09/09/2010

Lenda viva: Cornell Dupree

A reunião do Clube das Terças prosseguia incólume aos abomináveis efeitos da propaganda eleitoral gratuita. Pedro Nunes tentava explicar a Chico Brahma as diferenças entre a palilogia, a anadiplose e a epanalepse, todas maravilhosas figuras de nossa linguagem. Na outra margem da mesa, um orgulhoso Gumercindo ostentava o álbum Bop 'N' Blues, do guitarrista Cornell Dupree. Torcendo o nariz, João Luiz diz a Gumercindo para jogar o álbum no lixo, que aquilo era álbum de rock. Reinaldo intercede surpreendentemente, alegando que, apesar da alta voltagem do álbum, o velho guitarrista fazia um bom soul jazz, no que é apoiado por maioria relativa do clube. Fernando, com sua verve característica, coça o reluzente crânio e complementa: Cornell Dupree nasceu em 19 de dezembro de 1942, em Fort Worth, Texas. Autodidata, começou a carreira ainda adolescente em sua cidade natal, sofrendo forte influência do excelente blues existente na região, além da música country. Aos vinte anos, já em New York, passa a integrar a banda de King Curtis, além de trabalhar um breve período com Jimi Hendrix. No final da década de 1960, entusiasmado com a capacidade de Dupree em solar e manter o ritmo ao mesmo tempo, o produtor Jerry Wexler o contrata como guitarrista oficial do selo Atlantic. É nesse período que grava com uma série de músicos importantes do Blues e do R&B, além de integrar durante dez anos a banda da vocalista Aretha Franklin, outra grande inspiradora de seu estilo. Apesar de milhares de sessões de gravações como sideman, Dupree gravou poucos álbuns de jazz como líder, estilo em que trafega com facilidade, sobretudo no soul jazz. Seu fraseado funky não se perde no contexto mais elaborado do bebop, como comprova seu desempenho no álbum Bop 'N' Blue, gravado em 1994 para o selo Kokopelli. Para os amigos fica a faixa 'Round About Midnight , com Herbie Mann (arr), Terell Stafford (t), Bobby Watson (as), Ronnie Cuber (bs), Leon Pendarvis (p, org), Chuck Rainey (b), Ricky Sebastian (d), Sammy Figueroa (perc). Dupree sempre se manteve atuante, gravando, apresentando-se sozinho ou em grupo, seja com o Bayou Buddies ou com o The Soul Survivors. Lenda viva! E quem estiver em New York entre os dias 24 e 26 de setembro, poderá ouvi-lo no Iridium, clube que recomendo sem ressalvas.   

19 comentários:

Salsa disse...

sabe dizer se ele está usando uma fender?

Sergio disse...

Boa, seu mr. Lester, esse eu não conhecia, e já estou providenciando.

Mas algo na resenha bate papo me chamou a atenção "trabalhou com Jimi Hendrix"... Amigo, o interessante é saber quem, na época, não trabalhou com Jimi Hendrix? Acho que o estigmatizado deus da guitarra trabalhou tanto e com tanta gente, que me pergunto quando sobrou tempo pra sequer ele puxar um fuminho...

Venho tbm, por outro motivo, mr., além de agradecer-lhe a visita no Sônico, te pedir o obséquio de voltar naqueles comentários – de onde há pouco acaba de sair. Eu sei que espelhos existem em toda casa e nem sempre temos o costume de refletir ali, mas acho q dessa vez, agarantio, irá gostar de se ver na minha resposta ao seu comentário. Quem sabe também não se inspira a reouvir um álbum por si mesmo citado?...

Abraços.

John Lester disse...

Mr. Sônico, seu pedido é uma ordem.

Grande abraço, JL.

Anônimo disse...

muuuuito bom.
Mais uma vez obrigada por dividir consco tanta beleza

pituco disse...

master lester,

round about midnight deve ser a 'garota de ipanema' dos jazzístas...ou há outra de mais destaque e executada?

o som é bacanudo, mas...a pegada...rs

é isso aí,
abraçsons e obrigadão pela dica

HotBeatJazz disse...

Ô¬Ô

Seu Lester,

este disco é excelente, o Cornell é um mestre das levadas na guitarra, são milhares de faixas que contam c a participação dele, principalmente na Atlantic. O cara sabe tudo em qualquer estilo, um dos músicos mais ecléticos que conheço. Ele e o Bernard Purdie são responsáveis pelos mais instigantes grooves da história.

Parabéns

Abração

John Lester disse...

Obrigado amigos.

Caro Mr. Pituco, conheço apenas 2.500 versões de 'Round Midnight. Creio que Body and Soul, com suas 4.800 interpretações esteja mais próxima ao pódio.

E, apenas como ilustração, vale saber que Girl of Ipanema tem cerca de 1.700 interpretações. Nada mal, não é?

Grande abraço, JL.

figbatera disse...

Caraca, Lester, vc "conhece" todas as 2.500 versões?!

figbatera disse...

"Cornell Dupree nasceu em 19 de dezembro de 1942". Eu tb.....rs

APÓSTOLO disse...

