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16/09/2011

Mestres: Harry 'Sweets' Edison

Meu amigo Frederico Bravante sempre disse que o problema de se resistir a uma tentação é que podemos não ter uma segunda chance. E complementava: Lester, não se preocupe em evitar as tentações - à medida que você envelhecer, elas o evitarão. Sendo assim, não resisti à tentação de comprar o álbum Just Friends numa das inúmeras e coloridas barracas que entre o fim de maio e início de junho tomam conta da Rue de Bretagne e suas transversais, em Paris. Tradicionais, as braderies de ruas lembram um pouco nossas feiras brasileiras, só que as barracas são montadas pelos habitantes, que oferecem diversos produtos, entre eles móveis, roupas, antiguidades, livros e velhos long-plays, tudo a bons preços. Enquanto eu comprava o tal álbum, Frederico apaixonava-se por um requixá amarelo de dois lugares, datado, segundo o esperto vendedor francês, de 1923. Após algumas horas de feira e de indecisão quanto à aquisição do requixá, decidimos nos instalar numa das diminutas mesas de um diminuto café, só para ficarmos vendo as pessoas passando por nós.

Enquanto Frederico sonhava acordado com o belíssimo veículo amarelo, eu lia as notas do long-play, onde pude constatar o ano da gravação, 1975, o selo francês, Black and Blue, e os excepcionais acompanhantes do trompetista Harry 'Sweets' Edison:  Eddie "Lockjaw" Davis (ts), Gerry Wiggins (p), Major Holley (b) e Oliver Jackson (d). Quando sabemos que o jazz quase morreu na década de 1970, período em que Miles Davis comprou um trompete vermelho e a maioria dos músicos de jazz passou a tocar rock, a importância do álbum Just Friends cresce ainda mais. Nessa década maldita para o jazz, os músicos jovens não conseguiam trabalhar, nem gravar, nem tinham oportunidade de levar adiante o Hard Bop, desenvolvendo-o com as inovações propostas na década anterior por músicos visionários como, por exemplo, John Coltrane. As bandas de jazz eram cada vez mais raras. Os locais para se ouvir jazz escasseavam, exceto em algumas poucas cidades da Europa. A música passava por um processo profundo de imbecilização, seguindo a trilha aberta pelos Beatles, tal como ocorre hoje no Brasil com Ivete Sangalo e Cia. Caberia então aos velhos mestres das décadas de 1940 e 1950 a difícil tarefa de manter o jazz vivo. Reunindo-se em pequenos combos e sustentados pelo respeito assegurado nas décadas anteriores, serão apenas músicos como Count Basie, Oscar Peterson, Ella Fitzgerald, Stan Getz e poucos outros que conseguirão manter suas bandas em atividade, gravando alguns álbuns de jazz acústico nas décadas de 1970 e 1980, sem apelo ao jazz-rock. E um desses mestres foi Harry 'Sweets' Edison.



Harry nasceu em Ohio, no dia 10 de outubro de 1915. Como muitos trompetistas de sua geração, sofre forte influência de Louis Armstrong. Após adquirir experiência em diversas bandas locais, entre elas a Jeter-Pillars Orchestra, pela qual passaram músicos como Jimmy Blanton, Kenny Clarke e Jimmy Forrest, Harry trabalha durante um breve período com Lucky Millinder. Em 1938, passa a integrar a orquestra de Count Basie, com quem permaneceria até a dissolução da banda, em 1950. A partir daí, inicia um longo período atuando como líder de pequenos conjuntos e como músico de estúdio, fase em que grava abundantemente como solista e também como solicitado sideman, ao lado de músicos como Shorty Rogers, Billie Holiday, Lester Young, Oscar Peterson, Art Tatum, Bill Perkins, Buddy Rich, Ben Webster, Ella Fitzgerald, Bud Shank, Herb Ellis, Jimmy Giuffre, Nat King Cole, Ray Brown, Buddy DeFranco, Sarah Vaughan, Peggy Lee, Anita O'Day, Manny Albam, Stan Getz, Chris Connor, Zoot Sims, Johnny Hodges, Milt Jackson, Paul Quinichette, Red Garland, Budd Johnson, Joe Williams, Nancy Wilson, Quincy Jones, Gerry Mulligan, Al Grey, Gil Fuller, Sonny Criss, Harry James, Louie Bellson, Roy Eldridge, Buddy Tate, Ray Charles, Sonnt Stitt, Eddie 'Lockjaw' Davis, Barney Kessel, Ray Bryant, Jimmy Rowles, Frank Wess, Clark Terry, Gene Harris, Lionel Hampton, apenas para citarmos alguns. Memoráveis também foram suas participações no JATP, Jazz At The Philharmonic.

