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31/10/2011

Dick Garcia: Message From

Há quem diga que o artista é fruto das influências que o cercam e, quanto a isso, não parece haver muita celeuma. O que angustia e aflige, sobretudo ao amigo e baterista angolano Alex Marretta, o maior especialista em congo de Copacabana, é que alguns músicos saiam tocando impunemente por aí, sem nunca terem estudado música. "Isto é um absurdo, isto é mentira, isto é impossível!" gritava Mr. Marretta diante de seus jovens e dedicados alunos de sino de igreja - sim, Mr. Marretta é também um dos últimos devotados mestres de sino de igreja do Brasil. Sua ONG Bate o Sino Pequenino tem sido responsável pela convocação de milhares de bons católicos, mediante pancadas ensurdecedoras no belo instrumento da fé. O curso de sino, devido à sua enorme complexidade, exige uma semana de aulas teóricas e ao menos dois dias úteis de prática. Já Dick Garcia, guitarrista nascido em New York no dia 11 de maio de 1931, preferiu sair tocando de ouvido seu instrumento aos nove anos de idade. Nascido numa família de músicos, Dick viveu rodeado de guitarristas, entre eles alguns tios e um dos avôs, recebendo suas primeiras aulas formais apenas aos treze anos de idade. Fortemente influenciado pelo guitarrista Charlie Christian, foi em Charlie Parker que Dick encontrou seu modelo artístico. Aos dezenove, Dick já integrava o quarteto de Tony Scott, um dos melhores clarinetistas do Bebop, estilo que quase levou o delicado instrumento à extinção.   

Ainda na década de 1950, Dick trabalhou com músicos como Charlie Parker, George Shearing, Bill Evans e Milt Buckner, entre outros, além de liderar seus próprios conjuntos. Além de trabalhar com Kai Winding e Nancy Wilson na década de 1960, pouco se sabe sobre os rumos tomados por Dick. Para os amigos deixo as faixas Have You Met Miss Jones, If I'm Lucky, Stompin' At the Savoy e Like Someon in Love, retiradas do excelente CD A Message From Garcia, lançado pela Blue Moon na série The Classic Dawn Recordings, onde memoráveis álbuns do selo Dawn estão sendo relançados. Com Dick estão Tony Scott (cl), Gene Quill (as), Bill Evans (p), John Drew (b) e Camille Morin (d). 

Garcia by Jazzland

22/07/2011

Lenda Viva - Chris Barber


Quando Vovô Acácio foi convidado por Oscar Niemeyer para projetar Brasília, pouca gente poderia imaginar que deste encontro nasceria uma das mais acirradas polêmicas da história da arquitetura brasileira. Conforme já havia demonstrado no projeto de Welwyn Garden City, inaugurada em 1920, Vovô Acácio era um entusiasta do verde, da coexistência saudável entre árvores, construções, jardins e calçadas. Tendo orientado o arquiteto Louis de Soissons na construção da Welwyn Garden City, a segunda garden city da Inglaterra, Vovô Acácio colocou em prática sua ideia fixa de unir a cidade com o campo, tornando menos inóspita a paisagem urbana, suavizando-a com a presença constante da natureza. Dito isto, claro que seu encontro com o amante brasileiro do concreto foi um desastre. Após a breve reunião, Vovô Acácio perguntava para si mesmo: como é que um comunista pode beber seis garrafas de Château Latour 1934 durante a elaboração de um projeto arquitetônico e, o que é pior, propor a construção de uma cidade totalmente desvinculada de seu entorno?

Nenhum dos apelos de Vovô Acácio junto à imprensa foram ouvidos. Suas reuniões com Juscelino foram em vão. As súplicas ao Papa deram em nada. Brasília nasceu cinza, pesada, sem verde e sem qualquer conexão com os arredores, do que resultou na favelização horizontal da vizinhança, também sem verde e sem jardins, como numa metástase. Visivelmente transtornado, Vovô caminha com dificuldade até a velha estante, de onde retira uma surrada pasta com os projetos originais de Welwyn Garden City, construída quarenta anos antes de Brasília. E cochichava: veja Paulinha, olhe aqui a primeira casa ocupada da cidade jardim, nas vésperas do natal de 1920. Depois, retirando outra foto, disse: está vendo este bebê aqui, é Chris Barber, um dos maiores músicos de jazz da Inglaterra. Sabe onde ele nasceu? Exatamente, em Welwyn Garden City!



Colocando no toca-discos um desconhecido álbum de Chris e apertando entre os dedos a rolha de um dos Château Latour 1934 abertos por Niemeyer durante aquele terrível encontro, Vovô passou a nos contar um pouco mais sobre o músico inglês. Nascido na cidade jardim em 17 de abril de 1930, Chris iniciou os estudos de violino aos sete anos, passando para o trombone aos dezoito e, em 1949, forma sua primeira banda de Dixieland. Entre 1951 e 1954, Chris frequenta a Guildhall School of Music, em Londres, onde estuda trombone e contrabaixo. Nesse período, forma um quinteto e, com a chegada do trompetista Pat Halcox, um sexteto, com o qual se apresenta no Club Creole, também na capital inglesa.

Em 1953, Pat Halcox é substituído por Ken Colyer, talvez o mais importante divulgador do jazz tradicional na Inglaterra. No ano seguinte, com a saída de Colyer, Halcox retorna ao sexteto que, em pouco tempo, alcança grande popularidade e é reconhecido pela crítica especializada como um dos melhores conjuntos de Dixieland da Inglaterra. Em 1954, a cantora Ottilie Patterson passa a integrar a banda e, em 1959, casa-se com Chris, união que duraria até 1983, quando se divorciam. Na década de 1960, com o revival do jazz tradicional na Europa, a banda de Chris tem suas forças revigoradas, além de aproximar-se de outros estilos, como o Swing, o blues e o ragtime. São memoráveis seus encontros com grandes mestres norte-americanos, como Muddy Waters, Sonny Terry, Brownie McGhee, Albert Nicholas, Sidney De Paris, Edmond Hall, Hank Duncan, Russell Procope, Wild Bill Davis e Louis Jordan.



Também o rock e a música clássica são investigados por Chris, músico que já atuou ao lado de lendas como Eric Clapton, Mark Knopfler e Dr. John, além de compor um concerto para trombone e orquestra e gravar como solista com a London Gabrieli Brass. Enfim, um músico comparável ao vinho Château Latour: quanto mais velho, melhor! Nas faixas acima você ouve C Jam Blues (com Albert Nicholas), The Sunny Side of The Street (com Jools Holland), Ragtime Piece (com Mark Knopfler) e Do Lord, Do Remember Me (com Ottilie Patterson, Sonny Terry e Howard McGhee). Quem gostar, plante uma árvore.

31/05/2011

Lenda Viva - Randy Weston

Como se poderia prever que um excelente pianista do Hard Bop transformar-se-ia num dos mais importantes compositores da Fusion? Nascido no dia 6 de abril de 1926 em New York, Randy Weston cresceu no Brooklyn, bairro extremamente musical: primo de Wynton Kelly, vizinho de Eddie Heywood, é trabalhando num restaurante que conhece alguns grandes músicos do Bebop, como Max Roach, Duke Jordan, Cecil Payne e Thelonious Monk, uma de suas maiores influências. Decidido a tornar-se músico, Randy inicia tocando em bandas de Rhythm & Blues, absorvendo os novos rumos do jazz naquela década de 1940, dominada pelo Bebop. Ao mesmo tempo, dedica-se a estudar os ritmos africanos e caribenhos, elementos que seriam fundamentais em suas futuras composições. Após algum tempo trabalhando com Eddie 'Cleanhead' Vinson e Kenny Dorham, Randy torna-se um dos primeiros músicos a assinar com a Riverside, gravando seu álbum de estréia em 1954. Nos anos seguintes, gravaria uma série de excelentes álbuns dentro do contexto Hard Bop, até que, em 1961, grava com sua big band Uhuru Afrika, álbum repleto de influências africanas, com letras de Langston Hughes e arranjos de Melba Liston. Entre os solistas, vale destacar Freddie Hubbard, Yusef Lateef, Max Roach e Babatunde Olotunji. No mesmo ano, inicia suas viagens à África, visitando a Nigéria.

