Na semana passada, Wynton Marsalis esteve em Cuba, apresentando-se com a espetacular orquestra do Lincoln Center, formada por quinze excelentes e, em sua maioria, jovens músicos. Era o jazz novamente rasgando as cercas ideológicas que sempre cismaram em separar os dois países. Sua presença na Ilha de Castro e a recente turnê de Chucho Valdés nos EUA lembram um pouco a atuação de Dizzy Gillespie e Chano Pozo que, em décadas passadas, incentivaram um memorável fluxo musical entre os dois países, culminando na invenção do afrocuban jazz e no asilo político de centenas de importantes músicos cubanos que, não fosse o Tio Sam, restariam desdentados e esquecidos em algum banco de praça da bela ilha. Num total de cinco concertos, Wynton Marsalis e a big band mais famosa do mundo contaram a história do jazz, interpretando clássicos de Ellington, Gillespie e Monk, com arranjos que de certa forma podem indicar os novos rumos desse velho estilo. É claro que os clássicos cubanos também estiveram na pauta, com o auxílio dos gabaritados músicos da banda de Valdés, a The Afro-Cuban Messengers, que também interpretaram composições de seu novo álbum, Chucho's Steps, lançado em 2010. Além da homenagem óbvia a John Coltrane, Valdés traz em seu novo cd a faixa New Orleans, tributo a um de seus mais célebres admiradores, Ellis Marsalis.
Ciceroneado por Chucho Valdés, talvez o melhor pianista de jazz cubano em atividade, Marsalis e sua banda participaram também de workshops e puderam ouvir o desempenho de bandas escolares do ensino médio e fundamental, passando aos alunos suas impressões e sugestões. Não bastasse, alguns deles foram convidados a tocar com a banda em sua última apresentação, na verdade uma emocionante jam session. Entre uma apresentação e outra, Marsalis arranjou tempo para participar da gravação de um novo álbum de filin, com Valdés e Omara Portuondo. Emocionada com o solo de Marsalis, a musa da voz cubana não conteve as lágrimas.
Durante toda a turnê não se ouviu uma única palavra sobre política.
Marsalis, avesso a assumir qualquer posicionamento político explícito, disse que "estamos aqui para unir as pessoas através do swing". E quanto ao fato de que alguns músicos da banda não foram à Cuba por motivos políticos, alegou que se tratava de convicções particulares de cada um.
Eu, que nunca fui homem de muitos amigos, gostaria que Marsalis tivesse a coragem de Gillespie. Gostaria que ele se posicionasse em relação às centenas de músicos cubanos que abandonaram e ainda abandonam sua terra natal para viver na Europa e nos EUA. Gostaria que ele comentasse o sofrimento de homens como Arturo Sandoval, que teve sua música e a de seu conjunto Irakere utilizada pelo governo cubano sem sua autorização. Que teve sua criatividade tolhida por um sistema ditatorial. Que tentou diversas vezes o asilo político na Europa e nos EUA, mas sempre fraquejava diante da possibilidade de abandonar sua família em Cuba. Que teve a ousadia de se inflitrar no partido cominista cubano somente para obter autorização do governo para levar sua esposa Marianela e seu filho Arturo Jr. para uma turnê na Europa e, ao chegar em Roma, e com o auxílio de Dizzy Gillespie, pediu e recebeu asilo nos EUA.
Bem, pelo menos Marsalis não foi canalha em comparar os presos políticos que morrem de fome em Cuba com os bandidos comuns do Brasil. Para os amigos fica a faixa Las dos caras , retirada do novo álbum de Valdés. Tem até citação brasileira no magistral solo de Chucho.
Para Valdés, a visita de Marsalis constitui um marco nas relações entre os dois países. Eu esperava mais.
