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20/07/2011

Mulheres tocam jazz na Faixa de Gaza



A German Women Jazz Orchestra levou ao território palestino isolado um estilo moderno de música ocidental, com elementos de swing e blues. Um evento raro, desafiando o rigor das autoridades israelenses e os apagões.

É difícil imaginar um cenário mais perfeito para a apresentação da German Women Jazz Orchestra: a céu aberto, numa morna noite de verão e sob lua cheia. Trata-se do primeiro concerto de jazz, em muito tempo, na interditada Faixa de Gaza.

É visível o prazer de se apresentar que têm as 12 musicistas alemãs, os espectadores aplaudem entusiásticos. Para muitos deles, trata-se de um momento especial: eles estão gratos pelo fato de haver músicos de outras partes do mundo que se ocupam da região. Além disso, o concerto significa algumas horas de distração, fora da dura realidade palestina.

E, no entanto, levou um bom tempo até que se confirmasse a entrada das jazzistas alemãs em Gaza. Normalmente só atravessa a alta segurança do checkpoint Erez quem é diplomata, ou jornalista com licença especial das autoridades israelenses. Para a maioria dos palestinos, é intransponível a fronteira para Israel.

Tanto maior foi a felicidade de Angelika Niescier, diretora e regente da orquestra feminina fundada pela Deutsche Welle e pelo Conselho Alemão de Música, ao chegar ao lado palestino. "Alegro-me muito pela possibilidade de estar aqui com a música. Em Gaza com o jazz. O primeiro concerto de jazz na Faixa de Gaza... que loucura!"

Seu alívio foi compartilhado por Jörg Schumacher, diretor do Instituto Goethe em Ramallah e co-organizador do evento. "Simplesmente ainda não conseguimos acreditar que deu mesmo certo. Vimos preparando há seis semanas, coordenando, através da Agência de Representação, das autoridades, de Erez, a possibilidade de entrar com as 12 musicistas. Mas sempre precisamos manter um plano B no bolso: 'E se não der certo?!'. E agora estamos simplesmente felizes que todos se encontrem aqui."

No local de apresentação, o Café Gallery da cidade de Gaza, a notícia da chegada fatual das jazzistas alemãs se alastrou rapidamente. Em poucas horas, o café ao ar livre teve que ser transformado numa arena de concerto. Trata-se de um ponto de encontro para jovens. Aqui, a assim chamada "geração Facebook" montou seu quartel-general, criando um pequeno oásis protegido do cotidiano tantas vezes difícil.

Apesar do estresse, Jamal Abu Al Qumsan, o dono do Gallery, tem um sorriso no rosto. Além do prazer do concerto, em si, ele está satisfeito por "haver contribuído um pouco" para levar o grupo de artistas a Gaza. Pois, devido à política israelense de bloqueio, aqui as pessoas se sentem completamente isoladas do mundo, relata o empresário palestino. O intercâmbio com artistas do exterior só se dá virtualmente, através da internet.

A situação interna tampouco ajuda, já que shows de música definitivamente não constam da lista de favoritos do governo do Hamas, como explica Al Qumsan. "É bem difícil organizar um evento destes. O governo que rege Gaza não tem o menor interesse em música, ainda mais de uma banda feminina e, ainda por cima, de jazz. Honestamente, não é fácil. Mas há pequenos nichos de liberdade. Digamos assim: enquanto respeitamos certas restrições, regras e valores sociais, a coisa vai, de algum jeito."

Energia irregular

Contudo Abu Al Qumsan tem outras preocupações: durante a checagem de som, pouco antes do concerto, a energia faltou várias vezes. Apagões frequentes fazem parte do dia a dia na região, por isso toda Gaza é dependente de geradores.

As alemãs levam a coisa na esportiva: afinal, o que conta, acima tudo, é a experiência de estar aqui, lembra Stefanie Narr. A guitarrista está simplesmente encantada com o calor o humano com que foi recebida, com as pessoas "totalmente abertas". Para a regente Angelika Niescier, o intercâmbio direto com os habitantes e com os músicos do local é uma das metas principais.

E, de fato: ao fim do programa de jazz moderno com alguns elementos de swing e blues, dois rappers palestinos sobem ao palco para uma "canja". Por sorte, a eletricidade só falhou duas vezes durante o show de uma hora. O público variado, acostumado até demais com esse tipo de problema, aplaudiu com entusiasmo. Até porque, aparentemente inabaláveis, as instrumentistas da German Women Jazz Orchestra seguiram tocando, como se nada tivesse acontecido. (Fonte: Folha de São Paulo)

02/06/2011

Elas também tocam jazz - Tomoko Ohno

Tomoko Ohno nasceu em Tóquio. Após graduar-se em Direito pela Rikkyo University, inscreve-se no Jazz Studies Program da William Paterson University, em New Jersey, onde recebe instruções valiosas, entre elas as do pianista Harold Mabern e do contrabaixista Rufus Reid. É nesse período que tem a oportunidade de tocar com importantes músicos, entre eles Jerome Richardson, Wynton Marsalis, Benny Golson e Joe Henderson. Aluna premiada pela qualidade da performance, Ohno chega a ser incluída na Dean's List da instituição. Após a graduação, passa a se apresentar em casas renomadas de New York, como o Lincoln Center, Carnegie Hall, Blue Note, Sweet Basil e Lenox Lounge. Além de atuar como sidewoman e integrar a banda só de mulheres The Diva Jazz Orchestra, Ohno lidera seu próprio conjunto, com o qual já lançou diversos álbuns, em especial para o selo japonês Tokuma. Com um dedilhado claro e preciso, mesmo em altas velocidades, Ohno impressiona pela rapidez de raciocínio nas improvisações, pela discrição como acompanhante e pela delicadeza com que aborda as baladas. Embora seu estilo ainda esteja em construção, o encontro de uma voz própria é certamente apenas uma questão de tempo.

Para os amigos deixo as faixas Menphis e Maria, retiradas do álbum Tomoko Ohno em Buenos Aires: Jazz meets Tango, lançado pela MDR Records em 2007. Com ela estão Andrés Boiarsky (cl, ts), Ricardo Lew (g) e Matías González (ac). Boa audição!



17/04/2011

Elas também tocam jazz - Lauren Sevian

Certos gênios do jazz parecem inclassificáveis, isto é, dificilmente podem ser alocados pacificamente em algum estilo. Veja, por exemplo, o caso do pianista Thelonious Monk. Embora todos os estudiosos e críticos teimem em colocá-lo entre os inventores do Bebop, não há como identificá-lo com a música de Charlie Parker e Dizzy Gillespie, estes sim os verdadeiros criadores do estilo mais veloz e alucinante do jazz. Outros casos semelhantes seriam os de Lester Young, Miles Davis, John Coltrane, Lennie Tristano e Charles Mingus, este último o responsável pelo jazz mais louco que já tive oportunidade de ouvir. Quando digo "louco" quero dizer instigante, complexo, libertador e esmagadoramente bonito em sua diversidade. Embora não seja citado uma única vez nas 572 páginas do excelente livro The Birth of Bebop, de Scott DeVeaux, em 1947 Mingus já estava fazendo bebop com a turma da costa oeste. Ou seja, se ele não estava presente no momento do parto, certamente ajudou a cortar o cordão umbilical desse estilo que nasceu em New York, entre 1944 e 1945. São desse período dois lamentáveis incidentes ocorridos com Miles Davis: talvez porque fornecesse heroína para Charlie Parker, ninguém entende como Miles conseguiu convencer Parker a colocar Dizzy Gillespie no piano nas gravações realizadas para a Savoy, em novembro de 1945. Nas canções mais lentas, Miles consegue tocar alguma coisa mas, quando chega a vez da rápida Cherokee, Miles é obrigado a sair de fininho e entregar o trompete a Gillespie, este sim um mestre absoluto do instrumento. Talvez envergonhado, Miles escapole para Hollywood, onde levará outra surra homérica atuando como sideman de Charles Mingus, um virtuose do contrabaixo e exímio pianista.

Sempre atento às raízes do jazz, com especial apreço pelo blues, Mingus inicia sua atribulada carreira de forma humilde, tocando com a turma da velha guarda, entre eles Kid Ory, Barney Bigard e Louis Armstrong. Em seguida, trabalha algum tempo com bandas de rhythm & blues, grava como líder em diversos estilos sob o nome de Baron von Mingus (é aqui que aplica as sovas em Miles), até que retorna à condição de sideman, atuando com músicos como Lionel Hampton, Red Norvo, Tal Farlow, Billy Taylor, Stan Getz, Art Tatum, Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Bud Powell, Max Roach e Duke Ellington, este último sua primeira inspiração e mais permanente influência.