Definitivamente respeitado como compositor, seu estilo ao piano torna-se cada vez mais percussivo, eclético e abrangente, contando com colorações que vão desde o boogie-woogie até o bebop, passando pelo blues e pelos complexos ritmos africanos. Após trabalhar algum tempo com Booker Ervin e Ed Blackwell, ainda na década de 1960, Randy cria seu próprio selo, o Bakton, de vida curta diante do panorama musical da época. Decide então passear por quatorze países da África, estabelecendo-se em Marrocos, em 1968, retornando aos EUA apenas em 1973.

Retomando seus trabalhos com big band, Randy grava Blue Moses, Tanjah e The Spirits of Our Ancestors, este último com arranjos de Melba Liston e solistas memoráveis, como Dizzy Gillespie, Dewey Redman e Pharoah Sanders. Para os amigos, ficam algumas faixas retiradas de seu álbum With These Hands, gravado para a Riverside em 1956. Com Randy estão Cecil Payne (bs), Ahmed Abdul-Malik (b) e Wilbert Hogan (d). Hard Bop de alto nível feito por uma lenda viva da Fusion.

09/05/2011

Lenda viva - Max Bennett

São raríssimas as fontes virtuais ou escritas sobre o contrabaixista Max Bennett. Nem mesmo o excelente livro West Coast Jazz, do respeitável historiador Ted Gioia, faz qualquer referência a este músico nascido em Des Moines, Iowa, no dia 24 de maio de 1928 e, salvo prova em contrário, ainda vivo. Após tocar trombone e guitarra na adolescência, Max dedica-se ao contrabaixo. Após trabalhar com Herbie Fields, Georgie Auld, Terry Gibbs e Charlie Ventura, em 1951 alista-se nas Forças Armadas, dando baixa em 1953. Após integrar a banda de Stan kenton entre 1954 e 1955 e participar das formações que tornariam legendário o clube Lighthouse, Max fixa-se definitivamente em Los Angeles. Depois de algum tempo com a cantora Peggy Lee, em 1957 Max passa a acompanhar Ella Fitzgerald, com quem tem oportunidade de participar das famosas turnês da JATP - Jazz at the Philharmonic. Nas décadas de 1960 e 70, atua intensamente como músico de estúdio, passando a tocar principalmente o contrabaixo elétrico, além de participar de diversos projetos, trabalhando com a cantora Joan Baez, Quincy Jones, Tom Scott e seu conjunto fusion L.A. Express, o cantor pop Joni Mitchell, Frank Zappa, Crusaders e Aretha Franklin. Na década de 1980, além de participar da banda de Victor Feldman, Max forma seu próprio conjunto, o Freeway, do qual também é rara qualquer informação.

Para os amigos, ficam as faixas Jeepers Creepers, I'll Never Smile Again e Blues, retiradas do álbum Max Bennett Plays, lançado pela Bethlehem. Com Max estão Frank Rosolino (tb), Charlie Marinao (as), Claude Willamson (p) e Stan Levey (d).  



Lighthouse Café
   

25/04/2011

Lenda viva - Lennie Niehaus

Quem olha para a moça da foto nunca poderia supor que se tratasse de uma grande trombonista do jazz. E, de fato, ela não é. Naura é apenas nossa simpática amiga e atual responsável pelo marketing e pelo novo designe do Jazzseen, todo ele projetado sobre macios lençóis brancos de algodão 800 fios. Enquanto desarrolhava um esforçado exemplar de pinot noir, safra 2008, produzido pela RAR, Naura comentava como são bonitas as trilhas sonoras dos filmes de Clint Eastwood, aquele bonitão que matava todos os bandidos com seu imenso 44 magnum. Sim, Naura adora a cepa pinot noir que, segundo ela, é mais macia e delicada que a selvagem cabernet. Nisso chega Paulinha, ou Paula Nadler, editora de moda e folclore do Jazzseen, com o dvd Bird, um dos tantos filmes dirigidos por Clint. Lester então pede vênia para tecer alguns daqueles seus imensos comentários, começando pelo Pinot Noir RAR: Sim, o vinho é um dos varietais que melhor se adapta à região de Campos de Cima da Serra – Muitos Capões – RS, onde se encontram os vinhedos de Raul Anselmo Randon, situados a uma altitude de 1.000m, beneficiando-se do clima diferenciado que está entre os mais frios do Brasil. Envelhecido durante um ano em barricas novas de carvalho francês, revela toda sua elegância e personalidade da safra 2010 para quem estiver disposto a pagar R$45,00 no site da Miolo, empresa que vinifica as colheitas de Raul.

Nossa, mas eu paguei R$60,00 pela safra 2008 desse vinho no Supermercado Perin, aqui em Itaparica, Vila Velha! Será que há tanta diferença assim entre a safra 2008 e a 2010, perguntou Naura. Lester tranquilizou nossa amiga, afirmando que a safra 2008 está adequada para consumo, a não ser por pequenas arestas de álcool e pimenta, ainda salientes e antipáticas ao equilíbrio do vinho. Contudo, considerando o preço, recomenda-se aos amigos que pelo menos conheçam o belo trabalho desenvolvido pela RAR, ainda que o vinho, convenhamos não seja lá essas coisas. Mas, considerando o preço, vale o risco.

Nesse meio tempo, aparece Fred, ou Dr. Frederico Bravante, nosso editor de free jazz, já visivelmente amarrotado pelos 14º de álcool do vinho, com um long playing de Lennie Niehaus na mão, e diz: ei, vejam só, um álbum daquele cara que fez os arranjos para o filme Bird, do Clint! Sim, concordou Lester, emendando o segundo de seus breves comentários: Lennie ainda está vivo, sabe-se lá como. Nascido em 1929 em St. Louis, Missouri, aos 7 anos muda-se para a California, onde termina os estudos universitários. Após um breve período tocando saxofone alto no conjunto de Jerry Wald, Lennie passa a integrar a estimada banda de Stan Kenton, em 1951. Após o serviço militar (1952-1953), retorna à formação de Kenton, lá permanecendo até 1960. Durante este período, chega a gravar como líder e sideman, inclusive com Shorty Rogers. A partir da década de 1960, Lennie inicia uma longa e produtiva carreira de compositor e arranjador de música para cinema e televisão, entre os quais City Heat (1984) e Pale Rider (1985), onde o herói Clint Eastwood mata um sem número de bandidos malvados.

Em 1988, quando Clint decide produzir o filme Bird, sobre a vida de Charlie Parker, convida Lennie para equacionar o áudio, tarefa complexa que iniciava na escrita em partitura dos temas gravados originalmente e a extração dos solos de Parker, que seriam objeto de regravação com novos acompanhantes. Quem assistiu ao filme sabe que primoroso trabalho foi realizado. Embora alguns críticos apontem certa frieza em seus solos tecnicamente perfeitos, a profusão de excelentes idéias que caracteriza seu discurso é suficiente para colocá-lo entre um dos mais importantes saxofonistas alto do West Coast Jazz.

    

Para os amigos fica a endiabrada faixa P and L  , retirada do álbum I swing for you, gravado em 1957. Com Lennie estão Bill Perkins (ts), Lou Levy (p), Red Kelly (b) e Jerry McKenzie (d), à época todos integrantes da banda de Stan Kenton. Sim, o P é de Perkins e o L é de Lennie, dois mestres em seus instrumentos. Boa audição!