Apesar disso, Harry torna-se conhecido para o grande público por alguns breves solos que produziu na orquestra de Nelson Riddle, quando esta acompanhava Frank Sinatra. Embora constituíssem belos solos, eram nada mais que obbligatos, sem qualquer traço de improviso, sua marca registrada. Além da formidável capacidade inventiva, Harry tornou-se respeitado no meio jazzístico por sua inigualável performance em surdina (Harmon mute), quase sempre produzida por frases lacônicas e inesperadas, construídas sobre notas esparsas, influência que certamente deve muito a seu primeiro grande professor, Count Basie, o mais econômico pianista do jazz. É devido à sua aguda inteligência musical que Harry torna-se não apenas um mestre absoluto do estilo Swing, como também um admirador dos complexos ideais do Bebop, sobretudo os propostos por Dizzy Gillespie. Daí ter produzido alguns dos melhores álbuns de jazz da fatídica década de 1970. Harry morreu aos 83 anos, no dia 27 de julho de 1999. Para os amigos, ficam as faixas Just Friends, There Is No Greater Love e My Old Flame, retiradas do tentador álbum Just Friends, onde podemos perceber toda sua delicadeza na interpretação de baladas, característica que lhe rendeu o apelido de 'Sweets', dado por Lester Young.

sweets by Jazzseen

Até hoje, todos os anos, Frederico Bravante retorna às feiras parisienses na esperança de reencontrar o requixá amarelo que deixou de comprar. Resistir à tentação dá nisso.

24/01/2011

Mestre: Hod O'Brien

Cabuloso! Foi assim que Lester reagiu à nossa visita à mais renomada academia de Vila Velha. Após seus trinta anos de fumo, vinte de vodka e dez de vinho, consegui convencer Lester a participar de uma aula de aerobahia, a modalidade mais indicada para retirar-lhe a volumosa pança que a natureza, em sua generosidade, tem feito brotar em torno de seu umbigo. É preciso ter fé meu amigo, dizia eu a Lester enquanto caminhávamos pelas calçadas esburacadas da Praia de Itapoã, bairro onde também fica localizada a loja Casa Bonita. Ao chegarmos, vimos estranhos acadêmicos observando-se a si mesmos nos inumeráveis espelhos do local. Dercileydi, nossa professora trans de aerobahia, recebeu-nos com aqueles sorrisinhos e gritinhos que Lester tanto desaprova. Dada a largada com voz firme e grossa, os alunos iniciaram uma vigorosa e complexa coreografia de dar inveja a Fernando Bicudo. Durante alguns minutos, Lester encontrou imensa dificuldade em balbuciar alguns movimentos, limitando-se a observar os vertiginosos passos desferidos pelos demais alunos, incentivados pelo animado eletroaxé. Ajeitando seu curioso colante vermelho de luta greco-romana, Lester decide que isso não ficaria assim: embora um pouco desordenado, o bravo guerreiro lança as pernas em arriscados movimentos centrífugos, ao mesmo tempo em que gira os braços em movimentos centrípetos, causando uma certa perplexidade na turma e atraindo a atenção de toda a academia. Dercileydi, que já foi à Bahia, aprova a iniciativa de Lester, adotando seus passos originais e aumentando a velocidade com que eram executados. Embora não conseguisse manter o sorriso no rosto como os demais alunos e observadores, Lester também acelera os passos, dessa vez girando a cabeça de leste para oeste, movimentando o quadril numa trajetória elíptica e levantando os pés até as orelhas, tudo alternadamente, para dar mais swing. E os 50 minutos de aerobahia passaram assim, num piscar de olhos. Aclamado por toda a academia, Lester rejeitou o convite para lecionar seu estilo revolucionário e, após receber abraços e beijos em troca de autógrafos, partiu dali para nunca mais voltar.