Em 1956, ano em que grava o álbum Pithecanthropus Erectus, para a Atlantic, Mingus já não é apenas um dos melhores contrabaixistas do jazz: agora é reconhecido como grande líder e compositor. Daí em diante, produzirá algumas das gravações mais importantes da história do jazz, até ser acometido por uma doença terrível, a esclerose lateral amiotrófica, que o impede de tocar seu instrumento e o leva à cadeira de rodas até sua morte, em 1979.

A paixão que sua música despertava, e ainda desperta, já era compartilhada por músicos como Eric Dolphy, Jackie McLean, J.R. Monterose, Jimmy Knepper, Roland Kirk, Booker Ervin, John Handy, Dannie Richmond, Jack Walrath, Don Pullen, George Adams e muitos outros instrumentistas que tiveram o privilégio de trabalhar sob seu comando. Tal paixão foi preservada com a criação, logo após sua morte, da banda Mingus Dynasty que, em 1991, foi ampliada e passou a se denominar Mingus Big Band,  agrupamento que ao longo dos anos tem acolhido alguns dos melhores instrumentistas de jazz da atualidade, todos dispostos a manter viva a música do mestre.

Sob a direção artística de Sue Mingus, a banda formada por 14 integrantes tem celebrado a música de Mingus semanalmente em clubes de New York, desde 1991, e atualmente apresenta-se no Jazz Standard. Além de excursionar por todo os EUA, já gravou 10 discos, 7 dos quais indicados ao Grammy. A seguir, os atuais componentes da banda:


Trompetistas: Randy Brecker, Earl Gardner, Alex Sipiagin, Lew Soloff, Tatum Greenblatt, Ryan Kisor, Kenny Rampton, Jack Walrath, Sean Jones;
Trombonistas: Conrad Herwig, Andy Hunter, Ku-umba Frank Lacy, Earl McIntyre, Dave Taylor, Robin Eubanks, Joe Fiedler, Clark Gayton;
Saxofonistas: Vincent Herring, Seamus Blake, Abraham Burton, Wayne Escoffery, Donny McCaslin, Mark Gross, Craig Handy, Scott Robinson, Jason Marshall, Lauren Sevian, Jaleel Shaw, Steve Slagle, Ronnie Cuber, David Lee Jones;
Pianistas: Orrin Evans, David Kikoski, Helen Sung, George Colligan, Kenny Drew Jr.;
Contrabaixistas: Boris Kozlov, Hans Glawischnig, Andy McKee, Joe Martin, Ugonna Okegwo, Dwayne Burno e
Bateristas: Donald Edwards, Gene Jackson, Victor Lewis, Jeff "Tain" Watts, Adam Cruz.

O leitor mais atento certamente encontrará na lista acima a saxofonista barítono Lauren Sevian, cuja idade não é revelada em seu site nem em qualquer outra fonte a que tive acesso. Sabemos apenas que é loura, tem olhos azuis e gosta dos saxofones Buffet-Crampon e das palhetas Rico. Além disso, começa a trabalhar profissionalmente aos 12 anos, primeiro como pianista, depois saxofonista. Aos 16, vence a competição Count Basie Invitational. Aos 17, já havia se apresentado em casas consagradas, entre elas Carnegie Hall, Lincoln Center e Village Vanguard.

Em 1997, Lauren parte para New York, ingressando na prestigiada Manhattan School of Music, onde tem a oportunidade de estudar com Mark Turner, Donny McCaslin, Steve Slagle, Joe Temperley e Mike Abene. Além de integrar a Mingus Big Band, Lauren mantém dois quartetos: o LSQ (sax, piano, baixo e bateria) e o Eb Quartet (sax barítono, sax alto, baixo e bateria), com os quais tem se apresentado regularmente em clubes como Kitano, Smoke, Jazz Gallery e Fat Cat. Lauren atua também em diversas outras bandas e colabora com uma infinidade de outros músicos, como Travis Sullivan's Bjorkestra, Todd Londagin Big Band, Rachel Z, Oliver Lake’s Big Band, Harlem Renaissance Orchestra, Benny Goodman Tribute Orchestra, Steve Slagle's Sax Quartet, Blue #9 e muitos outros.

Para os amigos, além da foto abaixo, deixo as faixas Not So Softly, do seu álbum Blueprint, gravado em 2008 para o selo Inner Circle, e Birdcalls, do álbum Mingus Big Band Live at Jazz Standard, gravado em 2010. Notem que o pequeno escorregão da moça no primeiro solo de Birdcalls não lhe retira os méritos nem lhe impedirá de tornar-se uma grande solista em breve. 
     

02/04/2011

JAM - Jazz Appreciation Month – 10th Anniversary



Women and Jazz: Transforming a Nation
O Jazz Appreciation Month 2011 – the 10th Anniversary – examinará o legado das mulheres ao jazz, verificando sua importância para o estabelecimento de novas relações sociais, de raça e de gênero mais justas e equilibradas nos EUA. O grupo The International Sweethearts of Rhythm, fundado em 1937 na Piney Woods School, Mississippi, será o foco do encontro JAM, promovido pelo National Museum of American History para homenagear esta formidável banda formada exclusivamente por mulheres.
O National Museum of American History (NMAH) elaborou para sua JAM 2011 um poster da legendária pianista Mary Lou Williams, em comemoração ao 10º aniversário do evento. Pianista inovadora, compositora e arranjadora, Mary trabalhou com músicos como Andy Kirk e Duke Ellington, e foi incluída na série Jazz: The Smithsonian Anthology.
Para maiores informações sobre o JAM (Jazz Appreciation Month) visite Smithsonian’s Jazz Appreciation Month Website .

06/02/2011

Elas também tocam jazz - Beegie Adair

Eu nunca poderia imaginar tamanha irresponsabilidade: postar no Jazzseen um tributo a Frank Sinatra. Afinal, sempre me coloquei frontalmente contra os vocalistas, sobremodo àqueles que, podendo cantar jazz, optaram pelo exclusivamente comercial. Sim, eu sei que poderia ser pior quando penso na ópera ou na música baiana. Contudo, considerando que Beegie Adair presta uma homenagem repleta de um delicioso swing, a coisa toda se justifica bem. Nascida no Kentucky, começa os estudos de piano aos cinco anos de idade. Durante o colegial, passa a tocar em bandas de jazz. Mudando-se para Nashville, atua como musicista de estúdio, produz jingles e participa do The Johnny Cash Show de 1969 até 1971. Na década de 1980, forma seu quarteto com o saxofonista Denis Solee, mais tarde ampliado para o sexteto denominado Be-Bop Co-Op.  Embora more na terra da música country, Beegie (pronuncia-se bigi) tem mantido viva a cena jazzística local. Além de ter gravado 24 álbuns e atuado com músicos como Peggy Lee, Nat Adderley, Bill Watrous, Lew Tabackin, Terry Clarke e Urbie Green, Beegie apresenta um programa de rádio, recebendo convidados como Joe Williams, Marian McPartland, Benny Golson e Helen Merrill. Para os amigos deixo a faixa Call Me Irresponsable , retirada do álbum Swingn' With Sinatra, gravado em 2010 para o selo Green Hill.

10/01/2011

Elas também tocam jazz - Lina Allemano

Começaremos o ano falando sobre as mulheres, as mulheres que tocam jazz. A trompetista canadense Lina Allemano nasceu em Edmonton, Alberta e aos quinze anos de idade já tocava profissionalmente. Além de estudar no Banff Centre for the Arts, no Canadá, recebeu formação complementar da experiente trompetista Laurie Frink, professora da Manhattan School of Music. Fixando-se em Toronto desde 1993, passa a acompanhar uma série de músicos importantes, como Howard Johnson, Don Byron, Dave Holland, Mike Murley e Joe Lovano. Sua competência foi definitivamente consolidada após ter sido convidada a participar, ao lado de Ingrid Jensen, do Festival of New Trumpet Music, organizado por Dave Douglas em New York e constar entre os "25 Trumpeters for the Future: A New Generation of Trumpeters Pave the Way for Jazz’s Next Innovations”, em matéria publicada pela revista Downbeat. Além de liderar seu próprio quarteto, integrado por Brodie West (as), Andrew Downing (b) eNick Fraser (d), e o grupo de improvisação coletiva denominado N, Lina atua também como sidewoman em diversas formações, como a Paul Read Orchestra (PRO), Tim Posgate's Hornband, the Cluttertones, the Jane Fair / Rosemary Galloway Quintet, além de participar de outros grupos em Toronto e New York. Em 2005, recebeu o prêmio de trompetista do ano, pelo National Jazz Awards e, há alguns anos, tem recebido o apoio da fabricante de instrumentos Yamaha.

Seu domínio absoluto do instrumento e sua criatividade têm fornecido as bases para suas pesquisas jazzísticas, cujos resultados podem ser encontrados em seus diversos álbuns, repletos de influências que vão desde o mais puro Hard Bop até as mais audaciosas investigações rítmicas e harmônicas, totalmente isentas de preconceitos e limitações. Ao que tudo indica, somente o bom gosto não pode faltar em sua música. Para os amigos deixo a faixa Concentric, retirada do álbum homônimo, gravado em 2003 para a Lumo Records. Com Lina estão David Occhipinti (g), Andrew Downing (b) e Anthony Michelli (d).