16/01/2011

Lenda Viva: Clark Terry

 Quanta responsabilidade escrever sobre um dos maiores trompetistas do jazz, verdadeiro mestre do instrumento, capaz de navegar tranquilamente pelos rios mais caudalosos do Swing e sobreviver tenazmente às enchentes e avalanches mais violentas do Bebop. Nascido em St. Louis, Missouri, no dia 14 de dezembro de 1920,  Clark Terry ganhou experiência tocando em bandas locais, aprimorando sua técnica durante o serviço militar. Nos primeiros anos de estudos, opta pelas partituras para clarinete que, segundo ele, forneciam uma sonoridade mais fluida e redonda ao seu trompete. Após dar baixa da Marinha, passa algum tempo na banda de Charlie Barnet para, em seguida, integrar a orquestra de Count Basie por três anos, até 1951. No mesmo ano, ingressa na orquestra de Duke Ellington, onde permanece por oito anos. Em 1959, em New York, Terry torna-se um dos primeiros músicos negros de estúdio, participando regularmente de uma série formidável de gravações. Paralelamente, atua durante vários anos ao lado de Doc Severinsen, apresentando-se no popular  Tonight Show, de Johnny Carson. Como se não bastasse, Terry manteve-se permanentemente ligado aos grandes músicos de jazz, apresentando-se em clubes e participando de gravações ao lado de instrumentistas como Milt Jackson, Cecil Payne, J. J. Johnson, Johnny Griffin, Stan Getz, Bob Brookmeyer e muitos outros. Não foram poucos os grandes jazzmen que integraram a Big B-A-D Band, liderada por Terry.

No início da década de 1970, convidado por Norman Granz, Terry passa a fazer parte do famoso JATP - Jazz At The Philharmonic, gravando abundantemente para o selo Pablo. É  também nesse período que inicia a tocar flügelhorn, instrumento que adotaria com bastante frequência em estúdio e apresentações. Nos vinte anos seguintes, participa de uma série de concertos e festivais por todo o mundo, seja como líder ou como um humilde sideman. Dotado de uma técnica incomum, capaz de trafegar com destreza pelos estilos Swing, Bebop e Hard Bop, Terry nunca perdeu a emoção, profundamente enraizada no sentimento de blues que lhe percorria as veias e artérias. Além disso, todo o seu contagiante senso de humor podia ser captado em suas interpretações vocais, algumas delas dotadas de um scat muito peculiar, sem falar nos duetos consigo mesmo, mediante a utilização impressionante do trompete e do flëglehorn em diálogos que nunca descambavam para o virtuosismo gratuito. Para os amigos, fica a faixa Trumpet Mouthpiece Blues e uma modesta recomendação discográfica:

Clark Terry - 1954/1955 - Verve 314 537 754-2 - Embora tenha gravado algumas faixas lançadas em V-Disc no final da década de 1940, este é considerado o primeiro álbum de Terry como líder. Lançado em CD pela Verve, apresenta duas sessões. A primeira (quatro últimas faixas), gravada em 1954,  conta com a presença de Norma Carson (t) Urbie Green (tb), Lucky Thompson (ts), Corky Hale (harp) , Terry Pollard (vib), Horace Silver, Beryl Booker (p), Tal Farlow, Mary Osborne (g), Oscar Pettiford , Bonnie Wetzel , Percy Heath (b) e Kenny Clarke, Elaine Leighton (d). Na segunda sessão (demais faixas), gravada em 1955, Terry conta com o apoio de Jimmy Cleveland (tb), Cecil Payne (bs), Horace Silver (p), Wendell Marshall, Oscar Pettiford (b, cello), Art Blakey (d) e Quincy Jones (arr). Curioso que, na época dessas gravações recheadas de Bebop, Terry trabalhava na banda de Ellington, após um importante período com Basie, dois importantes signatários do Swing. Excelente álbum.

In Orbit - 1958 - Riverside OJCCD-302-2 - Outro excelente álbum, contando com a rara presença do pianista Thelonious Monk como sideman. Completam o quarteto Sam Jones (b) e Philly Joe Jones (d).

Color Changes - 1960 - Candid CCD-79009 - Considerado por muitos críticos como seu melhor álbum, Terry apresenta com seu octeto sete composições inéditas, quatro delas de sua autoria. Os arranjos ficam por conta de Yusef Lateef, Budd Johnson e and Al Cohn. Com ele estão Jimmy Knepper (tb),  Julius Watkins (frhn), Yusef Lateef (ts, f, oboé), Seldon Powell (ts, f),  Tommy Flanagan (p),  Joe Benjamin (b)  e Ed Shaughnessy (d).

Tread Ye Lightly - 1964 - Cameo C 1071 - Dentre os excelentes álbuns gravados na década de 1960, neste Terry comparece em sua melhor forma, particularmente nas baladas Georgia on My Mind, e Misty. Com ele os competentes Seldon Powell (ts, bs, f), Buddy Lucas (harm, ts),  Major Holley (b) e um tal de Homer Fields no piano que, na verdade, é Ray Bryant. Quem cantarola em algumas faixas é Major Holley.

Live At Montmartre - 1975 - Storyville 8358 - Gravado em junho de 1975, este concerto gravado em Copenhagen somente veio a público em 2003. Acompanhado pelo antigo companheiro da banda de Count Basie, Ernie Wilkins, Terry executa excelentes solos com o flugelhorn e com o trompete. Além da  seção rítmica impecável, formada por Horace Parlan (p), Mads Vinding (b) e Bjarne Rostvold (d),  Terry srecebe ainda a visita de Dexter Gordon nos vocais. Recomendo.  

To Duke And Basie - 1986 - Enja 5011 - Após um excelente dueto gravado com Oscar Peterson em 1975, Terry dessa vez conta com a colaboração perfeita do contrabaixista Red Mitchell, interpretando clássicos associados a dois gênios do Swing: Count Basie e Duke Ellington. 

What A Wonderful World: To Louis And Duke - 1993 - Red Baron 53750 - Aos setenta e dois anos de idade, e em plena forma, Terry presta uma emocionante homenagem a duas personalidades únicas do jazz, Armstrong e Ellington. A enchurrada de swing é auxiliada pela presença de Al Grey (tb), Dado Moroni (p), Lesa Terry (vln), Ron Carter (b) e Lewis Nash (d).

Herr Ober: Live at Birdland Neuburg - 2000 - Nagel Heyer 68 - Gravado ao vivo na Alemanha, este é apenas um dos excelentes álbuns que Terry gravou na década de 2000. Em impressionate forma para os seus 79 anos, Terry executa uma série de clássicos do Swing e demonstra que seu scat murmurado mantém-se intacto. Com Dave Glasser (as), Don Friedman (p), Marcus McLaurine (b) e Sylvia Cuenca (d).

   

