhar nem ser visto, boa audição e bom apetite.