Mancando muito, Lester e eu dirigimo-nos à tal Casa Bonita,  que eu ainda não conhecia, embora sabedor de que ali podia-se ouvir um bom jazz e apreciar um bom vinho a preços sinceros. Encontramos Nardelli, o pintor siciliano, sentado sob um acolhedor toldo laranja. Degustava um Yacochuya 2000, malbec argentino produzido num dos vinhedos mais remotos do mundo que, segundo Christine Austin, autora do diminuto 500 Vinhos Tintos, publicado pela Marco Zero, fornece um vinho intenso e saboroso, com traços frutados de morango e amora preta, notas de licor e especiarias, tudo isso numa composição tânica harmoniosa. Nardelli, oferecendo-nos duas taças, observou que a safra 2000 estava esgotada no site da Grand Cru, mas algumas garrafas ainda sobreviviam climatizadas na Casa Bonita. Perguntei então quem era o pianista e John Lester respondeu imediatamente: Hod O'Brien! Estive nesse dia abençoado, 7 de julho de 2004, no Blues Alley, quando Hod lá se apresentava! Visivelmente emocionado, Lester comentou que o Blues Alley  é o clube  mais antigo de jazz em funcionamento. Fundado em 1965, já recebeu ícones do jazz como Dizzy Gillespie, Sarah Vaughan, Nancy Wilson, Grover Washington Jr., Ramsey Lewis, Charlie Byrd e Maynard Ferguson, entre outros.  Fica localizado em Washington, DC, no número 1073 da Avenida Winsconsin, em Georgetown, o coração histórico da cidade, num edifício de tijolos construído no século XVIII.

Nardelli, que nunca foi à Bahia, complementou: Hod é mais um desses mestres esquecidos do estilo denominado New York jazz piano. Nascido no dia 19 de janeiro de 1936, em Chicago, chega a New York no final da década de 1950, integrando-se rapidamente aos clubes locais e atuando com diversos músicos importantes, entre eles Pepper Adams, Kenny Burrell, Oscar Pettiford e Stan Getz. Aos 21 anos, Hod grava com Art Farmer, Donald Byrd e Idrees Sulieman o álbum clássico Three Trumpets, também conhecido como Trumpets All Out, para a Prestige. Ainda aos 21, Hod é convidado por Red Rodney para substituir Bill Evans no quinteto de Oscar Pettiford. Mais tarde, trabalharia no quarteto de J. R. Monterose, ao lado de Wilbur Ware e Elvin Jones. Entre os anos de 1963 e 1973, Hod afasta-se do jazz, indo estudar Matemática na Columbia University. Nesse período, chega a estudar composição com Charles Wourinen mas acaba retornando ao jazz, abrindo seu próprio clube, o The St. James Infirmary, onde lidera sua própria banda e recebe artistas convidados como Chet Baker, Roswell Rudd, Lee Konitz, Zoot Sims, Charlie Rouse e muitos outros. Além disso, apresenta-se durante cinco anos no famoso Gregory’s com o guitarrista  Joe Puma.


Enquanto a maioria dos pianistas da sua geração mergulhou nas ondas do rock ou da latin music, Hod manteve-se fiel ao Bebop, transformando-se num dos intérpretes mais puros do estilo, como Barry Harris e  poucos outros. Na década de 1980, Hod passa a se apresentar com a cantora Stephanie Nakasian , com quem se casa e passa a viver em Charlottesville,Virginia. Sempre atuante, Hod tem se apresentado em diversos clubes e festivais ao redor do mundo. Em maio de 2007, foi selecionado para se apresentar no Fujitsu 100 Gold Fingers Tour, no Japão, ao lado dos pianistas  Kenny Barron, Cedar Walton, Junior Mance, Toshiko Akiyoshi, Cyrus Chestnut, Benny Green, Don Friedman, Joao Donato e Gerald Clayton. Embora possua uma técnica perfeita, Hod nunca permitiu que sua velocidade deformasse as baladas ou que sua criatividade sufocasse os temas. Entre os seus excelentes álbuns como sideman ou líder, selecionamos a faixa How About You , retirada do álbum  Live At Blues Alley - Second Set, em trio com Ray Drummond (b) e Kenny Washington (d). 
 