16/10/2010

Chega de falar do Lula, vamos falar do Laulau


Convidado para um casamento gay em Honolulu, Lester creu suficiente formular-me um convite para acompanhá-lo, de modo a estabelecer uma espécie de habeas corpos preventivo diante de qualquer tentativa de abordagem de convivas menos ortodoxos. Foi assim que seguimos rumo ao arquipélago mais famoso do Pacífico Norte, o local da onda perfeita, preferido por dez entre cada dez pombinhos norte-americanos em lua-de-mel. Imediatamente após o pouso, Lester indicou ao taxista que se dirigisse à Rua Sereno, nas proximidades do Queen’s Medical Center. Lá chegando, desceu e encaminhou-se pausadamente até uma velha casa. Entrou. Embora assustada, cri em que ele soubesse o que estava fazendo, afinal não era sua primeira vez na terra do Laulau. Aguardava na varanda, observando lindos hibiscos amarelos, quando Lester saiu sorridente, dizendo estar tudo bem com seu velho amigo Bill Tapia, segundo Lester o mais velho músico de jazz em atividade! Ora, para nós, que sempre crêramos ser o violinista Svend Asmussen o mais velho músico de jazz na ativa, do alto de seus intermináveis 94 anos, tudo aquilo parecia ser mais uma grande falácia naturalística de Lester. 
Sem que eu percebesse, estávamos na fila do Ono Hawaiian Food, uma espécie de boteco nativo pouco solicitado pelos turistas. Fluente na língua havaiana, Lester pediu os dois pratos principais do arquipélago: o laulau, espécie de trouxa feita com imensas folhas de taro e recheada com lascas de carne de porco, e o kuala pig, considerado por muitos o prato principal do Havaí. Durante a sobremesa, Lester explicou-me que Tapia podia não ser um virtuose do ukulele, espécie de cavaquinho, mas vencia qualquer um com sua simpatia e bom gosto. Tocava de tudo, inclusive jazz. Para alguns, Tapia nasceu em 31 de dezembro de 1907, para outros em 1º de janeiro de 1908. Na melhor das hipóteses, estaria com 102 anos de estrada. Nascido em Honolulu, aos sete anos começa a aprender o instrumento com alguns vizinhos do bairro. Em 1915, compra do carpinteiro português Manuel Nunes seu primeiro ukelele, por US$0.75. Aos dez anos de idade, Tapia começa a produzir arranjos para ukelele das populares marchas de John Philip Souza, interpretando-as para turistas e para os soldados baseados em Pearl Harbor, durante a Primeira Guerra Mundial. 
Por volta dos doze anos, é preso por se apresentar num speakeasy, aquela espécie de bar clandestino que vendia bebidas alcoólicas durante a Lei Seca. Também aos doze anos, abandona a escola para ajudar no sustento da família, passando a integrar o grupo Hawaiian Amusement Company, onde se destacava não apenas pela pouca idade, nem pelo fato de tocar ukelele atrás da cabeça, mas principalmente por seu estilo único e talvez inédito de tocar jazz com cavaquinho. Não obstante, aos quinze anos abandona o ukelele, passando a tocar violão e banjo em bandas de dança ou em grupos de jazz, apresentando-se em hotéis e cruzeiros. Em 1927, apresenta-se com a orquestra de Johnny Noble no Pink Palace of Pacific, no Hotel Royal Hawaiian.

Em 1933, Tapia é contratado pelo mesmo hotel para interpretar temas populares para grupos de turistas em locais paradisíacos, bem como para receber com música os que desembarcavam na ilha. Já famoso no arquipélago, Tapia era figura constante nas melhores big bands do estado, inclusive durante a Segunda Guerra Mundial, quando estabelece sua própria orquestra, a Tappy’s Island Swingers, apresentando-se em clubes e hotéis, inclusive no antigo Honolulu Civic Auditorium, conhecido como Blackout Ballroom em função de que as luzes eram constantemente apagadas durante os bombardeios. Foi neste período que aprendeu a decorar partituras.

Após a guerra, Tapia muda-se com a família para a California, fixando-se em San Francisco, onde passa a tocar e dar aulas de violão e cavaquinho. Embora beba pouco e não use drogas pesadas, Tapia fumou até os 87 anos. Em 1998, muda-se para Westminster, sul da California, onde vive e trabalha até hoje. A perda da esposa e da filha não impediu que Tapia continuasse sua longa caminhada musical. Incentivado por pessoas como a radialista Alyssa Archambault e o professor universitário Byron Yasui, Bill consegue manter-se no meio musical, gravando e se apresentando até hoje em clubes e festivais. Para os amigos fica a faixa All The Things You Are , retirada do álbum solo Duke of Uke, gravado em 2004 e lançado em 2005 pela Moonroom. Creia!

06/10/2010

Lenda viva: Stan Hope

Foi conversando com Mr. Cordeiro sobre o pianista James Williams, morto em 2004 aos 53 anos, que lembrei de Stan Hope, uma dessas jóias antigas do jazz que devemos conservar com todo o carinho e cuidado. Minha estima tem particular simpatia por ser ele um autodidata, característica abominada por alguns, mas que a mim demonstra a forte musicalidade que alguns humanos especiais apresentam. Foi ouvindo a banda de Count Basie, que na época contava com músicos como Lester Young, Buck Clayton e Freddie Green, que Stan descobriu o que queria fazer na vida: tocar. Assim é que começa a dedilhar por conta própria o piano que sua mãe comprou quando contava com 10 anos de idade. Da tia, ganhou alguns álbuns de Errol Garner que iriam ampliar sua noção do instrumento. Contudo, em 1949 inicia a carreira profissional tocando guitarra, recebendo suas primeiras aulas formais de piano apenas em 1959. É na Costa Oeste que consolida sua reputação como pianista, trabalhando ao lado de músicos como Coleman Hawkins e Hank Mobley e frequentando alguns dos mais importantes clubes de New York, como o Birdland, o Blue Note e o Village Vanguard. Durante um longo período de sua carreira, Stan acompanhou a vocalista Etta Jones, bem como o saxofonista Houston Person, músicos com os quais grava constantemente.

Embora não conste em nenhum guia de jazz que eu conheça, Stan costuma ser identificado como um importante pianista do mainstream jazz, com forte influência de Erroll Garner e Bud Powell. Em minha opinião, Stan ultrapassa com espontaneidade as fronteiras do Bebop, sendo capaz de transitar pelo Hard Bop e pelo Post Bop com fluência e criatividade, lembrando algumas vezes os ensinamentos de mestres como Red Garland e Mal Waldron. Embora tenha gravado pouco como líder, considero o álbum Put on a Happy Face essencial à discoteca de qualquer interessado sério do jazz. Gravado em 2004 para a Savant, Stan conta com a presença feliz de Houston Person (ts), Ray Drummond (b) e Kenny Washington (d). Para os amigos, fica a faixa Then I'll Be Tired of You

09/09/2010

Lenda viva: Cornell Dupree

A reunião do Clube das Terças prosseguia incólume aos abomináveis efeitos da propaganda eleitoral gratuita. Pedro Nunes tentava explicar a Chico Brahma as diferenças entre a palilogia, a anadiplose e a epanalepse, todas maravilhosas figuras de nossa linguagem. Na outra margem da mesa, um orgulhoso Gumercindo ostentava o álbum Bop 'N' Blues, do guitarrista Cornell Dupree. Torcendo o nariz, João Luiz diz a Gumercindo para jogar o álbum no lixo, que aquilo era álbum de rock. Reinaldo intercede surpreendentemente, alegando que, apesar da alta voltagem do álbum, o velho guitarrista fazia um bom soul jazz, no que é apoiado por maioria relativa do clube. Fernando, com sua verve característica, coça o reluzente crânio e complementa: Cornell Dupree nasceu em 19 de dezembro de 1942, em Fort Worth, Texas. Autodidata, começou a carreira ainda adolescente em sua cidade natal, sofrendo forte influência do excelente blues existente na região, além da música country. Aos vinte anos, já em New York, passa a integrar a banda de King Curtis, além de trabalhar um breve período com Jimi Hendrix. No final da década de 1960, entusiasmado com a capacidade de Dupree em solar e manter o ritmo ao mesmo tempo, o produtor Jerry Wexler o contrata como guitarrista oficial do selo Atlantic. É nesse período que grava com uma série de músicos importantes do Blues e do R&B, além de integrar durante dez anos a banda da vocalista Aretha Franklin, outra grande inspiradora de seu estilo. Apesar de milhares de sessões de gravações como sideman, Dupree gravou poucos álbuns de jazz como líder, estilo em que trafega com facilidade, sobretudo no soul jazz. Seu fraseado funky não se perde no contexto mais elaborado do bebop, como comprova seu desempenho no álbum Bop 'N' Blue, gravado em 1994 para o selo Kokopelli. Para os amigos fica a faixa 'Round About Midnight , com Herbie Mann (arr), Terell Stafford (t), Bobby Watson (as), Ronnie Cuber (bs), Leon Pendarvis (p, org), Chuck Rainey (b), Ricky Sebastian (d), Sammy Figueroa (perc). Dupree sempre se manteve atuante, gravando, apresentando-se sozinho ou em grupo, seja com o Bayou Buddies ou com o The Soul Survivors. Lenda viva! E quem estiver em New York entre os dias 24 e 26 de setembro, poderá ouvi-lo no Iridium, clube que recomendo sem ressalvas.   

