27/02/2008

Buena Vista

Vovó Tícia sempre queimava o bolo de abacaxi quando vovô Acácio contava suas estórias sobre Cuba. A família procurava manter em segredo o romance flamejante de vovô com a cantora Omara Portuondo nas praias tórridas da ilha azulada. Mas, nas reuniões de Natal, quando a cidra de maçã e o vinho barato de garrafão invadiam as artérias latinas de vovô, nada poderia deter suas recordações. Vovô a conheceu em Havana, em 1950, quando Omara ainda dançava em Cabarés com aquelas pernas de quem tem 20 anos. Após uma única troca de olhares durante um bolero, beijaram-se e, dizem, contaram todos os grãos de areia da Ilha numa só noite de lua cheia. Foi por essa época que Omara começou também a cantar, apresentando-se frequentemente com Frank Emilio Flynn no piano e vovô Acácio no agogô, instrumento este que vovô introduziu com sucesso em Cuba. Foi graças a vovô Acácio, que mais tarde lha enviou diversos álbuns de bossa nova, que Omara e Flynn tornaram-se alguns dos pioneiros do filin, estilo cubano fortemente influenciado pelo jazz e pela bossa nova. Foi também vovô Acácio que conseguiu uma vaga para Omara na Orquestra Anaconda, uma das mais famosas naqueles tempos e onde vovô era primeiro agogô. Com a crise da Baía dos Porcos, vovô e Omara fugiram para Miami, onde viveram durante um breve período. Mas as ondas quentes do vento, o azul revoltante das prais e o suor acre-doce da Ilha fizeram Omara retornar ao querido lar, mesmo que, com isso, mergulhasse na pobreza e no anonimato a que todo cidadão cubano tinha direito. Vovô, inimigo figadal de Fidel, partiu para New Orleans, formando o primeiro grupo de maracatu daquela cidade. E vovô suspirava... Nesse ponto das lembranças de vovô algum parente sempre aparecia não se sabe bem de onde, anunciando a entrega dos presentes. Nós, crianças, corríamos para o quintal tentando vislumbrar o Papai Noel, num afã semelhante ao dos cubanos que nadam em direção a Miami orientados pelas estrelas. Para os amigos navegantes, segue uma homenagem que não podia faltar no mês dedicado ao latin jazz: Buena Vista Social Club, álbum gravado em apenas seis dias no estúdio Egrem de Havana. Buena Vista, na verdade, era um clube reservado a negros que existiu em Havana na década de 1940, local repleto de dança e música, fechado pela revolução. Em 1996 o guitarrista Ry Cooder inspirou-se nesse local para dar título a sua magnífica homenagem à música e aos músicos cubanos. Numa difícil escolha, ficam as faixas Chan Chan com Compay Segundo, Veinte Anos com Omara Portuondo (foto) e Eliades Ochoa com El Carretero. De quebra, a faixa De Una Manera Espantosa com o pianista mais simpático de Cuba, Rubén Gonzaléz. Beijos a todos!


11 comentários:

F. Grijó disse...

Gosto do filme, gosto do som.
Gosto muito da cena da velha com um charuto que é o dobro do tamanho dela.

Muito bem lembrado, Paula. Tive ganas de estrangulá-la: preparava eu uma postagem sobre uma viagem minha a Cuba e sobre a forma como os cubanos encaram (quase religiosamente) a música.
Mas está perdoada.
Como sempre, ótima resenha.

Essa vai pro amigo JL: espero que vc tenha o cartão corporativo do governo, porque terá de (re)comprar o título do Clube das Terças.

Abraço.

Salsa disse...

Vovô Acácio é milongueiro daqueles. Graaaande descobridor de talentos.

Mª. Augusta disse...

Que bom encontrar resenha nova no Jazzseen, se bem que , na falta de nova, temos uma reserva ótima de resenhas mais antigas, que são sempre muito agrad´veis de reler!
Parabéns, Paula, pela, como sempre,deliciosa postagem.(virgula demais!)

Anônimo disse...

Não havia quem não recolhesse, de forma constrangida, ás lagrimas, quando eram acesas as primeiras lâmpadas das sessões do cine Gazeta em São Paulo, quando exibido as cenas finais de “Buena Vista Social Clube”.Aqueles anciãos com olhos reluzindo de felicidade andando pelas ruas da Broadway como crianças no primeiro passeio de carrossel era comovente demais.Uma parte deles viveu o suficiente, três a quatro anos, pra tirar proveito desse pequena experiência de liberdade e aclamação pública e comercial.Outra, se reagrupou pra abrir ,no México , em breve, um “night-club” como informa uma reportagem publicada no JB do dia 25/02.Edú

augusto carlos disse...

Querida Paula, além de recebermos boas informações, também nos divertimos muito por aqui no jazzseen. Parabéns e volte mais vezes.

dalva disse...

Sinto apenas pelo bolo, rs.

Ressabiado disse...

Contaram todos os grãos de areia...hummm......

Salsa disse...

Lester,
Providenciei a última versão da morte de Chet. Mais do que isso, só gato.

Anônimo disse...

Ao Sr. John Lester.

Diante da invasão em massa de matéria caribenha no blog, sugiro a mudança do seu nome para Muchachojazz e a adoção do español como sua lêngua oficial. Assinado, Garibaldi Magalhães.

Anônimo disse...

Olá, meu nome é Rubens e sou editor do site musical Mofo (www.beatrix.pro.br/mofo). Através do google vi que minha matéria sobre o Soft Machine foi elogiada e vim então agradecer. meu email de contato é mofo.rock@gmail.com

um abraço,

Rubens Leme

Anônimo disse...

Enquanto isso,Israel Cachao Lopez, o maior baixista do mundo, segundo Charles Mingus, morreu aos 88 anos.Mantinha-se em atividade,era aquele caso clássico de lenda que persistia em manter-se viva.Edú