11/09/2010

Elas também tocam jazz: Amina Figarova

Para o All Music Guide ela nasceu em 1966, para o All About Jazz, em 1964. Seja lá como for, Amina Figarova nasceu em Baku, Azerbaijão, país que tive o privilégio de conhecer. Incentivada pelos pais, aos dois anos de idade começa a aprender o piano. Embora tenha estudado durante algum tempo piano clássico no Baku Conservatory, sofreu forte influência dos pais, grandes amantes do jazz, o que a levou a estudar o estilo no Rotterdam Conservatory e no Berklee College of Music, em Boston. É durante este período que, além de amadurecer como instrumentista, Amina revela seu talento como compositora e arranjadora. Além de se apresentar com seu próprio conjunto, que inclui o flautista e marido Bart Platteau, Amina já trabalhou com diversos músicos importantes, entre eles James Moody, Larry Coryell, Nathan Davis e Claudio Roditi. Presença constante em importantes festivais, como The North Sea Jazz Festival, New Orleans Jazz Festival, Capetown International Jazzfestival, Salvador Jazz Festival, JakArt Festival e clubes como Yoshi's e Blue Note, Amina tem ainda realizado diversas turnês pela Europa, Oriente Médio e Américas. 

Em 11 de setembro de 2001, Amina estava no Brooklyn, hospedada na casa de amigos, quando tudo aconteceu. Em homenagem aos mortos, compôs a belíssima September Suite. Para os amigos, fica a faixa Sharp Corners , retirada do álbum Above The Clouds, gravado em 2008 para o selo Munich Records. Amina vive atualmente em Rotterdam.

28/02/2010

Elas também tocam jazz - Dorothy Ashby

Nosso amigo Sófocles, em sua peça Ajax, faz constar a seguinte gnoma: “Às mulheres convém o silêncio”. Não parece ter sido esse o caso de Dorothy Ashby, harpista de jazz nascida em Detroit, Michigan, no dia 06 de agosto de 1932, ano em que Di Cavalcanti é preso pela Revolução Constitucionalista. Sob influência do pai guitarrista, Ashby anima-se com as aulas de música na escola secundária, onde também estuda Donald Byrd. Terminados os estudos, passa a tocar piano e harpa em diversos pequenos grupos, algumas vezes como líder. No final da década de 1950, participa de uma série de gravações com músicos importantes, como Richard Davis, Frank Wess e Jimmy Cobb, além de gravar Jazz Harpist em 1957 para a Savoy, seu primeiro álbum como líder. Na década de 1960, apresenta seu próprio show, numa rádio de Detroit, além de apresentar-se com seu marido, o baterista John Ashby, na companhia de teatro Ashby Players of Detroit. Movendo-se para a Costa Oeste, Dorothy passa a trabalhar em orquestras de estúdio, além de atuar como sidewoman numa série de gravações de músicos do estilo West Coast. Com sua técnica refinada e ampla capacidade inventiva, Dorothy foi certamente uma das poucas pessoas a tocar harpa no estilo Bebop de forma convincente. Dorothy morreu em Santa Monica, California, no dia 13 de abril de 1986, mesmo ano em que a Desembargadora Thereza Grisólia Tang assume a Presidência do Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina. Para os amigos, fica a faixa Bohemia After Dark, retirada do lp In A Minor Groove, gravado para a New Jazz em 1958. Na versão em CD de mesmo título, temos a reunião de dois lp’s, gravados para a Prestige e para a New Jazz (In A Minor Groove e Hip Harp). Com Dorothy estão Frank Wess (f), Gene Wright (b) e Roy Haynes (d).

27/01/2010

Elas também tocam jazz - Toshiko Akiyoshi

Os autores clássicos, bem como os medievais, sempre desprezaram as mulheres. Para Filémon, Estrabão e Menandro "a mulher é um mal necessário". Para Arsênio "a mulher é uma tempestade em casa". Eurípides, em sua Electra, afirma que é torpe que a mulher mande na casa e Aristóteles (em seu Política) e Ésquines (em seu Adversus Timarchum), teorizaram sobre os perniciosos efeitos do governo feminino. Nos Monósticos de Menandro encontramos que "em mulher não acredites nem morta". Na Odisséia, de Homero, a sombra de Agamêmnon adverte Ulisses a não revelar à mulher a sua identidade, para não correr o risco de ter o mesmo fim que ele. Hesíodo, em seu Os trabalhos e os dias, faz a mesma recomendação, assim como Eurípides, Terêncio, Propércio, Horácio e Plauto. Também na Eneida, em seu quarto livro, Mercúrio aparece em sonho a Enéias e o adverte sobre possíveis e repentinas vinganças da irada Dido. São Jerônimo, em seu Comentário ao Eclesiastes, afirma que "a mulher é sempre variável e mutável". Sêneca e Calpúrnio Sículo já alertavam sobre a variabilidade de humor e de opinião das mulheres. No Rigoletto, de Verdi, há o famoso dístico "Donna e luna, oggi serena e domani bruna" (mulher e lua, hoje clara, amanhã escura). O mesmo ocorre em Le roi s'amuse, de Vitor Hugo, Canzioniere, de Petrarca, Filostrato, de Boccaccio, Aminta, de Tasso e Queen Mary, de Tennyson. Em sua Ifigênia em Táurida, Eurípides utiliza a gnoma segundo a qual "a astúcia das mulheres é pior do que qualquer ardil". Bebel, em seu Adagia Germanica, comenta que "as mulheres têm cabelos longos e idéias curtas" e Sófocles, em Ajax, diz que "o silêncio embeleza todas as mulheres". Juvenal comentava que três mulheres reunidas produziam o mesmo ruído de um grande mercado, enquanto Teócrito destaca a natureza curiosa das mulheres, capazes de descobrirem até mesmo o que o rei disse ao ouvido da rainha. Vovó Tícia dizia que, quando brigam as comadres, descobrem-se as verdades. A incapacidade feminina de guardar segredos é lembrada por La Fontaine e, segundo Rabelais, o papa João XXIII não permitia que as freias se confessassem entre elas porque a confissão deveria permanecer em segredo. Juvenal dizia que é raro encontrar beleza e castidade, idéia que é ampliada por Catulo, Petrônio, Esopo, Fedro, Goethe (Fausto) e nos Carmina Burana (In trutina), onde a beleza raramente anda junto com a virtude ou a inteligência. Durante muito tempo, era comum a seguinte inscrição fúnebre: Domi mansit casta vixit lanam fecit, ou seja, ficou em casa, viveu casta, fiou a lã, indicando a mulher virtuosa, dedicada ao lar e aos afazeres domésticos. Mas agora, tudo mudou. Temos uma candidata à presidência incapaz de mentiras e ardis. Temos também Toshiko Akiyoshi, pianista, compositora e líder chinesa do hard bop, nascida em 1929. Faz anos vem produzindo alguns dos melhores arranjos desde Duke Ellington, com certa influência de Gil Evans e de sutis elementos da música japonesa (sim, seus pais eram japoneses). Como pianista, seguiu inicialmente os passos de Bud Powell, criando, mais tarde, um estilo próprio e original. É considerada, sem exagero algum, a mais importante musicista do jazz de todos os tempos, ao lado da pianista Mary Lou Williams. Numa primeira fase, Toshiko trabalhou com seu primeiro marido, Charlie Mariano (as), em quarteto com Gene Cherico (b) e Eddie Marshall (d). Infelizmente sua gravadora à época era a pequena Candid, de Nat Hentoff, cuja promoção e distribuição não estavam à altura do talento de Toshiko e Mariano. Sua segunda fase acontece ao lado de seu segundo marido, Lew Tabackin (f, ts), e tem início em 1972, com a formação de sua tão sonhada big band. O resto, só mesmo ouvindo. Para os amigos, ficam algumas sugestões de audição, bem como a faixa Mr. Jelly Lord, retirada do álbum Finesse, gravado em 1978 para a Concord, com Monty Budwig (b) e Jake Hanna (d). É como sempre dizia vovô Acácio para vovó Tícia: não posso viver sem ti nem contigo.