05/09/2010

Lenda viva: James Moody

Quando John Lester começou a falar sobre Jimmy Woods, não sei por qual motivo houve grande confusão no Clube das Terças, o mais longevo clube de jazz do Espírito Santo, que se reúne insistente toda terça-feira no shopping Centro da Praia. Exasperado, Lester retira-se da mesa quando o sócio André diz que Jimmy Woods tocava flauta muito bem. Reinaldo, percebendo o lapso, inicia uma didática ladainha: James Moody é outro desses mestres esquecidos do bom jazz. Eu também sempre fiz grande confusão sobre quem é quem. Na verdade, James Moody nasceu em Savannah, Georgia, no dia 26 de fevereiro de 1925. Apesar disso, cresce em Newark, New Jersey. Embora parcialmente surdo, sua curiosidade pelo jazz é despertada pelo pai, trompetista da banda de Tiny Bradshaw. Aos 16 anos, ganha do tio um saxofone alto e, mais tarde, durante o serviço militar, recebe suas primeiras lições regulares de música. Ao dar baixa, em 1946, passa a integrar a big band de Dizzy Gillespie como saxofonista tenor, chegando a viajar em turnê pela Europa com o genial trompetista, oportunidade em que toca o saxofone alto. Embora estabeleça amizade com Gillespie, que assume a condição de mentor musical do saxofonista, em 1949 James desliga-se da banda e passa três anos na França, ocasião em que trabalha com alguns dos melhores músicos de jazz que visitavam o Velho Mundo, como Tadd Dameron, Miles Davis, Max Roach, além de outros importantes instrumentistas do jazz europeu. É também em 1949, na Suécia, que grava I'm In The Move For Love, faixa que se tornaria um grande sucesso três anos depois, com o título Moody's Mood For Love e com a interpretação do grupo King Pleasure, obtendo grande sucesso de vendas. Na década seguinte, já de volta aos EUA, James forma seus próprios conjuntos, entre eles um magnífico combo co-liderado com mais dois grandes tenoristas: Gene Ammons e Sonny Stitt. Também nesse período, passa a tocar flauta, além de realizar uma série de gravações importantes para a Prestige. Em 1963, volta a trabalhar regularmente com o amigo Dizzy Gillespie, até 1968. Na verdade, após esse período, James manteria contato esporádico com Gillespie até a morte do trompetista, em 1993. Em 1975, James parte para Las Vegas, onde passa a se apresentar em clubes e cassinos , muitas vezes acompanhando vocalistas e comediantes. É nesse período que decide tocar também o clarinete. Em 1979, retorna a New York, agora liderando seu próprio quinteto. Dez anos depois, fixa-se em San Diego, dessa vez na condição de instrumentista renomado, apresentando-se em diversos shows pelos EUA e no exterior, inclusive ao lado de Gillespie e sua United Nations Orchestra.

Além de sua atuação como músico, James ministra uma série de cursos e workshops em colégios e universidades. E sua competência musical é reconhecida até mesmo pelo meio acadêmico, recebendo o grau de doutor honoris causa do Florida Memorial College e do Berklee College of Music. Sempre atuante, em 1997 James participa do filme Midnight in the Garden of Good and Evil, de Clint Eastwood. Em plena atividade, mesmo recuperando-se de uma cirurgia, James Moddy participaria mês passado de um show no Blue Note de New York. Desaconselhado por seus médicos, foi substituído por ninguém menos que Eric Alexander, Antonio Hart, Chris Potter, Lew Tabackin, Jimmy Heath e Joe Lovano, que prestaram tributo ao grande mestre. Para os amigos, a faixa Jammin' With James , retirada do excelente álbum Hi Fi Party, gravado em 1955 para a Prestige. Com ele estão Dave Burns (t), William Shepherd (tb), Numa Moore (bs), Jimmy Boyd (p), John Lathan (b) e Clarence Johnson (d). Lenda viva!

04/09/2010

Lenda viva: O estranhíssimo desaparecimento de Zecalouro

Milhares de visitantes têm consultado o Jazzseen acerca do desaparecimento de nosso amigo Zecalouro, ou Zeca Louro como querem alguns. Afinal, qual o paradeiro do responsável pelo blog Loronix, visitado por mais de 3.000 pessoas por dia, ávidas pelos milhares de álbuns raros de MPB ali postados, com belas capas e links para downloads em MP3?

Certos tipos apostam em sua morte, outros em algum profundo estado de coma ou, na melhor das hipóteses, afastado de suas atividades virtuais em função de alguma doença terminal que lhe teria imobilizado todo o corpo. Creio que, felizmente, os pessimistas estão errados. Segundo a revista Carta Capital, Zecalouro está vivo e passa bem. Foi até entrevistado, vejam só: “Acho estranho jogar na rede o trabalho de alguém que ficou dez anos sem gravar e agora fez um disco. É sacanagem”, afirma Mauro Caldas, de 44 anos, integrante de banda punk no Rio de Janeiro dos anos 80, que hoje trabalha em informática e é o único dos blogueiros entrevistados a abrir publicamente sua identidade. Ele usa o codinome Zeca Louro no Loronix, um dos mais atuantes e abrangentes blogs musicais do Brasil. Escrito em inglês, recebe em média 3,2 mil visitas por dia e já foi acessado em 191 países, segundo Caldas. “Loronix só publica o que é antigo, sem nenhuma possibilidade comercial. Essa distinção a indústria sabe fazer muito bem”, diz, para justificar o fato de nunca ter sido incomodado ou ameaçado. Ao contrário: “Gente da indústria vem até mim, pergunta se tenho determinado disco, pede a capa se vai relançar. Eu colaboro”. (Leia o resto da entrevista sobre pirataria aqui).

Outros rastros de Zecalouro podem ser encontrados no site Clube de Jazz, onde verificamos que o desaparecido está trabalhando com Maria Luiza Kfouri, a responsável pelo belo site Músicos do Brasil. Vejam o que ela diz sobre seu novo projeto, a Enciclopédia InstrumentalPor causa do Discos do Brasil acabei por conhecer um carioca louco por música, Fernando Barcellos Ximenes. Ele já tinha um grande banco de dados de instrumentistas brasileiros e há muito tempo projetava fazer um recenseamento dos músicos do Brasil. Ele me propôs juntarmos nossos trabalhos e nós entramos no edital de seleção de patrocínios da Petrobras em 2005/2006. Nosso projeto foi selecionado e, daí, foi só arregaçar as mangas e começar o trabalho. Fernando chamou Mauro Caldas, o Zecalouro do blog Loronix, para coordenar a parte de tecnologia e, assim, fomos construindo a Enciclopédia.

Assim sendo, só nos resta desejar sucesso ao amigo Zecalouro em seu novo projeto, amigo que tanta felicidade musical nos proporcionou através do Loronix. Em sua homenagem, deixamos a faixa  So Nice Summer Samba , com o trompetista Doc Severinsen. E antes que algum leitor mais ortodoxo diga que Doc não é músico de jazz, argumentamos que alguns álbuns gravados pelo trompetista são a 'cara' do Loronix, como o Swinging & Singing, de 1966.


Doc Severinsen nasceu em Arlington, Oregon, no dia 7 de julho de 1927. Iniciou os estudos musicais aos 7 anos e, em menos de um ano, já tocava o trompete tão bem que passa a integrar a banda do colégio. Aos 12, vence o Music Educators' National Contest e inicia sua vida de músico profissional, apresentando-se com a orquestra de Ted Fio Rito. A partir de 1945, após terminar os estudos secundários, atua em uma série de big bands, entre elas as de Tommy Dorsey, Charlie Barnet e Benny Goodman. Aos 22 anos, muda-se para New York, onde passa a trabalhar para a NBC e atuar como músico de estúdio, gravando ao lado de cantoras como Dinah Washington e Anita O'Day. Em 1952, é contratado pela orquestra de Skitch Henderson, com a qual se apresenta no famoso programa Tonight Show, de Steve Allen.