Bela escolha de um mestre da guitarra.
Ratificando Mr. LESTER (desnecessário, claro!), "Body And Soul" é a campeã de versões gravadas.
Como curiosidade, além das gravações, as execuções de Body And Soul por Coleman Hawkins contam-se às milhares, conforme escreví na "Revista Mensal do Jazz" de junho de 2008 (portal da "Traditional Jazz Band"):
"A primeira versão de Body And Soul foi a interpretada por Coleman Hawkins na gravação de 11 de Outubro de 1939 no estúdio da Victor em New York. Era uma balada até bastante banal ou, como se costuma dizer, simplesmente comercial, assinada por 04 compositores: Edward Heyman, Robert Sour, Frank Eyton e Johnny Green.
Hawkins participava de uma gravação e ao final executou a canção sem maiores pretensões, apenas para completar a sessão. Editado o disco pelo selo Bluebird (subsidiário econômico da RCA), Body And Soul aconteceu no momento certo para as pessoas certas e a execução tornou-se um enorme sucesso. Surpreendeu o próprio Hawkins que estranhou e chegou a comentar: ― Não sei o que viram nesta peça; é uma balada e faço isto há anos e centenas de vêzes!.
Em 1958 o crítico e produtor Leonard Feather calculava que Hawkins teria executado pelo menos umas 6.600 vêzes Body And Soul, nos 6.800 dias passados desde a data da gravação".

Érico Cordeiro disse...

É, Mr. Lester,
Soul também é jazz! Achava que não conhecia o trabalho de Mr. Dupree, mas consultando meus alfarrábios, percebi que tenho algumas cositas do aclamado guitarrista, inclusive a soberba versão de "Rainy Night In Georgia", do fabuloso Brook Benton, e em discos como Attica Blues, do Archie Shepp ou Second Movemente, do Les McCann.
O cara está presente em alguns clássicos da soul music e do blues, acompanhando gente como B. B. King, Jimmy Witherspoon, Aretha Franklin, Wilson Pickett e o gênio Ray Charles.
Embora tenha nadica de nada do moço como líder, repararei essa situação constrangedora com um passeio pelas estantes virtuais do Amazon.
Engraçado: a quantidade de caras que gravitavam em torno de Ray Charles e que, embora não tenham ficado muito famosos, são músicos de um talento assombroso, como Tina Brooks, David Fathead Newman, Hank Crawford, Curtis Peagler, etc.
E se soul também é jazz, funk, Mr. Lester, também é jazz (vi no Allmusic um monte de gente da Era Disco, com quem o Dupree gravou, incluindo Odissey, Candy Stanton e outros mais)!
"Ah-ah-ah Staying Alive...
Ah-ah-ah Staying Alive...
Staying Aliiiiiiiiive"
(Tá bom, não vi Bee Gees, mas deu uma vontade de cantarolar esse clássico - O Predador que não me leia!!!!)

APÓSTOLO disse...

Complementando, com um pouco mais de rigor, a quantidade de GRAVAÇÕES do clássico "Body And Soul", após consultar o "Glossário do Jazz" do colega Mário Jorge (Editora Biblioteca 24x7, 2ª edição, julho/2009, páginas 526/527), as 10 mais gravadas por "jazzmen" foram (Mario lista até as 96 mais):
01 - Body And Soul = 1808;
02 - St. Louis Blues = 1681;
03 - Summertime = 1429;
04 - Sweet Georgia Brown = 1347;
05 - Take The "A" Train = 1278;
06 - Caravan = 1270;
07 - Round Midnight = 1251;
08 - All The Things You Are = 1172
09 - My Funny Valentine = 1109;
10 - Autumn Leaves = 1092.
Assim o PITUCO tem uma certa razão, quando coloca o clássico de MONK entre as mais executadas.
No livro de Mario Jorge ele também lista os músicos que mais "habitaram" os estúdios de gravação, sendo os 10 mais (mario lista até os 69 mais):
01 - Milt Hinton (baixo) = 1180;
02 - Duke Ellington (piano/líder) = 1160;
03 - Tommy Dorsey (trombone, líder) = 1158;
04 - Ron Carter (baixo) = 1075;
05 - Harry Carney (saxes barítono e soprano, clarinete) = 1055;
06 - Benny Goodman (clarinete e líder) = 1008;
07 - Johnny Hodges (saxes alto e soprano, clarinete) = 995;
08 - Hank Jones (piano) = 905;
09 - Jimmy Dorsey (saxes alto e barítono e líder) = 956;
10 - Ray Brown (baixo) = 897.
Esse números estáo baseados em pesquisa de Tom Lord, abrangendo o período de 1896 até 2007 e a nivel mundial.

John Lester disse...

Prezado Olney, que feliz coincidência. Precisamos comemorar!

E, sabe, eu até contaria minhas versões de Body 'n' Soul mas, em época de eleição, tenho medo de me distrair e ser assaltado.

Grande abraço e obrigado a Mestre Apóstolo pelos mapas estatísticos, JL.

pituco disse...

mestre apóstolo,

obrigado pelas estatísticas...então é body and soul?...e 'garota de ipanema' que apesar de surrada mundo afora (a música, não a musa...rs) continua a ser um tema bacanudo pacas...modulações e coisa e tal...maestro jobim é o homi, forever.

abraçsons

Marília disse...

Tom Jobim para presidente!!!

APÓSTOLO disse...

O Brasileiro tem o meu voto...

Guzz disse...

beleza de som !

Salsa, a sonoridade da guitarra de Cornell Dupree soa bem acústica mas ele não usa esses modelos de guitarra ("mais gordinhas"). Ele usa guitarras de corpo sólido, no formato telecaster e a dele acho que não é uma Fender. Tenho um video do Soul Survivor aqui. Outros guitarristas na linha jazz que abraçam este modelo de guitarra são o Ed Bickert e o Mike Stern na linha mais fusion.

Quando estive em NY ano passado Cornell fez 1 única noite no clube BB King´s e acabei não o assistindo em conflito com outras atrações. Ficou pra próxima.

Abs,

Roberto Scardua disse...

Somzaço!

Internauta Véia disse...

Coisa bonita...! Que bom...