Toshiko-Mariano Quartet – 1960 – Candid – Um dos mais importantes álbuns gravados logo após Kind of Blues, de Miles Davis. Aqui não há concessões à modalidade, com exceção da faixa Little T. O destaque fica por conta da faixa Long Yellow Road, que, doze anos mais tarde, viria a ser orquestrada por Toshiko. Com Gene Cherico (b) e Eddie Marshall (d).
The Toshiko Akiyoshi-Lew Tabackin Big Band – 1974-1976 – Novus – Coletânea do excelente trabalho orquestral de Toshiko para a RCA, pessimamente divulgado pela gravadora. Prova disso é que nem mesmo no Japão encontramos em cd os excelentes álbuns Tales of a Courtesan, de 1975, ou Road Time, de 1976. Aqui você tem uma boa mostra da maestria de Toshiko, com destaque para os excepcionais arranjos com leves pitadas orientais e um belíssimo trabalho com sopros. Com Bobby Shew (t), Phil Teele, Jimmy Knepper (tb), Gary Foster (f, cl, as), Tom Peterson (ts), Gene Cherico (b) e Peter Donald (d).
Wishing Peace – 1986 – Ken Music – Outro excelente álbum, fundamental para quem procura um trabalho de jazz orquestral no nível de Duke Ellington. Destaque para a faixa Liberty Suite, composta para comemorar o centenário da estátua. Com John Eckert, Brian Lynch, Joe Mosello, Chris Passin (t), Conrad Herwig, Kenny Rupp, Hart Smith (tb), Matt Finders (btb), Frank Wess (f, ss, as), Lew Tabackin (picc, f, ts), Jim Snidero (f, cl, as), Walt Weiskopf (cl, ts), Mark Lopeman (bcl, bs), Jay Anderson (b), Jeff Hirschfield (d) e Daniel Ponce (perc).
Carnegie Hall Concert – 1991 – Columbia – Se você acha que o jazz estava acabado, esse álbum demonstra que o jazz está em plena forma, cada vez mais criativo e belo. Com Freddie Hubbard, Mike Ponella, John Eckert, Greg Gisbert, Joe Magnarelli (t), Herb Besson, Conrad Herwig, Larry Farrel (tb), Matt Finders (btb), Frank Wess (f, as), Jim Snidero (picc, f, cl, ss), Lew Tabackin (picc, f, ts), Walt Weiskopf (f, cl, ss, ts), Scott Robinson (bcl, bs), Peter Washington (b), Richie Flores (perc), Terry Clarke (d) e Nnenna Freelon (v).

31/10/2009

Elas também tocam jazz: Melba Liston

Melba Liston, trombonista e arrajandora do Bebop e do Hard Bop, nasceu em Kansas City, Missouri, no dia 13 de janeiro de 1926. Aos 11 anos, muda-se com a família para Los Angeles, onde participa de uma banda de jovens, antes de iniciar sua carreira profissional como trombonista na orquestra de poço do Lincoln Theatre, aos 16 anos. Em 1943, passa a integrar a orquestra de Gerald Wilson e, sob seu incentivo, começa a escrever arranjos. Nesse período, grava como sidewoman duas faixas, Mischievous Lady e Lullaby in Rhythm, com Dexter Gordon, seu antigo colega de escola. As duas faixas fazem parte do álbum Complete Savoy and Dial Master Takes, de Gordon, e representam alguns dos melhores e raros momentos de Melba como solista competente, sobretudo nas baladas. Em 1948, quando Wilson desfaz sua banda, Melba aceita o convite para trabalhar com Dizzy Gillespie. No ano seguinte, sai em desastrosa turnê com Billie Holiday. Cansada com a vida nas estradas e desiludida com a indiferença do público, resolve colocar o jazz em segundo plano. Trabalhando como administradora escolar, toca eventualmente em alguns clubes e faz alguma renda extra participando de filmes, entre eles The Prodigal e The Ten Commandments. Em 1956 e 1957, retorna ao jazz, integrando a banda de Dizzy Gillespie que, sob os auspícios do Departamento de Estado Norte-Americano, parte em turnês pelo Oriente Médio, Ásia e América do Sul. Em 1959, vai à Europa, onde apresenta o show Free and Easy, sob a direção de Quincy Jones. Na década de 1960, Melba inicia uma longa e produtiva colaboração com Randy Weston, onde estabelece definitivamente sua grande capacidade como arranjadora, embora ignorada pelo grande público e até mesmo por boa parcela dos músicos. Nesse mesmo período, trabalharia ainda para Duke Ellington, Solomon Burke, Tony Bennett e Johnny Griffin. Na década seguinte, Melba dedica-se ao ensino, permanecendo seis anos na Jamaica, onde dirige a Escola de Música daquele país. Isso não impede que continue escrevendo para artistas importantes, como Count Basie, Abbey Lincoln e Diana Ross. No final da década de 1970, retorna aos EUA como a atração principal do primeiro Kansas City Women’s Jazz Festival, onde lidera uma formidável orquestra formada exclusivamente por mulheres. Com o passar dos anos, a banda recebe alguns componentes masculinos, o que não invalida o trabalho desenvolvido por Melba até 1985, quando sofre um derrame que a leva à cadeira-de-rodas. Nem por isso Melba desiste de trabalhar, passando a escrever seus arranjos com o auxílio do computador, até sua morte, em 23 de abril de 1999. Para os amigos, deixo a faixa Melba Blues e alguma sugestão discográfica.
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Melba Liston and Her 'Bones - 1958 - Fresh Sound FRS-CD 408 - Aqui estão as provas de que o jazz não era menos machista que qualquer outra atividade humana nas décadas de 1940 a 1960. Em apenas um cd estão todas as faixas gravadas por Melba Liston como líder. Foram apenas três sessões, uma em junho de 1956 e duas em dezembro de 1958, todas em New York. Com ela estão Frank Rehak, Bennie Green, Al Grey, Benny Powell, Jimmy Cleveland (tb), Slide Hampton (tb, tba), Marty Flax (bs), Kenny Burrell (g), Walter Davis Jr, Ray Bryant (p), Nelson Boyd, George Tucker, George Joyner (b), Charlie Persip, Frank Dunlop (d).

03/10/2009

Elas também tocam jazz - Valaida Snow

Gostaria de assumir total responsabilidade pela ausência da coluna Elas também tocam jazz no mês de setembro. Era atribuição minha sua feitura e, como que tentando compensar a falha, prometi a Mr. Lester elaborar duas resenhas para a coluna feminina no mês de outubro, sem quaisquer ônus adicionais para os sócios contribuintes do Jazzseen. A de hoje vai tratar de Valaida Snow, caso de apogeu e queda pouco suscitado entre os amantes do jazz. A moça nasceu em Chattanooga, Tennessee, no dia 02 de junho de 1903*, no seio de uma família de artistas. Sua mãe, professora de música e entertainer (misto de apresentadora, instrumentista, dançarina e humorista), ensina às filhas Valaida, Lavaida e Alvaida uma série de instrumentos, entre eles violoncelo, contrabaixo, clarinete e saxofone. As meninas também aprenderam a cantar e dançar, mas Valaida demonstraria talento especial na utilização do trompete, tornando-se a trompetista mais famosa no período que antecedeu o swing. Segundo a pianista Mary Lou Williams, que "sempre apreciou seu modo de tocar, sobretudo quando emitia aqueles dós agudíssimos no estilo de Louis Armstrong" - ver as notas do álbum Jazz Women: A Feminist Retrospective, lançado pela Stash em 1977 - Valaida "poderia ter se tornado uma grande trompetista caso ela tivesse abandonado o canto e se concentrado no instrumento". Aos quinze anos Valaida já atuava profissionalmente, cantando, dançando e tocando em shows na Philadelphia e em Atlantic City. Em 1922, apresenta-se em New York, no popular cabaré de Barron Wilkin, no Harlem. O sucesso foi imediato e as apresentações multiplicaram-se, inclusive nos teatros de revista: em 1924 Valaida apresenta-se nos musicais negros The Chocolate Dandies (de Noble Sisse e Eubie Blake) e Will Masten's Revue. As turnês pelos EUA são numerosas, em especial as realizadas em companhia do Will Mastin Trio. Entre 1926 e 1928, Valaida parte para o Extremo Oriente, apresentando-se com a banda de Jack Carter. De volta aos EUA, Valaida apresenta-se em diversos clubes, inclusive no Sunset Café, de Chicago, onde é admirada pelo público e até mesmo por músicos como Louis Armstrong. Em 1929, parte novamente em turnê, dessa vez pela Rússia, Oriente Médio e Europa. Em 1933, já de volta aos EUA, Valaida lidera sua própria banda no famoso Grand Terrace Ballroom, em Chicago, contando com a presença de ninguém menos que o genial pianista Earl Hines entre seus músicos. Nesse mesmo ano realiza sua primeira gravação e passa a integrar a orquestra de Earl Hines, com a qual parte em turnê durante um ano. Em Londres, apresenta o show Blackbirds 1934 e, ainda na década de 1930, realiza uma série de curta-metragens em Los Angeles, como em Take It from Me e Irresistible You, e na França em L'Alibi (1936) e Pièges (1939).
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Além de talentosa e cheia de energia, Valaida era considerada bonita para os padrões da época, atributos que não seriam suficientes para que uma mulher, ainda por cima negra, fosse reconhecida por seu verdadeiro valor artístico, nem mesmo entre seus amigos músicos. Sua extrema competência como cantora, trompetista, arranjadora, dançarina e líder de banda não passava de mera curiosidade para o grande público, que se divertia muito ao ver uma negra tocar trompete. Ainda assim, Bobby Short passa a chamá-la de "Fable Valaida Snow" e Valaida recebe títulos como "Queen of the Trumpet" e "Little Louis". Em 1936, após ocupar o cobiçado Apollo Theatre, Valaida decide instalar-se na Europa, fixando-se primeiro em Paris e depois na Escandinávia. Nesse período, grava bastante e apresenta-se em diversas cidades da Europa, obtendo um sucesso poucas vezes igualado por um músico de jazz. Mas tudo desmorona para Valaida quando, por volta de 1940, é presa pelos nazistas que ocuparam a Escandinávia, sendo levada para um campo de concentração, onde permanece por cerca de dois anos*. Após ter sido libertada, Valaida retorna para os EUA bastante debilitada, tanto física como psicologicamente, sendo atendida pelo produtor Earle Edwards, com quem se casaria mais tarde. Parcialmente recuperada do trauma, Valaida volta a se apresentar, inclusive no Apollo Theatre, mas já não apresenta o brilho contagiante dos velhos tempos, passando a interpretar um repertório mais comercial e solando cada vez menos ao trompete (veja suas gravações das décadas de 1940 e 1950). Em 1943, ao vê-la se apresentando, Earl Hines não foi capaz de reconhecê-la. Em 1956, um pouco depois de sua apresentação no Palace Theatre de New York, Valaida sofre uma hemorragia cerebral, falecendo aos 52 anos de idade. Para os amigos, fica a faixa It had to be you .* As informações sobre Valaida Snow são bastante desencontradas e, por vezes, incompatíveis entre si. Das fontes consultadas, entre elas Black Women in American Bands and Orchestras, de D. Antoinette Handy e Who's Who of Jazz, de John Chilton, ainda prefiro recomendar ao argonauta interessado a obra Stormy Weather: The Music and Lives of A Century of Jazzwomen, de Linda Dahl (Limelight Editions, New York, 1989, p. 81-82).