Em 1962, quando Johnny Carson assume o programa, Doc fortalece sua posição na orquestra, permanecendo ligado ao Tonight Show por mais de 25 anos e tornando-se, assim, um dos trompetistas mais conhecidos dos EUA. Ainda na década de 1960, Doc grava uma série de álbuns de Swing para a gravadora Command. Ainda no final da década, passa a gravar uma série de álbuns com forte apelo popular, embora eventualmente volte-se ao bom e velho Swing, como em 1985, quando grava o álbum The Tonight Show Band, recebendo o Grammy de Best Jazz Large Ensemble Recording.

Depois da saída de Carson, em 1992, Doc é dispensado do Tonight Show. Decide então reunir os melhores instrumentistas da antiga banda do programa e sair em turnê pelo país. Entre seus músicos, vale destacar os trompetistas Conte Candoli e Snooky Young e os saxofonistas Ernie Watts e Bill Perkins. Como se não bastasse, Doc atua ainda como maestro em diversas orquestras sinfônicas, realiza uma série de workshops sobre seu instrumento, apresenta-se como líder em pequenas formações, sem falar que desenha e fabrica trompetes. Verdadeira lenda viva, com agenda cheia até 2011!

Para os amigos fica uma segunda faixa, After You've Gone , retirada do álbum Tempestuous Trumpet, gravado em 1961. E, para os amigos do Zecalouro, seguem aqui os álbuns 1 e 2. Boa audição!

26/03/2010

Lenda viva: Don Sebesky - Tributo a Bill Evans

Quase todos são capazes de suportar com certa facilidade a desgraça dos outros, mas pouquíssimas pessoas toleram sinceramente o sucesso alheio. Este é o caso de Don Sebesky com relação a Bill Evans. Verdadeira lenda viva, Sebesky trabalhou com músicos como Maynard Ferguson, Stan Kenton, Gerry Mulligan, Bill Russo, Wes Montgomery, Freddie Hubbard, Toots Thielemans, Kenny Burrell, Buddy Rich, Paul Desmond, Hubert Laws, Randy Weston, Milt Jackson, Sonny Stitt, Jim Hall, Charlie Mariano e Chet Baker, entre muitos outros. Nascido em New Jersey no dia 10 de dezembro de 1937, Sebesky começou seus estudos musicais aprendendo acordeão, passando em seguida para o piano. Durante a década de 1950, na Manhattan School of Music, estuda o trombone com Warren Covington, além de composição. Nesse mesmo período, toca e produz arranjos para uma série de bandas, entre elas as de Kay Winding e Claude Thornhill. Na década seguinte dedica-se aos arranjos, embora ainda tocasse esporadicamente. Sua associação com o produtor Creed Taylor resultou numa série de álbuns de sucesso, muitos deles com forte apelo popular, lançados pelas gravadoras Verve, A&M e CTI. Na década de 1970, Sebesky volta-se para a elaboração de trilhas sonoras para o cinema, sem nunca abandonar o jazz, seja tocando ou produzindo arranjos. É por essa época que começa a lecionar, o que o incentiva a escrever o livro The Contemporary Arranger (1975), além de experimentar algumas composições na seara da música clássica. Elegante e preciso, Sebesky é um dos mais respeitados e requisitados arranjadores do jazz, sabendo como poucos explorar as características técnicas dos instrumentos e as habilidades dos executantes. Não bastasse, em 1997 Sebesky elabora um magnífico tributo a Bill Evans - o melhor que já ouvi - cercando-se de músicos como Joe Lovano (ts), Tom Harrell (t), Larry Coryell (g), Marc Johnson (b) e Joe LaBarbera (d). Para os amigos fica a faixa Waltz For Debby, num elogio sincero à música de Bill.                



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15/02/2010

Lenda viva: Mundell Lowe

Enquanto terminava meu arroz-de-cuxá, ouvia Lester lamentar a queda de visitas ao Jazzseen durante o carnaval. Olhando incrédulo pela janela, dizia: “É sempre assim, Mr. Serralho, não sei por que essa gente invariavelmente troca o jazz pela dança do lelê, pelo cacuriá, pela dança do caroço ou pelo temível bambaê de caixa”. Pensando comigo mesmo, eu, Tobias Serralho, não poderia censurá-los, uma vez que era eu o responsável pelo roncador, o maior dos três tambores que integram o tambor-de-crioula, dança típica do meu querido Maranhão. Os outros tambores são o socador (tambor médio, responsável pelo ritmo) e o crivador (tambor pequeno, responsável pelo repicado). Lester nunca poderia supor que eu, um admirador de Mundell Lowe, era também apaixonado pela punga, aquela umbigada que as dançarinas dão umas nas outras. Sim, a tradição do tambor-de-crioula vem dos descendentes africanos. É uma dança sensual, excitante, que apresenta variantes quanto ao ritmo e a forma de dançar, e que não tem um calendário fixo, embora seja praticada especialmente em louvor a São Benedito. É dançada exclusivamente por mulheres que fazem uma roda, em cujo centro evolui apenas uma delas. O momento alto da evolução é a tal "punga" ou umbigada. A punga é uma forma de convite para que outra dançarina assuma a evolução no centro da roda. Tentando reanimar Lester, lembrei-lhe que Mundell Lowe, o grande guitarrista, ainda está vivo e forte. Sim, respondeu Lester balançando a cabeça animadamente: “Uma lenda viva!” E prosseguiu: Lowe nasceu no dia 21 de abril de 1922, em Laurel, Mississipi. Começou a aprender a guitarra aos seis e, aos treze, foge de casa, encaminhando-se para os bares de New Orleans, onde ouve e aprende o estilo dos mestres.

Claro que seu pai, um violinista amador e pastor Batista, o encontra num daqueles terríveis clubes de jazz, levando-o imediatamente para casa. Não demorou muito para que fugisse novamente, tentando a carreira com a banda de Pee Wee King, mas é novamente resgatado ao lar pela diligência paterna. Em 1940, terminada a escola, Lowe ingressa imediatamente na banda de Jan Savitt, até que é convocado a prestar o serviço militar. Designado para uma base próxima a New Orleans, tem a sorte de conhecer o oficial responsável pelos entretenimentos da base, ninguém menos que John Hammond Jr., aquele que viria a ser um dos maiores produtores do jazz e que, terminada a guerra, muito o auxiliaria na carreira. Foi por intermédio de Hammond que Lowe conheceu Ray McKinley. Em seguida, trabalha com Benny Goodman, Wardell Gray, Fats Navarro e Red Norvo, entre outros grandes líderes. No início da década de 1950, Lowe passa a trabalhar em New York, atuando em clubes e em sessões de gravação ao lado de gente como Buck Clayton, Lester Young, Charlie Parker e Billie Holiday. Na mesma década, trabalha na orquestra da NBC e dirige para a televisão o show Today, atuando ainda na Brodway e participando de shows e gravações ao lado de músicos como Ben Webster, Ruby Braff e Georgie Auld.