16/11/2010

Mestres: Hank Mobley

Segundo alguns críticos, ao calcularmos a média aritmética entre Sonny Rollins e John Coltrane, encontramos Hank Mobley como resultado. Nascido em Eastman, Georgia, no dia 7 de julho de 1930, passa a maior parte da infância em Elizabeth, New Jersey, onde inicia os estudos de piano. Aos 16 anos, passa a tocar saxofone e, aos 19 e sob indicação de Clifford Brown, é contratado pela banda de R&B de Paul Gayten. Em 1951, Hank passa a trabalhar num nightclub de Newark, ao lado do pianista Walter Davis, Jr. Em apenas três anos, trabalha ao lado de músicos como Max Roach, Milt Jackson, Tadd Dameron, J. J. Johnson, Duke Ellington e Dizzy Gilespie, estabelecendo tão boa reputação que é contratado para integrar a primeira formação do Jazz Messengers, liderado pelo pianista Horace Silver. Com ele, participa da gravação do álbum Horace Silver and Jazz Messengers, realizada em 1955, pela Blue Note, álbum que constituiria um dos marcos iniciais do estilo Hard Bop. Ainda em 1955, Hank grava seu primeiro álbum como líder para a Blue Note, Hank Mobley Quartet. No ano seguinte, grava também para a Savoy e a Prestige. Ainda em 1956, Horace Silver decide formar uma nova banda e o Jazz Messenger passa a ser liderado pelo baterista Art Blakey. Mobley acompanha Silver até 1957 e, durante este período, grava como líder uma série de álbuns formidáveis para a Blue Note. Infelizmente, devido a seu envolvimento com as drogas, Mobley é preso em 1958, ficando fora de cena durante um ano.


De volta ao jazz, em 1959 Hank integra durante um breve período o Jazz Messenger, sob o comando de Art Blakey. No final da década de 1950, trabalha um curto período ao lado do trompetista Dizzy Reece. Em 1960, Hank volta a gravar como líder, realizando aquele que é considerado por muitos seu melhor álbum, Soul Station. No ano seguinte, Hank atinge seu reconhecimento máximo como instrumentista e compositor ao ser convidado a substituir John Coltrane no famoso quinteto de Miles Davis. Embora tenha realizado um trabalho memorável, a difícl convivência de Hank com o trompetista só durou até 1962. No ano seguinte, volta a gravar como líder e volta a ter problemas com a as drogas e a justiça, permanecendo mais um ano fora da cena musical. Em 1965, Hank volta a gravar, dessa vez recebendo influências do estilo soul jazz, cujos elementos passa a integrar em sua linguagem musical. Nesse período, além de gravar abundantemente com líder, Hank colabora como sideman com uma série de músicos importantes, como Lee Morgan, Barry Harris e Billy Higgins. Em 1967, parte em turnê para a Europa, onde trabalharia com o trombonista Slide Hampton. De volta aos EUA, gravaria mais dois álbuns como líder antes de aceitar o convite de Hampton para retornar à Europa, onde permaneceria por dois anos.

Em 1970, já nos EUA, Hank grava seu último álbum para a Blue Note e passa a co-liderar um quarteto com o pianista Cedar Walton. Em 1975, graves problemas de saúde obrigam-no a se afastar da música, embora ainda se apresentasse esporadicamente até sua morte, em 30 de maio de 1986, na Philadelphia. Quanto à média aritmética, certamente o extenso trabalho de Hank como sideman ofuscou seu brilhantismo solista. Tivesse insistido na posição de líder, certamente deixaria mais nítida sua capacidade quase inigualável  de interpretar temas complexos com extrema facilidade e clareza. Seu afastamento consciente do sopro poderoso  e  agressivo estipula sua opção de não ser mais um Sonny Rollins do jazz. E sua fidelidade ao estilo Hard Bop, associada a uma linguagem seca e intimista, certamente impediram que fosse mais um John Coltrane. É como diz o crítico Leonard Feather: Hank foi o maior peso-médio do saxofone tenor.

Para os amigos, fica uma breve sugestão discográfica e a faixa Dance of The Infidels , retirada do álbum Hank, gravado em 1957 para a Blue Note. Com ele estão Donald Byrd (t), John Jenkins (as), Bobby Timmons: (p), Wilbur Ware (b) e Philly Joe Jones (d). Hank é o terceiro a solar.

Hank Mobley Quintet - 1957 - Blue Note TOCJ-6487 - Demonstrando sua qualidade  não apenas com solista, mas também como compositor, aqui todos os temas são de sua autoria, com destaque para a faixa Funk in Deep Freeze. Acompanhado por dois de seus mais célebres patrões, Horace Silver (p) e Art Blakey (d), Hank conta ainda com o auxílio memorável de Art Farmer (t) e Doug Watkins (b).

