
A temperatura média da canela de quem assistiu ao
Festival Tudo é Jazz 2007 era de aproximadamente 10°C. Ou seja, quem não foi agasalhado e com malha térmica, passou um frio desgraçado para encarar as 7 horas diárias de espetáculo. Sim, a coisa iniciava às 18h e o último show começava às 24h, terminando por volta de 1 ou 2 da madrugada. Uma overdose de música. E boa música quase sempre. Alguns expectadores mais experientes levaram nos bolsos pequenos reservatórios metálicos de bebida alcoólica.
Mr. Salsa, por exemplo, fez sucesso e atingiu grande popularidade nos corredores que davam acesso ao palco, com seus quatro discretos vasilhames inox, um com cachaça da terra, outro com Jack Daniels, outro com Carpe Diem Carmenère 2005 e outro com água mineral Campinho, sem gás. Com o corpo tombando um pouco para frente, devido ao peso dos vasilhames, Mr. Salsa gostou de tudo que conseguiu ouvir nos corredores. Mas, tão bem hidratado assim, quem não gostaria do som? Mr. Lester, sempre sóbrio e taciturno, ficou sentado durante todas as 21h de espetáculos, levantando-se do assento não numerado apenas para satisfazer a algumas incômodas, embora naturais, necessidades básicas do organismo congelado. Falando em natureza (argh!), os banheiros mais próximos dos assentos eram amplos e espaçosos, próprios para deficientes físicos. Preocupação louvável dos organizadores do Festival e ainda pouco comum no Brasil. Mr. Lester, como bom brasileiro por parte de mãe que é, fingia mancar diante dos seguranças e deleitava-se naquele imenso espaço dedicado à higiene dos portadores de necessidades especiais. Ato contínuo, voltava correndo para seu lugar, esquecendo-se completamente de suas dificuldades de locomoção. Mais adiante, em oportunas resenhas, faremos a
cobertura completa do Festival para os amigos leitores, recolhendo os detalhes que julgamos mais significativos e as fofocas consideradas mais escandalosas.

Por exemplo: qual artista estava fumando o cachimbo da paz na Pousada Mondego? E a volumosa cabeleira dourada de Madeleine seria natural ou aplique? Ou, ainda, qual a influência do Festival e sua repercussão na região, no Brasil e no exterior? Sim, há muitos músicos de jazz, alguns de renome internacional, interessados em participar do Tudo é Jazz. Comportamento que reflete o fato de que a boa música não tem sido ignorada apenas no Brasil, mas em boa parte do mundo civilizado, que prefere ouvir
Tiririca a Joshua Redman. Não à toa as orquestras sinfônicas estão acabando na Europa e os batedores de tambor estão se proliferando na Bahia. A influência do Festival se faz sentir também nas cidades próximas, todas interligadas pelo interessante roteiro turístico denominado
Estrada Real, que interliga Parati e Petrópolis à Diamantina e Mariana, passando por diversas cidades que, de uma forma ou de outra, participaram das rotinas expropriatórias de ouro e diamante nos séculos XVII e XVIII. Ouro Preto e Angra dos Reis são dois testemunhos marcantes desse período. Em Mariana, por exemplo, o reflexo do Festival pode ser visto e ouvido no programa de ontem, às 12:15h, do concerto que acontece toda sexta (às 11:00h) e domingo na
Catedral da Sé de Mariana. Entre Bach e Sweelinck,
Elisa Freixo interpôs um Tango ao modo de bossa nova, de Bovet. Dentro da belíssima catedral, encontramos um outro Brasil, um Brasil educado e silencioso, sem com isso ser enfadonho e pedante. Um Brasil sutil e inteligente que reconhece e prestigia o valor da História e da Música. Foi imerso num mundo fantástico de pinturas e esculturas barrocas que Mr. John Lester ouviu bossa nova no órgão
Arp Schnitger, construído na Alemanha em 1701 e enviado ao Brasil por D. José I, em 1752. São pessoas especiais como a organista Elisa Freixo e as parcerias de João Donato e Bud Shank que fazem a vida ainda valer a pena. E haja cachimbo!