30/08/2009

Elas também tocam jazz - Gunhild Carling

Sem dúvida o Brasil Jazz Festival tem exercido importante papel de contágio sobre as novas gerações de ouvintes, de jazz, é claro. Com apresentações em Recife, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, há uma preocupação clara de seus idealizadores em oferecer ao público material de excelência, em sua maioria interligado à origem e aos primeiros períodos do jazz, representado nos estilos New Orleans, Chicago e Swing. Alguns críticos costumam denominar esse período de gestação como Classic Jazz, o que serve em realidade de limite ao Bebop, estilo complexo desenvolvido na década de 1940 e bastante autônomo em relação aos primeiros estilos do jazz. No Rio de Janeiro, atração à parte foi a animada presença de alguns integrantes do blog Charuto Jazz, sentados na segunda fila central do Teatro Sesc Ginástico, entre eles Mestre Lula, ávido em suas anotações minuciosas feitas em pequenos pedaços de papel. Os bons tempos voltavam: Bob Wilber, saxofonista que trabalhou com o Rei do Swing, Benny Goodman, faz parte dessa temática do Festival, oferecendo ao jovem público uma saudável visita ao clássico e gerando nas orelhas mais antigas uma certa saudade de Count Basie, Lester Young e Billie Holiday. Além de bandas africanas, há outros atrevimentos no Jazz Festival Brasil, como o menor sexteto do mundo - formado por cinco músicos - de Luís Fernando Veríssimo, amante do jazz e mestre das letras que, corajosamente, desafia o público a ouvir seu sincero e diminuto sopro. Mas não há qualquer dúvida - ouçam os aplausos - de que o melhor show desse Festival foi mesmo o de Gunhild Carling, trompetista e cantora sueca que se aventura bem no trombone, na gaita, na flauta e no scat. Sua movimentação no palco é contagiante, sua alegria em reviver os clássicos de New Orleans e dos cabarés franceses é tão explícita que quase nos levantamos e subimos ao palco para sapatear com ela. Sim, ela também sapateia, além de tocar três trompetes ao mesmo tempo, jogando no lixo a tese de Frederico Bravante, nosso correspondente na Espanha, segundo a qual mulheres não sabem fazer jazz nem conseguem tocar o bom trompete.

A Carling Family, de Gothenburg, começa a se apresentar em 1982, liderada pelo pai de Gunhild, Hans ‘Cooling’ Carling, cornetista de jazz que já havia trabalhado com gente como Albert Niccolas, Dexter Gordon, Edmond Hall e Lars Gullin. Sua mãe, Aina, violinista clássica, tratou de aprender por conta própria o banjo. O irmão mais velho, Max, era responsável pelo clarinete, a irmã Gerd pelo piano, Gunhild pelo trombone e Ulf, o irmão caçula, pela bateria. Sua primeira apresentação foi no Swing Inn, em Malmö, para depois seguirem em turnê pela Polônia. O que os mantinham juntos? O amor comum pelo jazz de New Orleans e por músicos como Louis Armstrong, King Oliver, Johnny Dodds e Jelly Roll Morton. Em 1984 lançam seu primeiro álbum, I've lost my heart in Dixieland, pelo selo Phontastic e, no ano seguinte, apresentam-se em diversos programas da televisão sueca e de outros países, como Nygammalt, Affären Ramel, Café Sundsvall e Vi i femman. Ao mesmo tempo, realizam diversos shows em clubes e festivais, como Molde (Noruega), Zlota Tarka (Varsóvia), Askersund, Skeppsholmen e Oslo. O segundo álbum é lançado em 1986 pela mesma Phontastic e a Carling Family passa a adicionar ao seu repertório temas do Swing e do Harlem, agora com Gunhild tocando trompete e cantando ao estilo de Billie Holiday. Na década de 1990, as turnês se multiplicam, e a família se apresenta na Escócia, França, Inglaterra, Polônia, Hungria, Alemanha, País de Gales, Dinamarca e Noruega. Com o tempo, Gunhild e seus irmãos aperfeiçoam-se em diversos instrumentos: Max passa a tocar clarinete, violino e saxofone tenor; Gerd, vibrafone, saxofone alto, trombone e piano; Gunhild, trombone, trompete, gaita, flauta, além do canto e sapateado. Em 1998, Gunhild inicia suas apresentações individuais e, em 2001, muda-se para Lund, atuando em diversas bandas, tocando semanalmente no John Bull Pub e lançando o álbum That’s My Desire, pela Hep Town Records. Em 2003, aparece como solista na Papa Bue and his Viking Jazzband, além de trabalhar com Arne Domnerus, Jan Lundgren, Lars Erstrand, Eddie Davies, Claes Crona e Svante Thuresson. Ainda nesse ano, lança seu primeiro álbum solo, Red Hot Jam, pela Music Mecca. Em 2004, volta a gravar com a Carling Family, apresentando-se em diversas cidades, inclusive New York, e atua com a Count Basie Orchestra. Para os amigos, fica a faixa That’s My Home , com a Carling Family, retirada do álbum Hot Jazz, gravado em 2008 para a Hep Town Records. Quem resiste?



31/07/2009

Elas também tocam jazz: Hiromi Uehara

Já faz alguns anos Jazzseen presta homenagem mensal às moças que tocam jazz. Julho de 2009 não poderia ser diferente. Em 2003 Hiromi Uehara lança seu primeiro álbum pela Telarc, Another Mind, vendendo 100.000 cópias apenas no Japão, sua terra natal, recebendo pelo trabalho o prêmio de melhor álbum de jazz do ano pela Recording Industry Association of Japan (RIAJ). Seu segundo álbum, Brain, foi ainda mais premiado. Em 2006, Hiromi ganha o Best Jazz Act do Boston Music Awards e o Rising Star do Guinness Jazz Festival. Não bastasse, as pequenas e delicadas mãos da japonesa recebem os prêmios de Jazzman of the Year, Pianist of the Year and Album of the Year pelo voto dos leitores do Swing Journal, tudo por causa de seu álbum Spiral, de 2006. E a jornada prossegue, muitas vezes ao lado de seu conjunto, o Sonic Bloom, como nos álbuns de 2007 e 2008, Time Control e Beyond Standard. Hiromi nasceu em 1979, na cidade de Shizuoka, começando a estudar o piano aos seis anos mediante método inusitado, onde técnica e intuição musicais eram igualmente respeitadas. Sua professora costumava atribuir cores às dinâmicas, como o 'toque azul' para o sutil e o 'toque vermelho' para o apaixonado. Em menos de um ano, já estava na Yamaha School of Music e, a partir dos doze anos de idade, já tocava em público, inclusive acompanhando algumas orquestras, como a Czech Philharmonic. Atraída pela música clássica e pelo jazz, sai da adolescência com o pé direito quando, aos dezessete anos, encontra Chick Corea em Tokyo e tem a oportunidade de tocar para ele. Após ouvi-la, Corea pergunta se estaria disponível no dia seguinte. Respondendo que sim, foi convidada a participar da apresentação do pianista, sobindo ao palco e improvisando alguns temas com o cordial pianista. Após produzir alguns jingles para empresas japonesas, como a Nissan, Hiromi parte para os EUA, ingressando no Berklee College of Music, em Boston, encontrando um rico e diversificado ambiente musical, onde jazz, rock e música clássica eram tratados lado a lado, sem fronteiras ou preconceitos. Entre seus professores consta o baixista Richard Evans, que lhe ensina arranjo e orquestração e, entre seus incentivadores, o pianista Ahmad Jamal, uma de suas muitas influências. Apreciadora de Bach, Oscar Peterson, Franz Liszt, Sly and the Family Stone, Dream Theatre and King Crimson, Hiromi não tem se preocupado em rotular seu estilo, atividade que tem deixado a cargo do público e dos críticos. Para os amigos, deixo a faixa Softly As in A Morning Sunrise , interpretada ao vivo durante sua apresentação no Berklee Center, em 2009. Transmitida pela FM, a gravação completa do show pode ser obtida no excelente blog Jazz Boot Experiment.