Peckin' Time - 1958 - Blue Note TOCJ-6539 - Toda a categoria de Hank Mobley como instrumentista pode ser facilmente constatada nestas faixas, com destaque para Gil-Go Blues, com seus 12 minutos de duração. A companhia é excelente: Lee Morgan (t), Wynton Kelly (p), Paul Chambers (b) e Charlie Persip (d) 

Soul Station – 1960 – Blue Note 46528 – Este talvez seja o melhor trabalho de Hank em quarteto, com interpretações magistrais de dois standards e quatro composições de sua autoria, que o consolida entre os melhores saxofonistas tenores do hard bop. Com Wynton Kelly (p), Paul Chambers (b) e Art Blakey (d).

No Room for Squares - 1963 - Blue Note - Aventurando-se pela trilha aberta por John Coltrane, Hank enriquece seu tradicional estilo com inovações melódicas e alterações de timbre, assumindo uma tonalidade mais forte e agressiva. Seus objetivos recebem apoio do também explorador pianista Andrew Hill. Com eles estão Lee Morgan (t), John Ore (b) e Philly Joe Jones (d).  

Thinking of Home – 1970 – Blue Note 40531 – Último álbum de Hank para a Blue Note, selo cuja sonoridade o saxofonista muito contribuiu para modelar, mantém o padrão de excelência de seus álbuns anteriores, com um hard bop cada vez mais elaborado e sofisticado, o que talvez tenha contribuído para que fosse lançado apenas em 1980, dez anos após sua gravação. Com Woody Shaw (t), Eddie Diehl (g), Cedar Walton (p), Mickey Bass (b) e Leroy Williams (d).

Quer mais? Então ouça a faixa High and Flighty, retirada do álbum Peckin' Time .

23/05/2006

Carter e o princípio da incerteza


Merecida a homenagem que Salsa presta ao músico Benny Carter em sua recente resenha. Pelo fato de ter sido uma pessoa absolutamente normal durante toda sua longa carreira, Carter não costuma ser muito festejado nos meios jazzísticos. Sem a ira dionisíaca de um Charles Mingus, sem a excentricidade esquizofrênica de um Thelonious Monk e sem o sorriso perigoso de Duke Ellington, Carter dificilmente é citado como um dos maiores músicos do jazz. É grande o engano ou flagrante a injustiça colocá-lo no segundo escalão.
Carter é, entre outras coisas, o melhor arranjador da transição entre as décadas de 1920 e 1930, época em que Heisenberg proclamava o princípio da incerteza na Física. Tendo aprendido o ofício da orquestração por conta própria, chegou a rivalizar e até mesmo superar alguns mestres da época, como Don Redman. Fugindo ao modelo de sucesso fácil oferecido pelo swing, estilo que assolava o EUA nesses tempos, Carter construiu uma obra genial com humildade, independência e sensibilidade. Sua obra somente pode ser comparada à montanhesca criação da dupla Ellington & Strayhorn. 

Ao contrário do trabalho de Ellington, essencialmente instrumental, as composições de Carter são extremamente ‘cantáveis’, característica que comprova sua veia de grande solista.

Além do trabalho como arranjador e compositor, Carter era um exímio instrumentista, capaz de cantar, tocar piano, trombone, trompete e os saxofones soprano, alto e tenor. Embora excelente trompetista, foi com o sax alto que Carter se destaca como um dos mais importantes improvisadores do jazz: suave, doce e tranqüilo, nem mesmo a velocidade assustadora imposta por Charlie Parker foi capaz de ofuscar a beleza de seus solos. Sua sonoridade única influenciou vários mestres do saxofone, entre eles Sonny Rollins. Carter era o tipo de pessoa que, assim como o inigualável Lester Young, apesar de negro, nunca teve vergonha ou malícia em negar a profunda influência recebida de Frank Trumbauer, um excepcional saxofonista branco renegado no jazz por sua cor. Para Carter a beleza da música estava acima do racismo irracional.

Carter provou com seu trabalho que nem toda música doce e agradável é necessariamente música de elevador ou de consultório dentário. Sua obra comprova que a música pode ser inteligente e complexa sem ser necessariamente chata e inaudível. Ele sabia, mais e melhor que todos nós, que o sucesso obedece cegamente ao princípio da incerteza, principalmente When Lights Are Low. Mas o mestre, é claro, não se importava com isso.





Benny Carter (1907-2003)