Em 1965, Lowe estabelece-se em Los Angeles, onde atua no rádio e na televisão, tanto como intérprete quanto como compositor, além de dedicar o escasso tempo livre ao ensino. Sempre atuante, na década de 1980 forma seu próprio grupo, TransiWest, contando com músicos como Sam Most, Monty Budwig e Nick Ceroli, com o qual se apresenta no Monterey Jazz Festival de 1983. Embora reservadamente Lowe faça suas experimentações de vanguarda, é como um dos melhores guitarristas do cool jazz que seu nome ficará gravado no jazz, com seu discurso ágil, sedutor, repleto de swing e com seus inteligentes e divertidos solos, recheados de citações de Standards do jazz. Para os amigos, fica minha receita do arroz-de-cuxá e a faixa You Turned the Tables on Me, retirada do álbum A Grand Night for Swing, gravado em 1957 para a Riverside. Com Lowe estão Gene Quill (as), Billy Taylor (p), Les Grinage (b) e o grande Ed Thigpen (d), recentemente falecido. Curiosamente, Lester lembrou que este bom álbum recebe apenas duas de cinco estrelas da Virgin Encyclopedia of Jazz, 2004, editada por Collins Larkins. Já o All Music Guide é um pouco mais generoso, ofertando quatro de cinco estrelas para esse que, segundo Lester, merece três ou mais estrelas. Verificando se a quantidade de azedinha estava correta, Lester aprova tanto meu arroz-de-cuxá quanto os solos de Lowe. . Bom carnaval para todos!
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Ingredientes:

500 gr de camarões secos sem casca
1/2 xícara de farinha de mandioca
1 1/2 xícara de gergelim torrado
1 maço pequeno de vinagreira (azedinha) limpa, lavada e escorrida (não erre a mão, senão amarga)
2 colheres (sopa) de óleo
2 dentes de alho amassados
1 cebola média picada
2 tomates grandes sem pele e sementes, picados
500 gr de camarões frescos pequenos, limpos, lavados e escorridos
6 colheres (sopa) de cheiro verde (salsa, cebolinha e coentro) picados
3 xícaras de arroz limpo, lavado, escorrido e cozido.

Modo de preparo:

No processador ou liquidificador, coloque os camarões secos, farinha de mandioca, gergelim, bata até obter uma mistura homogênea e reserve. Em uma panela, coloque a vinagreira, regue com um pouco de água, tempere com sal a gosto, cozinhe até ficar macia, tire a verdura do fogo, escorra, esprema, pique bem e reserve.
Coloque óleo em uma panela, leve ao fogo alto, deixe aquecer, junte alho, cebola, doure levemente, acrescente tomates, refogue até ficarem macios, junte camarões frescos e cozinhe por alguns minutos, somente até ficarem rosados.
Adicione a mistura de camarão seco, a verdura picada, cubra com água e cozinhe, mexendo de vez em quando, até obter um molho com consistência de mingau ralo.
Tire do fogo, junte cheiro verde e misture.
Coloque o arroz cozido e bem quente em um prato de servir, cubra com o molho de camarão e leve imediatamente à mesa

Rendimento: 4 pessoas, 8 japoneses ou 16 nordestinos

Sugestão: Prepare o molho sem os camarões frescos e sirva o arroz-de-cuxá acompanhado de peixe frito

03/12/2009

Lenda Viva: Nathan Davis

Absolutamente nada sobre ele no The Penguin Guide to Jazz Recordings, nona edição. Idem no All Music Guide, quarta. Um dos maiores saxofonistas do Hard Bop que persevera incógnito. Nathan Davis nasceu em 1937, em Kansas City. Saxofonista tenor do Hard Bop e do Post-Bebop, iniciou a carreira aos 17 anos, tocando trombone. Após trabalhar com Jay McShann, Nathan seria um dos raros homens a integrar a International Sweethearts Of Rhythm, banda formada quase que exclusivamente por mulheres. Durante o período em que estuda na Kansas University, forma um grupo com o trompetista Carmell Jones. Entre 1960 e 1963, Nathan presta o serviço militar, em Berlin. Mantendo-se na Europa, trabalha com Kenny Clarke, Art Taylor e com o revolucionário saxofonista Eric Dolphy, participando de suas últimas gravações, realizadas para a rádio francesa ORTF. Em 1965, parte em turnê pela Europa com o Jazz Messengers, de Art Blakey. Após gravar uma série de álbuns para pequenos selos europeus, contando com músicos como Woody Shaw, Larry Young, Mal Waldron e Hampton Hawes, em 1969 retorna aos EUA para lecionar na Pittsburgh University.

Na década de 1970, Nathan grava alguns álbuns para os selos Segue e Tomorrow International. Em 1985, forma a Paris Reunion Band, com músicos como Johnny Griffin, Kenny Drew, Nat Adderley, Dizzy Reece e Slide Hampton, entre outros. Na década seguinte, forma o conjunto Roots, com o qual grava e realiza turnês. Embora também domine a flauta, o clarone e o saxofone soprano, sendo um dos mais interessantes intérpretes modernos de baladas, infelizemtne Nathan não tem seu trabalho distribuído regularmente, contando com poucos álbuns disponíveis no mercado, entre eles Rules Of Freedom, uma homenagem a John Coltrane gravada em 1967 e lançado pelo selo inglês Hot House. Para os amigos, a faixa B's Blues , retirada do álbum The Hip Walk,  gravado em 1965 para o selo alemão Saba, período em que Nathan vivia em Paris com sua esposa alemã. Trata-se de um hard bop de excelente qualidade, contando com músicos então radicados na Europa: Carmell Jones (t), Francy Boland (p), Jimmy Woode (b) e Kenny Clarke (d). O álbum, lançado pela MPS, foi editado em CD pelo selo Motor Music em 1998.

25/11/2009

Lenda Viva: Bill Crow


Na seção Lenda Viva o Jazzseen procura, em princípio, divulgar aos nossos 3.000 leitores mensais os grandes mestres do jazz ainda vivos. Tudo na perspectiva de que, caso possam, aproveitem qualquer oportunidade que surgir para ouvi-los ao vivo. Hoje falaremos sobre um mestre que não consta dos guias e manuais: Bill Crow, contrabaixista do mainstream jazz, fluente tanto no Swing, quanto no Bebop e no Cool Jazz. Nascido em 1927, em Othelo, Washington, passa a infância em Kirkland, onde aprende os rudimentos do piano com a mãe, que também o incentiva a cantar. No colégio, passa a estudar o trompete e, mais tarde, o baritone horn (espécie de pequena tuba). Já na University of Washington, Bill dedica-se ao sousaphone (tuba especialmente desenvolvida para a banda de John Philip Sousa, visando facilitar a execução enquanto o músico marcha ou caminha) e, em 1946, durante o serviço militar, toca também trombone de válvula e bateria, até 1949. De volta à universidade, Bill passa a tocar bateria e percussão em clubes de Seattle. Em 1950, parte para New York, onde estuda trombone de válvula com Lennie Tristano durante um curto período. Suas primeiras atuações nos clubes de New York são com o trombone, mas logo interessa-se pelo contrabaixo acústico, instrumento que dominaria rapidamente como autodidata, embora mais tarde complementasse seus estudos com Fred Zimmerman, da New York Philharmonic. Nesse período em New York, Bill atuaria com uma série de músicos importantes, como Dave Lambert, Mike Riley e Teddy Charles, apresentando-se como cantor, comediante, baterista, trombonista e contrabaixista.

É através de Teddy que conhece Jimmy Raney, um dos melhores guitarristas do estilo West Coast, que o convida para tocar com o quinteto de Stan Getz, ao lado de músicos como os trombonistas Bob Brookmeyer e Johnny Mandel, os pianistas Jerry Kaminsky, John Williams e Duke Jordan e os bateristas Roy Hynes, Alan Levitt e Kenny Clarke. Em 1953, Bill passa a integrar a orquestra de Claude Thornhill, onde aprende a ler com fluência as partituras para contrabaixo, algumas delas com formidáveis arranjos de Gil Evans. No ano seguinte, Bill passa a trabalhar com o quarteto de Terry Gibbs, além de participar de apresentações e gravações ao lado de George Wallington, Brew Moore e Billy Bauer, entre outros. Ainda em 1954, Bill integra o trio da pianista Marian McPartland, com Joe Morello na bateria, apresentando-se no Hickory House até 1955. Após um breve e importante aprendizado com a pianista, Bill é convidado a trabalhar com Gerry Mulligan, com quem colabora até 1965. Durante esse período, Bill atuaria também com uma infinidade de músicos importantes, entre eles Al Cohn, Zoot Sims, Clark Terry, Dizzy Gillespie, J. J. Johnson, Eddie Condon, Ruby Braff, Jim Hall, Lee Konitz, Art Farmer, Pee Wee Russell, Jimmy Rowles e, marcadamente, Duke Ellington, em um único concerto, em 1958, no Lewisohn Stadium. Bill também acompanhou vocalistas notáveis, como Mel Tormé, Nina Simone, Chris Connor, Al Jarreau, Carol Sloane e Anita O'Day.