09/06/2009

Elas também tocam jazz - Saskia Laroo

Admiradora confessa de Miles Davis, a trompetista holandesa Saskia Laroo é conhecida nos EUA como “Lady Miles of Europe”. Descontando seu desempenho convincente também ao contrabaixo, é no sutil e econômico toque de seu trompete que Saskia parece reduzir a pó todo o preconceito de nosso amigo andaluz Frederico Bravante, para quem as mulheres não sabem tocar jazz, em especial quando manejando trompetes e contrabaixos acústicos. Nascida em Amsterdam em 1959, é certamente uma das poucas trompetistas de jazz proprietárias de voz própria, talvez oriunda da longa jornada - iniciada aos oito anos de idade – e da humildade característica dos grandes artistas: Saskia nunca sonhou em ser profissional. Mas tudo mudou aos dezoito anos, quando a moça troca a Matemática, que estudou na Universidade de Amsterdam, pela Música. Ao mesmo tempo em que estuda em importantes centros musicais, como na Muziekpedagogische Academie de Alkmaar, no Sweelinck Conservatorium, com Boy Raaymakers, em Amsterdam e na Muziekpedagogische Academie, em Hilversum, Saskia apresenta-se em diversos clubes da Europa, percebendo rapidamente a imensa responsabilidade artística que recai sobre o trompetista, elemento inevitavelmente considerado líder durante 99% das apresentações ao vivo. Além disso, ela mesma acreditava que não era suficientemente forte para manejar o trompete durante todo um concerto. Talvez por esses motivos tenha iniciado sua jornada tocando o contrabaixo, passando lentamente para o trompete.

Mas em 1979, com o auxílio das Organizações Tabajara, todos os seus problemas e temores desaparecem, tornando-se uma instrumentista respeitada em diversos contextos, desde o dixieland até o nu jazz, passando obviamente pelo mainstream jazz. Como toda inteligente e bela holandesa, Saskia abre-se facilmente às mais extravagantes experiências musicais, desde a dance music, o reggae, a salsa ou o hip-hop, integrando elementos diversos naquilo que se tem denominado nos becos de “swingin’ body music”. A partir de 1995 Saskia já adquire voz identificável, passando a liderar seus próprios conjuntos. Naquilo que nos afeta mais gravemente, o jazz, seus álbuns mais significativos são Sunset Eyes, gravado em 1998 com a participação do mestre Teddy Edwards (ts), e Jazzkia, gravado em 1999. Se não podem ser considerados clássicos do jazz atual, certamente constituem certidão de competência no contexto complexo do idioma bop. Para os amigos fica a faixa Spin , de sua autoria, com Albert Sarko (p), Jos Machtel (b) e Martin van Duynhoven (d).

24/05/2009

Elas também tocam jazz - Hélène Labarrière

Há pouco discutíamos aqui no Jazzseen se as mulheres são capazes de tocar jazz. Mais especificamente, criou-se certa celeuma acerca da capacidade de as mulheres tocarem certos instrumentos, como o trompete e o contrabaixo acústico, no contexto enérgico e extenuante de estilos como o bebop, onde exigências físicas desmesuradas impediriam uma performance feminina adequada. Se é verdade que não há registro de uma mulher tocando contrabaixo ao lado de Charlie Parker e Dizzy Gillespie, os inventores do bebop, é também escorreito afirmar que não havia mulher alguma tocando instrumento algum naquele clube de jazz que concebeu o bebop, o Minton’s Playhouse. Talvez elas estivessem nas fábricas e nos hospitais, num esforço de guerra que secundariamente traria certa fração de emancipação às moças norte-americanas, fazia tempo condenadas à prisão domiciliar sem julgamento. Ouvindo Hélène Labarrière tocar seu contrabaixo acústico em 2008, no Festival de Jazz de Saalfelden – em minha única visita à Áustria, tive a nítida impressão de que a moça francesa, nascida em 1963, poderia adaptar-se confortavelmente no estúdio ou no palco fazendo às vezes de, digamos, um Charles Mingus ou um Johnny Diani, porque lembrá-los ela lembra. Iniciando os estudos de piano aos sete anos, aos dezesseis decide-se pelo contrabaixo acústico, não se sabe se em função de algum impulso provocado pelo vinho. Helena ouvia música popular em casa, bem como a clássica e, em especial, o jazz. Após alguns anos de conservatório, sempre ouvindo muita música, começa a tocar standards em bares e cafés, época em que conhece o guitarrista Pierre Brunel. Acreditando que só se aprende música tocando e ouvindo, cria um trio só de mulheres, o Ladies First, com Railcar Pelzer e Dominique Borker. Helena já tinha vinte anos e exercia atividade plena em diversos clubes de Paris, tocando com músicos locais e visitantes ocasionais importantes, entre eles Slide Hampton, Art Farmer, Johnny Griffin (na foto com Helena) e Lee Konitz (com quem grava pela primeira vez).
Passando dos standards ao hard bop, descobre a música de Charlie Haden, o que altera drasticamente sua concepção de execução, bem como amplia sua visão sonora. Ainda na década de 1980 participa de importantes projetos, atuando com o quarteto de Eric Barret (onde conhece Marc Ducret) e com o quinteto de Malo Vallois. Nesse ambiente propício à livre improvisação, perde a noção de risco e chega mesmo a compor, desencadeando um processo que em boa parte foi deflagrado com o auxílio de Daniel Humair. Com a queda do muro, inicia novos contatos, agora na Alemanha. Forma então o conjunto Plot, em homenagem a Robert Wyatt, do qual participaria, entre outros, a trompetista Ingrid Jensen, e com o qual gravaria seu primeiro álbum como líder, em 1995. Acreditando que a música alimenta-se da política, da poesia e das artes plásticas, realiza shows em homenagem a anarquistas (Buenaventura Durruti e Jean Rochard), apresenta-se com poetas, desenhistas (Moebius), gente de teatro, happers, DJs, integrando à sua bagagem jazzística praticamente toda forma de expressão musical disponível no início deste século.
Para os amigos fica a quarta faixa do álbum Les temps changent, aquele gravado ao vivo em Saalfelden, com François Corneloup (bs), Christophe Marguet (d) e Hasse Poulsen (g). Sobre o álbum, assim fala a contrabaixista: "The times are changing because music is not only about sound but also has to do with space and time; it’s not just a question of four or three time, any more than it is of five or seven time, there’s also no time at all or again, multiple time, and all this is something we have fun with. The times are changing, and they change us too, because a group consists of all the encounters one’s made and the time we’ve already spent together or separately helps us to construct, deconstruct or reconstruct our music at any given moment. The times are changing, here and elsewhere, because we’re not deaf to the world around us, our desire to play and say what we have to say is increasingly urgent and imperious. The times are changing, some time ago another musician already said this very thing because we’re a group that doesn’t worry about whether it has or hasn’t got any models. The times are changing, friendship, shared experiences, the driving need to build again and again, to keep going forward… we’re avid for all this…"

07/04/2009

Elas também tocam jazz

Sim, após quase seis meses de espera - prazo nunca antes transcorrido nas compras via Amazon - e duas remessas do mesmo produto: The Penguin Guide to Jazz Recordings, Ninth Edition, finalmente o fornecedor desistiu de enviar-me o produto, sugerindo que eu realizasse nova compra com endereço distinto, devolvendo-me o numerário correspondente. Seria a crise? Afinal sou cliente assíduo da Amazon desde 1999 e nunca havia passado por situação semelhante. Desconsolado, desisti do guia na semana passada. Quando foi ontem, recebi do correio uma notificação para recolher uma entrega - que eu supunha ser a coleção Complete Works of Wolfgang Amadeus Mozart, com singelos 170 cd's, lançada pela Brilliant Classics em homenagem aos 250 anos de nascimento do compositor - completados em 2007 - e, vejam só, em seu lugar lá estava meu Penguin Guide, são e salvo. Talvez as autoridades policiais e os órgãos de Inteligência tenham revirado a encomenda em busca de algum indício contra John Lester, o homem mais procurado da Barra do Jucu depois de Martinho da Vila.  Ou sei lá, talvez seja apenas incompetência dessas novas franquias concedidas pelos Correios, com queda sensível na qualidade dos serviços prestados. Seja lá como for, iniciei a leitura do guia imediatamente, enquanto dirigia, bebia uma coca-cola, falava ao celular e fumava, sem que os pedestres e veículos adversários pudessem supor o risco a que estavam expostos. Nos semáforos vermelhos podia conferir detalhadamente alguns pormenores: primeiro que o número de páginas continua aumentando - de 1534 na oitava edição para 1646 na atual. As coroas - ingleses adoram essas coisas - permanecem alocadas aos álbuns que os autores - Richard Cook e Brian Morton - consideram marcos absolutos do jazz.

