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01/04/2008

Wynton Marsalis - From The Plantition

Jazz: Wynton Marsalis - From The Plantition To The Penitentiary - 2007 - Blue Note - Não espere encontrar nesse álbum nenhuma inovação, afinal estamos diante de mais um trabalho de Wynton, o epos do neo-tradicionalismo. Espere algo como as saudosas experiências quase que inintelegíveis de um ressuscitado Charles Mingus ainda mais carrancudo e perplexo diante de Obama e Cia. Adicione-lhe algumas doses de poesia e crítica versando sobre os motivos pelos quais as prisões norte-americanas estão sempre e inevitavelmente repletas de negros, enquanto a Casa Branca e a Suprema Corte de brancos. Valeu a pena libertarem-se das plantações? O destaque sonoro fica para o trompete gigante e, quem diria, quase hiphopiano de Wynton (vide a faixa Where Y'all At), as frases da vocalista Jennifer Sanon (sim, o Jazzseen deu o braço a torcer ao jazz cantado nesse mês de abril), ao piano quase açucarado de Dan Nimmer e ao sax de Walter Blanding. Ok, o álbum não diz nem toca nada de novo, mas o diz e toca muito bem.

27/10/2007

Jazz en Chile - Pinochet no Tim Festival

Já discorremos o suficiente sobre a excelente impressão causada pela cidade de Santiago: limpa, tranqüila, calçadas amplas, prédios históricos bem conservados, ausência de violência, boa comida, excelentes vinhos. Quanto ao jazz, sim, ele existe. E existe em doses bastantes relevantes, conforme teremos oportunidade de comentar em resenha futura. Contudo, como qualquer brasileiro médio, acostumado à multiplicidade de etnias e culturas que convivem e interagem dinamicamente, estranhei a absoluta ausência de negros no Chile. Durante os sete dias em que fiquei em Santiago, não vi um negro sequer. Mesmo quando me dei conta do fenômeno, passando então a observar com mais atenção, não vislumbrei sinais de afro-descendentes em ruas, praças, lojas, ônibus, metrôs, restaurantes, hotéis, shoppings. Nada! Com certeza, pensei, haverá negros nos clubes de jazz. Não senhor, não senhora, eles também não estavam por lá. A viagem prosseguiu em sintonia, muito embora esse fato tenha me incomodado durante toda minha estada. Nas diversas livrarias pelas quais passei – há muitas livrarias em Santiago, a maioria delas de boa qualidade e com excelente atendimento, procurei material relativo ao jazz e, nestes, à composição étnica da população chilena. Com relação especificamente ao jazz, encontrei apenas um livro: Historia del jazz em Chile, de Alvaro Menanteau, mestre em Musicologia pela Universidad de Chile.
Publicado em 2003, trata-se do primeiro, e até onde sei o único, livro sobre a história do jazz no Chile. O livro relata uma única referência à presença de artistas negros em terras chilenas durante o século XIX: os concertos realizados pelo conjunto Ethiopian Minstrels, um em 1859, em Valparaíso e outro em 1860, em Santiago. Segundo as informações de época publicadas no jornal El Mercúrio, o conjunto apresentou spirituals e canções típicas das plantações de algodão do sul dos EUA. A certa altura da notícia, podemos ler: “La compañia de cantores africanos no es para sustener temporadas em sus funciones, pero si podrá presentarse ante um público para distraerle por algunas noches y ser objeto de curiosidad (...) con personajes que tratan de representar las costumbres de uma raza abyecta.” Menanteau comenta o violento qualificativo utilizado pelo jornal, destacando que a discriminação racial acompanharia o jazz durante muitas décadas. E conclui que não há registro de qualquer outra presença da música negra no Chile até as primeiras décadas do século XX, quando os EUA exportam para toda a América Latina uma série de bandas de cakewalk, ragtime, charleston, two step, half and half, foxtrot e, por fim, de jazz. Após cansativas pesquisas, localizei um outro livro interessante, conquanto não versasse especificamente sobre jazz: Historia social de la música popular em Chile: 1890-1950, de González & Rolle, publicado em 2000.
Na página 506 os autores fazem breve referência à influência negra na formação da música popular chilena, e dizem: “Si bien la zona central de Chile constituía la ruta oficial del tráfico de esclavos llegados a Buenos Aires en viaje hacia los puertos del Pacífico, y uma apreciable población de negros, zambos y mulatos estuvo radicada en el país en los siglos XVII y XVIII, la abolición de la esclavitud promulgada poco tiempo después de la independência, produjo la imigración de los esclavos libertos hacia naciones más cálidas del Pacífico Sur. Debido a esto, el público chileno de fines del siglo XIX no tenia un contacto directo ni regular con el mundo negro.” Os autores prosseguem, afirmando que as raras manifestações musicais negras estavam quase sempre associadas ao caráter bufo desse povo, além da capacidade que sua música tinha de fazer os quadris chilenos balançarem. O tipo insipiente de literatura chilena sobre jazz faz recordar os primeiros estudos sobre jazz nos EUA, surgidos nas décadas de 40 e 50, onde o aspecto racial era tabu quase sempre evitado ou varrido para debaixo do tapete. Somente no final da década de 50 Leonard Feather inclui o capítulo Jazz and Race em seu livro The Book of Jazz, relatando e denunciando inúmeras humilhações e dissabores enfrentados pelos artistas negros do jazz. O caminho estava aberto para que outros escritores, como LeRoi Jones (Amiri Baraka) e seu Blues People, enfrentassem a questão de forma aberta e indignada. Em seu excelente The Birth of Bebop, Scott DeVeaux anota a lastimável gafe perpetrada por Itzhak Perelman num sarau promovido por Reagan na Casa Branca, em 4 de dezembro de 1982. Enquanto ofereciam galinha frita e algumas fatias de melão a Dizzy Gillespie, Perelman perguntava a Stan Getz o que era o bebop. Getz, é claro, não sabia o que responder. E Dizzy, mais tarde, comentou para a Village Voice: “Bastaria que Getz apontasse para mim e dissesse “pergunte a ele, um dos inventores desse estilo”. Voltando ao Chile: o que pude levantar nos bares e clubes de jazz é que existe um racismo profundo no Chile, bem mais profundo que o colorido racismo brasileiro. Há denúncias graves e específicas sobre o regime fascista de Pinochet, claramente baseado na superioridade da pele branca. Existem movimentos organizados que noticiam e solicitam apuração de crimes cometidos pelo Exército chileno contra o povo negro, obrigado pela ditadura a abandonar o país com seus costumes e crenças que atrapalham o desenvolvimento e a evolução. As denúncias são muitas e exigem vontade e coragem política para que possam ser devidamente investigadas e avaliadas, produzindo as punições devidas. Do Chile ao Brasil, verifico que no Tim Festival 2007, até onde sei um festival de jazz, não há um artista negro sequer se apresentando – a não ser que consideremos Paulo Moura um músico de jazz. Em Vitória, vou assistir aos shows dos caucasianos Joe Lovano e Eldar Djangirov. Confesso que me sinto envergonhado. E você?
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Nota: essa resenha é dedicada aos meus amigos Colibri, Waldir, Paulinho, Daniel, Augusto Carlos e Arcemir.