30/08/2009

Elas também tocam jazz - Gunhild Carling

Sem dúvida o Brasil Jazz Festival tem exercido importante papel de contágio sobre as novas gerações de ouvintes, de jazz, é claro. Com apresentações em Recife, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, há uma preocupação clara de seus idealizadores em oferecer ao público material de excelência, em sua maioria interligado à origem e aos primeiros períodos do jazz, representado nos estilos New Orleans, Chicago e Swing. Alguns críticos costumam denominar esse período de gestação como Classic Jazz, o que serve em realidade de limite ao Bebop, estilo complexo desenvolvido na década de 1940 e bastante autônomo em relação aos primeiros estilos do jazz. No Rio de Janeiro, atração à parte foi a animada presença de alguns integrantes do blog Charuto Jazz, sentados na segunda fila central do Teatro Sesc Ginástico, entre eles Mestre Lula, ávido em suas anotações minuciosas feitas em pequenos pedaços de papel. Os bons tempos voltavam: Bob Wilber, saxofonista que trabalhou com o Rei do Swing, Benny Goodman, faz parte dessa temática do Festival, oferecendo ao jovem público uma saudável visita ao clássico e gerando nas orelhas mais antigas uma certa saudade de Count Basie, Lester Young e Billie Holiday. Além de bandas africanas, há outros atrevimentos no Jazz Festival Brasil, como o menor sexteto do mundo - formado por cinco músicos - de Luís Fernando Veríssimo, amante do jazz e mestre das letras que, corajosamente, desafia o público a ouvir seu sincero e diminuto sopro. Mas não há qualquer dúvida - ouçam os aplausos - de que o melhor show desse Festival foi mesmo o de Gunhild Carling, trompetista e cantora sueca que se aventura bem no trombone, na gaita, na flauta e no scat. Sua movimentação no palco é contagiante, sua alegria em reviver os clássicos de New Orleans e dos cabarés franceses é tão explícita que quase nos levantamos e subimos ao palco para sapatear com ela. Sim, ela também sapateia, além de tocar três trompetes ao mesmo tempo, jogando no lixo a tese de Frederico Bravante, nosso correspondente na Espanha, segundo a qual mulheres não sabem fazer jazz nem conseguem tocar o bom trompete.

A Carling Family, de Gothenburg, começa a se apresentar em 1982, liderada pelo pai de Gunhild, Hans ‘Cooling’ Carling, cornetista de jazz que já havia trabalhado com gente como Albert Niccolas, Dexter Gordon, Edmond Hall e Lars Gullin. Sua mãe, Aina, violinista clássica, tratou de aprender por conta própria o banjo. O irmão mais velho, Max, era responsável pelo clarinete, a irmã Gerd pelo piano, Gunhild pelo trombone e Ulf, o irmão caçula, pela bateria. Sua primeira apresentação foi no Swing Inn, em Malmö, para depois seguirem em turnê pela Polônia. O que os mantinham juntos? O amor comum pelo jazz de New Orleans e por músicos como Louis Armstrong, King Oliver, Johnny Dodds e Jelly Roll Morton. Em 1984 lançam seu primeiro álbum, I've lost my heart in Dixieland, pelo selo Phontastic e, no ano seguinte, apresentam-se em diversos programas da televisão sueca e de outros países, como Nygammalt, Affären Ramel, Café Sundsvall e Vi i femman. Ao mesmo tempo, realizam diversos shows em clubes e festivais, como Molde (Noruega), Zlota Tarka (Varsóvia), Askersund, Skeppsholmen e Oslo. O segundo álbum é lançado em 1986 pela mesma Phontastic e a Carling Family passa a adicionar ao seu repertório temas do Swing e do Harlem, agora com Gunhild tocando trompete e cantando ao estilo de Billie Holiday. Na década de 1990, as turnês se multiplicam, e a família se apresenta na Escócia, França, Inglaterra, Polônia, Hungria, Alemanha, País de Gales, Dinamarca e Noruega. Com o tempo, Gunhild e seus irmãos aperfeiçoam-se em diversos instrumentos: Max passa a tocar clarinete, violino e saxofone tenor; Gerd, vibrafone, saxofone alto, trombone e piano; Gunhild, trombone, trompete, gaita, flauta, além do canto e sapateado. Em 1998, Gunhild inicia suas apresentações individuais e, em 2001, muda-se para Lund, atuando em diversas bandas, tocando semanalmente no John Bull Pub e lançando o álbum That’s My Desire, pela Hep Town Records. Em 2003, aparece como solista na Papa Bue and his Viking Jazzband, além de trabalhar com Arne Domnerus, Jan Lundgren, Lars Erstrand, Eddie Davies, Claes Crona e Svante Thuresson. Ainda nesse ano, lança seu primeiro álbum solo, Red Hot Jam, pela Music Mecca. Em 2004, volta a gravar com a Carling Family, apresentando-se em diversas cidades, inclusive New York, e atua com a Count Basie Orchestra. Para os amigos, fica a faixa That’s My Home , com a Carling Family, retirada do álbum Hot Jazz, gravado em 2008 para a Hep Town Records. Quem resiste?



10 comentários:

Tobias Serralho disse...

Fantástica a menina, levada e competente. Merece uma resenha Jazzseen.

Salsa disse...

Assisti o vídeo. A menina manda bem. Valeu, mr. Lester, por nos deixar suas impressões musicais de mais um bom evento de jazz.

bia disse...

delicia...

Érico Cordeiro disse...

Grande Lester,
Bacana a resenha e também o trabalho da moça (embora minha conexão seja ruinzinha, deu prá ter uma idéia da potência e da alegria da Gunhild Carling).
E que inveja!!!!
Mas a sede de jazz vai ficar para ser saciada em Ouro Preto.
E muito bacana essa foto com o LFV (sabia que o meu nome é uma homenagem ao pai dele - papai tinha acabado de ler Olhai os lírios do campo pouco antes de eu nascer e resolveu fazer essa homenagem ao grande escritor gaúcho?).
Abração!!!!

Valois&Alves disse...

Preciso de um e-mail de vocês para credenciá-los para o Tudo é Jazz, em Ouro Preto.

John Lester disse...

Prezado Valois, meu e-mail é johnlestervix@hotmail.com

Grande abraço, JL.

edú disse...

O Jazzseen alimentando a tradição construída nesses três anos da presença nos melhores eventos do jazz aqui e ,quando possível, lá fora.

John Lester disse...

Alimentando e, principalmente, sendo alimentado.

Grande abraço, JL.

Carioca da Vila disse...

Muito, muito bom...
Depois de um show destes, vc. sai alegre e com o espírito alimentado,e vai pro Cervantes, cuidar de alimentar o corpo...

Bunda disse...

show!