Outra boa surpresa é constatar que o primeiro verbete do guia fala de Froy Aagre, saxofonista holandesa da qual nunca ouvira falar nem tocar. Em seu site a oferenda de pequenos trechos de suas gravações não permitem uma análise adequada de sua performance. Mas no site Musik encontramos uma excelente coletânea promocional do jazz holandês absolutamente gratuita, o que nos permite avaliar a moça na execução da faixa Last Waltz , constante dos 3 generosos cd's lá ofertados. Trata-se de música séria, pouco indicada aos tradicionalistas de um lado ou aos baladeiros de outro. Numa linguagem atual, Froy demonstra não apenas o domínio do sax soprano, como também fica à vontade com os ensinamentos de John Coltrane e Steve Lacy. Pitadas de cor local dão à faixa o clima de tolerância tão característico desse país repleto de cidades modernas e campos de tulipa.


Na contracapa, à guisa de publicidade, consta o excerto da International Record Review: "The leader in its field. If you own only one book on jazz, it really should be this one." Exagero, por certo. Ainda prefiro o All Music Guide to Jazz por uma série de motivos. Um deles é que, também na contracapa do Penguin, consta "Artist biographies", o que só pode ser considerado o mais puro humor britânico quando lemos, por exemplo, a pequeníssima biografia de Froy Aagre: "Talented Norwegian, whose main outlet is the group Offbeat." ou a minúscula biografia de Kris Bauman: "New Yorker with ambition." ou a de Carolyn Hume: "Limpid minimalist." As biografias do All Music são muito mais honestas e consistentes. Outro motivo seria a ausência do guitarrista Eddie Duran e muitos outros músicos e álbuns, todos constantes do All Music Guide to Jazz, tomo que se caracteriza por quase esgotar as gravações existentes de cada artista. Mas o Penguin tem lá seus méritos e, para mim, o principal deles é a alta qualidade dos inteligentes e por vezes divertidos comentários dos álbuns que apresenta. Recomendo como terceira compra, depois do The New Grove Dictionary of Jazz, disponível em um ou três volumes.

E deixem minhas encomendas chegarem em paz!

30/03/2009

Jazzwomen

O mês de março de 2009 foi, em grande parte, dedicado a saber se as mulheres podem lançar o dardo mais longe do que os homens e, também, se sabem tocar jazz. Ouvimos opiniões diversas, em postagens e comentários de amigos, o que nos levou a refletir sobre a condição e o papel da mulher na elaboração desse estilo que se espalhou pelo mundo em tempo recorde: é preciso ter em mente que o jazz é uma música nova - a primeira gravação de jazz foi realizada em 1917, por um grupo de músicos formado exclusivamente de homens. E homens brancos. Assim, se os homens negros, desde o nascimento do jazz, sofreram preconceito e marginalização, as mulheres, e principalmente as mulheres negras, sofreram muito mais. Obviamente que os componentes sociológicos que ditavam as regras de convivência entre brancos e negros nos EUA no início do século XX delimitavam de forma rígida o papel limitado e secundário a ser desempenhado pelo negro naqueles tempos: ele poderia ser músico, mas não poderia ser dono de gravadora. Ele poderia ser porteiro de um edifíco de luxo, desde que não tivesse a petulância de morar ali um dia. Às mulheres negras o papel dado era ainda mais degradante, sendo comum que a busca por sua liberdade e autonomia muitas vezes estivesse associada à prostituição, profissão adotada por uma infinidade de artistas negras em algum período de suas vidas. Não causa espanto, portanto, que o número de mulheres no início do jazz seja diminuto e, muitas vezes, alavancado pelo estímulo e incentivo de seus maridos ou protetores: Lil e Louis Armstrong, Marian e Jimmy McPartland, Lorraine e Herb Geller, etc, etc, etc. Além do componente sociológico, outro ponto suscitado pelos amigos foi o que diz com as características fisiológicas das mulheres, responsáveis, segundo a opinião de alguns, por certas restrições na escolha e no desempenho em certos instrumentos, como o gigantesco contrabaixo acústico ou o severo trompete com seu bocal pouco amistoso. Concordo que uma moça frágil e delicada teria mais dificuldades em manusear as grossas cordas de um contrabaixo do que, digamos, Charles Mingus, com seus 100kg por 190cm. E até certo ponto parece verdade que poucas mulheres possuem o vigor físico necessário para acompanhar ao trompete os solos alucinates de Charlie Parker ou qualquer daqueles outros gênios velozes do bebop. Soaria como uma Maria Rita desafiando o título de peso-pesado de um Mike Tyson. E é nessas horas de dúvida se homens e mulheres podem ou não competir em pé de igualdade uma maratona ou mano a mano um campeonato de levantamento de peso que sempre me recordo das palavras de Marian McPartland quando questionada sobre a capacidade física da mulher para tocar jazz: "Well, when you think of what average women have to do in their lives, like give birth, do laundry, make beds and carry kids around, who should judge them as not strong enough to play a horn?". 

A entrevista integral com Marian faz parte (páginas 231 a 251) do excelente livro Jazzwomen: conversations with twenty-one musicians, Indiana University Press, 2004, de Wayne Enstice e Janis Stockhouse. Pequenas biografias servem de introdução às interessantes conversas com Jane Ira Bloom, JoAnne Brackeen, Clora Bryant, Terri Lyne Carrington, Regina Carter, Marilyn Crispell, Barabara Dennerlein, Dottie Dodgion, Shirley Horn, Ingrid Jansen, Sheila Jordan, Diana Krall, Abbey Lincoln, Marian McPartland, Helen Merrill, Maria Schneider, Shirley Scott, Carol Sloane, Teri Thornton e Cassandra Wilson. Como se não bastasse, um cd com dez faixas acompanha o livro. É também com Marian que ficamos sabendo de uma sessão de gravação que realizou em 1977 para o selo Halcyon. O nome do álbum é Now's The Time e conta somente com mulheres: Marian ao piano, Vi Redd (as), Mary Osborne (g), Lynn Milano (b) e Dottie Dodgion (d). Para os amigos fica a faixa Of Love .

23/03/2009

You Don't Know Her

Há muita controvérsia sobre o papel da mulher no jazz. Talvez a questão esteja de fato limitada, como afirma o amigo Frederico Bravante, às características físicas específicas da mulher, quase sempre as afastando de certos instrumentos, como o trompete, o trombone, o contrabaixo acústico ou, com menor incidência, os saxofones tenor e barítono. Ao aspecto estritamente fisiológico devemos associar o machismo que caracteriza decrescentemente a história humana, impedindo que homens e mulheres pudessem produzir cultura em eqüidade e equilíbrio. A depender da grande maioria dos homens, certamente as mulheres ainda estariam nas cozinhas ou nas saletas de chá, tricotando ou embalando seus gordos bebês. Na melhor das hipóteses, poderiam interpretar Chopin em seus doces lares, num piano comprado por seus pais ou maridos. John Lester mesmo sempre disse que há muitas cantoras no jazz pela simples razão de que a voz é um instrumento barato, fácil de transportar e que raramente podia ser retirado da mulher por seu homem para comprar bebida. E a breve história do jazz de 1900 a 1970 não nos deixa mentir: para cada centena de grandes cantoras, encontramos talvez meia dezena de grandes pianistas, quadro ainda mais reduzido quando procuramos por saxofonistas ou trompetistas. Eu mesmo só ouvi ao vivo uma contrabaixista em toda a minha vida: a bonita loira Nikki Parrott, sidewoman de Les Paul, no Iridium de New York. Durante o show conheci atônito o lado brincalhão do genial e octogenário guitarrista, que durante o show fazia piadas do tipo: “Estou me sentindo como Ray Charles quando encontrava o assento” (entrando em cena); ou “Quando toco penso na irmã de minha esposa” (agradecendo o entusiasmo do público); ou, ainda, “Ela é uma grande bunda (ass), digo, aquisição (asset)” (referindo-se à contrabaixista do grupo). Jennifer Aniston, a estrela de Hollywood, que estava bem próxima a Lester, não gostou da piada e retirou-se do clube, talvez em sinal de protesto. Mais tarde, enquanto comíamos uma pizza de peperoni nas proximidades de Grand Central Terminal, perguntei a Lester porque, ainda hoje, havia tantas cantoras e tão poucas instrumentistas. Lester disse que, a partir da década de 1980, esse quadro vem se alterando significativamente. A virilidade dos primeiros tempos do jazz tem experimentado cada vez mais a sensível inteligência feminina. E com tudo de bom que isso significa. Quem poderia supor que a deliciosa escovinha que ouvimos nos discos de Susie Arioli não é obra de nenhum baterista, que baterista não há no grupo. Essa gostosa escovinha, que é quase um carinho como diz Lester, surgiu porque Susie não sabia onde colocar as mãos durante suas apresentações. Coisa de mulher ou não? Para os amigos fica a faixa You don’t know me , com a canadense e seu fiel guitarrista Jordan Officer.