Desde então, Bill tem se apresentado em diversos países e continentes, como América Latina, Europa, Japão, Rússia, Alemanha, Caribe e, mais recentemente, Espanha, Argentina, Chile e Irlanda. Não bastasse sua atuação como instrumentista, Bill ainda produziu uma série de musicais para a Brodway, escreveu uma autobiografia (From Birdland to Brodway) e um livro sobre casos pitorescos envolvendo músicos de jazz (Jazz Anecdotes) e, até hoje, toca em clubes de New York e produz programas para o rádio. Para os amigos, deixo a faixa título do álbum Jazz Anecdotes, lançado pelo selo japonês Venus na mesma época em que seu livro era lançado no Japão. Com Bill estão Carmen Leggio (ts), Joe Cohn (g) e David Jones. As demais faixas do álbum são:

2 Bohemia After Dark

3 In a Mellotone

4 Street of Dreams

5 Tarrytown

6 Lover, Come Back to Me

7 On the Alamo

8 Mack the Knife

9 These Foolish Things

10 'Round Midnight

11 Speak Low

12 Tickletoe

31/01/2008

Professor

Ele começou a estudar piano aos quatro anos e tornou-se, sem dúvida, o único músico do jazz que conseguiu ser, ao mesmo tempo, excelente pianista e excelente professor. Capaz de tocar e ensinar com a mesma categoria e clareza, colheu suas primeiras e principais influências em Bud Powell e Charlie Parker, com leves pitadas de Thelonious Monk. Em Detroit, sua cidade natal, costumava tocar com Thad Jones, Miles Davis, Sonny Stitt, Wardell Gray e Max Roach. Com 26 anos de idade, sua reputação de pianista e professor já atraía músicos de várias cidades, inclusive New York, todos ansiosos em partilhar das dicas e da amizade desse extraordinário instrumentista. Em 1960 ele entra para o conjunto de Cannonball Adderley e, logo em seguida, parte para New York. É nessa cidade que trabalha e grava com músicos como Dexter Gordon, Illinois Jacquet, Yusef Lateef e Hank Mobley. Além disso, mantém até 1969 uma parceria memorável com o mestre Coleman Hawkins, além de liderar um ou outro grupo, gravando sempre excelentes álbuns, muito bem acompanhado por gente como Al Cohn, Sonny Criss, Sam Noto, Charles McPherson e Jimmy Heath. Em 1982 ele inaugura o Jazz Cultural Center, onde leciona desde então. E, apesar do derrame em 1993, Barry Harris continua na ativa. Para os amigos fica a faixa Is You Is Or Is You Ain’t My Baby, retirada do álbum Barry Harris at The Jazz Workshop, gravado ao vivo em San Francisco, em 1960. Com ele estão Sam Jones (b) e Louis Hayes (d). Mais informações sobre o maior professor do bebop, clique aqui.

28/01/2008

Setenta e cinco anos tocando sax

Peço encarecidamente que alguém me diga se algum saxofonista alto do jazz, ainda vivo, tocou mais tempo do que e tão bem quanto Hal McKusick. Ele começou em 1939, aos 15 anos, passando por uma série invejável de grandes bandas: Les Brown, Woody Herman, Boyd Raeburn, Alvino Ray, Buddy Rich, Claude Thornhill, Terry Gibbs e Elliot Lawrence. Suas performances ao lado de vários mestres também foram inúmeras: Art Farmer, Al Cohn, Bill Evans, Eddie Costa, Paul Chambers, Connie Kay, Barry Galbraith e John Coltrane, apenas para citar alguns deles. Sua principal característica, o que fazia dele um instrumentista muito especial, era a suavidade e delicadeza com que combatia os mais complexos arranjos, suavidade e delicadeza que por vezes nos fazem lembrar do sedutor sopro de Lester Young. Entre seus admiradores, já em 1945, consta ninguém menos que Charlie Parker, o que torna fácil compreender porque músicos como Lee Konitz e Paul Desmond seguiram a doce trilha aberta por McKusick. Em outubro de 2007, nosso amigo Marc Myers, jornalista e historiador residente em New York, conversou com McKusick por telefone (veja a conversa completa aqui). Marc achou interessante que a voz e a personalidade de Hal são extremamente parecidas com seu sopro: tranqüilo e lírico. E o fato de o nome Hal McKusick ser pouco conhecido hoje em dia talvez deva-se ao fato de que o saxofonista permaneceu muitos anos (1958 a 1972) trabalhando como contratado da CBS e como músico de estúdio. Atualmente, Hal é professor numa pequena escola. E quase ninguém lembra que, na década de 1940, ele era um dos raros saxofonistas alto com sonoridade própria – ao lado dele podemos citar muito poucos: Charlie Parker, Benny Carter, Johnny Hodges, Art Pepper, Lee Konitz, Paul Desmond, Phil Woods, Jackie McLean e Cannonball Adderley. Nascido em 1924, em Medford, MA, Hal comenta que, aos oito anos, pediu a mãe um clarinete como presente de Natal. Sua mãe concordou, desde que ele prometesse praticar sete dias por semana, indo à aula toda semana. Ele prometeu, e deu no que deu. Aos nove anos já tocava, além do clarinete, o sax alto e, em poucos anos, já lia bem qualquer partitura. Aos quinze já tocava em pequenos bares e formava seu primeiro conjunto. Com a ajuda de Joe Glaser, então agente de Louis Armstrong, conseguiu ser contratado por Les Brown.Hal estava com 18 anos de idade.

Mais tarde, na década de 1940, Hal trabalharia com a orquestra de Boyd Raeburn, talvez uma das melhores daqueles tempos. Foi ali que Hal tocou com Dizzy Gillespie, Benny Harris, Al Cohn, Serge Chaloff, Trummy Young, Tadd Dameron, Oscar Pettiford e Don Lamond. Os arranjadores eram Johnny Mandel, George Handy e Johnny Richards. Depois disso, Hal parte para a Califórnia, onde gravaria algum dos V-Discs, álbuns promovidos pelo governo para distribuição junto às tropas norte-americanas em luta na Europa. Com ele estavam Dizzy Gillespie, Charlie Parker, Milt Jackson e Stan Levey, entre outros. Foi durante essas gravações que, após tocar um solo com os olhos fechados, ao abri-los viu que Charlie Parker o observava atentamente e, em seguida, disse a ele: isso é que é som! Hal nunca mais esqueceria esse dia, e esse elogio. Durante a década de 1950, além de ser um dos músicos de estúdio mais solicitados, Hal grava alguns de seus melhores álbuns como líder, num contexto que eu aprecio muito e que podemos denominar de cool bop, onde a complexidade rítmica e harmônica é camuflada pela retórica sutil do west coast. Seus companheiros de gravação nessa época são, entre outros, Barry Galbraith, Milt Hinton, Osie Johnson, Art Farmer, Jimmy Cleveland, Eddie Costa e Bill Evans, sempre auxiliados por excelentes arranjadores, como Manny Albam ou George Russell. Para os amigos deixo a faixa Don’t Worry ‘Bout Me, retirada do álbum Triple Exposure, gravado em 1957 para a Prestige. Com Hal estão Billy Byers (tb), Eddie Costa (p), Paul Chambers (b) e Charlie Persip (d). Boa audição.


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