18/03/2009

Elas também tocam jazz - Tânia Maria

Em nenhuma das duas edições da Enciclopédia da Música Brasileira, editada pelo amigo Marcos Antônio Marcondes, há menção ao músico André Tandeta, excepcional baterista, figura constantemente presente às melhores apresentações instrumentais do Rio de Janeiro desde 1976. Afinal, quem já acompanhou com desenvoltura Maria Bethânia e Wilson das Neves, quem já gravou discos e trilhas sonoras para a TV, quem já integrou o conjunto A Tampa ao lado de João Rebouças (key), Luizão Maia (b), Zé Luís de Oliveira (sax) e Victor Biglione (g), mereceria constar de nossas enciclopédias ainda em vida. E é o que ocorre com o bem nutrido Dicionário Houaiss Ilustrado da Música Popular Brasileira, criado e supervisionado pelo também amigo Ricardo Cravo Albin, tipo humano que demandaria uma ou duas resenhas longas para resumir-lhe os méritos e feitos. Mas não viemos aqui para isso. Viemos aqui hoje apenas para assinar o armistício face à fragorosa derrota em nossa luta pelo jazz exclusivamente instrumental, tentativa vã de apagar da história do jazz as lamentáveis intervenções vocais que permeiam a quase perfeita caminhada desse estilo musical ímpar. Vencido, permito-me apenas denunciar a absoluta e imperdoável ausência, tanto na Enciclopédia da Música Brasileira quanto no Dicionário Houaiss Ilustrado da Música Popular Brasileira da pianista e cantora Tânia Maria, nascida num estado brasileiro em que o trabalho escravo ainda persiste incólume. É no segundo dos três escorreitos volumes do Grove Dictionary of Jazz, de Barry Kernfeld, que descobrimos que a menina começou a estudar piano aos sete anos e, após gravar cinco álbuns durante sua adolescência, parte rumo a Paris em 1974, onde trabalha em clubes e grava para selos franceses e alemães. Com sua apresentação no Newport Jazz Festival de 1975, chama a atenção do público norte-americano, que a acolhe em New York em 1981. O álbum de maior sucesso comercial da célebre gravadora Concord é obra sua: Come with me, gravado em 1982. Livre de preconceitos, como toda mulher inteligente que conhece a caatinga, soube integrar sua competência técnica, bastante influenciada por Oscar Peterson e Nat King Cole, com a popularidade fácil, ora circulando ao redor do mais puro jazz, ora em torno do pop. Infelizmente, quase sempre insiste em cantarolar em seus discos, o que nos distrai muito durante a audição e tornando quase efêmera uma obra que merece todo nosso respeito. Contudo, quando ataca com seu scat sing em uníssono com o piano, Tânia demonstra não apenas o domínio perfeito do instrumento, mas, acima de tudo, sua feliz e fértil inventividade musical. Por isso é que deixo a faixa Para Chick , constante do álbum Brazil with my soul, gravado em 1976 e citado erroneamente em alguns almanaques como seu álbum de estréia. Prestem atenção na voz da menina. E mais ainda em seus dedos.

11/03/2009

Wash Day

É realmente insuportável esse confete açucarado que alguns membros do Jazzseen ficam jogando para as mulheres que tentam fazer jazz. Já disse antes e volto a afirmar: mulheres não sabem fazer jazz. E estou falando do verdadeiro jazz, não de sambinha, bossa nova, baladas adocicadas ou música de cabaré. Ok, alguns podem dizer que existem excelentes cantoras de blues, mas blues não é jazz e música cantada, para mim, não faz a menor diferença para a história do jazz. Até o scat inventado por Louis Armstrong na década de 1920 eu dispenso: importantes foram suas inovações realizadas através do trompete. E tem mais: nem mesmo no cool jazz, o estilo mais suave do jazz, as mulheres produziram alguma coisa relevante ou digna de nota. Se devemos o cool jazz a alguém, esse alguém seria Lennie Tristano e, talvez, o bicão Miles Davis. Se jogarmos fora tudo que as mulheres produziram desde 1900 até hoje, a história do jazz prosseguiria impassivelmente a mesma, sem qualquer perda deformante. Tivemos uma sólida estrada aberta e pavimentada por Buddy Bolden, King Oliver, Louis Armstrong, Jelly Roll Morton, Sidney Bechet, Kid Ory, Bix Beiderbecke, Jack Teagarden, Lester Young, Count Basie, Duke Ellington, Coleman Hawkins, Roy Eldridge, Woody Herman, Benny Goodman, Stan Getz, Zoot Sims, Dexter Gordon, Art Tatum, Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Sonny Clarke, Charles Mingus, Eric Dolphy, Thelonious Monk, Sonny Rollins, Clifford Brown, John Coltrane e mais alguma dúzia de homens que, estes sim, caso ausentes, deformariam alguns capítulos da história do jazz. E você, isso, você mesmo que está torcendo o nariz para mim, diga qual mulher seria capaz de realizar um solo de trompete como Louis Armstrong ou Dizzy Gillespie, ou tocar um solo de sax tenor de 16 minutos como o de Paul Gonsalves no Festival de Newport de 1956, ou arrebentar uma bateria durante 42 minutos como Max Roach no JVC Jazz Festival, ou tocar saxofone durante duas horas como John Coltrane no Japão? Por tudo isso, em função dos fatos cristalinos de que dispomos, sou totalmente contrário a esta rasgação de seda que vem acometendo o Jazzseen desde sua fundação. Como se não bastasse, há mais de seis meses não recebo minhas horas extras como Editor Adjunto deste blog, o que advoga em favor de minha libérrima expressão neste espaço virtual dedicado ao jazz e não ao já cansativo movimento feminista. Para os que entendem do assunto, deixo a faixa de jazz Opus Ocean retirada do álbum The New York Sessions, de Tubby Hayes e Clark Terry. Quem não conhece Clark Terry levante a mão. Já Tubby Hayes era um sujeito homem nascido na Inglaterra – nem tudo é perfeito – em 30 de janeiro de 1935. Saxofonista virtuoso, Hayes impôs respeito ao sax tenor inglês numa época em que Sonny Rollins, Stan Getz e John Coltrane cuidavam do imenso campo cultivado por Coleman Hawkins e Lester Young, o que, convenhamos, não era pouca coisa. Nascido numa família de músicos, desde cedo aprende o violino – argh! – passando para o sax na primeira adolescência e tornando-se profissional aos 15 anos. Genial improvisador, seus solos são repletos de energia e motivação contagiantes, como uma espécie de Zoot Sims em rotação aumentada e movido com pilha alcalina Duracell. Após amadurecer nas bandas de Kenny Baker, Vic Lewis, Jack Parnell e outras, Hayes mergulha no hard bop, ora como líder, ora associando-se a importantes instrumentistas ingleses – como Ronnie Scott, com quem formou o Jazz Couriers. Sua competência, já consolidada e reconhecida, permitiu que trabalhasse com alguns dos melhores músicos de jazz de sua época – entre eles Dizzy Reece, Dave Brubeck, Roland Kirk, Victor Feldman e Charles Mingus. Além de dominar como poucos o sax tenor, Hayes também se aventurou com o vibrafone, a flauta e outros saxofones, sem esquecer que fazia arranjos e compunha – como na trilha sonora do filme All Night Long. Os 38 anos de vida desregrada e a terrível torta de rin inglesa fulminaram a saúde de Hayes que, em sua segunda cirurgia cardíaca, não se levantou mais da mesa de operações. Um dia de grande vazio para o jazz. Na faixa, com Tubby Hayes, estão Clark Terry (t), Horace Parlan (p), George Duvivier (b) e Dave Bailey (d).